Pelo direito de ser chata / Natal

Dia desses me peguei pensando: “Barbara, você devia ser menos uptight, menos estressada. Em vez de ficar o tempo todo pensando no que deveria fazer, você deveria aprender a relaxar, deixar as coisas rolarem um pouco, sabe? Você fica o tempo todo tensa, correndo de um lado pro outro que nem o urso do Picapau, mude isso, mulé. Coitado de quem está por perto, assim você é insuportável.”

Mas aí logo em seguinda uma pergunta me ocorreu: “Por quê, mesmo?”

Pois é, não sei. Pensa comigo. Eu passo o tempo todo estressada, pensando no que devo fazer, tentando fazer coisas em todos os intervalinhos que tenho. No meio dessa maluquice até que consigo fazer um tantinho das coisas que quero. Poderia correr de um lado pro outro um pouco menos, mas estou melhorando. Mas veja bem, mesmo assim não consigo dar conta de tudo. E ainda vou relaxar? Ser mais tranquila? Macomo, meudeusdoceu? E depois? Começar a jogar world of warcraft? Comprar a caixa com todas as temporadas de Friends?

Então às vezes penso que eu relaxasse eu seria menos chata. Uma pessoa menos uptight é uma companhia mais agradável, naturalmente.

Mas aí de novo: para que mesmo?

Mas admito. Eu devia levar as coisas menos a sério. Esse post aqui, por exemplo. É se levar a sério demais, né não? Defender o próprio direito de ser uma pessoa insuportável? E estressada? Céus, que tipo de pessoa faz isso?

Deve bem haver no mundo alguém que seja relax, interessantérrima e bacanérrima e produtivérrima ao mesmo tempo. Mas eu não tenho a manha, sabe? Minhas amigas mais produtivas que fazem infinitas coisas bacanas não são relax e tranquilonas. Elas não jogam jogos nem vêem séries. Elas não têm blogs, uma nem tem twitter (elas jamais perderiam tempo escrevendo sobre o fato de serem uptight, por exemplo. Sequer pensando no assunto. Elas estariam fazendo coisas). Elas são aquele tipo de pessoa que você chama no gtalk e elas estão, adivinhe só, fazendo alguma coisa e normalmente não podem jogar conversa fora por mais de 10 minutos.

Elas são moças focadas. Eu queria ser focada. Talvez focada sem ser uptight. Mas essa coisa bonita de ser tranquilona e relax e deixar as coisas rolarem acho que só funciona se você morar em Mônaco, vier de uma família centenária e tiver gente para se preocupar com as pequenezas por você. Ou tiver um cônjuge ou PA (personal assistant, um dos piores empregos do mundo na minha opinião) que seja uptight e estressada para que você possa ficar com a parte charmosa da coisa.

Se alguém tiver alguma dica de como ser produtiva sem ser estressada e chata, eu aceito de bom grado.

(pensar menos nas coisas? Fazer em vez de ficar pensando? Nhé, já tentei. Tento sempre. Também não tenho a manha.)

PS: O Natal foi ótimo, thanks for asking. Espero que vocês também tenham tido um Natal fantástico – apesar da aleatoriedade da data para quem não é católico, é sempre bom ter um dia para reunir a família e comer comidas bacanas.

Sabe, eu já pensei em instituir aqui em casa um jantar de Thanksgiving, pelo simples fato de que acho bacana fazer um evento para agradecer as coisas. É bonito, né não? Em vez de pedir, agradecer tudo que a gente tem. Mas Marido não se emocionou, achou meio sem pé nem cabeça adotar uma tradição aleatória de um país que não tem nada a ver com a gente, de pilgrims que não nos dizem respeito. No que, convenhamos, ele tem razão. Mas tergiverso. O que eu queria era dizer que Natal para mim é tão aleatório quanto, mas que eu curto datas e rituais e celebrações.

(e se a gente parar para pensar, nem é tão aleatório agora que estamos aqui. A festa originalmente celebra o solstício do inverno e para quem está na Inglaterra com o dia terminando às 3 e meia da tarde, passar pelo dia mais curto do ano e saber que agora só vai melhorar é razão suficiente para comemorar)

Instintos distintos

Era uma vez (quando eu era pequena) uma época em que os bebês eram colocados para dormir de barriga para baixo, por alguma razão que eu desconheço mas que era recomendada por todos os médicos.

