O preconceito vem de onde?

Já que eu fui meio que chamada para escrever sobre vida de expatriado, resolvi participar da brincadeira e falar sobre uma coisa que me intriga para caramba: não a atitude dos ingleses em relação aos brasileiros e outros imigrantes, mas a nossa posição em relação a eles.

Existe brasileiro que se acha tratado como cidadão de segunda categoria por aqui, enquanto outros não têm queixa nenhuma. Eu pessoalmente sempre fiquei muito intrigada com essa diferença de opiniões, já que todos nós somos imigrantes, numa cidade cheia de imigrantes, vindo de um país mais pobre (mas não muito pobre).

Sobre essas pessoas que reclamam de preconceito e do tratamento, eu não sei se:

1 – elas são tratadas diferente porque não são brancas, pros padrões daqui?
2 – os ingleses são assim com estrangeiros mesmo?
3 – eles se colocam, de antemão, numa posição de inferioridade, ou na defensiva, que faz com que sejam tratados como diferentes?
4 – eles pensam estar sendo mal tratados (mas na verdade não estão), porque inglês é diferente de brasileiro e não sai sendo over-simpático com qualquer um? (e também porque os empregados e funcionários daqui não são subservientes como no Brasil)?

Pode ser uma combinação desses fatores. No meu caso, eu posso dizer que tenho achado minha experiência bem tranquila. Não sei se é porque eu sou razoavelmente branca mesmo pros padrões daqui (e tenho um sotaque estranho que ninguém identifica, e um nome que pode ser de qualquer lugar, então o povo não sabe o que eu sou - até eu dizer). Ou se é porque eu sempre me coloquei numa posição de igualdade. Eu espero que sejam educados comigo, e isso é o que normalmente acontece (com algumas exceções, é lógico, porque gente babaca existe em qualquer lugar do mundo). Em alguns casos, o povo mostra curiosidade pelo Brasil, faz perguntas, como se eu fosse uma figura exótica de um país distante (o que, em primeiro lugar, é verdade, e em segundo lugar, não me incomoda).

[Uma outra coisa que pode ajudar no meu caso é que eu nunca gostei muito da over simpatia exagerada do Brasil. Aqui todo mundo é meio autista, meio sem jeito em situações sociais (aqueles personagens que o Hugh Grant faz não surgiram do nada – eles são enrolados assim mesmo). Então eu me sinto até aliviada. (claro, o que não falta são meninas over simpáticas e afetadas, mas basta desviar delas e fazer amizade com o povo que não é assim).]

Pois bem, há alguns anos que eu observo isso e não cheguei a nenhuma conclusão. Não consegui entender se o preconceito parte do inglês ou se é o próprio estrangeiro que se sente por baixo, ou já chega perto do inglês achando que ele vai ser um escroto (duas atitudes que, convenhamos, não encorajam um tratamento igualitário).

Alguma sugestão? Alguém tem algum caso para contar?

25 Responses to “O preconceito vem de onde?”

  1. Luciana Håland Says:

    Oi Bárbara, obrigada por postar também, vou te linkar lá no meu.
    Menina, eu às vezes penso a mesma coisa a respeito daqui, e também tenho umas indagacões como as suas, pois também nunca tive nenhum tipo de problema, e até posso dizer que sou melhor tratada aqui (pela família de marido x familia de ex namorados brasileiros, nos atendimentos públicos, lojas) do que era no Brasil, também não sei se o fato de ser branca influi em alguma coisa, ou se é da postura mesmo da gente, ou se é mito o problema dos outros, o que acho que não seja.
    Concordo demais que uma postura de igual é muito positiva, isso de chegar já se sentindo por baixo, ou puxando o saco dos nativos (num gosto muito dessa palavra mas…) não pega bem.
    Conheco alguns casos de estrangeiros decepcionados(até vou escrever sobre isso depois) mas esses faziam questão de só terem amigos noruegueses e questão de esfregar isso na cara dos outros imigrantes, coisa desnecessária, ambas aliás. E no final se decepcionaram porque esses amigos noruegueses não eram tão amigos e deram um pé na bunda do imigrante babão, acho que o problema é o puxamento de saco, essa postura de meio que idolatrar o norueguês (ou outro estrangeiro) e querer ser amigo a todo custo, muita pouca gente nesse mundo valoriza o puxa-saco.
    Também vejo casos de meninas que não fazem amizades próprias, ficam restritas às amizades dos maridos por serem noruegueses e assim também quebram a cara, e quando quebram não tem pra onde correr (cadê colo?).
    Também prefiro o jeito Hugh Grant de ser do que a over simpátia do brasileiro, o que muitas vezes é falsa. Ih, escrevi demais.

