Jean Charles e Luísa

junho 24th, 2009

Não sei se vocês lembram do bafafá sobre o texto de Henrique Goldman na Trip, em que ele contava, todo pimpão, como estuprou a empregada da família quando era adolescente. E como ele e os editores da revista acharam a maior graça de tudo e como depois que rolou uma gritaria sobre o texto sem noção, tentaram convencer os outros de que, bem era tudo ficção.

Pois bem, acho que é uma boa hora para lembrar dessa história agora que o moço, meu vizinho aqui em Londres, está lançando um filme sobre a vida do Jean Charles. Eu pessoalmente acho difícil acreditar que um filhinho de papai que trata empregada como coisa (e o texto da Trip deixa claro que ele vê a moça como coisa até hoje) possa ter realmente se comovido com a morte de um brasileiro ferrado e ilegal que morava em Stockwell. Mas isso não vem ao caso.

A questão é que acho uma boa hora para lembrar as pessoas dessa história. Amiguinhos, se estiverem na pilha de ir ao cinema, assistam outra coisa. Não sei como andam os filmes nacionais, mas parece que tem a Mulher Invisível e um documentário sobre Wilson Simonal em cartaz. Me parecem opções melhores do que dar dinheiro para esse cara. Ficadica.

A experiência de andar de metrô de muletas

junho 22nd, 2009

Acabo de chegar em casa da experiência meio esquisita de andar alguns quarteirões de muletas, pegar o metrô e andar mais um pouco até em casa. Estranha porque descobri que andar assim é uma ótima maneira de meditar, já que o esforço para andar e para não cair nas calçadas tronchas ou colocar o gesso em cima de um cuspe ocupa quase todo o cérebro e é impossível pensar em muitas outras coisas. É muito estranho também andar no seu passo de lesma enquanto o mundo vai passando. Nas horas em que eu não estava olhando pro chão, não sabia muito bem para onde olhar, já que levava umas cinco vezes mais tempo para passar pelos lugares do que levaria normalmente.

E o povo olhando para mim na rua? Todo mundo me parecia pensar que aquilo não era coisa pruma mulher adulta fazer, ficar quicando em passo de lesma pela rua. Eu devia era estar em casa ou dentro de um taxi (peguei taxi para ir pro trabalho, e nem foi caro, mas eu queria testar para ver se dava para pegar metrô. Dava porque hoje é meu décimo dia de muletas. Se fosse o primeiro eu tinha morrido aos peidos no primeiro quarteirão).

A moça do metrô disse que eu não devia ter ido trabalhar. O moço que me ajudou a levantar quando caí sentada (devagar e com classe, fazendo cara de “eu queria sentar mesmo”) na escada rolante não disse nada, mas deve ter pensado a mesma coisa. Não tinha passado pela minha cabeça que pegar escada rolante seria tão difícil!

Foi também a primeira vez que saí na rua sem o Marido desde que minha fístula rachou. Subir e descer escada sem o Marido para garantir que eu não vou rolar até lá em baixo é meio tenso. E estando com ele o povo não faz a mesma cara de “pegue um táxi, sua maluca.”

Enfim. O mais estranho mesmo é o ritmo da coisa e não ter pra onde olhar. E claro, o quanto andar dois quarteirões parece uma mega conquista. A saudade que dá de sair para correr pela rua e aquelas coisas todas.

E fiquei pensando que no meu caso essa é uma pentelhação temporária, mas e quando a gente ficar velho? Tipo o velhinho da estação de ônibus de Logroño que levou meia hora para chegar até a loja, comprar pão, colocá-lo numa bolsa MacGyver nas costas, pegar as duas bengalas (uma delas com um “pegador de coisas que caírem no chão”) e sair andando a passo de velhinho MacGyver de Logroño? Porque no caso dos velhinhos a idéia é só piorar. Essa saudade que eu tenho da minha quase mágica capacidade de andar por aí, eles também têm, mas em vez de carregar um gesso espanhol esfarrapado pela rua eles carregam 80 anos nas costas, às vezes 90. O que é melhor do que a alternativa, mas sei lá, soa meio assustador.

There and back again

junho 20th, 2009

Eu queria dizer aqui que ia viajar, depois queria escrever dizendo que já estava lá, e depois que os planos mudaram eu não quis escrever mais nada. E agora que já voltei - e que minha cabeça voltou também, um tanto depois do corpo, resolvi escrever e dar um oi.

