The flow

fevereiro 19th, 2011

(Ou “fluir” - eu sei que a tradução de “flow” é “fluxo,” mas essa palavra me lembra anúncio de absorvente com sangue azul…)

Dia desses fui na peça de fim de curso de uma amiga: um musical inédito, escrito pelo professor do curso. O cara escreve musicais todo ano (ou algo próximo disso) para os formandos apresentarem.

Tem uma série infantil na Tv em que todo final de episódio os personagens cantam uma música, inédita, inteira, sobre alguma coisa que aconteceu naquele episódio, usando algum instrumento musical que foi apresentado naquele dia.

E aí fiquei pensando sobre produtividade. É preciso criar um fluxo. Uma linha de produção. Não importa se você trabalha com arte ou com criação, ou mesmo se é um hobbie. Arte não é punheta - é criação e produção. Você começa uma coisa, termina, começa outra, segue em frente.

Às vezes as pessoas ficam punhetando demais um livro, uma música, uma pintura, sem nunca terminar. Às vezes essas pessoas comparam sua produção a um filho. Como se isso justificasse o eterno retoque e re-retoque, mexe daqui e mexe dali. Aquele perfeccionismo que não chega a lugar nenhum, aquela coisa que nunca acaba. Como disse uma amiga minha, certas coisas você não acaba - abandona.

E aí que está, com filho é assim também. Você não tempo para retocar e mexer e ajeitar. Às vezes me pego pensando em coisas que devia ter feito um pouco diferentes com o Jonas quando ele era recem nascido. Paciência. Ele deixou de ser recém nascido há tempos, e agora se eu quiser use essas coisas com o/a próximo/a. Jonas passou para a próxima etapa, eu fiz algumas coisas assim e outras assado e aí, vejam só outra etapa de novo.

O Jonas é um riozinho. Ele flui, a vida vai fluindo, e a produção devia fluir igual. A gente só fica boa com a prática, e a prática só vem do fluxo - não retocar e remexer e repunhetar a mesma idéia, mas começar, terminar, começar de novo, ter outra idéia e depois mais outra.

E eu tou escrevendo isso aqui mais para organizar as minhas idéias. Esse blog aqui já virou um diário, né não? Tenho escrito mais para mim mesma do que para vocês, admito. Perdão.

Pelo direito de ser chata / Natal

dezembro 27th, 2010

Dia desses me peguei pensando: “Barbara, você devia ser menos uptight, menos estressada. Em vez de ficar o tempo todo pensando no que deveria fazer, você deveria aprender a relaxar, deixar as coisas rolarem um pouco, sabe? Você fica o tempo todo tensa, correndo de um lado pro outro que nem o urso do Picapau, mude isso, mulé. Coitado de quem está por perto, assim você é insuportável.”

Mas aí logo em seguinda uma pergunta me ocorreu: “Por quê, mesmo?”

Pois é, não sei. Pensa comigo. Eu passo o tempo todo estressada, pensando no que devo fazer, tentando fazer coisas em todos os intervalinhos que tenho. No meio dessa maluquice até que consigo fazer um tantinho das coisas que quero. Poderia correr de um lado pro outro um pouco menos, mas estou melhorando. Mas veja bem, mesmo assim não consigo dar conta de tudo. E ainda vou relaxar? Ser mais tranquila? Macomo, meudeusdoceu? E depois? Começar a jogar world of warcraft? Comprar a caixa com todas as temporadas de Friends?

Então às vezes penso que eu relaxasse eu seria menos chata. Uma pessoa menos uptight é uma companhia mais agradável, naturalmente.

Mas aí de novo: para que mesmo?

Mas admito. Eu devia levar as coisas menos a sério. Esse post aqui, por exemplo. É se levar a sério demais, né não? Defender o próprio direito de ser uma pessoa insuportável? E estressada? Céus, que tipo de pessoa faz isso?

