“- Como foi o seu parto?” “- Lê aí.”

Normalmente eu gosto de ler sobre os partos das pessoas (antes porque achava que ia me ajudar a me preparar – hoje porque me tornei totalmente interessada no assunto) então vou tentar contar a história do parto do Jonas cronologicamente. É bom também para eu lembrar dos detalhes.

Não escrevi sobre isso antes minuciosamente porque fiquei meio chateada com o jeito que as coisas aconteceram. Hoje, depois de 3 meses, fica mais fácil relevar o que não correu do jeito que eu queria e, principalmente, entender que apesar dos percalcinhos, eu tive um parto ótimo e tenho que agradecer à Nossa Senhora do Bom Parto pela minha sorte. Digamos assim: as pessoas não dizem que algo “é um parto” por nada. Mesmo um parto bom continua sendo “um parto.” Digamos que eu ainda não tinha noção completa disso.

Pois bem. Na sexta feira, 30 de abril, um casal de amigos veio jantar aqui em casa, e eu passei o jantar sentindo umas contrações. Nada demais, tipo cólica de menstruação, um pouco mais forte. Elas vinham em intervalos, e eu comecei a sacar que era o trabalho de parto mesmo, mas não contei para ninguém. Estava feliz de estar me distraindo e conversando em vez de ficar pensando na coisa. Depois que eles foram embora consegui dormir por uma hora e pouco, mas depois as contrações ficaram fortes demais para dormir.

Liguei para o hospital, eles tentaram me convencer a encher a banheira e ficar em casa, mas eu não tinha a menor noção se aquelas contrações já estavam fortes ou não. Eu tinha medo de ficar em casa e deixar para ir pro hospital tarde demais (wishful thinking? Claro!). Além disso, eu queria sossegar e ficar logo no lugar definitivo, em vez de ficar pensando que ainda teria que ir pro hospital.

Chamamos o taxi, pegamos uma penca de bolsas e fomos. Vou te dizer que andar de carro com contração é chato. Esperar elevador com contração é muito chato. Ser examinada antes de ser mandada para algum lugar é desesperador. Eu estava com 2 a 3 centímetros e eles ensaiaram me mandar de volta para casa (o que teria sido ultra desesperador). Como as contrações já estavam vindo de 5 em 5 minutos, resolveram não fazer isso.

Sinceramente, esse papo de “ficar o maior tempo possível na sua casa em vez de um quarto de hospital” para mim não cola. No próximo parto eu vou querer meu quartinho de parto quando as contrações começarem. Não tem essa de não ser a minha casa – na minha cabeça o que importava era ter um lugar para me aboletar até tudo acabar, e não ter que ficar pensando em carro, elevador, ficar em pé, ter que me comportar que nem gente quando tudo que eu queria era me contorcer à vontade em algum lugar reservado.

Nessa hora me disseram que o Birth Centre, onde tem os quartos de parto humanizado e a banheira de parto, estava todo ocupado. Tenho certeza que era mentira, mas na hora isso nem me passou pela cabeça. Me fizeram ir para uma sala de parto normal no labour ward. Até hoje, quando alguém me conta que pariu em um quarto com luz fraquinha, banheira, banquinho para ficar de cócoras e bolas de pilates eu tenho vontade de mandar a pessoa para aquele lugar, dizer para ela enfiar as bolas e a banheira e o aromatizador, tudo naquele outro lugar. Irracional, eu sei. A mágoa vai passar o dia que eu conseguir parir num lugar fofolete desses mas por enquanto, por favor, não jogue sua música ambiente e sua luz suave na minha cara, por caridade.

Então eu fui para uma banheira normal, o que ajudou por um tempinho e logo não ajudou mais. As contrações doem muito! E eu me apavorei. Nessa hora comecei a pensar que seriam horas daquilo, que eu não ia aguentar, que ninguém ganha prêmio por sofrer, que eu não queria mais parir sem peridural. Provavelmente o medo fez a dor ficar pior, mas isso nem me passou pela cabeça na hora. Todo o meu treinamento e livros que eu li e técnicas de respiração e de relaxamento foram por água abaixo. Ninguém tinha me explicado que você precisa de uma força mental absurda para conseguir usar essas técnicas na hora H.

