Tem horas que eu entendo porque certas pessoas entram numas de querer ser o próximo Diogo Mainardi ou o próximo Paulo Francis (ou Nelson Rodrigues, sei lá). Porque se você vai ser assolada por trolls que não entendem porra nenhuma de coisa alguma, é mais jogo já zoar o troll de saída, antes mesmo de ele chegar perto de você. Então é melhor já começar dizendo que “o número de instrumentos de percussão de uma cultura é inversamente proporcional ao desenvolvimento dessa cultura” ou “nem toda mulher gosta de apanhar - só as normais.” E pronto, você automaticamente já mandou um calaboca pros malas que vão dizer “veja bem, não é assim, olha o país tal, cheio de percussionistas e muito rico.” Caceta, tem que ser muito burro para ler essa frase literalmente.
Eu fico chateada não por causa de certos zé manés que comentam aqui. Mas porque às vezes um comentário vem de alguém por quem eu tenho um pouco mais de consideração e eu fico pensando se eu tou errada mesmo (às vezes os comentários não vêm pelo blogue, então não dá para vocês lerem). Veja bem, é complicado analisar as coisas objetivamente. Sempre. Eu nunca sei quando eu tou sendo teimosa e irrazoável e quando eu estou simplesmente defendendo um ponto de vista. Estou falando em geral. Na minha vida.
Eu sou insegura (rá! ninguém nunca tinha desconfiado, né?). Eu sei que não sou burra e que escrevo razoavelmente, tá bom, isso eu sei. Mas sinceramente não sei se sou inteligente o suficiente. Não sei se escrevo bem o suficiente para o que eu quero. Não sei se tenho talento. Racionalmente eu sei que isso não importa. Se eu tenho talento ou não é totalmente irrelevante - não existe maneira de aumentar o talento, portanto bora focar em outras coisas que é mais últil. Mas às vezes dói, sabe, achar que a gente não é tão boa quanto gostaria. E é péssimo não saber se eu deveria dar ouvidos a certas coisas ou não.
Tendo dito isso, eu queria realmente saber se ando me explicando tão mal ou se as pessoas é que não sabem ler.
Porque aí vem um cabra e diz “você disse que a moda é comida natureba mas os ingleses estão cada dia mais gordos.” Hello, eu disse mo-da. Jamie Oliver está na moda, Jamie Oliver diz que nós devemos cozinhar nossa própria comida, ele se mete nas refeições das escolas. E Jamie Oliver faz um sucesso danado (Em 2008 ele vendeu £11.5 milhões só de livros - para quem gosta de dados). Então eu posso dizer que ele está na moda, patrulha? Ou não posso, já que certas estratas sociais não gostam dele? Então olha, com permissão da patrulha eu vou dizer que Jamie Oliver está na moda. Isso não significa que as pessoas de fato comam do jeito que ele prega. (afinal de contas, a moda praticamente no planeta inteiro é ser magro, e cada vez menos pessoas são magras - o que prova o ponto de que moda não é exatamente o que o povo faz - é, na verdade, o que o povo quer - “aspiracional,” anyone?)
Aí eu vou e digo que tem um açougue com carcaças penduradas na vitrine em plena Hampstead High Street, uma rua carérrima. “Ah, mas você está generalizando.” Generalizando o que, caceta? Que tem um açougue aqui do lado de casa? Sim, eu considero esse açougue uma indicação de uma tendência. “Ah, mas os pobres não acham bacana um açougue.” Ah, então eu não posso dizer que açougue é tendência? E se daqui a 30 anos os bairros pobres estiverem cheios de açougues chiques, aí eu posso dizer que é tendência? Mas aí, caro patrulhador, não vai ser mais ten-den-cia. Vai ser um fato consumado. Ter galinha no quintal é tendência porque só uns poucos têm (se todo mundo tivesse deixava de ser tendência). Aí veio a Luciana e confirmou que ela tem amigos da Microsoft com galinhas no quintal. Mas aí, sei lá, segundo a patrulha isso não vale, né? Anedoctal evidence não vale prum blog. Eu preciso de dados, tipo “quantas pessoas têm galinhas no quintal em Londres, em quais bairros, qual a renda dessas pessoas e se elas são vistas como formadoras de opinião ou são pessoas públicas.” Sem todos esses dados pra cruzar a gente não pode apontar um tendência baseada em observações pessoais.
Sério, eu tou errada? Porque eu não acho que estou.
E ainda tem a patrulha do “você disse que as pessoas comem melhor na Inglaterra, e isso não é verdade.” Eu disse isso? Sério? Ou eu disse que aqui tem leis e massa crítica para que certos produtos (como glutamato monossódico ou BPA) parem de ser usados? É mentira? É generalização?
E aí o clássico “você diz que a vida é melhor aí, blá blá blá.” É foda. Eu gosto de viver aqui. A vida não é melhor aqui ou no diabo que me carregue. Mas eu gosto de viver aqui. Mas aparentemente eu não posso, sabe? Se eu falo bem daqui eu sou uma deslumbrada. Se eu tou aqui, sem empregada, sem carro, ralando numa língua que não é a minha, é porque eu acho que tem alguma vantagem, né? Mas aí tem a patrulha do povo que acha que eu não tenho o direito de achar isso.
Cara, que cansaço. Eu adoro comentários no blog, eu não quero que todo mundo concorde comigo. Mas é chato viver patrulhada. Eu não ligo que você entenda o que eu digo e discorde. Alguém disse “os EUA são um país super rico e não se faz tanto parto em casa. Isso é uma mania européia.” Hm, é verdade. Então o que eu falei não fazia tanto sentido assim. Oquei. Eu sei mudar de opinião. Tinha outros comentários aqui que não concordavam comigo. Ótimo - ás vezes as pessoas falam coisas muito mais inteligentes do que o que eu escrevi.
Mas enfim, esquece o blog: existe patrulha até na vida real. Gente que não aceita uma opinião. Sabe aquelas pessoas que acham que discordam, mas na verdade nem entenderam o que você estava dizendo? Eu fico realmente sem saber se essas pessoas são burras ou se burra sou eu. Porque sério, não é possível.