Deve bem haver no mundo alguém que seja relax, interessantérrima e bacanérrima e produtivérrima ao mesmo tempo. Mas eu não tenho a manha, sabe? Minhas amigas mais produtivas que fazem infinitas coisas bacanas não são relax e tranquilonas. Elas não jogam jogos nem vêem séries. Elas não têm blogs, uma nem tem twitter (elas jamais perderiam tempo escrevendo sobre o fato de serem uptight, por exemplo. Sequer pensando no assunto. Elas estariam fazendo coisas). Elas são aquele tipo de pessoa que você chama no gtalk e elas estão, adivinhe só, fazendo alguma coisa e normalmente não podem jogar conversa fora por mais de 10 minutos.

Elas são moças focadas. Eu queria ser focada. Talvez focada sem ser uptight. Mas essa coisa bonita de ser tranquilona e relax e deixar as coisas rolarem acho que só funciona se você morar em Mônaco, vier de uma família centenária e tiver gente para se preocupar com as pequenezas por você. Ou tiver um cônjuge ou PA (personal assistant, um dos piores empregos do mundo na minha opinião) que seja uptight e estressada para que você possa ficar com a parte charmosa da coisa.

Se alguém tiver alguma dica de como ser produtiva sem ser estressada e chata, eu aceito de bom grado.

(pensar menos nas coisas? Fazer em vez de ficar pensando? Nhé, já tentei. Tento sempre. Também não tenho a manha.)

PS: O Natal foi ótimo, thanks for asking. Espero que vocês também tenham tido um Natal fantástico - apesar da aleatoriedade da data para quem não é católico, é sempre bom ter um dia para reunir a família e comer comidas bacanas.

Sabe, eu já pensei em instituir aqui em casa um jantar de Thanksgiving, pelo simples fato de que acho bacana fazer um evento para agradecer as coisas. É bonito, né não? Em vez de pedir, agradecer tudo que a gente tem. Mas Marido não se emocionou, achou meio sem pé nem cabeça adotar uma tradição aleatória de um país que não tem nada a ver com a gente, de pilgrims que não nos dizem respeito. No que, convenhamos, ele tem razão. Mas tergiverso. O que eu queria era dizer que Natal para mim é tão aleatório quanto, mas que eu curto datas e rituais e celebrações.

(e se a gente parar para pensar, nem é tão aleatório agora que estamos aqui. A festa originalmente celebra o solstício do inverno e para quem está na Inglaterra com o dia terminando às 3 e meia da tarde, passar pelo dia mais curto do ano e saber que agora só vai melhorar é razão suficiente para comemorar)

Instintos distintos

dezembro 6th, 2010

Era uma vez (quando eu era pequena) uma época em que os bebês eram colocados para dormir de barriga para baixo, por alguma razão que eu desconheço mas que era recomendada por todos os médicos.

Alguns anos depois, fica decidido que botar bebê de bruços para dormir é pior que bater na mãe. É um risco de vida, bla bla bla. Então a gente deve colocar a criança de barrigão pra cima, dizem todos os profissionais competentes e instituições de saúde.

Mais alguns anos depois, descobre-se que as crianças que dormem de barrigão para cima morrem menos, de fato. Mas engatinham menos, andam mais tarde, etc etc. No longo prazo, isso leva a um atraso generalizado no desenvolvimento (aos 8 anos elas têm QI mais baixo, veja só!).

Então, na verdade, é bom deixar a criança de barriga para cima, mas só quando estiver dormindo. Quando estiver acordada, tem que deixar muito tempo de barriga para baixo.

E isso é o que se diz hoje, em dezembro de 2010 (essa matéria da Salon conta a história melhor que eu). E eu fico aqui pensando que os filhos do Jonas provavelmente vão dormir de barriga para baixo de novo - ou de ponta cabeça.

É por essas e outras que em assuntos de saúde eu cada vez mais ignoro orientações médicas, pesquisas científicas, etc e, depois de uma pesquisa básica, faço o que me parece certo. Porque quando se trata de algum assunto um pouquinho mais complicado é impossível existir consenso. E eu prefiro errar seguindo meus instintos do que obedecendo pitaco de um médico aleatório ou de uma orientação da OMS ou do NHS, feita na lógica “one size fits all” e que não necessariamente é o melhor para o meu caso específico (ando com uma birra incrível desses guidelines mundiais/nacionais).