Meu medo maior era ficar cansada demais pro pushing, já que eu não ia dormir aquela noite. A midwife tentou me convencer a usar pethidine, que é uma injeção de um opióide (se não me engano), que deixa você meio grogue e dá para dormir entre as contrações. Pethidine era uma coisa que eu jurava que não ia usar, porque a droga passa pro bebê – inclusive, não é recomendável quando o trabalho de parto já está avançado, porque o bebê pode nascer meio grogue, o que eu acho uma idéia apavorante. Eu tinha para mim que era preferível ir direto para a peridural do que usar isso.

Assim sendo, adivinha o que eu fiz depois do papo com a midwife? Aceitei a injeção de pethidine! A idéia de dormir um pouco foi tentadora e convenhamos, eu não estava pensando muito claramente naquela hora. Saí da banheira e fui para a cama ser examinada para confirmar que eu estava com menos de 5 cm de dilatação e que o trabalho de parto ainda estava no começo. Mas aí a midwife disse que eu estava com 8 cm, adiantada demais para a injeção.

Nessa hora ela rompeu a minha bolsa, sem me dizer o que estava fazendo. Quando eu perguntei o que ela estava fazendo ela não respondeu. Até hoje fico puta de lembrar disso, da maneira com que as midwives tratam a gente como criança. Se tem uma coisa que me tira do sério é sentir que não estão me respeitando. Talvez eu já estivesse usando o gas and air a essa altura, porque a imagem da midwife rompendo a bolsa é meio enevoada, tipo um pesadelo.

Gas and air é um gas que você vai inalando e te deixa meio grogue e relaxada. Algumas pessoas acham que dá náusea, mas eu achei ótimo. Ainda pedi a anestesia mais uma vez, mas segundo a minha mãe depois de um tempo eu parei. Essa história de me enrolarem para eu não tomar anestesia me magoou, porque eu estava com medo, e parece que ninguém respeitou isso (já falei isso no outro post). Eu fiz o parto com plantonistas, então não tinha nenhum profissional de confiança comigo. Pelo visto, é assim mesmo que eles agem aqui, tratando a mulher que está parindo como se ela não fosse uma adulta. Não interessa que é uma adulta em uma situação extrema – é uma adulta, pombas!

Bom, vivendo e aprendendo, agora eu já sei que da próxima vez se me contrariarem eu vou ser agressiva. Não se pode prender uma mulher em trabalho de parto, o que me dá justificativa para ser “medieval with the midwife’s ass.” Hoje eu fico imaginando que se eu mordesse uma midwife, por exemplo, não poderiam fazer nada comigo. Vou lembrar disso no meu segundo parto. E vou lembrar também que eles evitam a qualquer custo procedimentos caros e que necessitem de médicos (tais como anestesias ou cesarianas, dando preferência a forceps, por exemplo) e que se for o caso tenho que insistir com unhas e dentes literais. Enfim, deixemos os próximos partos para depois – estamos hoje falando do nascimento do Jonas, e não do Jonas’s Brother ou da Jonas’s Sister (piadinhas com Jonas Brothers são impossíveis de se evitar agora, fazer o quê?).

Fiquei lá na cama, apoiada na cabeceira, numa posição meio de cócoras, pendurada no meu gas and air e sentindo contrações e tomando água por algum tempo indefinível. Em algum momento a midwife em algum momento tentou fazer massagem em mim e eu gritei entre dentes “Don’t touch me!” Lá pelas tantas me disseram que eu devia fazer xixi, fui ao banheiro, mas o Jonas já estava muito baixo e eu não consegui. Bom, já que é para ser escatológica, vamos de uma vez. Eu achava que tinha feito xixi antes, na cama mesmo, mas era o líquido amniótico saindo. Tentaram colocar um cateter em mim, mas não conseguiram. Esse detalhe parece horrível mas acredite, um cateter nessa hora é o menor dos seus problemas.

E aí eu gritei que não aguentava mais. E imediatamente lembrei que é exatamente o que as mulheres dizem antes de entrar na “transição,” que é a passagem para o estágio seguinte, a expulsão (o bom e velho “pushing”). Dito e feito. Nessa hora o seu corpo começa a ter vontade própria e parece que você está com vontade de fazer cocô. Mas isso eu já sabia também (aqueles livros todos sobre parto não foram 100% inúteis, afinal). A força que você faz para parir não é uma coisa “vaginal,” como disse um dos livros. É um esforço conjunto dos países baixos. Sabe quando você tem ânsia de vômito, que dá aquela sensação de “glé!” tipo uma contração na garganta? Pois é, é a mesma coisa, só que lá embaixo.