Alguns anos depois, fica decidido que botar bebê de bruços para dormir é pior que bater na mãe. É um risco de vida, bla bla bla. Então a gente deve colocar a criança de barrigão pra cima, dizem todos os profissionais competentes e instituições de saúde.

Mais alguns anos depois, descobre-se que as crianças que dormem de barrigão para cima morrem menos, de fato. Mas engatinham menos, andam mais tarde, etc etc. No longo prazo, isso leva a um atraso generalizado no desenvolvimento (aos 8 anos elas têm QI mais baixo, veja só!).

Então, na verdade, é bom deixar a criança de barriga para cima, mas só quando estiver dormindo. Quando estiver acordada, tem que deixar muito tempo de barriga para baixo.

E isso é o que se diz hoje, em dezembro de 2010 (essa matéria da Salon conta a história melhor que eu). E eu fico aqui pensando que os filhos do Jonas provavelmente vão dormir de barriga para baixo de novo – ou de ponta cabeça.

É por essas e outras que em assuntos de saúde eu cada vez mais ignoro orientações médicas, pesquisas científicas, etc e, depois de uma pesquisa básica, faço o que me parece certo. Porque quando se trata de algum assunto um pouquinho mais complicado é impossível existir consenso. E eu prefiro errar seguindo meus instintos do que obedecendo pitaco de um médico aleatório ou de uma orientação da OMS ou do NHS, feita na lógica “one size fits all” e que não necessariamente é o melhor para o meu caso específico (ando com uma birra incrível desses guidelines mundiais/nacionais).

Ter estudado história da ciência e filosofia da ciência na (cientifissíssima) Imperial College só contribuíram para eu chegar a essa conclusão, assim como todas as pesquisas sobre parto que fiz quando estava grávida [concluí que ninguém sabe nada direito mesmo e meu próximo filho vou parir no Hampstead Heath, no meio do mato (quando digo isso marido sempre comenta que vou ser eu parindo numa moita e o George Michael fazendo dogging na outra - a área é famosa para dogging à noite - prefiro não imaginar a cena)].

Talento

Ah, vocês nem ligam que eu não atualizo isso aqui, né não? Os pouquíssimos leitores que sobraram lêem os meus raríssimos posts pelo rss que eu sei. Então nem me apoquento mais e nem me preocupo que tenha alguém vindo aqui e dando com os costados n’água (se tem, mil perdões, eu sei o quanto isso é irritante – e meus parabéns pela insistência, você deve ser uma pessoa muito persistente e vai se dar muito bem na vida).

E no meio da minha vida de full time mama estou escrevendo o tal do livro que já falei aqui. Três parágrafos por dia, coisa assim, escrevendo qualquer coisa desde que a história ande para a frente, e repetindo para mim mesma que depois posso reescrever tudo porque é lógico que a primeira versão vai ficar ruim.

Uma coisa que – quase – não me preocupa é a questão do talento. Já que não tenho controle nenhum sobre isso, costumo ignorar essa variável. E para me animar, leio histórias de escritores que chegaram lá à custa de esforço, insistência, teimosia. É bom ler os livros que esse povo escreve e pensar o bom e velho “eu faço melhor” ou mesmo “eu sou capaz de fazer uma coisa desse nível. Se esse livro bombou então eu ainda tenho esperança.” Porque eu acredito, mesmo, no fundo do meu coração, na persistência sem talento.

Mas tenho que ter em mente que se eu quiser terminar a bodega do livro é bom me ater ao povo do meu nível. Porque esqueci e comecei a ler V de Vingança hoje (nunca tinha lido) e aí comecei a minhocar que meu futuro distópico não era tão bacana, que eu queria saber fazer personagens tão legais, que minha história não tem um pingo da intensidade do que eu estava lendo.

Pombas, Barbara, é o Alan Moore! Deixa o cara para lá. Pega alguma coisa dos seus role models (sem citar nomes, mas aquele povo que vende horrores mesmo não sendo genial) e manda bala.