Ter estudado história da ciência e filosofia da ciência na (cientifissíssima) Imperial College só contribuíram para eu chegar a essa conclusão, assim como todas as pesquisas sobre parto que fiz quando estava grávida [concluí que ninguém sabe nada direito mesmo e meu próximo filho vou parir no Hampstead Heath, no meio do mato (quando digo isso marido sempre comenta que vou ser eu parindo numa moita e o George Michael fazendo dogging na outra - a área é famosa para dogging à noite - prefiro não imaginar a cena)].

Talento

dezembro 4th, 2010

Ah, vocês nem ligam que eu não atualizo isso aqui, né não? Os pouquíssimos leitores que sobraram lêem os meus raríssimos posts pelo rss que eu sei. Então nem me apoquento mais e nem me preocupo que tenha alguém vindo aqui e dando com os costados n’água (se tem, mil perdões, eu sei o quanto isso é irritante - e meus parabéns pela insistência, você deve ser uma pessoa muito persistente e vai se dar muito bem na vida).

E no meio da minha vida de full time mama estou escrevendo o tal do livro que já falei aqui. Três parágrafos por dia, coisa assim, escrevendo qualquer coisa desde que a história ande para a frente, e repetindo para mim mesma que depois posso reescrever tudo porque é lógico que a primeira versão vai ficar ruim.

Uma coisa que - quase - não me preocupa é a questão do talento. Já que não tenho controle nenhum sobre isso, costumo ignorar essa variável. E para me animar, leio histórias de escritores que chegaram lá à custa de esforço, insistência, teimosia. É bom ler os livros que esse povo escreve e pensar o bom e velho “eu faço melhor” ou mesmo “eu sou capaz de fazer uma coisa desse nível. Se esse livro bombou então eu ainda tenho esperança.” Porque eu acredito, mesmo, no fundo do meu coração, na persistência sem talento.

Mas tenho que ter em mente que se eu quiser terminar a bodega do livro é bom me ater ao povo do meu nível. Porque esqueci e comecei a ler V de Vingança hoje (nunca tinha lido) e aí comecei a minhocar que meu futuro distópico não era tão bacana, que eu queria saber fazer personagens tão legais, que minha história não tem um pingo da intensidade do que eu estava lendo.

Pombas, Barbara, é o Alan Moore! Deixa o cara para lá. Pega alguma coisa dos seus role models (sem citar nomes, mas aquele povo que vende horrores mesmo não sendo genial) e manda bala.

Escritores deprimentes

outubro 7th, 2010

Sabe, eu nutro um certo desprezo por escritores amadores. Aquele camarada que nunca teve nada publicado, mas tem uma idéia na cabeça, e está lá, escrevendo ou tentando escrever um livro que provavelmente vai ficar medíocre (porque a maioria de qualquer coisa no universo é medíocre, é justamente isso que a palavra significa), que provavelmente não vai ser publicado, e que quase que certamente vai ter jeito e cheiro de amadorismo (até porque eu acredito na importância fundamental de um editor, e a maior parte dos livros escritos no mundo não são editados nunca porque 1 - nenhum editor se interessa por fazer isso 2 - o escritor amador é arrogante e burrinho o suficiente para achar que não precisa de editor. Normalmente são as duas coisas).

Aí o escritor amador fica às voltar com seu plot, seus personagens, tentando fazer a história encaixar e dar certo,tentando desenvolver uma cena ou achar o final certo para sua trama, aquela trama pela qual ninguém no universo se interessa além dele mesmo. E sofre com isso, e esse sofrimento todo tem uma camada trágica extra que é a provável ruindade da coisa. E mesmo que a não seja ruim, a não-publicação é mais provável do que a publicação. Então o processo toda é meio triste e deprimente, apesar de ter um quê de heróico. Bom, mas nada impede heróis de serem tristes e deprimentes e no final das contas darem com os burros nágua.