A versão resumida é que fui fazer o Caminho de Santiago na Espanha, e depois de um fim de semana em Madri e cinco dias caminhando quebrei o pé. Eu e o Marido fizemos dois dias de turismo hospitalar e mais dois de turismo cadeirante por Bilbao. Voltamos para Londres mais cedo, mas não imediatamente depois do incidente, pelo menos.

Passei por vários estados de espírito e acho que meu espirito hoje está mais calado que a cacofonia de sempre. Claro que ainda está longe de estar silencioso ou quieto, mas tem menos idéias rodando pela minha cabeça do que o habitual. Um lado de mim não está nem aí com tudo isso, não foi nada grave, conheci o Guggenheim, a costa Cantábrica da Espanha, e podemos voltar para o Caminho no ano que vem. Essas coisas acontecem, ora bolas, e podia ter sido muito pior. Outro lado fica meio borocoxô de não pder se mexer direito, andar, sair de casa, ter que pedir ajuda pra tudo, está se sentindo frustrada e chiliquenta.

Acontece. Comecei esse post pensando em escrever um texto gigante contando as divertidas peripécias de um casal muito louco na terra das touradas e dos bocadillos, mas não tou a fim de falar muito não, sabe? Pelo menos hoje.

Depois eu posto as fotos.

E para que ninguém fique preocupado, o que aconteceu foi que eu pulei de mau jeito de uma pedra de, digamos, meio metro de altura, aterrissei sobre o pé, que torceu e fez clac e o osso rachou. Mas foi só isso, uma rachadura. Nada saiu do lugar, não precisei operar, nada disso. Estou com gesso, sem poder pisar. Mas não dói quase nada. Descobri que andar de muletas é bem mais difícil do que eu imaginava. Agora tenho que esperar o osso calcificar.

E é isso.

Falácias

maio 15th, 2009

Tenho tanta coisa para escrever por aqui, tanta coisa rodando pela minha cabeça que fico com medo até de começar. Entao vou só escrever um pouquinho sobre algumas coisas que tenho lido em blogs furiosos a respeito de um livro sobre maternidade que foi lançado recentemente. Eu tenho várias opiniões sobre quase qualquer coisa no mundo, e sobre mães e filhos também.

(como eu ainda não tenho filhos, daqui a alguns anos vocês podem voltar aqui e me perguntar se eu continuo pensando as mesmas coisas)

- essa história de qualidade de tempo versus quantidade de tempo é uma falácia. Por acaso alguém acha normal falar com o marido uma vez por mês? Fazer sexo com o marido uma vez por ano? Então se qualidade não substitui completamente a qualidade em outras relações, por que substituiria na relação com uma criança, que nem entende essas coisas direito? Então vou ter um cachorro e ficar com ele 15 minutos por dia, cheios de qualidade, e pronto. Não é bem assim.

(lógico, pessoas literais, que não estou defendendo o exagero no outro lado, de se dedicar integralmente ao filho o tempo todo e deixar de lado qualquer outro interesse na vida)

- Dar tudo do bom e do melhor pro filho, mesmo que isso signifique os pais trabalharem feito uns loucos para colocar os filhos na melhor escola, dar as melhores roupas, o melhor plano de saúde. No mundo onde eu vivo, criança precisa de tempo com os pais, atenção, esporro e aquela coisa toda que os pais não podem dar se estiverem só pensando em trabalhar. Existe um meio termo - criança precisa de escola boa e plano de saúde bom - mas não precisa de milhões de brinquedos, milhões de cursos, milhões de babás e roupas da Zara baby que vão durar semanas porque criança cresce rápido para cacete.

É lógico que tem gente que tem que trabalhar loucamente só para conseguir sobreviver, gente que passa 4 horas por dia no ônibus. Não estou falando dessas pessoas, essas não têm escolha. Estou falando de gente classe média, privilegiada, gente como eu e você que temos mais do que precisamos e às vezes perdemos a noção de prioridades.

Eu, ao contrário, sou uma mulher de prioridades. Ontem por exemplo descobri que não posso ser feliz sem uma geladeira Smeg!

fridge

Só que ela custa cerca de 1000 pounds. Mas dá para comprar uma de segunda mão por algo entre 250 e 300, o que depois do susto dos mil pounds parece até barato.