    Beijo

  2. gi Says:

    Eu nunca tive problemas aqui por ser brasileira, mas confesso que fiquei bem curiosa em saber o que a família do meu namorado inglês achou de mim. E sabe o que eles acharam? Grandesmerda ser brasileira, italiana ou inglesa. Gostaram de mim e conversamos sobre futebol (que eu adoro, então nem achei ruim ficar falando do meu Coritiba, hahaha). Acho que eu tava com um pouco da inferioridade dentro de mim já, mas passou depois dos primeiros 5 minutos.

    O meu nome já é outra coisa. Quandos eles ouvem reconhecem que é italiano, mas meu sobrenome é praticamente um trava-línguas pra eles!

    Eu moro com três ingleses e eu acho que eles são ótimos porque sabem conversar e socializar sem ser over. E eu sou curitibana - que já me dá a fama de ser grossa no Brasil (haha, o que eu acho engraçado) mas aqui me sinto normal.

    Eu gosto do Brasil, tenho maior orgulho e tals, mas me irrita quem vem pra cá, coloca bandeira gigante do Brasil na sala e fica fazendo brigadeiro todo dia reclamando de saudade do Brasil. (estou a generalizaire, o pá) Mas eu também não gostava de gente que chega na balada esfregando long neck gelada no meu ombro, então evito gente chata em qualquer lugar do mundo, de qualquer nacionalidade, na verdade.

    Enfim, nem sei qual é o meu ponto mais, haha. Cerveja?

  3. Simone Says:

    posso dar um pitaco da frança? :)

    até agora não sofri preconceito aqui por ser brasileira. eu sou mais branca que as francesas (isso foi comprovado na praia) e meu sobrenome é alemão, então só sabem que sou brasileira quando eu conto, e eu adoro contar. o ótimo é que aqui o povo adora brasileiros, e vários franceses e espanhóis dessa região falam um pouco de português. semana passada teve festival da américa latina aqui em biarritz, e eu me diverti horrores com as pessoas!

    a única situação chata foi um dominicano amigo meu que já veio chegando naquele clichê “brasileira, opa!!!”. mas foi o único, já que eu deixo bem claro e explícito que tenho namorado e não vim pra cá pegar ninguém hehehehe

    de resto, os outros estudantes aqui não reclamam do tratamento dos franceses. acho que a região, por ser super-hiper-mega-multi-cultural (país basco dentro da frança, já foi ocupada por ingleses, turcos, blablabla, 20km da espanha) é bem receptiva e acostumada com pessoas aleatórias de todos os cantos do mundo.

  4. baxt Says:

    Interessante: tres mocas que tbm nao se sentem “preconceituadas,” mas todas branquinhas. Sera que isso tem a ver?

    Luciana,

    Engracado, eu nao conheco nenhum brasileiro aqui tentando ser ingles. Certzmente existem, mas talvez eles estejam tao focados nisso que nem falem comigo, hehehhe!

    Gi,

    Eles nao conseguem pronunciar o seu nome? Entao so imagina o “Cavalcanti” do marido. Tragedia!

    E sim, cerveja!

    Simone,

    Eu tambem gosto de contar que sou brasileira. E engracado que o unico assanhado que se animou com a sua brasileirice foi um dominicano, ne?

    Aqui em Londres acho que a quantidade de pessoas aleatorias leva a duas possiveis reacoes: tem o povo que nao liga porque nem repara mais, e tem o povo que fica incomodado com a “invasao”. Mas o lance eh que Londres nunca seria o poder que eh se nao fossem as hordas e hordas de estrangeiros, ne?

