Mordendo a língua – ou não: amamentação em público

Eu sempre achei uó qualquer “escondimento dos peitos” durante a amamentação em público. Tipo assim, eu ainda acho que peitos foram feitos para dar de mamar e qualquer outro uso é secundário e veio depois, e portanto acho mesmo que qualquer paninho, qualquer capinha, qualquer “se retirar para um lugar mais discreto” ou para uma salinha de amamentação é, de alguma forma, legitimar a idéia de que amamentar em público é imoral ou que tem qualquer conotação sexual. Pois é, na minha cabeça colocar os peitos para fora num momento “personal vaquinha” era um statement desmistificador e deserotizador da coisa.

Mas aí a gente começa a amamentar em público e percebe que a salinha de amamentação é uma beleza, porque dá para ficar tranquilona, dá para tirar e guardar os peitos com calma, enfim. E sobre as capinhas, existe o argumento de que estimula certas mulheres mais discretas (e sem tantos delírios militantes) a amamentar por mais tempo e em paz. Mesmo assim eu mantinha minha implicância gratuita com as capinhas. Até que ouvi falar que depois de uma certa idade a criança começa a se distrair com tudo o que acontece ao redor, e que nesses casos a capinha é indispensável para que o bebê consiga manter a atenção e comer direito.

Então aí se um dia Jonas virar um garoto altamente distraível e você me vir com uma dessas capinhas, pode considerar uma bela mordida de língua.

PS: como tanta gente por aí, ouvi muita história de mulheres que são destratadas por estarem amamentando em público, pedidas para se retirar desse ou daquele lugar por “estarem incomodando.” A maioria dos relatos vêm dos EUA mas muitos eram aqui do UK mesmo. Fiquei meio preocupada, no começo ficava cheia de receios de ouvir alguma coisa dessas – antes mesmo de colocar o JOnas no peito já me preparava com uma dúzia de respostas malcriadas na ponta da língua.

Pois bem, a minha experiência (que tudo bem, é em Londres, não na Inglaterra, e um pouco em Edimburgo) não podia ter passado mais longe dessa imagem. O povo simplesmente me ignora quando estou amamentando em algum lugar, os garçons falam comigo normalmente quando estou em um restaurante, e nunca percebi sequer uma cara feia. Estou desconfiada que essa história da “patrulha anti amamentação” é coisa criada pelos jornais e TV, que noticiam os casos – que são a exceção – como se fossem a regra (tudo bem que eu tento ser discreta, com blusas de amamentação e tals, mas mesmo que eu mostrasse o peitão todo acho que ninguém ia falar nada).

É mais ou menos o mesmo que acontece quando jornais criam uma sensação de insegurança ao noticiar alguns poucos crimes e assaltos em algum lugar. O que não falta é gente achando, por exemplo, que o centro de Londres é uma área perigosíssima, quando na realidade não é bem assim. A mídia tem a capacidade de ampliar esses episódios isolados e criar todo um clima desagradável que não existe.

O que é uma pena, porque assim como eu fiquei estressada no início, aposto que essas histórias assustam a várias outras mulheres além de mim. E só desistimulam uma coisa que deveria ser absolutamente natural (e dessexualizada).

PS2: Basicamente, minhas idéias sobre corpo e nudez e exposição e etc foram mais bem explicadas nesse post antigo.

Mordendo a língua (pero no mucho) – amamentação

Minha experiência de amamentação, até agora, foi assim: facílima, sem complicação, uma beleza. Isso do ponto de vista do Jonas. Ele pegou o peito logo que nasceu, fez a pega direito (já que meu mamilo não caiu nem ele ficou com fome, concluo que a pega estava razoavelmente certa), e tem mamado feliz e contente desde então.

Já do meu lado foi um pouco mais complexo. Os primeiros dias doeram MUITO. Aí nego da Leche League e etc diz que se estiver doendo a pega está errada. Aí eu fico maluca achando que ele não está pegando certo, mas não é possível, está direitinho de acordo com o que todas as fotos e vídeos mostram! A midwife veio aqui em casa uns 2 dias depois do parto, analisou tudo e disse que estava como tem que ser! Minha mãe jurando para mim que era assim mesmo, que o peito tinha que acostumar, e eu achando que ela estava errada, não não pode ser assim!

Bom, senhoras e senhores, é assim mesmo. Doeu para burro nos primeiros dias e depois passou (ou eu acostumei, não sei bem). Nesses dias eu fiquei desesperada e comecei a entender o povo que interrompe amamentação. Porque não é só uma dor: é pânico de 3 em 3 horas quando o bebê chora para mamar.

