O conhecimento da ignorancia

Existe um assunto que me incomoda um tanto no jornalismo cientifico ingles, que eh essa mania de os jornalistas/cientistas acharem que eh preciso ser cientista para escrever sobre ciencia. Pensando sobre o assunto, observando outras coisas, cheguei a uma conclusao (conclusao preliminar, ainda estou desenvolvendo a ideia).

Generalizando muito, podemos dizer que o ingles valoriza o conhecimento (o estabelecido, fazer parte das panelinhas, etc etc). O americano valoriza a ignorancia (aquela ideia de chegar de fora com uma visao nova, de fazer perguntas, etc).

[Em casos extremos isso pode levar a falta de questionamento generalizada, ao apego gratuito ao status quo e ao dogmatismo (do lado ingles) e ao elogio da imbecilidade com a desvalorizacao da busca pelo conhecimento (do lado americano). Provavelmente voce conhece exemplos das duas filosofias por ai.]

O conhecimento de um assunto (qualquer que seja) faz com que voce ja saiba mais ou menos onde procurar o que precisa, que voce nao caia na conversa de qualquer um. A ignorancia traz uma perspectiva nova na hora de abordar um assunto, leva voce a fazer perguntas realmente revelantes/relevantes.

Eu pessoalmente acho que a ignorancia eh uma grande conselheira. Eh como aqueles arranjos de ikebana que tem sempre um numero impar de flores – o impar, ou a pedra faltando no caminho que eh a ignorancia sao o que garante a dinamica da coisa. Enquanto a ignorancia gera o desequilibrio, o conhecimento gera um equilibrio, que pode, em alguns casos, levar a estagnacao.

(A ignorancia tambem pode levar a estagnacao, eh logico)

Como nao trabalho nos EUA nao posso falar das coisas de la, mas por aqui eu sinto que as pessoas podiam valorizar um pouco mais a ignorancia. Soh um pouquinho. Eu fico horrorizada como o povo de “divulgacao cientifica” foca sempre na parte do conhecimento e aprendizado e nunca na parte da curiosidade. Em jornalismo, o americano (estou generalizando, oquei?) sabe que o profissional leigo em um assunto vai fazer mais ou menos as mesmas perguntas que o leitor, e vai traduzir a resposta para a lingua que o leitor entende. Ele vai trazer uma visao nova para a coisa (ou “fresh” como se diz aqui).

[Bom, teve um cara chamado Socrates que baseou sua filosofia na ideia de que "soh sei que nada sei," entao o raciocinio nao deve estar tao errado assim]

E a ignorancia sem curiosidade? Bom, essa eh a morte intelectual. Eh a barbarie, ou a apatia.

Eh o fim da civilizacao.

Séria, muito séria

Tá dificil de escrever aqui. Não só por causa de uma penca de coisas que andam acontecendo pelo (meu) mundo e a minha cabeça que não anda dando conta de tudo (na verdade ela anda dando conta muito mal e porcamente das coisas), a questão é que dia desses um amigo meu chegou e leu meu blog, e deu seu veredito de gente muito, muito séria que ele é, e o veredito era de que eu me levo a sério demais, que eu deixo de aproveitar as coisas pequenas da vida, e que eu gasto uma energia enorme tentando ser perfeita, e etc e tal.

E é lógico que se eu não levasse as coisas a sério demais eu teria ignorado olimpicamente o que ele me disse, porque se você conhecesse a figura ia saber que são dá para levar a sério uma pessoa séria como esse amigo – quer dizer, não quando ele me diz para ser menos séria (já que o conceito de não seriedade ele só conhece em teoria).

Mas meu amigo pode não ter moral mas ele não é burro. E eu não tenho a sabedoria de não ser séria, e por isso levei a sério. Eu ia escrever um post sobre uma epifania que tive esse dia assistindo a um episódio de Glee (pois é), mas aí parei porque era uma epifania de quem se leva a sério.

E agora? Acho que esse blog vai morrer, gente. Eu sei que devia ser menos chata, menos séria, me cobrar menos, reclamar menos. Se conseguir essas coisas vou virar uma pessoa ótima, mas nunca mais vou escrever.

PS: e a epifania? Bom, eu só fiquei pensando no quanto as pessoas no mundo gastam tempo e energia com intriga e fofoca. Que isso é praticamente um full time job para certos indivíduos. E aí me ocorreu que eu não gasto praticamente tempo nenhum com isso. Não faço intriga, não entro em briguinhas, não faço fofoca de lá para cá, nada disso. Falo mal de algumas pessoas às vezes e tal, mas nada que gaste meu tempo ou que dê trabalho (eu sou bem judgemental e tudo mais, você sabe disso, mas evito comprometer meu carma no geral).

Eu também praticamente não faço as unhas (não sou escrava de manicure – dia desses vão apreender meu passaporte brasileiro por isso), não faço escova no cabelo, não fico horas comprando roupa, faço minha maquiagem no metrô de manhã em 5 minutos. Ou seja, também não gasto tempo com essas coisas.

Então cacete, porque eu até hoje não escrevi meu livro, não ganhei um Nobel, não inventei nada para curar o câncer, não estou sarada e gostosuda, e ainda por cima estou com olheiras? Onde esse tempo todo economizado foi parar?

Talvez eu devesse gastar mais tempo, afinal de contas, ficando bonita e fazendo intriga (ou pensando menos nessas coisas, diria o amigo sério).