Para que serve um corpo?

Eu estava aqui matutando querendo escrever um post que não fosse reclamação nem revolta para entrar no lugar desse post sobre pessoas idiotas e arrogantes, sem saber muito bem no que falar, quando descobri que alguns blogs estão fazendo hoje uma blogagem coletiva sobre o Dia de Amar o Seu Corpo.

Uma boa desculpa para falar sobre uma coisa que eu queria falar há um bom tempo, mas sempre tinha preguiça, que é a relação entre corpo (e nudez) e sexualidade. Porque essa é uma relação desnecessária, arbitrária e que só atrapalha nossa vida.

O povo da Alemanha, dos países escandinavos e sei lá mais onde, sabe desassociar essas coisas. Eles vão à sauna pelados, são capazes de ver um colega de trabalho nu e a relação não muda por isso. Mas afinal, não era para ser normal, um corpo pelado?

Se você para de ver o corpo como algo para sexo, fica muito mais natural ver gente velha, gorda, ou feia pelada. Porque é natural.

No Brasil, ao contrário, nós estamos acostumados a associar nudez com sexo. E em vários outros lugares também. Foi exatamente nisso que pensei quando vi gente reclamando de uma foto do Morrisey e banda pelados (no início do ano). Tinha gente reclamando que eles estavam branquelos demais, ou barrigudos demais, ou peludos demais.

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Me dava vontade de gritar: Hello-o! Pessoas SÃo peladas, sabiam? A peladice não existe com uma função! Pelo contrário: se cobrir tem uma função, e é por isso que a gente usa roupas diferentes para situações diferentes! Ficar nu deveria ser visto como coisa normal.

A nudez não existe para satisfazer os olhos de quem está vendo, nem para espicaçar o desejo dos outros. Pode servir para isso também, mas não só. A nudez é uma coisa natural, um fim em si mesma.

Se a gente fosse capaz de entender isso, ia deixar de se incomodar com corpos peludos, barrigudos, velhos ou com cicatrizes. E no meu infinito otimismo, ia passar a aceitar que corpos são diferentes, e que servem para MILHARES de coisas além de enfeitar e trepar.

Meu marido às vezes implica comigo que eu tenho as pernas curtas. São curtas mesmo, e eu adoraria que fossem longas e lindas. Mas a minha resposta é sempre a mesma: “São curtas, mas funcionam direitinho, não posso reclamar.”

A gente tem que tentar lembrar que o nosso corpo serve para outras coisas, e relativizar as nóias. Minhas pernas servem para me levar de um lado pro outro, e as duas estão funcionando. Nem todo mundo tem essa sorte, e eu acho falta de vergonha reclamar demais.

Um narigão feio se torna menos dramático se você lembrar que ele cumpre bem suas outras funções (respirar, acumular meleca, se meter onde não é chamado).

Nós não somos animais puramente estéticos, sabe? Depois de mais de ano sem botar biquini, fui à praia em Portugal nesse fim de semana. Não estou gostosona não, mas eu fui à praia para curtir ou para enfeitar a areia? Se fosse uma sessão de fotos de uma revista de moda, eu não iria, já que não estou enfeitando a areia com muita eficiência (mas descobri ao ver as fotos que também não estou tão mal quanto pensava). Mas como eu já disse, nosso corpo tem outros papéis além de enfeitar e ser visto pelos outros.

PS: não sou contra plásticas e consertos, sou só contra a piração. Eu sou uma mulher normal, dessas que está sempre tentando perder 5 quilos ou implicando com a propria pele. Só tento manter as coisas em perspectiva, e lembrar da importância relativa desses 5 quilos em relação a outras coisas na minha vida.

PS2: Esse meu discurso não tem nada a ver com campanhas pela “real beleza,” tipo Dove, ou modelos gordinhas em capas de revistas. Porque essas campanhas continuam associando corpo a beleza, a enfeite (apenas abrindo um pouco o leque do que é bonito). Pode até ajudar um pouquinho mas no fundo não muda nada. O que eu estou tentando dizer aqui nesse post é que ser bonito é apenas UMA das coisas que um corpo pode fazer. E que as outras coisas são extremamente importantes, talvez até mais.