E eu tou contando isso agora porque nos últimos meses eu saí do time das “pessoas que têm um livro na cabeça e nunca escrevem” para o time dos “escritores amadores sutilmente deprimentes.” Acho que estou fazendo progresso. Mas não deixo de me sentir um tanto self conscious da ridiculidade do processo todas as vezes que me pergunto, afinal, qual a motivação desse personagem? O que ele quer? Qual o conflito da história?

Me sinto ridícula, patética, igualzinha ao camarada que descrevi ali em cima. Com um medo horrível de escrever uma história constrangedora como a maioria das histórias escritas no planeta são. Porque eu sei que a idéia é boa. O mundo que eu criei tem potencial. E potencial é o assassinador de idéias. Eu tou justamente naquele ponto em que um pouco de falta de senso de ridículo me ajudaria a escrever o raio da coisa. Mas ele não me larga.

(hm, escrever sobre isso está me fazendo sentir menos ridícula. Eu tenho que vestir a carapuça do herói deprimente e ir em frente. Ninguém nunca morreu por ser um pouco ridículo - ou, em última análise, por escrever um livro constrangedor. E se é assim, constrangê-los-ei, pois)

O primeiro resfriado de Jonas

outubro 3rd, 2010

Ontem Jonas teve o primeiro resfriado. Passou o dia com coriza, o olho esquerdo meio inchado e lacrimejando (só o esquerdo, vai entender), com olheiras, mas de resto animadíssimo e pulante como sempre. E eu preocupadíssima com a noite - como que eu ia dormir se toda vez que ele deitava, em 5 minutos o nariz entupia e ele acordava desesperado?

No final das contas a coisa se resolveu bem satisfatoriamente: coloquei o mocinho no baby carrier e dormi sentada na cadeira Poang da sala (assim ele fica praticamente de pé), com algumas horas na cama (onde ele conseguiu dormir deitado um pouco). Parece que o mocinho passou a noite muito bem, e eu dormi razoavelmente (a parte da cadeira parecia noite em avião, quando você acorda desconfortável mas volta a dormir toda torta, sabe?).

E então por enquanto é isso, primeiro resfriadinho e sobrevivemos bem (eu estava prevendo uma longa noite de choro. lágrimas e ranger de dentes, principalmente da minha parte)! Agora vamos para a segunda noite. Estou escrevendo isso com ele pendurado em mim, já dormidíssimo.

(e bora torcer para demorar muito até ele ter alguma doencinha de verdade, já que essa pelo visto está sendo só treinamento - aliás, não dizem que criança mamante não fica doente? Quero meu dinheiro de volta!)

Diquinhas

setembro 30th, 2010

(Meninos: se algum de vocês ainda vem aqui, desculpe. Tá impossível escrever sobre assuntos não mulherzinha. Virei mãe, né, sabe como é. Mas continuo me interessando por outras coisas, eu juro. Um dia desses, se vocês ainda vierem aqui, verão posts sobre outros assuntos)

1) Para as meninas que amamentam em público, dia desses descobri que a solução dos nossos problemas é a técnica simplérrima das duas blusas. Você coloca uma blusinha de alça, daquelas bem vagabundas por baixo da blusa que estiver usando. Na hora de amamentar, você deixa só o peito de fora abaixando a blusa que está por baixo e levantando a de cima. Acopla a criança ao peito e voilá! Não dá para ver nada, é bem tranquilo, e não precisa comprar nenhuma roupa especial (eu continuo usando minhas blusas de amamentação, mas elas são 4 ou 5, e não dá para viver usando sempre as mesmas roupas…). Tudo bem que não rola de usar duas blusas no verão mega quente do Rio, mas nos outros meses é uma boa.

Existe também a técnica de amamentar no sling, o que é discreto e permite que você faça isso andando (uma ótima, já que é chato ter que parar para comer/tomar um café só para poder sentar em algum lugar amamentável toda vez que a criança precisar mamar). Mas admito que essa eu ainda não dominei.