Mas depois eu desmordi a língua porque foram só alguns dias. Não é assim por seis meses, então dá para aguentar (no meu caso deu, já que eu tinha mãe ajudando – mas não julgo ninguém). Então a coisa passou a ficar bacana, que lindo, bebezinho mamando no peito, coisa idílica, la la la.

E aí veio a cândida. Aqui se chama thrush, e nada mais é do que aquele fungo safado que mora nos nossos intestinos e de vez em quando se descontrola (normalmente a cândida é vaginal). Aí o peito voltou a doer horrores, e depois de cada mamada os mamilos queimavam por mais um hora. É que o mocinho, logo que nasceu, tomou 15 dias de antibiótico para prevenir uma infecção urinária, já que as ultrassonografias na gravidez indicaram que um rim estava meio dilatadinho. E uma consequência comum do antibiótico é matar a flora intestinal e facilitar infecções por fungos. Bacana, né? Eu até tinha ouvido falar de gente que dá iogurte pros bebês para evitar isso mas eu não dei. Burra.

Então tratei a cândida, ela voltou, tratei mais (vamos pular a novela “médico se recusa a dar remédio que funcione, eu compro por conta própria e nem isso resolve, o que resolveu foi paciência, caldo de galinha, vinagre e umas pomadas”).

E depois de algumas semanas desse imbróglio parece que as coisas estão bem de novo (mas agora eu passo pomada uma vez por dia e continuo usando vinagre para limpar os mamilos de vez em quando). Com exceção de umas vezes que eu achei que estava com pouco leite porque Jonas estava puto (ele tem um jeito específico de reclamar que pode significar duas coisas: 1) está precisando arrotar no meio da mamada 2) o peito está vazio mas o estômago dele ainda não está cheio). Porque você sabe, nada deixa uma mãe histérica de primeira viagem mais histérica do que a possibilidade de estar deixando seu filho com fome. Solução: beber mais água e tomar chá de erva doce. Funcionou. Veja bem que eu nunca fui dessas mulheres de peitos espirrando, explodindo de cheios, fábricas de leite que são na verdade uma ode à femilidade e ao papel de mãe na natureza. Nada disso, meus peitos são bem mais comedidos – produzem o suficiente pro moço ficar parrudinho e com belas bochechas.

Posso dizer que agora eu acho que acostumei com essa disponibilidade gigante, com essa história de ficar umas 7 horas por dia plantada como um entreposto alimentar (veja bem, no começo eram umas 7 ou 8 mamadas diárias, que levavam no mínimo 40 minutos. Atualmente são umas 6, mas ele está mamando por uma hora inteira de cada vez. É literalmente um full time job). Depois dessas emoções (e olha que nem foram tantas assim, já que não incluíram mamilos rachados, sangramentos, mastites e coisas assim. E tive um episódio de empedramento, só um para eu saber como é).

Agora sim, finalmente, posso dizer que amamentar é muito bacana. Mas acho que muitas campanhas pró amamentação atrapalham mais do que ajudam! Elas deveriam informar sobre as possíveis complicações para que a gente fique a atenta, se prepare e reconheça os problemas logo no começo. Conheci uma moça aqui que teve uma cândida super forte, lá pra dentro dos dutos, e depois uma mastite galopante. Ela estava revoltada porque ninguém tinha dito para ela que isso podia acontecer, e não prestou atenção aos sintomas até que eles ficaram muito graves.

Além disso, tem toda a questão da dor. Poxa vida, dizer que não dói a menos que a pega esteja errada é de uma irresponsabilidade atroz! Porque eu fiquei achando que estava fazendo alguma coisa errada, quando na verdade tudo o que eu tinha que fazer era segurar as pontas, tomar um paracetamol e esperar passar – como passou!

Blusas de amamentação

Recomendações da vida materna: blusas de amamentação. São muito úteis para dar de mamar em público sem malabarismos excessivos e sem mostrar montes de peito aos transeuntes em geral (eu não tenho nada contra mostrar os peitos orgulhosamente em público quando se está dando de mamar, mas é sempre bom ter a opção de fazer a coisa de uma forma discreta em certas situações). Eu comprei várias dessa marca aqui, de uma moça que mora no Rio mas envia para qualquer cidade.