  5. Silvia Says:

    Pode colocar mais uma menina branquela que nao acha que sentiu grandes preconceitos fora do Brasil na lista. Estou morando no Canada’ ha’ quase 3 anos e tenho me sentido bem em casa. Os canadenses sao um pouco mais reservados que os brasileiros, nao sei se tanto quanto os britanicos, mas nada de outro mundo…

    So’ teve um incidente que me deixou um pouco impressionada com a discricao canadense (senta que la’ vem historia): certa vez eu e meu caro namorado (que e’ canadense) pegamos um onibus juntos, saindo do terminal rodoviario, dia de semana, normal. Sentamos perto da porta traseira e atras da gente estava um casal jovem com um bebe^ de colo. OK. La’ pela metade do percurso o onibus para em um ponto e em uma fracao de segundo entram 2 policiais pela porta de tras, carregam o (suposto) pai da crianca pra fora do onibus e pronto. Nenhum pio, nem do preso, nem dos policiais, nem da mae da crianca (que por sinal ficou no onibus). Olhei pra um lado, olhei pro outro… ninguem reage. Nada!! A mae desce uns 3 pontos depois, mesmo assim ninguem comenta. Nao aguentei e perguntei meio alto pro meu namorado se ninguem ia falar nada, ele quase se enterrou no banco de vergonha alheia… Nao consigo conceber alguem sendo preso em um onibus no Brasil sem que um bafafa’ imediato comece entre os passageiros. Tenho pra mim que eu sou uma pessoa discreta, mas eu nao resisto comentar um incidente desses, nao acontece todo dia!

    Mas voltando ao assunto original, nao posso dizer se o canadense tem preconceito em relacao ao brasileiro ou nao, pela minha experiencia tenho sido bem aceita e tratada basicamente como igual. Como o pais e’ bilingue as pessoas acham sempre que o meu sotaque e’ frances, entao muita gente acaba achando que eu sou daqui mesmo (o que ajuda um pouco). Imagino que possa ser bem diferente a experiencia de quem nao e’ branco, ou quem imigrou ilegalmente… Por hora so’ posso dizer que o pais e’ bem receptivo, mesmo tendo quem reclame que eles abrem as portas demais pra imigracao etc. Mas isso e’ de se esperar em qualquer lugar, ninguem gosta de competicao, especialmente em epoca de crise.

  6. João Paulo Says:

    Silvia,
    Mas e aí? E o preso? Você não soube de mais nada? Caraca, vai ser sangue-de-barata assim sei lá onde, o cara parece que combinou com os guardas! Aliás, assim é fácil ter ditadura. Aposto que na Alemanha, em 1938, também era assim: sem perguntas se não quiser fazer companhia na cela ao lado.

    BAxt,
    O máximo que fiquei em terras de Sua Majestade contìnuamente foram 16 semanas. A impressão que tive (e que se repetiu como turista em Londres em 2008) foi de que eles não tratam diferente porque realmente não estão nem aí para de-onde-você-veio. Já que tem gente de TODOS os lugares do planeta — eu vivo repetindo que Londres é Trantor, capital do Império Galáctico (q.v. Asimov); e o Jorge Lucas não tirou Coruscant do nada –, já que tem de tudo, então você é só mais uma, e Marido também. E, se fosse morena, e ele não fosse nipo, também seria só mais uma. Pô. Eu tava nas Highlands, mas a garçonete que me atendeu era austríaca!

  7. Celina Says:

    Ola, Barbara
    Pode me colocar na lista dos que nao sentiram preconceito no estrangeiro.
    Moro ha nove anos no Japao e nunca enfrentei grandes problemas. Nao sei se pq sou descedente de japoneses e por falar o japoneses razoavelmente bem e sem muito sotaque. Alias qdo falo que sou brasileira nem acreditam, pois a imagem que tem do Br eh de mulatas sambando e Ronaldinho.
    Aqui tb tem muitos brasileiros que reclamam e nao vem a hora d voltar ao Br.
    Acho que o brasileiro sente um choque por nao serem recebidos calorosamente e com festas e tb por nao conseguirem fazer amizades facilmente com os nativos. Japoneses sao super reservados, timidos e cheios de regras (adoram obedecer uma) e o numero de estrangeiros eh bem pequeno (por isso o estranhamento).
    Abracos

