Normalmente eu gosto de ler sobre os partos das pessoas (antes porque achava que ia me ajudar a me preparar – hoje porque me tornei totalmente interessada no assunto) então vou tentar contar a história do parto do Jonas cronologicamente. É bom também para eu lembrar dos detalhes.
Não escrevi sobre isso antes minuciosamente porque fiquei meio chateada com o jeito que as coisas aconteceram. Hoje, depois de 3 meses, fica mais fácil relevar o que não correu do jeito que eu queria e, principalmente, entender que apesar dos percalcinhos, eu tive um parto ótimo e tenho que agradecer à Nossa Senhora do Bom Parto pela minha sorte. Digamos assim: as pessoas não dizem que algo “é um parto” por nada. Mesmo um parto bom continua sendo “um parto.” Digamos que eu ainda não tinha noção completa disso.
Pois bem. Na sexta feira, 30 de abril, um casal de amigos veio jantar aqui em casa, e eu passei o jantar sentindo umas contrações. Nada demais, tipo cólica de menstruação, um pouco mais forte. Elas vinham em intervalos, e eu comecei a sacar que era o trabalho de parto mesmo, mas não contei para ninguém. Estava feliz de estar me distraindo e conversando em vez de ficar pensando na coisa. Depois que eles foram embora consegui dormir por uma hora e pouco, mas depois as contrações ficaram fortes demais para dormir.
Liguei para o hospital, eles tentaram me convencer a encher a banheira e ficar em casa, mas eu não tinha a menor noção se aquelas contrações já estavam fortes ou não. Eu tinha medo de ficar em casa e deixar para ir pro hospital tarde demais (wishful thinking? Claro!). Além disso, eu queria sossegar e ficar logo no lugar definitivo, em vez de ficar pensando que ainda teria que ir pro hospital.
Chamamos o taxi, pegamos uma penca de bolsas e fomos. Vou te dizer que andar de carro com contração é chato. Esperar elevador com contração é muito chato. Ser examinada antes de ser mandada para algum lugar é desesperador. Eu estava com 2 a 3 centímetros e eles ensaiaram me mandar de volta para casa (o que teria sido ultra desesperador). Como as contrações já estavam vindo de 5 em 5 minutos, resolveram não fazer isso.
Sinceramente, esse papo de “ficar o maior tempo possível na sua casa em vez de um quarto de hospital” para mim não cola. No próximo parto eu vou querer meu quartinho de parto quando as contrações começarem. Não tem essa de não ser a minha casa – na minha cabeça o que importava era ter um lugar para me aboletar até tudo acabar, e não ter que ficar pensando em carro, elevador, ficar em pé, ter que me comportar que nem gente quando tudo que eu queria era me contorcer à vontade em algum lugar reservado.
Nessa hora me disseram que o Birth Centre, onde tem os quartos de parto humanizado e a banheira de parto, estava todo ocupado. Tenho certeza que era mentira, mas na hora isso nem me passou pela cabeça. Me fizeram ir para uma sala de parto normal no labour ward. Até hoje, quando alguém me conta que pariu em um quarto com luz fraquinha, banheira, banquinho para ficar de cócoras e bolas de pilates eu tenho vontade de mandar a pessoa para aquele lugar, dizer para ela enfiar as bolas e a banheira e o aromatizador, tudo naquele outro lugar. Irracional, eu sei. A mágoa vai passar o dia que eu conseguir parir num lugar fofolete desses mas por enquanto, por favor, não jogue sua música ambiente e sua luz suave na minha cara, por caridade.
Então eu fui para uma banheira normal, o que ajudou por um tempinho e logo não ajudou mais. As contrações doem muito! E eu me apavorei. Nessa hora comecei a pensar que seriam horas daquilo, que eu não ia aguentar, que ninguém ganha prêmio por sofrer, que eu não queria mais parir sem peridural. Provavelmente o medo fez a dor ficar pior, mas isso nem me passou pela cabeça na hora. Todo o meu treinamento e livros que eu li e técnicas de respiração e de relaxamento foram por água abaixo. Ninguém tinha me explicado que você precisa de uma força mental absurda para conseguir usar essas técnicas na hora H.
