Por alguma razão, parece que esse ano de 2012 resolveu ser muito fértil para as minhas amigas, e para aquelas que estão esperando o primeiro bebê eu queria, palpiteira como sou, dar alguns palpites. É que nos últimos dois anos tenho pesquisado e pensado tanto no assunto que, quem sabe, talvez possa ajudar um pouquinho. Posso?
A primeira coisa que eu quero dizer, antes de tudo, é que cada mãe/família tem seu jeito. A última palavra de tudo é sua (e do pai do bebê). Então do que eu disser aqui, selecione o que combina com você, o que você concorda e gosta, e descarte o resto. Eu acredito mesmo que cada unidade de mãe-filho-pai tem um jeito único de funcionar – e é por isso que implico tanto com os livros e experts. Tudo tem que ser adaptado, não existe “one size fits all”.
Pode ser mais prático seguir o expert, fazer tudo timtim por timtim como o livro ou o pediatra diz, sem ter que pensar muito. Mas na hora que alguma coisa der errado, quem vai segurar o rojão é você, e não a Encantadora de Bebês, a Gina Ford nem o pediatra. Então justamente por isso eu sempre preferi ter a última palavra (com participação do marido) e cometer os meus próprios erros. (e quando você acertar o mérito vai ser seu, olha só que beleza!).
Então vamos lá aos pitacos generalizados em nenhuma ordem particular.
1 – Amamentação
Andaram me perguntando sobre isso, então vou começar por aqui. Mas por onde começar? Será que eu devo começar dizendo que dói? A maioria das mulheres que eu conheço sentiu dor no começo – mas depois passa (duas amigas não sentiram dor nenhuma. Pode ser que você seja dessas sortudas, quem sabe?). Acho importante falar isso porque quando eu comecei a amamentar o Jonas, lia em todos os lugares que “amamentar não dói. Se doer você está fazendo errado” e fiquei preocupada, achando mesmo que a pega do Jonas estava errada, sei lá o quê (uma midwife especializada tinha ido lá em casa e checado a pega, mas ainda assim fiquei na nóia). Por sorte minha mãe, que estava comigo, dizia “dói mesmo, minha filha, você não está fazendo nada errado.” E não estava! ( Malditas campanhas irresponsáveis, me deixando estressada à toa! Eles ficam tentando convencer as mulheres de que amamentar é moleza, para não assustar. O que é uma imbecilidade porque a mulher que não quer sentir dor vai desistir na hora que, ora bolas, começar a doer!
Amamentar precisa de um pouco de determinação, em alguns casos. É uma coisa nova, que você e o bebê precisam aprender. É normal que role um atrapalhamento inicial. Mas tenha fé no sistema (sistema = você + peitos + bebê) – ele tem funcionado razoavelmente bem há milhares de anos, as probabilidades estão ao seu favor. Quando o bebê suga, o peito manda uma mensagem pro corpo produzir mais leite, o bebê vai pegando o jeito, o peito vai produzindo para atender a demanda, aos poucos, se você confiar, a coisa entra nos eixos. Provavelmente você tem leite suficiente. É claro que se o bebê perder peso demais, estiver letárgico, não estiver fazendo xixi nem cocô, ou quaisquer outros sintomas SÉRIOS (consulte seu profissional de saúde), aí sim a fórmula é uma boa idéia. Mas tirando esses casos extremos, provavelmente vocês vão se acertar.
Avalie bem seu profissional de saúde – tem muito pediatra, health visitor, midwife, que manda complementar com fórmula na primeira dificuldade. Cabe a você avaliar se o profissional é pró-amamentação de verdade ou se é só papo. Se você estiver realmente atrapalhada, procure ajuda de uma instituição séria, uma La Leche League, um breastfeeding café/counsellour (para quem está no UK), essas coisas. Procure o povo que vai te ajudar a conseguir amamentar, e só vai orientar a dar fórmula se isso for realmente necessário.