  8. Camila Says:

    Barbara, eu moro em Frankfurt, onde pelo menos 1/4 da populacao é de estrangeiros… Marido brinca comigo que nem lembra quando ouviu alemao na nossa vizinhanca pela última vez! (Moramos num bairro bem bacana, cheio de gente de todos os lugares.)
    A única vez em que passei por uma situacao estranha foi perto da estacao central, quando eu tava com uma amiga chilena e a gente conversava em alemao quando um cara passou por nós, deu um arroto na minha cara e me chamou de estrangeira de merda.
    Aquela regiao é cheia de drogados e traficantes e o cara tava com uma garrafa na mao, ou seja, é um desses losers que nao tem nada de bom pra compartilhar… Devia estar bêbado, drogado ou tudoaomesmotempoagora. No mais, por ser morena clara, com cabelos e olhos castanhos, passo por mediterrânea. Já me perguntaram se eu era italiana, grega, espanhola, portuguesa. A última foi em Londres, quando um garcom perguntou se eu era libanesa…
    O que me incomoda aqui é que, por ter 3 sobrenomes (mae+pai+marido) as pessoas se enrolam, nunca sabem como me chamar, tem gente que dá umas risadinhas, nunca tem espaco suficiente nos formulários (cartao de embarque é sempre uma loteria, nunca sei como vao escrever meu nome). Tô pensando em mudar meu nome, ficar só com o do marido, pra facilitar minha vida.

  9. Baxt Says:

    Silvia,

    Essa sua historia do onibus eh genial! Acho que aqui em Londres nao rolaria esse silencio nao!

    mas os ingleses tambem adoram fingir que nao eh com eles. Uma vez eu estava no metro e alguem saiu do trem e jogou um monte de frutas (pois eh, tipo um resto de salada de frutas) para dentro, esparramando tudo pelo chao. Nego sequer *olhou* para as frutas! Ignoraram o barulho e nao fizeram nada! (mas acho que nesses casos o objetivo final eh nao “dar conversa” para o vandalo)

    E sobre competicao, se tivessem tantos ingleses bons e bem preparados, ninguem precisaria contratar cientistas ou engenheiros da India ou da China, ne? se os ingleses quisessem trabalhar com construcao civil, nao tinha tanto polones fazendo isso. Se tem tanto imigrante, eh por alguma razao!

    JP,

    Eu tambem acho que em muitos casos (mas nao todos), o estilo do ingles eh um “nao estou nem ai para voce”. O que eh otimo para todo mundo, eu acho.

    Celina,

    Bem vinda ao blog, acho que eu nao tinha nenhum leitor/a do Japao! Imagino que se adaptar ao jeito dos japoneses nao deve ser facil. Mas por outro lado, imaginar um pais onde todo mundo fala baixo, nao joga lixo no chao, e nao enche o saco dos outros, deve ser uma maravilha, ne nao?

    camila,

    Bom, esses junkies malucos nao contam muito, ne? As vezes vejo uns fazendo grosserias por ai (nao necessariamente comigo), mas fazer o que? Nao dah para falar nada, entao a gente finge que nao ve.

    E sobre os nomes, eu tenho strong feelings sobre isso! (e vc corre o risco de ouvir um discurso por ter tocado no assunto, hahaha). Aqui a mulher TIRA o proprio nome para carregar o do marido, o que eu acho um absurdo. (e depois ainda ficam assinando Fulana da Silva, nee Oliveira, o que eu acho o apice da cafonice)

    Como eu nao mudei de nome depois do casamento, as vezes vem uns babacas me chamar de namorada, como se eu nao pudesse ser casada e manter meu proprio nome!

    Para complicar mais ainda, cada um de nos tem dois sobrenomes - eu sempre explico que sao dois family names (e nao um middle name aleatorio, como eles usam por aqui). As vezes eu assino com hifen, so para ficar mais facil de entrar na cabecinha deles, hehehhe.

    Mas serio, apesar de toda a complicacao, eu prefiro assim. A unica circunstancia em que eu sou a favor de mudar o nome depois do casamento eh quando os dois mudam, para ficar todo mundo igual (tipo o John Lennon, que virou John Ono Lennon)

    (e ufa, devia era ter escrito um post sobre isso)

  10. Silvia Says:

    Joao Paulo, vou morrer curiosa sobre o que aconteceu com o sujeito. So’ deu pra perceber pela falta de espanto do individuo que ele ja’ estava esperando ser preso… Foi pro xilindro’ com meio sorriso no rosto e uma cara de ” por que demoraram tanto?”.