Meu medo maior era ficar cansada demais pro pushing, já que eu não ia dormir aquela noite. A midwife tentou me convencer a usar pethidine, que é uma injeção de um opióide (se não me engano), que deixa você meio grogue e dá para dormir entre as contrações. Pethidine era uma coisa que eu jurava que não ia usar, porque a droga passa pro bebê – inclusive, não é recomendável quando o trabalho de parto já está avançado, porque o bebê pode nascer meio grogue, o que eu acho uma idéia apavorante. Eu tinha para mim que era preferível ir direto para a peridural do que usar isso.
Assim sendo, adivinha o que eu fiz depois do papo com a midwife? Aceitei a injeção de pethidine! A idéia de dormir um pouco foi tentadora e convenhamos, eu não estava pensando muito claramente naquela hora. Saí da banheira e fui para a cama ser examinada para confirmar que eu estava com menos de 5 cm de dilatação e que o trabalho de parto ainda estava no começo. Mas aí a midwife disse que eu estava com 8 cm, adiantada demais para a injeção.
Nessa hora ela rompeu a minha bolsa, sem me dizer o que estava fazendo. Quando eu perguntei o que ela estava fazendo ela não respondeu. Até hoje fico puta de lembrar disso, da maneira com que as midwives tratam a gente como criança. Se tem uma coisa que me tira do sério é sentir que não estão me respeitando. Talvez eu já estivesse usando o gas and air a essa altura, porque a imagem da midwife rompendo a bolsa é meio enevoada, tipo um pesadelo.
Gas and air é um gas que você vai inalando e te deixa meio grogue e relaxada. Algumas pessoas acham que dá náusea, mas eu achei ótimo. Ainda pedi a anestesia mais uma vez, mas segundo a minha mãe depois de um tempo eu parei. Essa história de me enrolarem para eu não tomar anestesia me magoou, porque eu estava com medo, e parece que ninguém respeitou isso (já falei isso no outro post). Eu fiz o parto com plantonistas, então não tinha nenhum profissional de confiança comigo. Pelo visto, é assim mesmo que eles agem aqui, tratando a mulher que está parindo como se ela não fosse uma adulta. Não interessa que é uma adulta em uma situação extrema – é uma adulta, pombas!
Bom, vivendo e aprendendo, agora eu já sei que da próxima vez se me contrariarem eu vou ser agressiva. Não se pode prender uma mulher em trabalho de parto, o que me dá justificativa para ser “medieval with the midwife’s ass.” Hoje eu fico imaginando que se eu mordesse uma midwife, por exemplo, não poderiam fazer nada comigo. Vou lembrar disso no meu segundo parto. E vou lembrar também que eles evitam a qualquer custo procedimentos caros e que necessitem de médicos (tais como anestesias ou cesarianas, dando preferência a forceps, por exemplo) e que se for o caso tenho que insistir com unhas e dentes literais. Enfim, deixemos os próximos partos para depois – estamos hoje falando do nascimento do Jonas, e não do Jonas’s Brother ou da Jonas’s Sister (piadinhas com Jonas Brothers são impossíveis de se evitar agora, fazer o quê?).
Fiquei lá na cama, apoiada na cabeceira, numa posição meio de cócoras, pendurada no meu gas and air e sentindo contrações e tomando água por algum tempo indefinível. Em algum momento a midwife em algum momento tentou fazer massagem em mim e eu gritei entre dentes “Don’t touch me!” Lá pelas tantas me disseram que eu devia fazer xixi, fui ao banheiro, mas o Jonas já estava muito baixo e eu não consegui. Bom, já que é para ser escatológica, vamos de uma vez. Eu achava que tinha feito xixi antes, na cama mesmo, mas era o líquido amniótico saindo. Tentaram colocar um cateter em mim, mas não conseguiram. Esse detalhe parece horrível mas acredite, um cateter nessa hora é o menor dos seus problemas.
