Um post (bem comprido) de ano novo

Hoje me deu vontade de escrever um post de ano novo. Aproveitei para ler o texto de janeiro passado, e fiquei bem feliz com ele. É lógico que não fiz tudo que estava lá, mas fiquei com a sensação que que estou indo. Para a frente, na maior parte das vezes.

A principal mudança de rota é que eu queria conseguir fazer mais coisas e ser mais disciplinada e organizada. E para 2010 eu quero é ser mais sensata e não enlouquecer. Passei o ano todo no mesmo emprego, e descobri uma coisa importantíssima: que não consigo servir a dois mestres. Não consegui trabalhar full time e fazer frilas. Não escrevi quase nada do meu livro, não fiz documentários. Não rolou. Também não fiz o alemão tão bem quanto gostaria.

Então é isso, eu tenho essa limitação, vamos dar um jeito. Aquela coisa de fazer milhões de coisas ao mesmo tempo que algumas pessoas conseguem não funciona para mim. (engraçado que o comentário do Maron no post, se dizendo mais velho e experiente, era justamente dizendo para eu ir com calma. Um ano depois, tou eu pensando igual. Será que fiquei mais velha e experiente?).

Descobri que não adianta ficar cansada demais, me exigir demais. Acho que percebi que tenho limites, e que respeitá-los e dar a volta e tentar lidar com eles (ou enrolá-los) é mais inteligente do que bater de frente.

Para esse ano, mudanças se aproximam, e eu acho que o mais importante vai ser aprender a manter a calma. Não me estressar. Dificuldades vão aparecer de tempos em tempos, sempre, e manter a calma e ser estável está se mostrando o skill mais importante que eu posso desenvolver.

Como eu tinha planejado, fomos fazer o Caminho de Santiago. Fomos, mas não terminamos. Aprendi várias lições muito úteis, o que prova que fazer o caminho é uma experiência enriquecedora mesmo quando você tem que parar no quinto dia, hehehehe. Aprendi que não posso planejar tudo na vida, aprendi que não adianta me chatear com as coisas, aprendi que somos, eu e Marido, mais bacanas do que pensávamos (porque em vez de voltar pra Londres com cara de cu nós fomos passear de cadeira de rodas em Bilbao), e aprendi também que concentração é uma coisa essencial na vida (e que quando eu desconcentro acontecem coisas idiotas como um pé quebrado – olha o tema dos limites, do cansaço e da calma se repetindo).

E sobre o controle de pensamentos inúteis, que também mencionei ano passado? Acho que melhorei, sabe? Um pouquinho, bem pouquinho, mas isso é trabalho pra vida inteira. Hábitos levam tempo para ser mudados, e um ano é bem pouco.

Para esse ano eu quero colocar em prática algumas das coisas que andei percebendo na análise (eu tou sempre fazendo análise, já deu para notar?). Uma das coisas mais complexas é que eu quero parar de racionalizar tudo. Minha terapeuta diz que “I don’t trust my feelings.” Eu concordo, mas vou mais além: o problema é que eu não sei operar no nível de feelings. Eu só sei operar no nível de pensamentos, de racionalizações. De palavras, frases, coisas concretas. Talvez seja por isso que eu escreva desde sempre, e nunca tenha me interessado muito por música, por exemplo. Porque música, ou pintura, funcionam em outro nível, um nível onde eu não transito lá muito bem. Então taí, uma tarefa e tanto para esse ano.

Outras coisas:

Profissionalmente, preciso aprender “framing,” que é a arte de saber quando parar a pesquisa de uma matéria, quando não fazer alguma coisa, qual o recorte que me interessa de um assunto (e deixar todo o resto de fora). Quando eu penso em uma feature para escrever, me empolgo no world building e me atrapalho na parte do plot. (e sim, as palavras estão saindo metade em cada língua, é cafona, peço desculpas mas é assim que vai ficar). Isso também inclui aprender que nem toda revista comprada tem que ser lida, nem toda notícia tem que ser sabida, e nem todo livro ou filme deve ser terminado. Deixar coisas de fora é uma parte essencial dessa história de “framing.”

Voltando ao assunto da calma e da estabilidade (que na verdade era a palavra “steady” que eu queria usar), eu tenho que deixar de acreditar nas minhas próprias idéias pré-concebidas sobre mim mesma. E nas idéias que os outros têm de mim. (sim, isso também é coisa da terapeuta. Eu não formularia esse tipo de pensamento dessa forma). E entender que eu posso ser várias coisas, e que na verdade a gente está sempre sendo uma coisa nova, e todo dia isso muda. E que é claro que a gente forma idéias e recorta as coisas para entender o mundo e nós mesmos melhor, mas o ponto é que a gente talvez não precise entender o mundo melhor sempre. O que leva de volta ao ponto sobre operar em um nível menos racional, e me leva adiante ao ponto seguinte:

Mais uma das coisas que entendi esse ano: que eu não sou as minhas idéias, os meus sonhos, o que eu penso de mim, a pessoa que eu posso ser. Que na verdade, as coisas que eu quero, que acho que vou fazer, que penso, que acredito, as minhas opiniões, tudo isso no qual eu me baseei a vida inteira, não são nada. Passei muitos anos me achando isso e aquilo, me achando um monte de coisas, porque eu tinha isso e aquilo na minha cabeça. Mas a verdade demorei para entender que essas coisas todas, that I used to hold so dear (experimenta traduzir “hold so dear” pro português!) não existem, não têm importância, não significam nadica de nada.

