Uma coisa que eu preciso aprender

Ignorar e/ou cortar pessoas loucas no começo de seus discursos.

Não, não estou falando dos doidos de rua, dos malucos beleza, dos velhos que te alugam na rua para falar alguma coisa sem pé nem cabeça. Tou falando daquelas pessoas que do alto das suas agendas (seus traumas ou problemas pessoais ou sei lá o quê) se acham no direito de cagar regra e julgar você e fazer discursos de como você deveria viver a própria vida.

Hoje eu fui numa sessão de couselling para falar sobre um assunto específico que anda me preocupando e fui obrigada a gastar boa parte do tempo justificando minhas decisções na criação do Jonas. Oi? Por quê mesmo? Eu pedi opinião? Então por que isso aconteceu?

Por que fui pega desprevinida. Porque baixei a guarda (era uma sessão de counselling, lembra?). Porque, ao invés de tantas outras vezes, não tive a lucidez de dizer “Não, eu não faço isso com meu filho” seguido de uma cara de ponto final que não deixa espaço para réplica. (Essa é a minha resposta padrão para todas as sugestões de deixar ele chorar até dormir, de que eu tenho que desmamar, e de basicamente qualquer doida que leia Gina Ford. Normalmente a outra pessoa imediatamente percebe qual o seu lugar e cala a boca).

Mas hoje dei mole.

Foi mais ou menos como naquela vez que a amiga maluca do Marido veio me atacar num espasmo de fúria dizendo que eu estava errada em querer viver fora do Brasil. Que eu tenho raízes! Que isso era um absurdo! Bla bla bla!! A louca pegou todos os problemas pessoais da vida dela e transformou num discurso peçonhento contra MIM. E eu não consegui sequer responder, de tão surpreendente que foi o ataque. Para piorar, eu estava na casa dela.

Em que país morar é uma decisão absolutamente pessoal, cada um sente as coisas de um jeito e todos esses jeitos são válidos e legítimos e devem ser respeitados. Tem gente que acha ótimo sair da Holanda para morar no Rio Comprido, e esse camarada tem que ser respeitado, não? Mas vai conseguir pensar numa resposta qualquer no meio de um ataque-metralhadora-giratória de uma mulher enfurecida com sei lá o quê.

E para completar teve aquela conhecida que teve uma infância difícil, mãe com problemas sérios que precisava ser cuidada pelos filhos em vez de cuidar deles, veio me fazer um discurso de como a minha relação com a minha mãe superprotetora não era saudável. On and on and on, como se ter uma mãe superprotetora fosse a pior coisa do mundo.

“Oi? Bacana mesmo é ter uma mãe que nem a sua, ne? Que inveja da sua infância e da sua mãe autocentrada, incapaz de botar os filhos em primeiro lugar. As merdas que a minha mãe fez foram feitas tentando acertar. Não podemos dizer o mesmo da sua.” Foi aquela resposta que ficou rodando na minha cabeça por muito tempo depois.

Não, eu não consigo sublimar. Não consigo pensar “Elas têm os problemas delas e estão jogando suas frustrações em cima de mim porque são infelizes, coitadas. Vou ser superior.” Na verdade, devo conseguir, às vezes. Mas essas vezes provavelmente ficaram para trás, esquecidas.

Então posso tentar ficar mais atenta ainda para não ser pega desprevenida nesse tipo de de situação. Talvez fazer uma lista de palavras-chave relacionadas aos asssuntos com mais potencial de dar merda. Ou identificando rapidamente o tipo de mulher maluca capaz de fazer esse tipo de discurso cagador de regra (porque eh sempre mulher?).

(Mas veja bem: eu tenho amigas que criam seus filhos de maneira ABSOLUTAMENTE diferentes, discordo de tudo que elas fazem (e vice versa) e a gente não estressa. Tenho até amigos religiosos (de verdade) e a gente consegue se dar bem. O problema não são as pessoas com opiniões diferentes, mas sim as criaturas frustradas, infelizes e sem respeito.)

A terceira opção é simplesmente aceitar que de tempos em tempos isso vai acontecer. Eu vou baixar a guarda, vou dar mais conversa do que deveria e vou ter que ouvir um discurso desses, e ter mais uma história pra contar. Aí vou me lembrar, me esquivar de outras tantas loucas, e assim sucessivamente.

PS: Eu estou numa daquelas fases da vida que eu quero que me deixem em paz. Quero ficar quieta na minha. E ando também meio ultra sensível.

Isso explica os desabafos sem pé nem cabeça dos últimos dias?

Sobre grandezas e pequenezas (mais destas, menos daquelas).

Isso nunca tinha acontecido antes: esqueci a senha desse blog. Mas como se pode ver, lembrei. Um dia esqueço de novo.