E aí eu gritei que não aguentava mais. E imediatamente lembrei que é exatamente o que as mulheres dizem antes de entrar na “transição,” que é a passagem para o estágio seguinte, a expulsão (o bom e velho “pushing”). Dito e feito. Nessa hora o seu corpo começa a ter vontade própria e parece que você está com vontade de fazer cocô. Mas isso eu já sabia também (aqueles livros todos sobre parto não foram 100% inúteis, afinal). A força que você faz para parir não é uma coisa “vaginal,” como disse um dos livros. É um esforço conjunto dos países baixos. Sabe quando você tem ânsia de vômito, que dá aquela sensação de “glé!” tipo uma contração na garganta? Pois é, é a mesma coisa, só que lá embaixo.
E aí é só diversão. Me fizeram deitar meio inclinada, e eu reclamava que não queria parir com as pernas nos stirrups, e eu tentava ficar de lado, meio de banda, em qualquer posição que não fosse a clássica (só conseguia imaginar que se eu ficasse de costas como uma tartaruga emborcada o meu períneo ia arrebentar todo). E aí a midwife, que já era outra, não a arrebentadora de bolsas, me berrava para fazer força, e eu não queria fazer força, queria deixar o bebê sair naturalmente como reza a cartilha do parto natural e humanizado (que, só lembrando, não era bem o que estava acontecendo ali, já que eu não estava com midwives humanizadas nem no maldito quarto de parto humanizado).
E eu fazia força, e lá pelas tantas a midwife disse que não estava mais ouvindo o coração do Jonas – ela não disse que o coração estava devagar ou qualquer coisa assim, o que seria preocupante – ela só disse que tinha perdido o contato com o coração dele, então não sabia como estava, e por isso eu tinha que fazer ele sair o mais rápido possível. Hoje eu já não sei se essa história foi verdade ou se ela queria me assustar para eu fazer o push do jeito que ela queria. Perceba como é bacana fazer um parto com profissionais nos quais você não confia, não é mesmo?
De uma forma ou de outra, funcionou, e eu comecei a fazer força do jeito que ela queria – desesperadamente. Eu sentia queimando lá embaixo (mas eu também sabia que isso era normal). Eu lembro que doeu, mas não sei dizer como. É engraçado, eu lembro direitinho da dor das contrações, que subia pelas costas e tal, mas não lembro mesmo da dor da expulsão. Uma das forças doeu muito, e foi a única vez que eu gritei (ou grunhi mais alto, não me pergunte). E eu forçava, forçava, e segundo minha mãe e Hiro, a cabecinha dele ia saindo, saindo, e quando eu respirava ele entrava de novo. E vai! força! Só mais um pouco! está quase lá!
E eu fiz um forçãããããão e…
“Isso! Ótimo! Saiu a cabeça!”
“O queêeeeee? Só a cabeça????
Putamerdacaralho como assiiiiim????? quer dizer que ainda tem que sair os ombroooooossss?” Eu queria matar alguém, mas obviamente não falei nada disso. Eu não falava e nem sequer abria os olhos, para não gastar energia nem desconcentrar.
Segundo Hiro e minha mãe, aquela cabecinha ficou ali de fora um tempinho e aí eu fiz mais força e os ombros saíram e depois…
Blrrrlllrrrr” Saiu o resto do rapaz, e tudo queimava nas partes baixas, e ele chorou, e eu vi ele aos berros e fiquei tão aliviada de ele estar chorando e estar bem, e vi ele botando o bocão no mundo e a boca estava cheia de sangue, e eu perguntava “que sangue é esse?” e o Hiro dizia que era o meu sangue, não era sangue do bebê não, que estava tudo bem, e colocaram ele peladinho sobre o meu peito, por dentro da minha roupa, e eu fiquei lá, toda boba, e acho até que ele foi pro peito nessa hora. Ele não estava coberto daquele queijo que fica em volta dos recém nascidos, depois me disseram que deram uma limpada nele com uma toalha quando ele saiu (deve ter sido por isso que ele chorou, mas eu nem reclamo porque ninguém pode imaginar o alívio que eu senti quando ouvi ele se esgoelando e soube que estava tudo bem).