Você vê que sei o que é importante na minha vida. A geladeira funciona igualzinha a qualquer outra, mas eu quero essa só porque é bonita e cool e toda vez que eu abri-la para pegar água vou pensar em como sou uma pessoa descolada, de bom gosto, e ao mesmo tempo sou também uma dona de casa que usa a geladeira para guardar frutas e comidas saudáveis e enche o congelador de sopas e pratos que eu mesma fiz. Tá vendo? Quem diria que uma geladeira pudesse dizer tantas coisas bacanas a meu respeito? Agora você não concorda comigo que ela vale os 300 pounds? (lógico, porque mesmo nesse meu surto ainda não me passou pela cabeça pagar 1000 pounds por uma nova).

Bom, a coisa começou como um manifesto grumpy-grumpy sobre mães e pais que terceirizam seus filhos e terminou com uma pequena aula de marketing e branding. Percebe-se que eu sou uma pessoa aleatória.

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A generosidade de autor, e sua entidade equivalente no universo bizarro - um ensaio aleatorio

maio 5th, 2009

Eu tenho um monte de coisas para escrever a respeito, mas estou mega ocupada, e por isso vou só linkar esse texto aqui que achei bacana. Nao tenho opinião formada sobre o termo “generosidade do autor.” Nem sabia o que significava até 5 minutos atrás, e por preguiça de pesquisar, estou levando fé na definição do Polzonoff. Gostei do que ele disse sobre autores deixarem certas coisas em aberto em suas histórias para que a gente (o leitor) possa formar uma opinião. Existe uma certa generosidade em não julgar o personagem, mas deixar que o leitor faça isso, se quiser. E que chegue à conclusão que bem entender.

Mas tem gente que não gosta disso. Que na verdade odeia, e fica revoltado quando o autor não lhe dá todas as respostas. São aquelas pessoas que ficam perguntando tudo pro autor e fica chateado quando recebe alguma resposta do tipo “você entende o que quiser, e o que você entender está certo.” (Tipo o final de 2001, sabe?) Como assim um fato pode ter mais de uma interpretação? Mais de uma verdade? Não aceito, eu quero uma verdade só.

Ai, preguiça de gente assim. Que acha que Capitu traiu Bentinho. Ou que não traiu. Caraca, a Capitu é o Gato de Schroedinger, tá bom? (subindo no caixote na praça e apontando o dedo para um leitor imaginário) Ela traiu E não traiu, ao mesmo tempo! Talvez seja aí que o mundo macroscópico encontre com as partículas subatômicas. Como os físicos teóricos nunca perceberam isso?

(Hm, tá bom, eu sei, viajei demais. Estou descendo do caixote da praça e voltando ao texto.)

O que eu queria dizer é que autores que não sabem largar suas obras me irritam mais ainda. Aquela história da JK Rowling dizer que o Dumbledore era gay me tirou so sério, sabe? Porque a partir do momento em que ela publicou os livros, fechou a série, a história e aquele universo inteiro deixou de pertencer a ela.

A partrir dali, Dumbledore seria o que cada um entendesse dele. Aí ela vai e dá uma declaração fazendo xixi sobre o personagem, só para marcar teritório. “Não, querida, o personagem não é mais seu. Você não manda mais nele, oquei? Agora vai gastar seus milhões e jantar na casa do Sir Paul McCatney.”

George Lucas é outro, dizendo que Han não atirou primeiro. Atirou sim. Que midichlorians criam Jedis. E por aí vai. Se o que eu falei lá no primeiro parágrafo é a generosidade do autor, o que seria isso? Qual seria o nome para o oposto absoluto da generosidade do autor?

O que vocês pensam quando não estão fazendo nada?

abril 21st, 2009

Eu sei, eu sei que cada vez menos a gente tem tempo para pensar. Estamos sempre lendo alguma coisa, ouvindo um podcast, falando com alguém, vendo televisão, recebendo informação. Mas em alguns momentos, alguns poucos, a gente é obrigado a pensar. Na hora do banho, no ônibus (se você tiver esquecido o ipod) ou no carro. No elevador, andando até a porta da casa, sei lá.

Nessas horas eu costumo fazer listas de coisas que eu tenho que fazer. Ou me apavorar porque essas listas são sempre infinitas. Ou fazer planos, distantes ou próximos, sempre nos mínimos detalhes. Ou me martirizar por todas as coisas que eu devia ter feito mas não fiz. E me martirizar mais um pouco.