E aí é só diversão. Me fizeram deitar meio inclinada, e eu reclamava que não queria parir com as pernas nos stirrups, e eu tentava ficar de lado, meio de banda, em qualquer posição que não fosse a clássica (só conseguia imaginar que se eu ficasse de costas como uma tartaruga emborcada o meu períneo ia arrebentar todo). E aí a midwife, que já era outra, não a arrebentadora de bolsas, me berrava para fazer força, e eu não queria fazer força, queria deixar o bebê sair naturalmente como reza a cartilha do parto natural e humanizado (que, só lembrando, não era bem o que estava acontecendo ali, já que eu não estava com midwives humanizadas nem no maldito quarto de parto humanizado).

E eu fazia força, e lá pelas tantas a midwife disse que não estava mais ouvindo o coração do Jonas – ela não disse que o coração estava devagar ou qualquer coisa assim, o que seria preocupante – ela só disse que tinha perdido o contato com o coração dele, então não sabia como estava, e por isso eu tinha que fazer ele sair o mais rápido possível. Hoje eu já não sei se essa história foi verdade ou se ela queria me assustar para eu fazer o push do jeito que ela queria. Perceba como é bacana fazer um parto com profissionais nos quais você não confia, não é mesmo?

De uma forma ou de outra, funcionou, e eu comecei a fazer força do jeito que ela queria – desesperadamente. Eu sentia queimando lá embaixo (mas eu também sabia que isso era normal). Eu lembro que doeu, mas não sei dizer como. É engraçado, eu lembro direitinho da dor das contrações, que subia pelas costas e tal, mas não lembro mesmo da dor da expulsão. Uma das forças doeu muito, e foi a única vez que eu gritei (ou grunhi mais alto, não me pergunte). E eu forçava, forçava, e segundo minha mãe e Hiro, a cabecinha dele ia saindo, saindo, e quando eu respirava ele entrava de novo. E vai! força! Só mais um pouco! está quase lá!

E eu fiz um forçãããããão e…

“Isso! Ótimo! Saiu a cabeça!”

“O queêeeeee? Só a cabeça????

Putamerdacaralho como assiiiiim????? quer dizer que ainda tem que sair os ombroooooossss?” Eu queria matar alguém, mas obviamente não falei nada disso. Eu não falava e nem sequer abria os olhos, para não gastar energia nem desconcentrar.

Segundo Hiro e minha mãe, aquela cabecinha ficou ali de fora um tempinho e aí eu fiz mais força e os ombros saíram e depois…

Blrrrlllrrrr” Saiu o resto do rapaz, e tudo queimava nas partes baixas, e ele chorou, e eu vi ele aos berros e fiquei tão aliviada de ele estar chorando e estar bem, e vi ele botando o bocão no mundo e a boca estava cheia de sangue, e eu perguntava “que sangue é esse?” e o Hiro dizia que era o meu sangue, não era sangue do bebê não, que estava tudo bem, e colocaram ele peladinho sobre o meu peito, por dentro da minha roupa, e eu fiquei lá, toda boba, e acho até que ele foi pro peito nessa hora. Ele não estava coberto daquele queijo que fica em volta dos recém nascidos, depois me disseram que deram uma limpada nele com uma toalha quando ele saiu (deve ter sido por isso que ele chorou, mas eu nem reclamo porque ninguém pode imaginar o alívio que eu senti quando ouvi ele se esgoelando e soube que estava tudo bem).

E nessa hora me lembraram que eu ainda tinha que parir a placenta e eu queria morrer. Tudo que eu queria era deitar em posição fetal e ficar quietinha mas não, eu tinha que fazer força para botar a placenta para fora! Eu inicialmente (digo, antes do parto, quando ainda estava no conforto da minha casa) queria expulsar a placenta naturalmente (em vez de tomar uma injeção que faz o útero contrair) mas aí argumentaram que se eu tomasse a injeção eles podiam puxar a placenta em vez de eu ter que fazer força. “Dá a injeção então!” A injeção também ajuda a parar a sangueira, o que foi bom para aplacar o medo da minha mãe de que eu tivesse uma hemorragia (minha mãe, coitada, a essa altura do campeonato já estava verde). Como eu tinha tido anemia durante a gravidez, uma injeção de vasoconstritor me parecia uma boa. E eu segurava o Jonas e sentia o cordão umbilical lá por baixo, o que é uma sensação muito estranha (o que não quer dizer muito porque, covenhamos, todas as sensações naquele dia foram estranhas).