E nessa hora me lembraram que eu ainda tinha que parir a placenta e eu queria morrer. Tudo que eu queria era deitar em posição fetal e ficar quietinha mas não, eu tinha que fazer força para botar a placenta para fora! Eu inicialmente (digo, antes do parto, quando ainda estava no conforto da minha casa) queria expulsar a placenta naturalmente (em vez de tomar uma injeção que faz o útero contrair) mas aí argumentaram que se eu tomasse a injeção eles podiam puxar a placenta em vez de eu ter que fazer força. “Dá a injeção então!” A injeção também ajuda a parar a sangueira, o que foi bom para aplacar o medo da minha mãe de que eu tivesse uma hemorragia (minha mãe, coitada, a essa altura do campeonato já estava verde). Como eu tinha tido anemia durante a gravidez, uma injeção de vasoconstritor me parecia uma boa. E eu segurava o Jonas e sentia o cordão umbilical lá por baixo, o que é uma sensação muito estranha (o que não quer dizer muito porque, covenhamos, todas as sensações naquele dia foram estranhas).
Mesmo assim tive que fazer uma forcinha. Um mini “Brllrlrlrlr” de novo e a placenta saiu. Parecendo um fígado gigante. E aí acabou, né não? Não. Faltavam os pontos (e faltava eles colocarem o cateter para aí então eu esvaziar a bexiga, o que aconteceu em algum momento que eu não lembro quando foi). Antes dos pontos eles até que me deram um tempinho para eu ficar de pernas fechadas um pouco (foi bom para variar) e aí começou. Bota as pernas para cima, toma injeção de anestesia local e vamos lá. E logo depois de a midwife começar chegou uma chefe das midwives e começou a supervisionar a coisa e foi ótimo, porque a moça, que era uma chinesa, foi ultra cuidadosa e lá pelas tantas pegou a agulha ela mesma e basicamente bordou a minha perereca toda. A coisa levou horas, a ponto de o efeito da anestesia passar, eu pedir mais uma e essa segunda começar a passar também (mas aí eu não falei nada porque não queria apressar a moça – melhor que eu sentisse mas que a coisa ficasse bem feita). Nos dias seguintes ao parto agradeci muitas vezes à chinesa bordadeira, porque não senti ardência nenhuma, desconforto nenhum, nada.
[ah sim, um parêntese rápido: para quem estiver lendo isso e ficar terrivelmente horrorizado, vale lembrar que tudo é muito extremo num dia desses. Uma anestesia local que seria péssima num dia normal não é absolutamente nada nessa hora. São muitas emoções, muitos hormônios, muito amor (hahaha, não aguentei). É seu filho que está nascendo, então vale colocar as coisas em perspectiva. Sabe o vórtex da perspectiva total? É tipo isso]
E durante os pontos eu continuava agarrada com o meu tubinho de gas and air (que tinha largado para a parte do pushing) mesmo com o povo dizendo que eu não precisava mais dele – não precisava, mas eu queria! Queria era levar para casa um tubo daqueles. Jonas estava sendo vestido pela minha mãe e pesado enquanto Hiro supervisionava atentamente a costura (vai entender…). E depois trouxeram o Jonas de novo e eu tive certeza que ele era lindo e não tinha cara nenhuma de amassado (o que depois vim a descobrir, foi um pouco de exagero maternal de minha parte – mas ele já nasceu lindo sim). E depois disso tudo eu já saí falando que no meu próximo ia ser assim e assado e que não queria que fosse do mesmo jeito e mimimi, e minha mãe achando engraçado que em vez de eu dizer que nunca mais queria passar por aquilo eu já estava era pensando nos próximos.
E aí tem aquelas outras partes, sair da cama, tomar banho e ficar frágil, e ficar feliz, e ficar overwhelmed com tudo, e ficar olhando apaixonada para o bebê, e ir para o postnatal ward, e dar um chilique para voltar pra casa no mesmo dia, me recuperar, e aquelas coisas todas. Mas o parto, parto mesmo, para quem queria saber, foi assim.

Eu, agarrada com o treco de gas and air na hora que estavam me costurando.

Momento fofo. Isso foi bem depois do momento da foto aí embaixo. Eu estou horrível mas resolvi publicar assim mesmo porque achei muito engraçada. A foto foi tirada uns 10 minutos depois que o Jonas nasceu – ele foi imediatamente colocado no meu peito, ainda estava com cordão umbilical e tudo – observe como nós dois estamos muito brabos com tudo que tínhamos acabado de passar.