(Ah sim, ou criar discussões na minha cabeça, mas isso tem acontecido mais raramente porque decidi que não quero mais brigar dentro da minha cabeça - é muito cansativo e faz mal.)

Aí ontem eu tava em crise, voltando para casa, e me ocorreu que eu queria saber no que os outros pensam. Eles também ficam se autoflagelando mentalmente? Ou não?

Lembro de quando eu fazia ginástica com uma menina meio burrinha, e ela era capaz de ficar uma hora na bicicleta ergométrica sem revista, sem walkman (ipods não existiam, eu sou velha), sem nada. Olhando pra parede. E eu ficava intrigadíssima se ela pensava em alguma coisa naquele tempo todo. O que estava acontecendo dentro da cabeça dela? Ou será que nada acontecia? Conheço gente que não é burra e também consegue ficar esse tempo todo sem estímulo nenhum. O que passa pela cabeça deles?

Portanto, é isso. Eu ficaria imensamente grata se vocês me dissessem o que passa pela cabeça de vocês nas horas em que nada acontece. Ou se vocês nunca pararam para pensar (!) nisso, que começassem a prestar atenção, para depois me contar.

Muito obrigada.

O mundo sem escolhas

abril 20th, 2009

Continuando a conversa dos comentários, e também das mensagens que alguns amigos me mandaram em privado (um deles disse que isso era conversa de baranga, e como eu supostamente não sou baranga, não poderia ter discurso de baranga! Não concordo, mas achei o ponto de vista dele tão interessante que resolvi citar aqui anonimamente - até porque ele não foi o único a manifestar essa opinião - só foi o mais direto).

Sim, em primeiro lugar, a publicidade não bagunça somente a cabeça das mulheres. Bagunça a cabeça de todo mundo. Não só a publicidade, mas os valores, a sociedade em geral. (um dia vou escrever um post sobre peer pressure, que é um assunto fascinante, para usar um adjetivo que os ingleses adoram).

Um exemplo? No Brasil os homens muitas vezes acabam ficando com mulheres que não estão a fim porque homem que é homem não nega fogo. Isso é violento, na minha opinião. Não tanto quanto um estupro, é lógico, mas não é nada bacana.

Outro exemplo: já li reportagens a respeito, com números e tal, mas como não estão à mão, vai só a observação. É muito mais fácil ver uma mulher largar uma carreira chata e bem paga para correr atrás do que ela gosta do que um homem: Porque oras, uma mulher que ganha mal está seguindo seus sonhos. Um homem que ganha mal é um ferrado, um inútil. Por isso muitos ficam nos empregos horríveis, com problemas de saúde, queda de cabelo, sem ter tempo para mais nada na vida, e infelizes.

É lóóógico que nada impede o cara de dar um fora na mulher que ele não quer comer, e nada impede ele de correr atrás dos seus sonhos. Mas é um fato que os amigos olham com cara de cu se você não tiver um carro bacana, uma TV bacana, um apartamento próprio (oh, a obssessao pela casa própria! Aqui no UK acho que ainda é pior que no Brasil. Santa classe média, Batman!).

Enfim.

E não, eu não apóio (ainda tem acento?) a censura. No mundo ideal, todo mundo ia ter aula de semiótica na escola, como sugeriu o Maron nos comentários. Todo mundo ia ser vacinado e ia entender as mensagens que recebe e supostamente decidir ser influenciado ou não. As pessoas iam ter um pouquinho mais de base para fazer suas próprias escolhas (e não simplesmente agir do jeito que é esperado, sem questionar nada. E se depois de questionar eles quisessem seguir agindo da mesma forma, lindo! Cada um com seu cada um).

Por exemplo, nesse post aqui a Lola está reclamando de uma propaganda em que a personagem que aparece falando merda e é enxotada da rodinha de samba é uma mulher de óculos, padrão baranga. É over interpretação? Médio. Porque é bem verdade que esse tipo de mulher só aparece em propaganda para ser escorraçada.

Mas a propaganda é ofensiva? Não. (Na verdade nem acho o anúncio ruim. Só achei a escolha da modelo uma escolha boba)

Mas vale a pena perceber que esse tipo de mensagem inofensiva só fortalece o status quo.