Comprei um vestido e uma blusa durante a gravidez quando estive no Brasil, em dezembro, e usei de montão no final da gravidez, quando estava com uma mega barriga – e continuo usando. Há umas duas semanas comprei mais duas blusas. Todas vestem muito bem e são muito práticas e a Carol, dona da confecção, é fofa e gente boa (e foi amiga de escola da minha irmã, vejam só vocês). Por essas razões resolvi fazer uma propaganda/recomendação aqui no blog.

Inicialmente achei as blusas meio caras, mas com o custam mais ou menos o preço das blusas de amamentação daqui, resolvi comprar. Depois percebi que no Brasil TODAS as roupas custam uma fortuna e revi minha opinião. As blusas não são caras não (e duram bastante e aguentam muitas lavadas, eu garanto). Portanto, fica a dica.

PS: tenho uma teoria de porque mulheres, depois de ter filhos, abstraem essa coisa de vergonha e saem mostrando os peitos em público na hora de amamentar. Pelo menos no meu caso, a falta de vergonha se deve ao fato de que esses NÃO são meus peitos. Meus peitos não têm esse tamanho, esse formato ou esses mamilos. Esses que eu ando carregando para cima e para baixo por alguns meses são os peitos do Jonas. Meus peitos, de verdade, são bem diferentes, e continuam sem estar à mostra.

Sobre filhos e trabalho

Ficar em casa e cuidar de filhos já foi a única opção de uma mulher. Depois passou a ser uma não-opção, praticamente uma coisa proibida (mulher tem que trabalhar, expandir os horizontes, bla bla bla). Para a maior parte das mulheres do mundo provavelmente a coisa continua não sendo opcional: mulheres pobres têm que trabalhar porque senão ninguém em casa come. Mulheres de certos países muçulmanos conservadores têm que ficar em casa e ponto.

Mas no final das contas, apesar de algumas feministas burras acharem que é um retrocesso a mulher ficar em casa depois de ter filho, as feministas esclarecidas sabem que o objetivo final de toda essa briga é dar às mulheres a OPÇÃO. E para um tanto de privilegiadas, é possível escolher o que fazer. E eu, por sorte, tenho a opção (na medida do possível).

Aqui na Inglaterra as coisas são bem diferentes do Brasil. A licença maternidade dura até um ano – mas não, eu não recebo salário integral esse tempo todo. Recebo salário integral por algumas semanas (10, no caso da minha empresa), depois uma ajuda do governo de mais ou menos 500 por mês até completar 39 semanas (cerca de 9 meses) e fico sem receber nada (mas com a vaga garantida) pelo resto do ano. Depois disso posso voltar, não voltar, negociar um horário parcial (por exemplo, dois dias por semana, com salário e férias proporcionais) ou negociar trabalhar parte do horário em casa. Logicamente, a empresa não é obrigada a aceitar horários flexíveis, mas é uma opção que existe.

Por outro lado, uma babá custa os olhos da cara (para falar a verdade nem sei quanto custa, só sei que é coisa de gente muito rica – babás aqui têm que ter certas qualificações, tipo uma formação completa em babazice). E a creche também custa bem caro. Andei olhando umas aqui do lado de casa e para deixar a criança lá full time, 5 dias por semana, a brincadeira sai uns £1,400 por mês!

Existem também outras opções: child minder, que é uma pessoa que cuida de umas 4 ou 5 crianças na própria casa, e au pair. Au pair pode ser uma boa para quem tem vários filhos e mora numa casa grande e arruma uma garota para ajudar (mas não para ficar sozinha com a criança – imagina se eu vou largar meu filho com uma menina de 20 anos que está vindo pra Londres passear, assim de cara!). Quanto a child minder, por enquanto não, obrigada.

Como os custos de childcare são muito caros, é bem comum a mulher parar de trabalhar para ficar com os filhos (imagina pagar 3 creches de 1,400?). No meu caso, em princípio vou ficar um ano em casa e depois eu penso. Gosto da idéia de trabalhar em casa, e gosto da idéia de trabalhar part time. Mas gosto também da idéia de ficar com o meu filho, sabe?

Sinceramente, não sei como o povo no Brasil acha tão natural deixar os filhos com babás o dia inteiro. Não posso imaginar que uma moça, por mais responsável e confiável que seja, vá ter a mesma preocupação que eu na criação do meu filho. Além disso, como uma moça que provavelmente tem só o segundo grau vai poder conversar com ele sobre vários assuntos, vai falar português correto (e corrigir quando ele errar), vai responder as perguntas irrespondíveis que crianças espertas fazem? Sério, uma coisa que eu já percebi é que o mais importante no desenvolvimento da criança é que ela acompanhe conversas estimulantes em casa.

