Escritores deprimentes

Sabe, eu nutro um certo desprezo por escritores amadores. Aquele camarada que nunca teve nada publicado, mas tem uma idéia na cabeça, e está lá, escrevendo ou tentando escrever um livro que provavelmente vai ficar medíocre (porque a maioria de qualquer coisa no universo é medíocre, é justamente isso que a palavra significa), que provavelmente não vai ser publicado, e que quase que certamente vai ter jeito e cheiro de amadorismo (até porque eu acredito na importância fundamental de um editor, e a maior parte dos livros escritos no mundo não são editados nunca porque 1 – nenhum editor se interessa por fazer isso 2 – o escritor amador é arrogante e burrinho o suficiente para achar que não precisa de editor. Normalmente são as duas coisas).

Aí o escritor amador fica às voltar com seu plot, seus personagens, tentando fazer a história encaixar e dar certo,tentando desenvolver uma cena ou achar o final certo para sua trama, aquela trama pela qual ninguém no universo se interessa além dele mesmo. E sofre com isso, e esse sofrimento todo tem uma camada trágica extra que é a provável ruindade da coisa. E mesmo que a não seja ruim, a não-publicação é mais provável do que a publicação. Então o processo toda é meio triste e deprimente, apesar de ter um quê de heróico. Bom, mas nada impede heróis de serem tristes e deprimentes e no final das contas darem com os burros nágua.

E eu tou contando isso agora porque nos últimos meses eu saí do time das “pessoas que têm um livro na cabeça e nunca escrevem” para o time dos “escritores amadores sutilmente deprimentes.” Acho que estou fazendo progresso. Mas não deixo de me sentir um tanto self conscious da ridiculidade do processo todas as vezes que me pergunto, afinal, qual a motivação desse personagem? O que ele quer? Qual o conflito da história?

Me sinto ridícula, patética, igualzinha ao camarada que descrevi ali em cima. Com um medo horrível de escrever uma história constrangedora como a maioria das histórias escritas no planeta são. Porque eu sei que a idéia é boa. O mundo que eu criei tem potencial. E potencial é o assassinador de idéias. Eu tou justamente naquele ponto em que um pouco de falta de senso de ridículo me ajudaria a escrever o raio da coisa. Mas ele não me larga.

(hm, escrever sobre isso está me fazendo sentir menos ridícula. Eu tenho que vestir a carapuça do herói deprimente e ir em frente. Ninguém nunca morreu por ser um pouco ridículo – ou, em última análise, por escrever um livro constrangedor. E se é assim, constrangê-los-ei, pois)

O primeiro resfriado de Jonas

Ontem Jonas teve o primeiro resfriado. Passou o dia com coriza, o olho esquerdo meio inchado e lacrimejando (só o esquerdo, vai entender), com olheiras, mas de resto animadíssimo e pulante como sempre. E eu preocupadíssima com a noite – como que eu ia dormir se toda vez que ele deitava, em 5 minutos o nariz entupia e ele acordava desesperado?

No final das contas a coisa se resolveu bem satisfatoriamente: coloquei o mocinho no baby carrier e dormi sentada na cadeira Poang da sala (assim ele fica praticamente de pé), com algumas horas na cama (onde ele conseguiu dormir deitado um pouco). Parece que o mocinho passou a noite muito bem, e eu dormi razoavelmente (a parte da cadeira parecia noite em avião, quando você acorda desconfortável mas volta a dormir toda torta, sabe?).

E então por enquanto é isso, primeiro resfriadinho e sobrevivemos bem (eu estava prevendo uma longa noite de choro. lágrimas e ranger de dentes, principalmente da minha parte)! Agora vamos para a segunda noite. Estou escrevendo isso com ele pendurado em mim, já dormidíssimo.

(e bora torcer para demorar muito até ele ter alguma doencinha de verdade, já que essa pelo visto está sendo só treinamento – aliás, não dizem que criança mamante não fica doente? Quero meu dinheiro de volta!)