E aí, o que você faz? Nada. Chama atenção pro fato, desconstrói a mensagem. Mostra pro publicitário que ele é um mané. Que ele podia ter usado um homem no anúncio. Uma mulher que não fosse baranga. Ou um maluco carregando um poster The End is Night. (Ou até mesmo uma baranga - o problema não é a moiça com cara de professora de História - o problema é que as moças com essa cara só são representadas de forma negativa, e não de forma negativa E positiva também)

Assim como os publicitários dessa mesma agência (trabalhar lá deve ser uma beleza, hein? Só piadinhas de altíssimo nível na máquina de café) podiam ter usado a Macarena para o anúncio do Doritos, em vez de YMCA, né não? Se eles queriam falar de “dancinhas bobas” (voce acreditou nessa desculpa que eles deram? Eu também não), macarena servia muito melhor.

Eu e Marido ficamos pensando várias maneiras mais inteligentes de usar o slogan “quer dividir alguma coisa? Divide um Doritos!”

- Poxa, hoje saí com uma cueca pequena demais, que fica entrando no meu cu o tempo todo…
- Quer dividir uma coisa? Divide um Doritos!

- (voltando do banheiro) Que dor de barriga! Sabe quando você faz cocô e ele sai com uns puns no meio, fazendo brlbrlblr e sujando a louça toda da privada?
- Quer dividir uma coisa? Divide um Doritos!

Ou uma pessoa contando nos mínimos detalhes irrelevantes a briga que ele teve com a caixa do banco, enchendo o saco do amigo…
- Quer dividir uma coisa? Divide um Doritos!

Tá vendo? Não é tão difícil assim. Para que ser babaca? Só pode ser preguiça mental.

O que eu quero não é a censura (que também é uma solução preguiçosa, em muitos casos), mas o diálogo.

Porque o cara que cria a propaganda imbecil é um bobo. Os caras que riem são outros bobos. E eu tou tentando levantar a cabeça desse mar de bobeira e trocar idéias, questionar aquelas coisas tão óbvias que às vezes a gente nem repara.

Eu preciso pensar mais no assunto, mas tenho a impressão que como aqui na Inglaterra não se pode usar mulheres gostosas a torto e a direito na publicidade, acabam saindo coisas muito mais inteligentes e menos preguiçosas, como os anúncios da Cadbury, o anúncio de evolução da Guiness, e vários outros.

Já na Itália, quando você quer vender um colchão você coloca várias moças de camisola alisando o colchão e tá feito. (eu vi isso!) Criatividade pra que?

Ai ai, ainda falta responder aos amigos que acham que o livre mercado é a solução para todos os problemas do mundo, e por isso a publicidade e a comunicação tem que ser deixados soltos, porque o mercado quer assim.

Isso fica para outro dia. Mas só para deixar registrado, eu não acredito em laissez faire, só isso. Acredito em equilíbrio. Acredito em forças opostas e interesses opostos um tomando conta do outro, evitando extremos. Na minha opinião, essa é a única alternativa, todas as outras estão fadadas a dar merda.

PS: Para os meninos que lêem esse blog não acharem que eu tou falando só de representação da mulher. O anúncio abaixo mostra de uma vez só que ter cabelos grisalhos é errado, que você não vai comer ninguém se não pintar os cabelos, e que quando você finalmente comer alguém, tem que mostrar para suas filhas, porque elas só vão respeitar o pai se ele for um comedor!

(não, homem, você não pode escolher ter o cabelo da cor que quer, e você não pode escolher ficar sem comer ninguém - se quiser. Você não tem escolhas, ora bolas! E ainda tome um Viagra antes de sair de casa, porque segundo os emails de spam, ela só vai gostar de você se depois do jantar caro - que logicamente, você pagou - você der umas 5 durante a noite. Mesmo que ela esteja cansada e queira dormir abraçada - afinal, ela também não tem escolha!)

Olhando à nossa volta

abril 15th, 2009

Como estou há um tempão para escrever um post decente falando de feminismo, resolvi começar logo, mesmo desconfiando que precisaria de uma série de posts, escritos com calma, o que a gente sabe vai demorar para acontecer (e quando demora, aí é que não acontece mais).