Uma recomendação que me parece muito sensata é ir para o quarto com o bebê, deitar com os peitos de fora na cama, deixar o bebê só de fraldinha, e ficar por lá, vocês dois, sozinhos, se entendendo (pode ser uma boa colocar uma toalha sobre o lençol, para aparar o que vazar de você). Se quiser, deixe uma luz suave para a coisa ficar mais aconchegante. Dizem que o contato pele a pele (ou skin to skin, como preferir) estimula a produção de leite. Além disso, sem interferências, vocês vão ficar mais calmos, o bebê vai sugar o quanto precisar, e isso vai estimular a produção. Mas não é para ficar meia hora não! É tipo a tarde toda. Tente relaxar, cochile, leia alguma coisa, veja televisão, sei lá.
E beba água! Muita. Conheci uma mãe que estava tendo sérios problemas para amamentar o filho e depois de várias visitas ao health visitor, finalmente atinaram que o problema era que a moça não tinha o hábito de beber água – nem muitos outros líquidos. Assim fica difícil produzir leite, né? Tem gente que bebe um copo inteiro por hora para garantir. Eu morria de sede todas as vezes que o Jonas começava a mamar, então nessa hora sempre lembrava e pedia um copão. Tente tomar pelo menos uns dois ou três litros por dia (e olha que beleza, agora que não tem ninguém sentado na sua bexiga, você tem ela inteirinha de volta para você, e não vai precisar ir ao banheiro de 15 em 15 minutos como na gravidez!)
Dizem que certos chás, como erva doce, alfafa ou fenugreek (não faço idéia como é em português) aumentam a produção de leite (gogleie “galactogogue” para saber mais). Eu comecei a tomar erva doce e senti uma diferença absurda. Fiquei até na dúvida se era efeito placebo, mas no final das contas, deixei para lá. O chá não faz mal, e funcionou, então tá bom. Usar uma bombinha para tirar leite entre as mamadas também ajuda a fazer mais leite.
Outra coisa importante, que também não me contaram: como identificar, bem no começo, as complicações que podem acontecer. Você pode ter mastite, o seu peito pode empedrar, você pode ter cândida no peito (thrush), o mamilo pode sangrar ou dar bolha. As campanhas muitas vezes não falam disso também para não assustar (o que esses publicitários pensam que nós somos? Um batalhão de frouxas que se assustam com tudo?). O resultado dessa falta de informação é que muita mãe não identifica o problema no começo, e quando vai procurar ajuda a coisa já está grave, e pode até mesmo comprometer a amamentação (além de doer para burro).
Justamente quando meu peito estava parando de doer, eu tive thrush e ele voltou a doer para caramba! Por sorte, consultei o Dr. Google, descobri o que era, fui na médica, ela me passou uma pomada meio inútil, depois tomei um remédio oral, e depois de um bom tempo fiquei boa. Uma coisa que funciona, e você pode usar no primeiro sintoma, é vinagre branco. Lavar os mamilos com isso e deixar secar naturalmente. Ajudou bastante, recomendo como primeira providência (iogurte natural nos peitos também funciona, no próximo parágrafo você vai entender).
Alguns sintomas de thrush são mamilos esbranquiçados e/ou brilhando, uma dor que parece agulhada/que está queimando. Às vezes pode aparecer quando você (ou o bebê) tomam antibióticos, já que os antibióticos atacam a flora intestinal, que é quem controla os fungos que causam a cândida/thrush. Jonas tomou antibiótico logo que nasceu. Portanto, se você ou o bebê tiverem que tomar antibiótico, compre um bom probiótico para dar uma força para a flora intestinal (yakult não vale porque é entupido de açúcar, que alimenta os fungos). Iogurte natural pode ser uma boa, ou um pozinho probiótico comprado em loja de produtos naturais.
Para as outras complicações, e muitas outras dicas, esse guia aqui está em inglês, mas é fantástico, e muito mais completo que esse post.
Guia Mumsnet.