Estava a fim de escrever um post numa vibe meio Clarice Lispector, mas acho importante esclarecer que estou falando da Clarice Lispector que vive na terra das minhas opiniões, aquela mulher confusa que escreve textos que começam do nada e acabam em lugar nenhum passando por algumas questões filosóficas e muitas pequenezas cotidianas. Aquela que escreveu o livro da barata que eu detestei mas li até o final.

Que na verdade, talvez eu devesse até ler de novo, agora que sou mulher doméstica e mãe e cheia de pequenezas, quem sabe eu até entenderia ela? Porque é justamente sobre isso que eu tou pensando furiosamente hoje. Sobre aquele processo pelo qual a gente tem o mundo pela frente e idéias grandiosas quando tem 15 anos, e aos poucos sem que você perceba tudo isso é soterrado por fazer comida, pendurar roupa, dar comida pra filho, limpar a sujeira, colocar roupa na máquina, já ta hora de outra refeição, de tirar a roupa da máquina, limpar mancha de lápis de cera do carpete, fazer contas, pagar contas, se preocupar com dinheiro, trocar roupa na loja, fazer o registro de self employed junto à Receita Federal da rainha, essas coisas.

E onde ficaram as idéias grandes? Os sonhos grandes? Eles vão sendo lavados e carregados, ficam para depois de passar o paninho para tirar os farelos da mesa, dar atenção pro filho que te puxa do computador para você brincar com o trenzinho ou para pular na cama. Sempre depois.

E fico pensando que esse é o trabalho mais importante que eu já tive na minha vida, mas às vezes é fácil perder isso de vista. Morro de inveja daquelas pessoas que sabem realmente viver a beleza da rotina, dos pequenos momentos, que sabem que brincar com o trenzinho e servir comida feita em casa pruma criança é o que importa. Ter um emprego aleatório fazendo planilhas ou apresentações ou escrevendo notícias que serão esquecidas daqui a dois dias – não, isso não importa. Eu tenho a sorte de não precisar fazer malabarismos mentais para tentar me convencer do contrário todos os dias, ao sair de manhã e voltar à noite para casa.

Mas esse trabalho tão importante é feito de pequenezas. Pequenezas irritantes e que isoladamente são, de fato, desimportantes. Mas que se acumulam e se agigantam de uma forma que um milhão de notícias irrelevantes acumuladas ao longo de uma carreira jamais se agigantarão.

E a recompensa é muito diferente. No meu emprego bunda eu todo mês recebia na minha conta um dinheirinho que servia para entorpecer a frustração. Aí eu saía e comia num restaurante ou comprava alguma coisa e entorpecia mais um pouco. Nos meus frilas, o pagamento é pior ainda. Mas eu escrevo sobre o que eu gosto, e tenho desculpa para ir a lugares e fazer perguntas a pessoas. Isso é parte do pagamento também.

Porém, na função de mãe a recompensa é um sorriso, é dormir abraçada (o que inclui as acordadas de madrugada…), é ver que o Jonas é um garoto feliz, seguro e tranquilo, que passa o dia fazendo bagunça e rindo. E na função de dona de casa a recompensa é… praticamente nenhuma, porque por mais que eu faça a casa tá sempre uma zona.

Mas o ponto é que aquela pessoa de 15 anos que ficava ouvindo Milton Nascimento e Chico Buarque e se vestia de hippie e tinha sonhos gigantes ainda tá aqui dentro (o cabelo despenteado dela continua na minha cabeça). Ela ia para a escola todo dia e estudava matérias que ela achava irrelevantes na época e passava o dia jogando conversa fora e rindo e achando que tinha a vida pela frente e que tudo ia ser ótimo e grandioso – e hoje em dia eu tenho a vida pelo meio, e ela é boa, mas de uma forma suave para a qual, falando a verdade, eu não tava preparada.

Aquela menina continua aqui dentro, gritando, querendo aquela vida que ela esperava, felicidades gigantes, conquistas imensas, e não entende que um acúmulo de mini conquistas é uma imensidão (experimenta explicar isso para alguém de 15 anos).

E de tempos em tempos ela grita mais alto, e eu sou obrigada a ouvir, e tento dar uma satisfação, mas não sei se um dia ela vai crescer (ou envelhecer, não sei bem). Acho que tem gente que nunca entende e nunca vive de verdade essa tal da beleza da rotina (que é bela, é sim, eu sei. Tem dias que vejo essa beleza muita clara na minha frente). Essas pessoas terminam de duas formas: soterradas em frustração ou finalmente alcançando essa tal grandeza dos sonhos de antanho. E aí, depois que elas alcançam essa grandeza – será que ela é grande vista de dentro?

(e por que de tempos em tempos eu escrevo esse mesmo post, com leves diferenças, e nunca consigo superar essas questões?)