Mesmo assim tive que fazer uma forcinha. Um mini “Brllrlrlrlr” de novo e a placenta saiu. Parecendo um fígado gigante. E aí acabou, né não? Não. Faltavam os pontos (e faltava eles colocarem o cateter para aí então eu esvaziar a bexiga, o que aconteceu em algum momento que eu não lembro quando foi). Antes dos pontos eles até que me deram um tempinho para eu ficar de pernas fechadas um pouco (foi bom para variar) e aí começou. Bota as pernas para cima, toma injeção de anestesia local e vamos lá. E logo depois de a midwife começar chegou uma chefe das midwives e começou a supervisionar a coisa e foi ótimo, porque a moça, que era uma chinesa, foi ultra cuidadosa e lá pelas tantas pegou a agulha ela mesma e basicamente bordou a minha perereca toda. A coisa levou horas, a ponto de o efeito da anestesia passar, eu pedir mais uma e essa segunda começar a passar também (mas aí eu não falei nada porque não queria apressar a moça – melhor que eu sentisse mas que a coisa ficasse bem feita). Nos dias seguintes ao parto agradeci muitas vezes à chinesa bordadeira, porque não senti ardência nenhuma, desconforto nenhum, nada.

[ah sim, um parêntese rápido: para quem estiver lendo isso e ficar terrivelmente horrorizado, vale lembrar que tudo é muito extremo num dia desses. Uma anestesia local que seria péssima num dia normal não é absolutamente nada nessa hora. São muitas emoções, muitos hormônios, muito amor (hahaha, não aguentei). É seu filho que está nascendo, então vale colocar as coisas em perspectiva. Sabe o vórtex da perspectiva total? É tipo isso]

E durante os pontos eu continuava agarrada com o meu tubinho de gas and air (que tinha largado para a parte do pushing) mesmo com o povo dizendo que eu não precisava mais dele – não precisava, mas eu queria! Queria era levar para casa um tubo daqueles. Jonas estava sendo vestido pela minha mãe e pesado enquanto Hiro supervisionava atentamente a costura (vai entender…). E depois trouxeram o Jonas de novo e eu tive certeza que ele era lindo e não tinha cara nenhuma de amassado (o que depois vim a descobrir, foi um pouco de exagero maternal de minha parte – mas ele já nasceu lindo sim). E depois disso tudo eu já saí falando que no meu próximo ia ser assim e assado e que não queria que fosse do mesmo jeito e mimimi, e minha mãe achando engraçado que em vez de eu dizer que nunca mais queria passar por aquilo eu já estava era pensando nos próximos.

E aí tem aquelas outras partes, sair da cama, tomar banho e ficar frágil, e ficar feliz, e ficar overwhelmed com tudo, e ficar olhando apaixonada para o bebê, e ir para o postnatal ward, e dar um chilique para voltar pra casa no mesmo dia, me recuperar, e aquelas coisas todas. Mas o parto, parto mesmo, para quem queria saber, foi assim.

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Eu, agarrada com o treco de gas and air na hora que estavam me costurando.

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Momento fofo. Isso foi bem depois do momento da foto aí embaixo. Eu estou horrível mas resolvi publicar assim mesmo porque achei muito engraçada. A foto foi tirada uns 10 minutos depois que o Jonas nasceu – ele foi imediatamente colocado no meu peito, ainda estava com cordão umbilical e tudo – observe como nós dois estamos muito brabos com tudo que tínhamos acabado de passar.

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Mordendo a língua – ou não: amamentação em público

Eu sempre achei uó qualquer “escondimento dos peitos” durante a amamentação em público. Tipo assim, eu ainda acho que peitos foram feitos para dar de mamar e qualquer outro uso é secundário e veio depois, e portanto acho mesmo que qualquer paninho, qualquer capinha, qualquer “se retirar para um lugar mais discreto” ou para uma salinha de amamentação é, de alguma forma, legitimar a idéia de que amamentar em público é imoral ou que tem qualquer conotação sexual. Pois é, na minha cabeça colocar os peitos para fora num momento “personal vaquinha” era um statement desmistificador e deserotizador da coisa.