Além das vantagens para o bebê (anticorpos, comida sempre segura e esterilizada, carinho de mamãe, comida com gostos diferentes dependendo do que você coma, etc etc), amamentar também traz várias vantagens para você, como chances menores de câncer de mama, de útero e ovário, menor chance de osteoporose – e a vantagem mais visível e imediata: emagrecer! Amamentar exclusivamente gasta muitas calorias (dizem que são 500 por dia, mas eu acho que devem ser milhares…). Só para você ter uma idéia, eu engordei 15 quilos na gravidez do Jonas e em uns 5 meses tinha perdido 21 quilos! E comendo para caramba! Mais uma vez, confie no seu corpo – esses quilos extras da gravidez (eu fiquei com braços e coxas bem gordinhos) são, na verdade, reservas de leite! (que serão devidamente devoradas por seu bebezinho esfomeado)
E para aquelas que acham que amamentar faz os peitos caírem. Já ouvi de fontes sérias que na verdade, o que faz os peitos darem uma caidinha (nem sempre, vale lembrar) são as mudanças hormonais da gravidez. Conheço gente que não amamentou e eles caíram do mesmo jeito, então relaxe. E se lembrar e tiver paciência, use o mesmo óleo de amêndoas da barriga no peito também, para ajudar a evitar as estrias que podem aparecer (é importante que seja um um óleo natural e sem muito cheiro, que não atrapalhe o bebê – óleo de amêndoas, de coco, de girassol).
Agora, tem o outro lado dessa história. Você tem o direito de não querer amamentar. Eu acho isso, sinceramente. Se você não quiser, se achar que não vale o esforço, ou sei lá qual a razão, não precisa inventar desculpas! Inventar desculpas assusta as mulheres que querem amamentar (que ficam achando que é mais difícil do que é), tira a sua própria autonomia de decidir a sua vida enfim, atrapalha a vida de todo mundo. Tem mulher que desiste na primeira dificuldade porque não está muito a fim, porque quer sair de casa para passear e não quer ficar presa ao bebê. É direito dela. No UK tem algumas que nem tentam. Não importa o que eu penso disso, não importa o que ninguém pensa. Acho um saco aquelas mães que ficam dando milhares de justificativas para não amamentarem. Me dá vontade de dizer “Você não me deve satisfação! Para de dar desculpas!”
E é lógico que existem também as que queriam muito, de verdade e não conseguiram. Às vezes porque ficaram ansiosas, se atrapalharam cada vez mais, não tiveram uma boa orientação, e não rolou. Tem as que fizeram plástica no peito com 15 anos e aí, 15 anos depois, o peito não quis funcionar. Tem as que foram convencidas por profisssionais de saúde safados (ou incompetentes) de que “não tinham leite suficiente” (o que, como a gente já viu, normalmente não é verdade). Tem as que tiveram qualquer outra razão. Cada caso é um caso, mas me parece que a frustração de não ter conseguido fazer uma coisa que se queria já é desagradável o suficiente. Eu gostaria muito que a mulherada fosse mais respeitada e não se sentisse na obrigação de se justificar para os outros…
Equipamento:
Supostamente você não precisa de nada para amamentar além dos próprios peitos, bastante comida e água, mas alguns cacarecos ajudam. Essas foram as coisas que comprei e que foram úteis para mim. Não necessariamente vão ser úteis para você, mas é sempre um ponto de partida.
Lansinoh/pomada de lanolina, para passar nos mamilos (também serve para passar nos lábios quando eles ressecam e em mais um monte de lugares)
Breastpads, porque no começo os peitos pingam mesmo (essa é a marca que eu mais gosto)
Breastshells ou concha de silicone – nos primeiros dias de amamentação, em que tudo é estranhamento e adaptação, tem mulheres que gostam de ficar com os peitos de fora para eles respirarem e se recuperarem do uso intenso. Eu não gostava, em parte porque eles estavam gigantes, em parte porque estavam pingantes de leite. Então eu colocava por dentro do sutiã essa concha, que deixa o mamilo respirar sem estar em contato com nada, e ainda recolhe o leite que pinga. Melhor ainda era cobrir o mamilo de lansinoh e aí colocar a concha.