O que interessa é o que eu conseguir fazer. Só isso. Dia após dia, aos pouquinhos. O livro na minha cabeça, as minhas idéias e opiniões, meus filmes, minha peça vão passar a ter alguma existência real o dia que… elas passarem a ter existência real. E que colocar essas coisas no mundo é trabalho duro. É por isso que tem tanta gente que acha que pode escrever um livro por aí, mas tão menos gente que de fato faz o trabalho de formiguinha de parir o livro. E esse trabalho de formiguinha merece respeito, porque é o que valida o livro que antes existia dentro da dentro da cabeça.

Esse post ficou uma coisa viajandona, quase que nem o vídeo da menina da Malhação no Youtube (e eu que comentei: “no meu tempo um monte de gente tinha esse mesmo tipo de viagem, mas tudo ficava escrito numa agenda e a agenda, guardada na gaveta, poupando os autores do escrutínio e da galhofa universal”). Mas vou publicar assim mesmo por duas razões: fica mais fácil para eu mesma ler ano que vem (afinal, esse post claramente foi escrito para mim mesma), e porque é capaz de alguém ler isso tudo (porque ficou comprido para caramba) e aproveitar algo de útil no meio de tanta coisa, vai saber.

Em Bilbao

Em Bilbao

A felicidade deveria ser o caminho, não o destino. Mas as coisas não funcionam assim.

Se você não tomar cuidado, vão roubar os melhores anos da sua vida, as melhores horas do seu dia, a sua saúde e a sua energia. Tudo isso em troca de dinheiro para comprar o que você não precisa, cumprir com as expectativas dos outros, ou porque é “assim que todo mundo faz.” Ou simplesmente vão te sugar e te deixar um trapo só porque você deixou. É assim que o mundo funciona,e é isso que o sistema faz com você. E eu digo “sistema”, que é uma palavra boba, mas podia dizer “a vida”, a “sociedade,” os “outros,” o mundo.

Estou morta de cansaço, desde que cheguei do Brasil não consegui descansar direito, nem arrumar as coisas, nem parar para pensar. Fazia um calor insuportável no Rio, fazem menos 2 graus de manhã aqui. E hoje eu acordo, puta da vida, ainda cansada e muito mais atrasada do que deveria, pensando em todas as coisas que devia/queria fazer, mas não posso, porque tenho que sair pro escritório, passar o dia fazendo coisas irrelevantes, voltar para a casa que está uma zona quando já estou cansada demais para resolver o que preciso, lavar e guardar as roupas, fazer comida, responder os emails, ou fazer qualquer coisa minimamente importante. Perceba que não estou falando de flanar, passear e me divertir, mas só de conseguir atender às minhas necessidades e obrigações, as coisas que são importantes para mim, e não para a empresa onde eu trabalho, onde o lucro nunca é suficiente mas os salários das pessoas tem que ser.

E fico mastigando pensamentos inúteis, no meu mau humor: “imagina se alguém me tirasse de casa e da minha família aos, digamos, 15 anos, me levasse para algum lugar horroroso, para fazer um trabalho insuportável, cansativo, estressante, sem nenhum prazer, e eu tivesse que viver assim até mais ou menos uns 60 anos, quando me trariam de volta, já quando meu corpo estivesse fraco e cheio de dores, e minha cabeça não fosse mais tão ágil, para aproveitar a esmola do restinho da vida?” É esse o meu ciclo, a diferença é que ele é diário, e não no tempo de uma vida.

Hmm, mas não era exatamente isso que se fazia antigamente? Os guerreiros, os exploradores, sei lá mais quem? Imagino perfeitamente um cidadão britânico que passasse os melhores anos de sua vida pegando malária e suando em bicas em algum cafundó quente e cheio de mosquitos, para voltar pra casa já velho e podre, com um rabicho de vida para tentar ser feliz. Não é isso que as pessoas fazem até hoje, achando que vão ser felizes depois de se aposentarem? Nossa sociedade é totalmente baseada na idéia de felicidade, mas ela não é feita para que ninguém seja feliz. As engrenagens são feitas para que você passe 10 horas por dia fazendo alguma coisa chata, mais umas 2 horas no trânsito, mais 8 dormindo (se tiver sorte), e depois disso, tentar ser feliz no restinho de dia, com a esmola de vida que te deram. E todo mundo acha normal.

A própria idéia de aposentadoria é insana: se o trabalho fosse bom, porque eu não poderia trabalhar e descansar, alternadamente, até morrer? Não quero o prêmio duvidoso de ficar de papo pro ar quando estiver já muito cansada para aproveitar (até porque a gente nunca sabe se vai chegar na idade da posentadoria). Não quero que o prazer e as minhas necessidades sejam a cenoura na frente do cavalo no final da vida, no final do dia, no final de semana.

E sim, estou mal humorada, estou cansada, estrou de bode pós férias, e sei perfeitamente que só pude passar 15 dias no Rio com a família porque tenho um emprego do qual estou reclamando, mas não é por isso que eu tenho que concordar com a forma como as coisas funcionam. Se alguém ainda não percebeu, eu não me vendo por tão pouco.