Tenho lido alguns blogs feministas, acompanhado algumas discussões e isso é sempre bom para dar uma remexida nas minhas idéias. Não gosto de me dizer feminista, porque o termo sempre traz na cabeça das pessoas uma idéia de raiva que eu não gosto. (a raiva - assunto para um post um dia)

Volta e meia discuto essas coisas com o Marido, porque é uma boa maneira de ouvir a opinião de alguém de fora. E ele acha que as feministas às vezes over-interpretam demais.

Ele achou isso de um dos posts da série da Marjorie sobre como quase toda publicidade direcionada para mulheres tem, como moral última, dizer que nosso corpo é defeituoso. Ela explica melhor aqui, aqui e aqui. As mensagens são sempre na linha de: ter pelos é nojento e inaceitável. Ou: se você não usar esse produto, ninguém vai gostar de você. Ou: seu corpo sempre precisa de melhorias - a qualquer preço. (ou o mais fascinante de todos, o desodorante íntimo - porque o cara que enfia a cara e/ou a boca na sua perereca, na verdade, odeia pererecas, e quer é sentir cheiro de desodorante íntimo. Isso parece meio confuso para mim)

A publicidade se alimenta da insegurança das mulheres (que já existe), e a aumenta mais ainda. (discussão: o quão ético é isso?) Eu sempre disse que era praticamente impossível passar pela banca de jornais da Puc e não ter vontade de se jogar debaixo de um caminhão. Aquele paredão de capas de revistas com mulheres surrealmente gostosas e bonitas era de estraçalhar qualquer auto-estima.

nova
(abstraia as roupas, digo, os paninhos inacreditavelmente cafonas. Quantas leitoras da Nova você conhece que tem o corpo remotamente parecido com esses?)

Enfim, é como se o mundo inteiro passasse o tempo todo nos dizendo como nós deveríamos ser diferentes, como nós somos gordas, feias, baixas, horrorosas, flácidas, o tempo todo.

O tempo todo.

Todo.

Eu para contrabalançar repito pra mim mesma que sou oquei. Várias vezes por dia. Convenhamos, é um processo meio cansativo, mas enfim, não conheço alternativa melhor.

Aí eu vejo um anúncio da Gap povoado por 6 modelas inacreditavelmente lindas, inacreditavelmente magras (beleza inacessível, sabe? que não é normal) e 6 modelos inacreditavelmente… normais. Alguns com rostos lindos, outros normais. Corpos razoavelmente normais também. Atingíveis. (desculpa, não achei a imagem para colocar aqui)

Aí eu falo pro Marido - Tá vendo? Imagina o estrago que isso faz na cabeça de uma menina de 15 anos? Ela provavelmente nunca vai ser tão bonita quanto a menina do anúncio. Mas o amiguinho dela pode sim, ser tão bonito quanto o cara do anúncio!

Marido concorda, meio ressabiado, achando que eu tou over-interpretando mas, pensando - sei lá, talvez isso faça algum sentido.

Aí eu começo a reparar em tudo: o poster de Slumdog Millionaire me irritava no metrô. Porque o cara é um mané narigudo feioso e a menina é linda?

slumdog-millionaire-poster1

Nós, mulheres, só podemos existir se formos lindas? Por que não podemos ser normais, às vezes lindas, às vezes não? (e viva os filmes franceses!) Por que os homens das séries e filmes podem ser feios e gordos e as mulheres são sempre gatas?

Ops!

Alarme de over-interpretação.

Ou não?

Aí eu tou lendo Farenheit 451. Ainda estou no começo, mas enfim, já descobri porque no mundo da história os livros são proibidos e ninguém pode conversar sobre nada sério no mundo, só trivias e trivialidades.

Para não ofender ninguém.

No mundo do livro as minorias vão ficando cada vez mais raivosas e a reclamar de tudo, e no final das contas não se pode falar de mais nada. E tudo vai sendo proibido. Esse livro, aquele. Aqueloutro também porque alguém se ofendeu com ele.

Se isso não lhe parece familiar, aqui na Inglaterra o cenário é muito familiar. (no Brasil as pessoas levam chicotadas no trem indo pro trabalho - se ofender com livros talvez esteja um pouco distante)

O personagem no livro diz - Não foi um plano imposto. Não veio de uma autoridade. A própria sociedade foi para essa direção. (que ele acha ótimo, porque todo mundo lá é feliz)

O assunto é complexo, e eu não tenho estofo para esgotá-lo, mas fiquei aqui pensando se coisas agressivas devem ser proibidas ou se a gente deve só ficar esperto. Esperto sobre preconceitos, sobre a publicidade, sobre o machismo, etc.