Mas aí a gente começa a amamentar em público e percebe que a salinha de amamentação é uma beleza, porque dá para ficar tranquilona, dá para tirar e guardar os peitos com calma, enfim. E sobre as capinhas, existe o argumento de que estimula certas mulheres mais discretas (e sem tantos delírios militantes) a amamentar por mais tempo e em paz. Mesmo assim eu mantinha minha implicância gratuita com as capinhas. Até que ouvi falar que depois de uma certa idade a criança começa a se distrair com tudo o que acontece ao redor, e que nesses casos a capinha é indispensável para que o bebê consiga manter a atenção e comer direito.

Então aí se um dia Jonas virar um garoto altamente distraível e você me vir com uma dessas capinhas, pode considerar uma bela mordida de língua.

PS: como tanta gente por aí, ouvi muita história de mulheres que são destratadas por estarem amamentando em público, pedidas para se retirar desse ou daquele lugar por “estarem incomodando.” A maioria dos relatos vêm dos EUA mas muitos eram aqui do UK mesmo. Fiquei meio preocupada, no começo ficava cheia de receios de ouvir alguma coisa dessas – antes mesmo de colocar o JOnas no peito já me preparava com uma dúzia de respostas malcriadas na ponta da língua.

Pois bem, a minha experiência (que tudo bem, é em Londres, não na Inglaterra, e um pouco em Edimburgo) não podia ter passado mais longe dessa imagem. O povo simplesmente me ignora quando estou amamentando em algum lugar, os garçons falam comigo normalmente quando estou em um restaurante, e nunca percebi sequer uma cara feia. Estou desconfiada que essa história da “patrulha anti amamentação” é coisa criada pelos jornais e TV, que noticiam os casos – que são a exceção – como se fossem a regra (tudo bem que eu tento ser discreta, com blusas de amamentação e tals, mas mesmo que eu mostrasse o peitão todo acho que ninguém ia falar nada).

É mais ou menos o mesmo que acontece quando jornais criam uma sensação de insegurança ao noticiar alguns poucos crimes e assaltos em algum lugar. O que não falta é gente achando, por exemplo, que o centro de Londres é uma área perigosíssima, quando na realidade não é bem assim. A mídia tem a capacidade de ampliar esses episódios isolados e criar todo um clima desagradável que não existe.

O que é uma pena, porque assim como eu fiquei estressada no início, aposto que essas histórias assustam a várias outras mulheres além de mim. E só desistimulam uma coisa que deveria ser absolutamente natural (e dessexualizada).

PS2: Basicamente, minhas idéias sobre corpo e nudez e exposição e etc foram mais bem explicadas nesse post antigo.

Coisas soltas por Londres

Eu vou voltar e escrever direito, garanto.

Mas enquanto isso nao acontece, deixo um texto sobre uma dessas coisas que eu adoro em Londres:

Outro dia mesmo, eu achei um livro no banco vazio do meu lado no metrô. Não tinha jeito de bomba. Nem de esquecido. Ou enjeitado. Estava quase que tinindo de novo, se livro tina. (…)

Vai daí que, assim como quem não quer nada, peguei do volume, com vistosa capa vermelha e comecei a folheá-lo, pronto para tacá-lo, quando ninguém estivesse vendo, dentro de minha inseparável sacola preta, onde carrego meus “bilongues” (saravá, Emília! A bênção, Monteiro Lobato!) e papelada à toa, como um sem casa à toa.

Já estava na bica de dar o bote ilegal quando dei com um aviso pregado com fita adesiva transparente na capa, logo abaixo do título, dando a volta no volume. Seus dizeres eram simples e diretos como o estilo do autor: “Eu não estou perdido… Eu sou seu de graça”. Por falar em “curioso incidente”, hem?

No interior do volume, logo na página 3, um adesivo me saudava com um simpático “alô” em quatro línguas. E prosseguia me informando o seguinte: “Eu sou um livro muito especial. Eu estou viajando pelo mundo afora fazendo amigos. Espero ter feito de você um desses novos amigos”.