13 comments

  1. barbara, adorei seu texto!
    concordo super com a onda de novos contextos que deram aos nossos corpos, enquanto seus motivos de existir acabaram deixados de lado. e estes novos contextos vêm acompanhados por fitas métricas e balanças científicas em forma de pensamentos que jogamos para dentro e trancafiamos nas nossas cabecinhas…
    parabéns! :]

  2. Marina,

    Isso que vc falou sobre fitas metricas me lembrou ano passado, que eu fui num medico avaliar se devia operar um desvio de septo (por razoes de saude), e o cara achou 50 defeitos no meu nariz, e disse que eu devia operar era com um cirugiao plastico!! Ia ficar um nariz mais “correto,” sem duvida, mas totalmente generico. Vou te contar, eh dificil a gente evitar essa maluquice, com esse tipo de pressao de todos os lados (ficar mais bonita e dentro do padrao X manter a identidade). E no Brasil eh bem pior do que aqui na Europa…

    Astrocat,

    Nao eh? Se a gente continuar vendo o corpo soh como “maquina de enfeitar,” vai ser bem dificil ficar confortavel dentro dele… Nao tem padrao de beleza elastico o suficiente para abarcar toda a populacao do planeta!

  3. Oi Barbara, bacana o texto, Me lelmbrou a primeira vez que fui na sauna aqui na Europa e vi que era proibido o traje de banho (“swimsuit”). Nao entendi nada e pensei que nego tinha que ir de short ou sei la.
    Quando chego la e vejo geral peladao, tomei um choque! Mas quando tu ve que ta todo mundo na boa, velho, novo, gordo, magro, peludo, careca… tu relaxa e esquece. E vou te dizer: ‘E bem melhor a sauna assim!

  4. Devo dizer que em “alguns blogs estão fazendo hoje uma blogagem coletiva sobre o Dia de Amar o Seu Corpo. “, li “uma BOBAGEM”, e já estava pensando “você pensa que é uma bobagem porque não encana com o seu corpo, mas para uma adolescente de 14 com a personalidade em formação, isso pode ajudar muito”. Depois que eu vi que quem tinha pensado BOBAGEM era eu. Hehhehehehehe.

    Sobre o fato de o corpo ser mais que uma coisa sexualizada, devo confessar que minha cabeça brasileira realmente nunca tinha pensado nisso. Eu sou uma das que fica sem gracinha com corpos feios e tal. Assumo. (Mas cá entre nós, o Morrisey até que dá um caldo, vai!) Mas como sou uma pessoa normal, não fico desconfortável o suficiente para escrever comentários agressivos e preconceituosos na seção do leitor d’O Globo. Assistir cinema europeu nos dá esse costume, de ver que pessoas podem ter rugas, dentes tortos, pancinhas… assim somos, não é? Mas quanto a mim… infelizmente estou no grupo das que quer perder 5kg. Não só pela questão estética, mas hoje em dia também pela questão financeira: minhas calças jeans não cabem mais em mim e eu me recuso a pagar mais de R$100 numa nova!

    E quanto à questão Dove de ainda associar corpo a beleza, só uma beleza diferente, não acho de pouca importância não. Se temos o corpo, por que não nos divertirmos com ele e o usarmos para aumentar nossa auto-estima?

  5. Oi!

    Também fiz um texto pra blogagem coletiva e, quando fui ler o seu, acho que vai numa vibe parecida, meio anti-Dove… Porque o seu é sensacional. Eu tenho varizes e pernas desproporcionalmente grossas. Mas o dia em que verbalizei “detesto minhas pernas”, fiquei com vergonha logo enseguida. Minhas pernas me levam pra cima e pra baixo, já andaram quilômetros, às vezes com peso nas costas, eu só posso ser grata por elas.

    O meu post vai mais numas de “eu sou meu corpo, mas meu corpo não sou eu”. Nem sei se ficou claro, mas nada a ver com beleza interior. Mas é que eu posso ganhar dez quilos, perder dez quilos, operar minhas varizes (opa, isso eu vou fazer!), etc, etc, mas isso não altera quem eu sou.

  6. Tambem acho ruim essa associacao da nudez ao sexo, uma coisa nao tem nada a ver com a outra. Mas eu fui criada com os meus pais andando pelados em casa, irma~ andando pelada tambem… Sempre me pareceu uma coisa normal. Aqui no Canada’ e, pelo que parece, nos EUA tambem essa relacao com a nudez e’ ainda mais complicada… ja’ paguei mico conversando com a sogra canadense ao admitir que usava biquini. De duas pecas? Sim, de duas pecas. Ficaram horrorizados. Mas cidade pequena e’ assim mesmo, creio (e espero) que os grandes centros sejam mais liberais.