2) Exercícios de assoalho pélvico. Como não fiquei grávida no Brasil, não faço idéia se os médicos recomendam isso para as grávidas daí. Aqui todas as midwives, prenatal classes, todo mundo repete ad nauseam que a gente tem que fazer os exercícios para “pelvic floor” antes e depois do parto. É tipo uma obssessão.

O ponto é que eles são úteis sim para evitar aquela incontinência básica de grávida, para garantir o funcionamento normal das coisas depois do parto, etc. Mas resolvi escrever sobre isso porque mesmo quem não faz parto normal corre o risco de “afrouxar” esses músculos durante a gravidez, então os exercícios são importantíssimos. Eles também servem para segurar as partes no caso de prolapso (que, descobri, não acontece só com quem teve parto normal).

E aí minha fisioterapeuta me explicou que mesmo quem nunca ficou grávida precisa fazer esses exercícios para evitar problemas na época da menopausa, e também para evitar estragos causados quando você levanta peso, e para ajudar na postura e na estrutura dos músculos em geral (quando você exercita o assoalho pélvico acaba fortalecendo também os músculos de sustentação da região abdominal, que evitam dores de coluna, etc etc - e acredite em mim: como regra geral seus músculos de sustentação podem te poupar de grandes aporrinhações na vida).

E agora que já falei das razões de saúde, motivos sérios e tudo mais, acho que tenho que mencionar uma outra razão, mais imediata, que é o fato de que fortalecer o assoalho pélvico tem um grande valor recreacional. Não vou entrar em detalhes porque sou moça pudica, mas recomendo enfaticamente. Vai lá, faz seus exercícios e depois me conta se não foi uma boa dica.

Os medos e os medos dos medos.

setembro 23rd, 2010

Jonas está fazendo natação e eu tenho pensado muito na questão de forçar a barra das pessoas para supostamente fazer com que elas “consigam ir mais além” - ou respeitar demais os medos e receios dos outros e não ir nada “além”, fomentando aquela paralisia que todo mundo conhece, que é a paralisia das pessoas cagonas.

Porque as aulas de natação são um pouco mais rápidas do que eu gostaria, colocando a criança para mergulhar, e depois para um mergulho mais longo, e depois vários mergulhos, e eu fico receosa de forçar a barra e e obrigar o Jonas a fazer mais do que ele tá preparado. Ou, sendo bem sincera, de forçar a MINHA barra e fazer mais do que EU estou preparada.

Porque ele não fica nem de longe tão desconfortável quanto eu. Chorou no primeiro mergulho sim, mas logo esqueceu e voltou a rir e fazer bagunça. Já eu não esqueci e fiquei sofrendo. Se eu não tomar muito cuidado, vou acabar passando meus medos e receios para ele, o que é uma imbecilidade completa - na vida dele, bastam os medos dele.

Acho sim que eu tenho que respeitar os MEUS medos, mas a questão é que tenho também que aprender a observar quando ELE não está com medo, e tentar ser mais leve - como ele, que cai, levanta e esquece (é metafórico, o garoto tem menos de 5 meses, ele não cai nem levanta ainda).

E nessa fiquei mais uma vez maquinando se o meu papel é empurrar ele para tentar superar seus limites ou, no extremo oposto, respeitar totalmente os seus medos (arriscando criar um cagão). Minha psicóloga uma vez disse que essa idéia de “empurrar a pessoa” às vezes significa encurralar a pessoa, colocá-la contra a parede, (e que isso não é algo que você queira que seus pais façam com você). Na época, achei um exagero, mas depois de ter sido encurralada no meu parto, depois de ter “superado meus limites” na marra e ter ficado muito puta com isso (lembro que as midwives falaram que eu tinha sido muito “brave” e eu, que estava uma fera, só conseguia pensar que teria sido brave se EU tivesse decidido não tomar a anestesia!), concluí que meu papel nessa história toda é um tantinho mais sofisticado.