  11. Camila Says:

    Barbara, eu acrescentei o Gläser ao casar pq sabia que mudaria pra cá e achei, tontinha, que seria mais fácil me identificar com um sobrenome alemao. (Pq a pronúncia de um dos meus nomes aqui é tao, mas tao feia, que eu achei que o Gläser livraria minha cara na hora de um alemao falar comigo. Livrou nada, agora eu tenho que ouvir meu sobrenome “malfalado” e o Gläser, de brinde.)
    Passei a vida toda acreditando que, se me casasse, nao mudaria meu nome, mas mudar, pelos meus motivos, nao doeu tanto assim… ;-)
    Eu acho bobeira assinar “née”, mas aqui em todo e qualquer documento oficial, por exemplo, aparecem os dois nomes. Super prático, meu nome aparece sempre espremido, já que de solteira é prenome + 2 sobrenomes e de casada é o prenome + 3 sobrenomes…
    Pra evitar a enchecao de saco (toca a ter que explicar que eu sou estrangeira e no meu país a lei é diferente - aqui é ilegal ter mais do que 2 sobrenomes ao casar, acredita? - e blablablabla) eu deixaria meus nomes de lado, ficaria apenas com o Gläser (já que em todo documento oficial vai aparecer o nome de solteira mesmo). Mas ainda nao tomei nenhuma providência a respeito, a idéia ainda nao está totalmente madura… (E o Gläser no Brasil é um problema tb, já que o ä equivale a ae, mas ninguém quer saber. Meu RG com nome de casada tá “Glaser”, a carteira de motorista tb e a OAB fez o enooooorme favor de substituir o Umlaut por um til. Ninguém falou que casar com gringo era fácil, né?)

  12. baxt Says:

    Camila,

    Por favor, nao se sinta ofendida pelas minha opinioes, que muitas vezes sao expressas com enfase demais! (eu sou meio enfatica, mas eh porque eu acho que ninguem tem que leva-las em consideracao se nao concordar).

    Dito isso, eu entendo o drama de ter infinitos nomes. Vc nao pode ficar usando oficialmente o primeiro e o ultimo, mas deixar os outros no registro? No meu caso eh mais complicado porque o nome que eu uso mais (Axt) eh da minha mae, nao do meu pai - eh isso que dah o no na cabeca dos ingleses.

    E que maluquice isso de nao poder ter mais X nomes! O povo tem umas regras muito esquisitas… Em Portugal, por exemplo, existe uma lista de nomes e vc so pode dar um nome pro seu filho se o nome estiver na lista. Bizarro.

  13. Camila Says:

    Barbara, fica tranquila. Nao me senti ofendida, pelo contrário. Nao quero parecer aquela mulherzinha que fala amém pro marido e anda três passos atrás… Eu desconhecia o sistema de nomes daqui e depois de conhecer, acho injusto pra caramba, mas nao tenho muito o que fazer além de chiar.
    Aqui as famílias sao identificadas pelo nome - ao casar as pessoas costumam fazer o registro do livro de família e o sobrenome vale pra família toda. Quem nao é casado, mas mora junto, nao tem o sobrenome da família e as criancas nao têm direito ao nome do pai (o que eu acho injusto pacas). No meu caso, que involve países diferentes, ficou assim: pra mim, valem os 3 sobrenomes, pra ele, o dele. Caso a gente tenha filhos, vai ser um problema, já que vamos ter que escolher qual direito vai reger o nome da crianca. E por tudo o que eu venho passando, nao vai dar certo passar os 3 nomes. Nao dá pra eu reter um e passar o outro, como faria no Brasil, assim como eu tb nao queria que tivesse apenas o nome dele, já que nao vai ser filho de pai solteiro. Aqui nao dá pra optar por um sobrenome ou outro, apesar de falar pras pessoas “me chame de Gläser”, ninguém faz isso. Já viu alemao querer ser contra a regra? Acho que eles vêm assim, programados de fábrica… Se a regra é falar os nomes, falaremos os nomes, ainda que a saliva seque, que os neurônios comecem a correr desesperados, batendo uns nos outros, ainda que saia fumaca pelas orelhas. Minha gineco, quando me chama, comeca a falar meus nomes e a voz vai morrendo, é esquisito. Meu clínico geral gagueja, ainda mais quando tenta lembrar que ei é ei e nao ai (Pereira e nao Perráirra).
    Sei que nao é importante, mas acho isso tudo um saco. Entao, se é pra ficar mais fácil, mudo de nome e pronto. Nao sei se a mudanca valeria no Brasil, já que vai contra o código civil, mas acho que faria a minha vida aqui uns bons milímetros mais fácil…
    Eu já tinha ouvido uma maluquice dessas de lista tb, se bem que tao aí os Justins, Kevins e Britneys, pra desgosto dos professores primários. A justificativa pro preconceito contra esses prenomes (lembra do post que eu escrevi sobre isso?) é que sao nomes que os pobres escolhem e geralmente os pobres têm rendimento mais baixo na escola. É, mais uma vez, o paradigma de Tostines…

