Estou tentando descobrir como levar a pessoa que eu sou de férias para a minha vida sem férias. Não que eu esteja pensando lá muito no assunto, afinal, estou de férias e com preguiça de fazer qualquer coisa muito cansativa, mas bem que gostaria de descobrir.
No dia que cheguei (estou no Rio) eu ainda era a pessoa não-férias (a pessoa normal): estava me sentindo meio desconfortável, meio irritada, me incomodando com as coisas. Trouxe todas as minhas manias comigo de Londres, e hábitos, e a rotina, e tudo. E principalmente a vontade de fazer tudo do meu jeito. Agora já estou mais tranquila, menos irritada. Se não der para fazer tudo que eu quero fazer por aqui, azar. A minha persona normal ia ter um completo sensory overload e infinitos chiliques nessa terra onde tem muito cheiro, muita luz, muito sol, muito barulho, muito trânsito, muito calor, muita umidade, muita pobreza. E muita gente também, afinal lá em Londres moramos numa casa pequenininha só eu e o Marido, enquanto aqui as casas são grandes, cheias de coisas, cheias de gente.
A gente vai ficando velha e cheia de manias, e é por isso que temos que ter filhos (digo, aqueles que querem ter filhos – existem pessoas que não querem, e eu sempre apóio que essas pessoas não se sintam obrigadas a reprodozir porque o mundo já tem gente demais). Os filhos fazem bagunça e nos impedem de nos apegar a tantas manias.
Agora, como eu faço para voltar para Londres, em plena nevasca, naquela cinzitude, tendo tanta coisa pra fazer e decidir e tomar conta, levando um pouquinho dessa preguiça tropical nagô de vida com paparicos e empregada e piscina e praia e sol? Acreditem, pode não parecer mas eu gostaria de ser um pouco menos chata (não muito, um pouco de chatice é util, mas só um pouco, né?) Acho que vou ali na piscina pensar um pouquinho nisso.
PS: Acho que não preciso explicar, mas não custa: não é que a vida no Rio seja essa moleza. A vida normal de gente trabalhadora aqui é mais complicada que em Londres, na minha opinião (deve ter gente que discorda, mas se eu não achasse isso não ia querer ficar por lá, né?). Mas a vida de férias aqui, no Natal, na casa dos pais ou dos sogros, sem ter que trabalhar nem fazer nada, e sendo paparicada por todo mundo, é outra história.
PS2: Hoje é Natal. Feliz Natal às pessoas que lêem esse blog. Que você (e eu também) comam muito, tenham paciência com os outros, aproveitem a família, tentem não surtar com o consumismo da época (agora é meio tarde para desejar isso, mas enfim), e para quem é religioso, celebrem o nascimento de Jesus e tudo mais. Para quem não é, pensem que estamos no solstício de inverno (que, como nós sabemos, é a festa original que foi “repurposed” pela igreja), e celebrem por nós, pessoas que moram no hemisfério norte, o fato de que o dia mais curto do ano já passou e de agora em diante a coisa vai ficando menos pior e menos escura e menos fria, até ficar boa, lá na primavera.