(não é só isso, a coisa é mais complicada, mas por ora eu vou ficar por aqui)

E onde fica a linha entre o aceitável e o não aceitável? O anúncio do Doritos, por exemplo. Deixa ele lá para que ops gays aprendam a se defender? Ou tira ele do ar porque é escroto? E o povo que não achou que era homofóbico (acredite, existem esses)? Eles não perceberam porque o preconceito está tão entranhado em suas mentes que eles nem percebem mais - ou porque são tão não-preconceituosos que nem perceberam?

Sei lá.

Eu nunca sei de nada, mas esse tipo de post desgovernado é exatamente o tipo de coisa proibida no mundo do Fareheit 451. É uma pessoa pensando. Tou aqui, pensando, sem rumo, e no final das contas o post não é mais sobre feminismo.

Voltei para casa

abril 13th, 2009

Para as pessoas que comentaram durante o feriado, só aprovei os comentários agora porque só voltei agora. Foi mal aê e obrigada pelos comentários.

Passei o feriado de Pascoa na Isle of Wight, que é tipo uma Paquetá inglesa (ou uma grande Cabo Frio). Caminhamos 60 km: 20 nos dois primeiros dias, 15 no segundo e hoje mais 5 só de lambuja, porque o sol resolveu sair e nós ficamos com pena de voltar cedo para Londres.

Dia desses pode ser que eu escreva mais sobre os ingleses e como certos lugares nos fazem entender melhor as ficções científicas distópicas dos ingleses, e como cada dia eu entendo mais uma referência de Tommy. Pretendo também colocar as fotos todas que a gente tirou no Flickr. Até lá (que sabe-se lá quando vai ser), vocês podem dar uma olhada na postagem em tempo real que nós fizemos no twitter, com várias fotos.

Meu twitter
Twitter do Marido
(se você achar que clicar nos links é muito trabalhoso, pode ver só as fotos, no meu twitpic e no twitpic do marido)

Estamos cada dia mais profissionais nessa história de caminhada: aos poucos vamos comprando equipamento bacana, já não estou me peidando mais a cada subida, essas coisas. Comprei uma palmilha de gel para diminuir o impacto das pisadas e diminuir as dores no quadril e no joelho. Funcionou lindamente, mas em compensação também diminuiu o espaço dentro do sapato e fiquei com bolhas em todos os dedos. E bolhas nas bolhas. E bolhas crescendo por dentro dos bandeides espaciais para bolhas. Um loucura, mas a gente não pode ganhar sempre…

Dicas para mochileiros e caminhantes (se você está procurando por Caminho de Santiago ou peregrinações no Google, talvez eu possa ajudar um pouquinho): se voce tiver como comprar um body (maiô) de algodão para usar por baixo da roupa, isso ajuda muito a evitar assaduras causadas pela mochila (que me fizeram um estrago danado na última caminhada que eu fiz). Se não encontrar, compre uma calcinha de cintura mais alta (existem algumas bonitinhas, nao precisa ir até a cintura nem ter cara de cuecão da vovó), aquelas camisetinhas de algodão (tank top. camisette, termal, o nome varia) e coloque por dentro da calcinha. Coloque o sutiã por baixo da camisetinha, e se quiser uma camisa de dry fit por cima do combo. Eu fiz isso e voltei sem assadura nenhuma, o que é coisa para se comemorar.

Ah sim, comprei uma mochila que funcionou lindamente também, chamada Karrimor Kodiak 35. Recomendo (a de 25 litros não tem acolchoadinho na cintura, o que é importantíssimo, portanto é melhor comprar a maior mesmo que você não use o volume todo). Custou £50, o que não é muito barato mas está longe dos preços extorsivos da North Face e demais marcas badaladas.

Como já disse no início do post, a palmilha de gel é sua amiga, e um sapato bem folgado também. Como eu não cumpri as duas recomendações, tenho certeza que vão rolar unhas pretas (de novo), além das infinitas bolhas.

PS: estou escrevendo só hoje porque aqui na Inglaterra o feriado de Páscoa é sexta e segunda (vai entender…), por isso estou voltando hoje.

Fecha o cerco

abril 8th, 2009

Ainda nao tenho opiniao formada sobre a historia dos muros em volta das favelas do Rio. O que o povo anda falando por ai?