  14. Baxt Says:

    Ai Camila, agora entendi o esquema dos nomes. Eles nao conseguem entender que eh para usar um dos sobrenomes mas nao todos, ne? Ai ai…

    E pensar que nos paises arabes e na Italia, que sao alguns dos lugares mais machistas que eu conheco, a mulher MANTEM o nome depois de casar, sem sequer colocar o do marido! (para os arabes, eh uma ofensa a familia tirar o sobrenome, por isso as mulheres mantem - eu concordo)

    Eu tenho passaporte alemao, e ja li em algum lugar que para registrar meus filhos no consulado, como alemaes, eu e Marido vamos ter que fazer alguma declaracao extra de sei la o que, ja que nos nao temos o mesmo sobrenome. So para complicar.

    Me revolta que as feministas desses paises briguem tanto por licenca maternidade, igualdade de salarios, direito disso e daquilo, e nao facam nada sobre essa questao, que eh de um simbolismo absurdo!

  15. Isabel Says:

    É muito bizarra (pros brasileiros) essa confusão alemã dos nomes. Tenho um amigo alemão que tentou me explicar por que seus filhos só têm o sobrenome da mãe e não o dele (ele riu quando eu perguntei se a esposa é hermafrodita!!!). Disse que só podiam escolher um sobrenome; ele também acha errado, mas fazer o quê. Então escolheram o da moça porque é derivado de um nome latino (é tipo “Arsenius”, digamos) e que lá isso é bem mais “chique”/tem mais status do que um nome alemão comum. É assim mesmo, gente???

    Quanto a mudar de nome, em casos como o da Camila, de repente precisa, né? Senão pode dar problema. Eu não gosto disso e felizmente pude manter o meu. Nasci com um certo nome, sou eu e pronto. Não estamos mais nos tempos dos romanos, em que a mulher saía de sua família para *pertencer* à do marido. Os filhos, resultado do casamento, juntarão os sobrenomes, nada mais lógico. O moço acaso vai alterar o dele tb? Aqui no cartório só perguntam pra mulher se ela vai mudar, não pra ele. As pessoas *ainda* acham revolucionário não trocar o nome. E é gente nova ainda, da minha idade! E são mulheres as que mais me olham de lado! Vcs acreditam que ouvi coisas como “Ah, mas mudar é prova de amor” (!!!), “Mas ele (ou a família dele) permitiu que vc não mudasse?” (!!!). Respeito quem muda, cada um na sua, graças que hoje se pode optar… Mas estou fora. Só se fosse necessário mesmo.

    E hoje a mulher trabalha, vá mudar o papelório todo! E quando divorcia? Um inferno… Conheço uma moça que tem 5 nomes. O de solteira, o artístico, o de casada (1), o de divorciada, o de casada (2)!!! Tá, ela é doida. Eu disse a ela pra ir a um psicanalista!

  16. Isabel Says:

    PS Adorei o link do início do post, eu já gostava do blog da Luciana! Quanto ao preconceito, nunca morei fora, mas sou filha de espanhóis nascida no Brasil. Então, na Espanha tem gente que te trata como espanhol de 2a. categoria, tipo, o lixo retornado da América. Neste caso o melhor é assumir o (maravilhosa invenção espanhola, ótima pro fígado), mas não sei se eu conseguiria fazer sempre se morasse lá… Também tem gente que nem liga e logo te faz perguntas sobre o Brasil, curte a idéia e tal. Já aqui no Brasil, idem — uns me destratam por ser filha de estrangeiros, ou têm preconceito com brancos; outros acham legal, fazem perguntas, pedem receita de “paeja” (!!), entra logo o brasileiro e todos descambam pro portunhol + risadas… Deve ser assim em todos os lugares, tem gente de tudo que é tipo e tb depende de como vc age, suponho. (Foi malaê o abuso, Baxt)

  17. Isabel Says:

    Usei brackets e o site não leu. Fica: “melhor é assumir o vá à merda mode (maravilhosa invenção” e “entra logo o palhaçada mode brasileiro”.