E isso nenhuma babá vai poder fazer melhor do que eu e o pai (e os tios, avós e os amigos, lógico).

[É claaaro que dá para estimular os filhos à noite e durante o fim de semana. Tem que gente que precisa trabalhar e pronto, e é claro que isso não vai destruir a formação das crianças. Mas acho bacana quando uma mãe reconhece que deixar os filhos com babá não é a solução ideal]

Outra coisa que me incomoda loucamente é esse papo de que ficar em casa diminui os horizontes e trabalhar amplia. Porque na boa, maioria dos empregos disponíveis no planeta são banais. Consistem em fazer planilhas com dados sem sentido no excel, organizar procedimentos irrelevantes, escrever apresentações que não levam a nada, fazer relatórios que ninguém vai ler. Eu mesma já tive vários empregos assim. Até mesmo no meu emprego atual, apesar de alguns bons momentos, o grosso do meu dia era ocupado escrevendo sobre uma nova vacina para enguias ou sobre uma ração especial exclusiva para cachorros da raça Pug. Convenhamos que isso não é lá muito expansor de horizontes, né?

Então a idéia de ficar em casa observando (e influenciando) o desenvolvimento de uma pessoinha me parece muito mais relevante (e importante, em termos universais) do que a grande maioria dos empregos que existem por aí. É mais cansativo também, e cheio de momentos inglórios (trocar fralda, por exemplo, que não contribui em nada para tornar o planeta um lugar melhor – na verdade, torna o planeta um lugar pior porque eu ainda não me animei a usar fraldas de pano, e mesmo que as usasse estaria gastando montes de água e energia para lavá-las – mas isso é outro assunto). Além disso, eu não estou só cuidando do Jonas – estou tomando conta da casa também.

Bom, essas são as questões filosóficas. As questões práticas incluem o fato de que acompanhando de perto o crescimento dos seus filhos você diminui as chances de eles terem problemas na escola, andarem com mini marginais e coisas assim. Mas logicamente não economiza a grana da terapia que eles vão precisar quando estiverem mais velhos – a diferença é que quando seu filho for fazer análise, a culpa de tudo vai ser da sua presença opressora – e não da sua ausência (mãe não acerta nunca mesmo).

A outra questão prática é dinheiro e carreira. Não, eu não acredito que “se você passar dois anos fora do mercado não volta nunca mais.” Eu não sei em que mercado esse tipo de gente trabalha, mas acho que quem acredita nisso devia era melhorar as qualificações porque pelamordedeus, né? Mercado de trabalho não é um vórtice temporal que fecha em cinco minutos e se você perder nunca mais volta pro parque de diversões no seu mundo!

Mas acho sim que ficar dez anos fora do mercado de trabalho complica as coisas. Sei lá, eu ficaria insegura sem trabalhar nem um pouquinho por anos e anos. É por isso que eu quero continuar a trabalhar, na carga horária que der. É bom estar sempre fazendo alguma coisa, mantendo os contatos, para se acontecer alguma coisa poder voltar a trabalhar rápido. Se não der para ser na mesma área em que se trabalhava antes, que seja em outra. Vejo muita mãe por aí abrindo confecção, revendendo produtos, organizando evento. Mas não é para “expandir horizontes,” é para ganhar dinheiro mesmo!

Para expandir horizontes eu faria que nem a Claudia Abreu e entraria na faculdade de filosofia na Puc, ou iria fazer um degree em Greats em Oxford, que são opções absolutamente luxuosas de quem está com a vida ganha e não precisa de dinheiro!

Mordendo a língua – parto

Dizem que quando a gente tem filhos passa a morder a língua em relação a várias opiniões. Pois bem, eu não digo que mudei de lado, mas mudei um pouco minha até então radicais opiniões a respeito de parto, amamentação, etc (no futuro essa lista vai incluir alimentação, educação, trabalho, etc e etc. Tenho certeza).

Eu costumava acompanhar as discussões e os papos do povo pós parto natural e ficava achando que cesárea era a pior coisa do mundo, um estupro do corpo da mulher, uma agressão da parte do médico, preocupado só com a sua comodidade, uma falta de vergonha na cara de certas mulheres, etc. Oquei, nunca fui xiita como muitas moças por aí, mais minhas opiniões tendiam para esse lado.

Agora, depois de passar pela experiência de um parto praticamente natural (tem quem diga que parto só com “gas and air”, ou entonox, é natural, tem quem diga que não – eu acho a discussão uma bobagem), minhas opiniões são um pouco menos radicais para qualquer um dos lados.