Eu tenho que convencer o Jonas a querer superar os limites dele.

(E dar apoio a ele e respeitar as decisões que ele tomar). Não sou eu que vou forçar o garoto, colocá-lo contra a parede, que nem uma treinadora sanguinária (eu já falei que tenho ganas de torturar quase todos os treinadores do mundo?) - como certas pessoas por aí acham que eu deveria fazer. Nem devo só dar colo e deixar o garoto confortável (atenção para o “só”). É certamente uma proposta muito mais complexa do que simplesmente jogar o garoto aos leões, como certos pais por aí fazem, achando que estão abafando.

Enquanto isso, vou aprendendo a (tentar) identificar o que é o meu medo e o que é medo dele, e não projetar aqueles nestes.

Ai ai, quanta coisa para aprender.

Respondendo

setembro 23rd, 2010

Olha pessoas, você são fofos, e cuti cutis e uns amores mesmo. Muito obrigada pelos comentários, e isso me lembra (mais uma vez, mas é que eu vivo esquecendo) que eu devia era tomar tenência na vida e deixar de me aporrinhar com que certas pessoas falam, mesmo que essas pessoas sejam importantes. A pessoa que falou as tais atrocidades que me incomodaram sabe quem é, então não se preocupe se você acha que é você, caro leitor. Não é.

E na verdade, independente de quem seja, eu devia era ser mais absoluta e mais arrogante e deixar de me abalar. Mas não sou, né? Eu sou essa coisa aqui, meio barro, meio tijolo e cem por cento mole. Mas a gente vai crescendo. E chega desse assunto porque assim ninguém aguenta. Gente choraminguenta é um pé no saco,

Um desabafo escrito de qualquer jeito

setembro 17th, 2010

Tem horas que eu entendo porque certas pessoas entram numas de querer ser o próximo Diogo Mainardi ou o próximo Paulo Francis (ou Nelson Rodrigues, sei lá). Porque se você vai ser assolada por trolls que não entendem porra nenhuma de coisa alguma, é mais jogo já zoar o troll de saída, antes mesmo de ele chegar perto de você. Então é melhor já começar dizendo que “o número de instrumentos de percussão de uma cultura é inversamente proporcional ao desenvolvimento dessa cultura” ou “nem toda mulher gosta de apanhar - só as normais.” E pronto, você automaticamente já mandou um calaboca pros malas que vão dizer “veja bem, não é assim, olha o país tal, cheio de percussionistas e muito rico.” Caceta, tem que ser muito burro para ler essa frase literalmente.

Eu fico chateada não por causa de certos zé manés que comentam aqui. Mas porque às vezes um comentário vem de alguém por quem eu tenho um pouco mais de consideração e eu fico pensando se eu tou errada mesmo (às vezes os comentários não vêm pelo blogue, então não dá para vocês lerem). Veja bem, é complicado analisar as coisas objetivamente. Sempre. Eu nunca sei quando eu tou sendo teimosa e irrazoável e quando eu estou simplesmente defendendo um ponto de vista. Estou falando em geral. Na minha vida.

Eu sou insegura (rá! ninguém nunca tinha desconfiado, né?). Eu sei que não sou burra e que escrevo razoavelmente, tá bom, isso eu sei. Mas sinceramente não sei se sou inteligente o suficiente. Não sei se escrevo bem o suficiente para o que eu quero. Não sei se tenho talento. Racionalmente eu sei que isso não importa. Se eu tenho talento ou não é totalmente irrelevante - não existe maneira de aumentar o talento, portanto bora focar em outras coisas que é mais últil. Mas às vezes dói, sabe, achar que a gente não é tão boa quanto gostaria. E é péssimo não saber se eu deveria dar ouvidos a certas coisas ou não.

Tendo dito isso, eu queria realmente saber se ando me explicando tão mal ou se as pessoas é que não sabem ler.