Sutiã de amamentação – depois de experimentar e comprar vários tipos diferentes, esse foi o melhor disparado. Comprei vários iguais. Como o peito enche e esvazia e muda de tamanho o tempo todo, acho importantíssimo o tecido ser stretch.
Almofada de amamentação – não acho essencial, mas é um pouco melhor do que travesseiros normais na hora de posicionar o bebê para mamar (e dá um descanso para os seus braços)
Bomba para tirar leite – comprei uma bombinha manual Medela, modelo bem simples. Como nunca precisei tirar muito leite, quebrou o galho perfeitamente. Comprei mamadeirinhas dessa mesma marca, que encaixam na bomba, e os bicos que supostamente imitam o peito (e tem um fluxo bem lento).
Roupas de amamentação – comprei várias dessa marca aqui no Brasil, e gostei bastante. No UK recentemente a H&M começou a vender blusa de amamentação também, olha que civilizado! Mas na verdade, se você não quiser gastar dinheiro com roupas específicas, pode usar uma técnica muito prática, que consiste em usar uma blusa mais ou menos soltinha, com um top daqueles de alcinha por baixo. Na hora de dar de mamar, você levanta a blusa e abaixa o top, deixando só o peito ao alcance do bebê (e tudo fora da vista dos outros). Ninguém nem percebe que você está amamentando.
Sites úteis:
Kellymom – esse é o primeiro site que as pessoas costumam indicar para assuntos de amamentação. Super completo.
Guia do Mumsnet – sim, tou postando de novo o mesmo link que postei lá em cima. Eles têm também um forum em que você pode pedir ajuda (normalmente alguém responde rapidinho).
Grupos de apoio, UK:
La Leche League UK – vá ali na coluna da esquerda, nos local groups, e procure um grupo por perto.
NCT – têm um telefone de breastfeeding support: 0300 33 00 771 e grupos locais.
Vale também perguntar para a sua midwife pelos breastfeeding cafes na sua área. Quando o Jonas nasceu, eu recebi um folhetinho com vários lugares perto de casa e diversos horários onde eu podia ir com ele se estivesse tendo alguma dificuldade. Não faço idéia se são bons, porque minhas dificuldades foram a dor do começo e o thrush, e uma eu aguentei e a outra eu fui direto no médico.
Grupos de apoio, Brasil:
Amigas do Peito – já ouvi falar bastante desse pessoal. Tem grupos de apoio no Rio.
IBFAN - não entendi exatamente como trabalham, mas vale a pena entrar em contato e perguntar pelos grupos de apoio.
La Leche League Brasil – mande um email e pergunte se eles têm grupos ou representantes na sua cidade.
PS: E amamentar em público? Agora que você e o bebê se entenderam, você pegou o jeito e está tudo indo bem, você não vai querer ficar trancada em casa nem ter que voltar correndo a cada mamada, né? Bom, logo que o Jonas nasceu eu, muito impressionada com aquelas histórias que a gente lê no jornal sobre gente expulsa de lugares por estar amamentando ou de grosserias feitas com as mães, saí na rua preparadíssima e estressadíssima, cheia de respostas malcriadas na ponta da língua para quem se metesse a besta comigo. Nunca usei nenhuma das malcriações ensaiadas. A maioria das pessoas em Londres, Edimburgo, Rio, Veneza, Florença e Amsterdam (que são as cidades em que fiz a experiência) nem ligava ou nem percebia que eu estava amamentando. Algumas sorriam, ou até mesmo faziam comentários simpáticos.
Em mais de dois anos, só duas pessoas, em Londres, me perguntaram se eu queria ir para um lugar mais reservado, supostamente para me sentir mais confortável. Nas duas vezes fiquei na dúvida se tinha sido de maldade, para eu sair dali, ou se foi com boa intenção. Uma vez aceitei, a outra não. E isso foi tudo. Ninguém nunca, nunquinha foi desagradável comigo. Acabei me convencendo que aquelas histórias que a gente lê no jornal são isso mesmo – bizarrices tão bizarras e fora do normal que saem até no jornal.