Por aqui tem gente que acha que o parto normal, com ou sem anestesia, é um rito de passagem que marca a mudança de vida da mulher. Ouvi uma opinião interessante, que certos hospitais “tentam fingir que nada está acontecendo, que a mulher entra grávida e sai com um bebê sem que nada aconteça no meio.” Acho que é mais ou menos isso que acontece no Brasil. Você vai visitar o hospital e nego fala da suíte para receber visitas, do cardápio “diferenciado”, do serviço de manicure. Quase nada sobre o parto em si.

Conheço algumas mulheres que claramente preferem entregar a situação na mão do médico quando a coisa começa a doer e elas sentem medo. O povo pró parto natural afirma é que a cesárea tira da mulher o papel de protagonista do parto. É verdade. Mas a questão é que certas mulheres não querem ser protagonistas de coisa nenhuma! Elas querem pelamordedeus que alguém resolva aquela situação para elas.

E na boa, depois de uma experiência altamente protagonista (na medida do possível), eu acho o seguinte: ser protagonista é a opção teoricamente mais “correta,” sim. O parto é seu, foi você que inventou de ter aquele bebê, agora segura as pontas porque sua vida agora vai ser isso: segurar pontas.

Mas por outro lado, se a pessoa está com medo, se aquele protagonismo todo vai ser uma agressão para ela, bom, não é nenhuma desgraça que ela abra mão do pacote mulher maravilha e deixe o médico “fazer o parto” (os médicos no Brasil adoram achar que eles é que fazem o parto, mas no caso da cesárea eletiva isso acaba sendo verdade).

E para quem está achando que eu tive uma experiência horrível, vale explicar que não, não foi horrível. Foi um parto relativamente rápido, de 7 horas, absolutamente sem nenhuma complicação (um “textbook birth” como disseram as midwives), sem episiotomia, um rasgo de segundo grau muito bem costuradinho que não deu problema nenhum, etc.

Mas também não foi uma experiência excelente. Eu fiquei com medo quando as contrações começaram a doer muito, pedi a peridural, me enrolaram, não me deram. Fiquei no gas and air. Por aqui todo mundo faz o maior terror com a epidural, dizendo que ela aumenta as chances de se precisar de ventosa ou forceps para puxar o bebê. Já não sei mais no que acreditar (às vezes acho que isso não passa de lenda urbana), mas sei que na hora eu estava com medo da dor e com medo da anestesia. Não dava para fugir das duas coisas e usaram meu medo de anestesia para me enrolar. Paciência.

Fui acompanhada por midwives que eu não conhecia e não sabiam o que eu queria e que fizeram a coisa do jeito que elas sabiam (parte expulsiva deitada com as pernas nos “stirrups”, coisa que eu não queria de jeito nenhum). Me senti encurralada, numa hora que eu estava frágil para cacete.

Eu achava que estava preparada, tinha lido vários livros, treinado as técnicas de respiração e tal, mas não me preparei para a possibilidade de me apavorar. Agora já sei, estou mais esperta e no próximo parto tudo vai correr melhor.

Mas sei que quando acabou tudo isso eu fiquei pensando que uma cesárea planejada talvez não seja nada assim tão absurdo. Nem toda mulher quer passar pela experiência de ficar apavorada. Hoje, quase dois meses depois (dois meses? Meu deus, parece que já se passaram duas encarnações desde aquele dia!), já vejo com outros olhos as mulheres que se encagaçam e pedem pro médico dar um jeito. Então agora minha opinião é essa: que toda mulher deveria, idealmente, estudar bem o assunto para tomar decisões conscientes. Quaisquer que sejam essas decisões. E que toda mulher tem o sagrado direito de amarelar!

PS: Já tenho infinitas opiniões sobre o próximo parto. Que se eu ainda estiver aqui vou pagar uma midwife privada que saiba o que eu quero. Que vou prum hospital com um “birth centre” de verdade e não vou aceitar ser levada para um “labour ward.” E que as coisas vão ser do meu jeito. Ah sim, e depois do parto não vou para um “post natal ward,” mas sim prum quarto particular (aqui às vezes existe a opção de pagar por fora e ficar num quarto particular. O hospital que eu fui não tinha essa opção, e eu achei que não teria problema ficar na enfermaria e passar a noite sozinha. Engano gigante! Passar a noite sozinha com o Jonas (que ainda nem se chamava Jonas) teria sido péssimo. Ainda bem que até me dar conta disso deu tempo de recuperar a minha “mala leche,” dar um chilique e ser liberada para passar a primeira noite em casa.)