Porque aí vem um cabra e diz “você disse que a moda é comida natureba mas os ingleses estão cada dia mais gordos.” Hello, eu disse mo-da. Jamie Oliver está na moda, Jamie Oliver diz que nós devemos cozinhar nossa própria comida, ele se mete nas refeições das escolas. E Jamie Oliver faz um sucesso danado (Em 2008 ele vendeu £11.5 milhões só de livros - para quem gosta de dados). Então eu posso dizer que ele está na moda, patrulha? Ou não posso, já que certas estratas sociais não gostam dele? Então olha, com permissão da patrulha eu vou dizer que Jamie Oliver está na moda. Isso não significa que as pessoas de fato comam do jeito que ele prega. (afinal de contas, a moda praticamente no planeta inteiro é ser magro, e cada vez menos pessoas são magras - o que prova o ponto de que moda não é exatamente o que o povo faz - é, na verdade, o que o povo quer - “aspiracional,” anyone?)

Aí eu vou e digo que tem um açougue com carcaças penduradas na vitrine em plena Hampstead High Street, uma rua carérrima. “Ah, mas você está generalizando.” Generalizando o que, caceta? Que tem um açougue aqui do lado de casa? Sim, eu considero esse açougue uma indicação de uma tendência. “Ah, mas os pobres não acham bacana um açougue.” Ah, então eu não posso dizer que açougue é tendência? E se daqui a 30 anos os bairros pobres estiverem cheios de açougues chiques, aí eu posso dizer que é tendência? Mas aí, caro patrulhador, não vai ser mais ten-den-cia. Vai ser um fato consumado. Ter galinha no quintal é tendência porque só uns poucos têm (se todo mundo tivesse deixava de ser tendência). Aí veio a Luciana e confirmou que ela tem amigos da Microsoft com galinhas no quintal. Mas aí, sei lá, segundo a patrulha isso não vale, né? Anedoctal evidence não vale prum blog. Eu preciso de dados, tipo “quantas pessoas têm galinhas no quintal em Londres, em quais bairros, qual a renda dessas pessoas e se elas são vistas como formadoras de opinião ou são pessoas públicas.” Sem todos esses dados pra cruzar a gente não pode apontar um tendência baseada em observações pessoais.

Sério, eu tou errada? Porque eu não acho que estou.

E ainda tem a patrulha do “você disse que as pessoas comem melhor na Inglaterra, e isso não é verdade.” Eu disse isso? Sério? Ou eu disse que aqui tem leis e massa crítica para que certos produtos (como glutamato monossódico ou BPA) parem de ser usados? É mentira? É generalização?

E aí o clássico “você diz que a vida é melhor aí, blá blá blá.” É foda. Eu gosto de viver aqui. A vida não é melhor aqui ou no diabo que me carregue. Mas eu gosto de viver aqui. Mas aparentemente eu não posso, sabe? Se eu falo bem daqui eu sou uma deslumbrada. Se eu tou aqui, sem empregada, sem carro, ralando numa língua que não é a minha, é porque eu acho que tem alguma vantagem, né? Mas aí tem a patrulha do povo que acha que eu não tenho o direito de achar isso.

Cara, que cansaço. Eu adoro comentários no blog, eu não quero que todo mundo concorde comigo. Mas é chato viver patrulhada. Eu não ligo que você entenda o que eu digo e discorde. Alguém disse “os EUA são um país super rico e não se faz tanto parto em casa. Isso é uma mania européia.” Hm, é verdade. Então o que eu falei não fazia tanto sentido assim. Oquei. Eu sei mudar de opinião. Tinha outros comentários aqui que não concordavam comigo. Ótimo - ás vezes as pessoas falam coisas muito mais inteligentes do que o que eu escrevi.

Mas enfim, esquece o blog: existe patrulha até na vida real. Gente que não aceita uma opinião. Sabe aquelas pessoas que acham que discordam, mas na verdade nem entenderam o que você estava dizendo? Eu fico realmente sem saber se essas pessoas são burras ou se burra sou eu. Porque sério, não é possível.