Seguia em frente me convidando a digitar o código do livro num site, ou sítio, com o endereço eletrônico de www.bookcrossing.com. Segui religiosamente as instruções quando cheguei em casa. No virtual local fui informado do nome de todas as pessoas que já tinham lido aquele exemplar do romance de Mark Haddon. Pediram-me ainda que eu informasse que o livro estava são e salvo em minhas mãos. E que, uma vez consumido, para eu fazer a fineza de o passar adiante.

Fui assim apresentado à instituição chamada BookCrossing.

Poderia citar milhoes de historias similares, como a caixa de papelao cheia de garrafas de bebidas (amarula, licor, essas coisas) pela metade ou quase inteiras no murinho de uma casa perto da minha, com o bilhete “por favor, leve para vc.” Ou um projeto de duas meninas que deixam muffins pela cidade e documentam a reacao das pessoas (e muitas comem). Ou o aviso “5th floor book exchange” perto da impressora do meu escritorio.

Londres eh uma cidade agressiva, que pega, mata e come, mas eh tambem um lugar cheio de gentilezas aleatorias e gratuitas. Eh uma cidade de tem “jardinagem de guerrilha“.

Eu poderia escrever muito mais sobre isso, mas tenho que voltar a trabalhar. Nao sei se meus seis leitores estao com saudade de mim, mas eu estou com saudades dos meus 6 leitores. Inte.

Don’t dream it, be it.

Eu devia fazer uma categoria so sobre os filmes que passam na TV aqui sexta a noite (ja fiz varios posts sobre isso). Hoje foi Rocky Horror Show. Rocky Horror Show na televisao, sexta a noite, da para imaginar?

PS: melhor eh a sinopse. “The ultimate cult film. Two sweethearts find themselves in a party populated by aliens.” Em outras palavras, o estagiario da ITV pensou: “me recuso a fazer sinopse dessa porra. A historia nao tem pe nem cabeca e quem quiser ver ja sabe o que eh.”

Nao precisa nem dizer que me deu uma saudade danada do nosso casamento. Deve ter sido o unico casamento no Brazil ever a tocar time warp.

(aqui time warp eh carne de pescoco, ja vi ate piadinha no Spaced sobre isso)

Barbara e o NHS

Todo brasileiro que mora aqui na Inglaterra tem mania de falar muito mal do sistema de saúde inglês. Eu pessoalmente discordo de várias coisas que eles fazem (não se pode escolher o médico, socorro!), e concordo que o nosso atendimento de rico (digo, pagando plano de saúde tdo mês) no Brasil é melhor mesmo. Mas os dois sistemas têm coisas boas e ruins – a vantagem é que no Brasil eu sempre fazia o que eu quisesse, o exame que me desse na telha. E aqui não é tão fácil. Mas por outro lado é lógico que os pobres daqui são mais bem atendidos que os de lá.

Mas mesmo tendo dois pés atrás com os médicos daqui, quando o meu pé ontem começou a doer ensandecidamente, latejando e me impedindo de andar, resovi marcar o GP (clínico geral). Hoje fui lá, ele atrasou uns 20 minutos, fez um atendimento muito decente, mexeu no meu pé (a primeira coisa que faz um médico ser ruim, para mim, é quando ele não encosta em vc), me passou um antiinflamatório para cuidar dos sintomas e me mandou fazer exame de sangue para descobrirmos a causa.

O exame de sangue tinha que ser feito no hospital ali do lado. Fui andando em passo de velhinha até lá, esperei um pouco, tirei sangue com um moço muito simpático, depois fui manquitolando mais um pouco até a farmácia pegar o remédio (Cataflam, que aqui só se compra com receita – o esquema é interessante, vc paga 7 libras pela receita, independente do valor do remédio que eles receitaram). Uma hora e meia depois do horário marcado para a consulta eu já tinha resolvido tudo, e tendo sido atendida por pessoas atenciosas.

Ou seja, uma boa experiência.

Muito melhor do que no centro médico da Imperial (se tem alguém aqui indo estudar lá, talvez valha a pena se registrar perto de casa). Espero que eu continue tendo experiências boas (aposto que daqui a alguns meses eu vou acabar me irritando com alguma coisa e escrevendo um post revoltado – mas até lá…).

Agora é esperar o resultado e ver se a suspeita do médico (e da minha mãe, e do marido também) está certa. Qual a suspeita? Gota. Todos os meus sintomas, histórico familiar e um exame de sangue antigo levam a crer que pode ser gota, tem cabimento?