    E tambem teve o episodio na aula de historia da arte, nos alunos contemplando la’ as estatuas greco-romanas. Uma aluna resolve questionar o por que^ das estatuas tinham que estar nuas, que era estranho isso… Ela nao falou com todas as letras que aquilo era uma obscenidade, mas ficou subentendido. Ai’ que eu parei pra pensar que alguem poderia efetivamente ficar ofendido com uma estatua nua, nunca tinha cogitado essa possibilidade (mesmo sabendo da existencia das folhas de parreira fabricadas especialmente para esse proposito, no caso das estatuas).

    Por mim essa filsofia de vida dos escandinavos e alemaes poderia ser adotada por todo mundo.

  7. “A peladice não existe com uma função! Pelo contrário: se cobrir tem uma função (…)”

    Expandindo mais: de vez em quando me perguntam (em geral telemarketing) se quero alguma coisa e digo que não. Aí, perguntam por que não quero.

    Já faz muitos anos que passei a pensar o seguinte: ora pombas, o QUERER é que precisa de motivo. O estado neutro é não querer. Tu precisas de algo que te motive para, só então, sair da neutralidade e passar a querer. Então, o QUERER é que tem que ser explicado e tem explicação; o NÃO-QUERER é o estado inicial, pleno, que NÃO PRECISA de explicação. Como diz a Primeira Lei de Newton: se o corpo não sofrer nenhuma aceleração, é garantido que vai continuar em repouso.

    É claro que, na prática, dependendo do grau de intimidade/paciência/burrice ou falta dela, minha resposta pode ser essa, completa, como pode ser, simplesmente, “vá se f***r”.

  8. Voltando: no caso específico seu,

    “Eu nasci pelado e então me vesti.”
    “Por que se vestiu?” –> A pergunta faz sentido. Se *fez* alguma coisa, se seus músculos se vestiram, então houve uma causa impulsionando; qual terá sido? Foi frio? Foi vergonha? Foi vaidade? Foi camuflagem? O que foi?

    “Eu nasci pelado e então me vesti.”
    “Por que estava pelado?” –> A pergunta não faz sentido.

  9. Oi Rodrigo,

    Eu jah ouvi falar nessa historia de traje de banho proibido, e acho muito engracado (para a minha cabeca de brasileira). Que bom que vc se adaptou, eu acho que deve ser uma delicia depois que vc passa a vergonha inicial.

    Bruna,

    Sobre a bobagem, voce mesma ja respondeu: isso para uma menina de 14 anos pode ser um problema super serio, eh importante ter pelo menos um vozinha contra essa ditadura cruel da perfeicao.

    E sobre Dove, tudo bem aumentar o leque das “belezas possiveis”, mas acho que isso eh soh um paliativo.

    E viva as atrizes francesas, que sao imperfeitas e bonitas ao mesmo tempo! (e a Jessica Simpson e a Megan Fox, epitomes da beleza bonita e generica, gritam: “como assim? isso eh impossivel!”)

    Iara,

    Eu me sinto com a mesma vergonha. Mesmo sendo ateia, acho que deus castiga quem reclama de barriga cheia (eu sempre imagino um patriarca raivoso, entre as nuvens, dizendo “ah eh? Te dei um corpo que funciona lindamente e voce agradece assim? Entao ele agora nao vai mais funcionar! Toma uma artrite, uma hernia, um sei la o que, para voce aprender!”).

    Gostei do seu post, eu acho que ele meio que complementa o que eu disse (na vibe de olhar o corpo para alem de “coisa para enfeitar”).

    Silvia,

    Sobre essa dificuldade de ver corpos como uma coisa natural, e a maluquice dos americanos com amamentacao? (que eh considerado “ofensivo” em alguns lugares?)

    Aqui na Inglaterra pelo menos acho que as leis protegem as mulheres, mas em tres anos vi UMA mulher dando de mamar na rua em Londres. Um dia vou fazer uma camisa “Peito eh para dar de mamar! Fazer sacanagem eh funcao extra, e nao o contrario.”

    JP,

    Pois eh, as pessoas nao entendem muito bem os conceitos de inercia e energia de ativacao. E o Marido deve ter implicado com as minhas pernas uma ou duas vezes no maximo. Eu citei ele porque eu precisava de um gancho para contar a historia :)

  10. Este site é muito divertido , porque tinha que fazer um trabalho sobre para que serve o corpo e a minha stora deu-me excelente (100%)
    Iupiiiiiiiiii :p
    Adorei este site (L)

  11. O que eu adorei mais neste site foi os homens é pena que eles nao têm os grilhos a ver-se , né ?
    LOL’
    Os homens que estão na foto é que são bons digam lá , digam lá !