Isso é doença de homem, e velho (dizem que é doença de homem inteligente – pelo menos isso, né?). Mas como eu sempre digo, não se fazem mais jovens como antigamente. Nossa geração é toda estropiada mesmo.

(James Gillray – The Gout. Achei genial alguém fazer uma ilustração disso, e mais ainda a imagem ter virado um clássico. É aí mesmo que dói.)

A vida

Faz tanto tempo que não apareço aqui que nem sei muito bem por onde começar. Vou começar de qualquer lugar e terminar quando cansar, pois.

A vida vai bem (momento querido diário para aqueles que querem saber das novidades), não estou mais trabalhando full time porque o contrato era temporário e acabou (o que não é de todo ruim porque escrever sobre science policy oito horas todo dia é de amargar). Estou fazendo frilas e procurando um novo emprego bacana. O marido está trabalhando na DDB, e agora eu sou casada com um publicitário, veja só as voltas que o mundo dá!

A primavera está começando, mas não hoje que o dia está nublado e eu acordei com o barulhinho da chuva na janela. “Acordei” foi licença poética porque ninguém acorda com esse barulho. Você simplesmente se enfia mais fundo no edredon e aperta o snooze algumas vezes enquanto toma coragem para encarar o dia. Mas tem feito sol, e como nós não moramos mais no menor apartamento do Reino Unido, a casa fica bem iluminada, o que é ótimo para mim. Diferente do marido, eu não sinto falta do Rio, muito menos das pessoas (tirando, claro, família e alguns amigos). Mas sinto falta do clima, da luz, do sol, do calor, das noites quentes, do inverno fajuto, das chuvas torrenciais com trovoadas (claro que não é bacana quando tudo alaga e pessoa morrem), dos dias e noites do mesmo tamanho no inverno e no verão. E das cores fortes. Esse domingo estávamos no Hampstead Heath e eu reparei como as árvores aqui tem várias cores diferentes, verde claro, verde-claro-amarelado, verde-claro-mais-azulado, uma cor meio rosa, etc.


(essa é uma foto qualquer de Hampstead que peguei na internet)

Igualzinho às pinturas que eu vi a vida inteira (dã, é lógico, eram pinturas do povo daqui).

Mas eu bem que gosto daquelas cores fortes e exageradas da minha terra. Das frutas com gosto forte, dos pássaros coloridos. Tudo aí no Brasil é colorido exageradamente, e a luz é um exagero também. O marido curte tons pastéis, mas eu não.


(duas pinturas de Cezanne que eu achei, só para ilustrar as cores)

Mas em compensação, adoro os “cheiros pastéis” e os “sons pastéis” daqui. No Brasil tudo é muito mais alto e barulhento. Sobre os cheiros eu não sei, nunca tinha reparado, repararei quando for visitar. Mas só posso dizer que dia desses fomos a Elephant and Castle e minha nossa senhora, como tudo lá cheira! Não são cheiros ruins. Mas fomos no shopping que fica colado com o metrô e cada loja tinha um cheiro mais forte que a outra. Cheiro de madeira, de limpeza, de perfume, de comida, de fruta, de DVD, de sapato, sei lá.

Aliás, o shopping de Elephant and Castle É Copacabana. Uma daquelas galerias velhas, com lojas de roupas para velha, com barraquinhas pelos corredores, com lojas de cadeia exibindo o logotipo antigo (Boots e Marks and Spencer). Do lado de fora, o camelódromo, músicas misturadas, cintos de plástico, sapatos, montes de capa para celular, CD players, pilhas, essas coisas. A maior diversão.

Outra maior diversão foi ir ao cinema domingo de manhã, digrátis, e descobrir uma salinha foférrima, que em vez daquelas cadeiras desconfortáveis tem sofás! Eu tou há anos dizendo que alguém tinha que fazer isso no Brasil, que não faz sentido sair de casa e pagar uma fortuna no cinema se a experiência de ver filme em casa, no sofá, comendo e fazendo comentários idiotas durante o filme é muitas vezes bem melhor. Nesse cinema eles têm mini salas de 15 pessoas para alugar (onde dá para fazer comentários idiotas durante o filme). Nós fomos numa sala normal mesmo, ou seja, tínhamos que ficar calados como em qualquer cinema. Mas tinha sofás, com almofadinhas e tudo, e mesinhas e serviço de bar (caro, é lógico, mas não dá para ter tudo na vida, né?). Nas laterais da sala, sofás maiores com espaço para umas 3 ou 4 pessoas.

A sala pequena custa 200 pounds o aluguel por duas horas durante a semana. Isso dá 13 pounds por pessoa, o que é o preço de um daqueles cinemas infernais do West End, lotado, com fila e gente barulhenta. Ficamos loucos para organizar uma sessão fechada de qualquer porcaria só para a gente se sentir rico!

Bom, é isso da nossa vida aqui agora. Ainda não dominamos Londres (nem o mundo), ainda não ganhei o Pullitzer, ainda não estamos ricos (a gente só finge que é, indo a cinemas fofos de graça com promoção do Guardian), ainda não estamos magros e sarados (hohohoh), mas um dia a gente chega lá.

A identidade do imigrante enquanto expatriado

Fiquei feliz com os comentários do último post, de ver que o desabafo rendeu um começo de debate bem interessante, de ver como funciona ser imigrante em oturos luagres tão diferentes, de ver gente que eu nem conhecia fazendo comentários legais. Por isso resolvi retomar o tema da “identidade do imigrante” – parece até tese de sociólogo-que-gosta-de-pobre, né?

(antes que alguém pergunte, sociólogo-que-gosta-de-pobre é aquele tipinho intelectual que adora uma pobreza, um povo sofrido, que acha tudo isso o máximo, acha que tem uma poesia enorme em ser preto-pobre-favelado, em morar em barraco e ter caixa de papelão no chão em vez de tapete. Não são todos os sociólogos que são assim, mas tem um bom montão por aí. Não entendo porque não pesquisar TAMBÉM os ricos, os remediados, os mais ou menos)

Depois dessa breve disgressão, voltemos ao assunto. Respondendo ao “counter-post” da Letícia: você está certíssima em lembrar que ter nossas idiossincrasias “justificadas” pelo nosso imigrantismo é horrível. Mas eu nem lembrei desse lado da história, provavelmente porque aqui em Londres todo mundo é diferente e esquisito. As pessoas saem na rua vestidas de punk, de pin up, de qualquer coisa que dê na telha. Uma menina do meu escritório foi para a festa de fim de ano com uma roupa do seculo passado, botas, corpete, saião. Ela era a única assim em toda a festa. Conheço um menino de 6 anos que só anda vestido com roupas dos anos 40. Porque quer (antes ele se vestia de Elvis, a mãe adora a nova fase porque fazer topete todo dia dava muito trabalho).

Deu para entender que ser diferente aqui é coisa complicada, né? Para causar alguma comoção é preciso se esforçar muito, já que dificilmente alguém vai achar estranho pintar o aquecedor da casa de vermelho ou se escandalizar por uma mulher de 34 anos namorar um cara 10 anos mais velho com uma filha de 18 (caso da minha amiga italiana de Perugia).

Além disso quase ninguém é daqui, e ainda por cima existem zilhares (zilhar é o que vem antes do zilhão) de brasileiros na cidade, então as pessoas sabem mais ou menos como são os brasileiros, e principalmente que brasileiro não é tudo igual.

Certamente se eu estivesse em Bastia minha percepção do meu imigrantismo seria completamente diferente.

Já Sandro, você comentou que basta se cercar de pessoas legais que está tudo bem. Eu pensava assim quando estava no Rio, mas mesmo assim é um saco ficar tentando descobrir quem são as poucas pessoas que têm a ver com vc no Rio. Eu achava quase todo mundo profundamente idiota. Eu saía da sala quando passava Big brother pelo simples fato de que eu tinha passado a minha vida inteira tentando fugir daquelas pessoas. Não é bacana ter poucas pessoas que vc gosta e se dá bem.

Não que aqui todo mundo seja genial (vide os Big brothers daqui, que tambem são de amargar, e as pessoas que saem para a night em Leicester square). Mas acho que o ruim aqui é menos pior. Tem mais gente razoável. Ou não.

Pode ser que eu pense diferente daqui a um ano.

Mas eu me sinto mais leve aqui. Talvez porque não exista um padrão muito rígido para nada, e exista um certo climão de “anything goes” no ar.

Mas que ninguém se engane: tem quem diga que o inglês parece fofo e sorridente, mas te apunhala pelas costas. Até agora ainda não passei por isso mas é sempre bom ficar esperta…