  18. baxt Says:

    Gente, acabei escrevendo um post em vez de continuar a discussao por aqui :)

  19. João Paulo Cursino Says:

    E tem mais um complicador, né. No Brasil, é assim:

    Fulano Xpto da Silva –> SILVA, Fulano Xpto da.

    Na Espanha (e países da Latinoamérica):

    Fulano Xpto da Silva –> XPTO, Fulano.

    No caso da supra-assinada Isabel, o passaporte brasileiro traz o nome de um jeito; o espanhol, de outro.

  20. João Paulo Cursino Says:

    E tem o caso dos chineses e bajorianos (BAxt, pergunte a Marido pelos bajorianos), para quem o nome familiar vem antes do nome individual:

    Mao Zedong: filho de um sujeito também chamado Mao, diferenciado de seus irmãos pelo nome Zedong.

    Major Kira Nerys, do exército de Bajor: corretamente chamada Major Kira, conhecida intimamente como Nerys.

    … Aliás, não faria mais sentido usar os nomes assim? Seria muito mais fácil montar lista alfabética!

  21. Baxt Says:

    Hahahaha! Esse negocio de nome eh um saco! Uma amiga minha foi para a tailandia, e la alem de essas ordens malucas existem apelidos e diminutivos que sao incorporados ao nome, e mudam de acordo com a idade relativa de quem esta falando com a pessoa. Uma complicacao.

  22. Alexandra Says:

    Baxt,

    Sou mais uma do time das branquelas que nunca se sentiu discriminada no exterior. Moro no Canadá há 10 anos e também já morei na Espanha.

    Eu acho que vc tocou num ponto importante - a questão de vc se sentir igual e projetar esse sentimento. Eu sempre parti do princípio que sou gente igual a todo mundo, trato todo mundo com a mesma consideração e espero o mesmo. Também não tenho tendência a levar as coisas pro lado pessoal. Por exemplo, se vou num restaurante e o garçon é meio ríspido eu atribuo ao fato de que ele provavelmente está tendo um dia de cão (ou é um cara chato mesmo) e não ao fato de que eu sou brasileira.

    Sobre o lance da discriminação sempre achei que era pq eu não tinha sotaque e não parecia estrangeira aqui no Canada. Mas aí fui morar na Espanha, onde eu tinha realmente pinta de gringa e falava espanhol com bastante sotaque. Mas mesmo assim nunca me senti nem um pouco discriminada, muito pelo contrário. O que me incomodava na Europa era o discurso anti-imigração nos jornais, coisa que não se vê aqui no Canadá.

    Quanto a diferenças culturais, eu sempre fui muito discreta e sempre respeitei a privacidade de cada um, por isso não tive a menor dificuldade em me adaptar aqui no Canada. Não tive a menor dificuldade em fazer amizades.

  23. Eduardo Sant'Anna Says:

    Bem…

    Sou brasileiro que de tão misturado nem sei de onde as pessoas acham que sou. Aliás, na minha ida ao Marrocos descobri que eu pareço do Norte da Africa, já que em 1 semana por lá várias pessoas me confundiram com gente local (teve 2 querendo falar Árabe comigo! hehe). Já minha esposa, é notavelmente black…

    Ou seja, o papo de se sentir bem/ser bem tratado só por ser branco não vale porque ambos estamos muito bem obrigado. Aliás, muitas vezes tenho a impressão de que sou melhor tratado em UK do que em alguns lugares do Brasil… não necessariamente por preconceito mas certamente por educação.

    Acho que o problema de quem se sente mal é um mix entre se colocar em posição de inferioridade, esperar erroneamente que todo o mundo seja over-simpático e dificuldades de adaptação. Há também os que querem enfiar sua propria cultura na goela dos estrangeiros. Tipo o inverso: querer ser over-simpático com pessoas que querem ficar na delas.

    A grande verdade é que tem Brasileiro que não consegue se adaptar ao exterior, mas que também não se adaptaria em outro canto do Brasil. Ou seja, mesmo se estivesse morando em um estado Brasileiro bastante oposto ao natal (tipo sair de Salvador pra morar em Curitiba) tem gente que tem dificuldades.

    É aquela coisa típica do ser humano: é mais facil fazer outsourcing de suas responsabilidades (a culpa é do sistema, do país, da empresa, do chefe…) do que perceber que o problema está em si próprio.

    Mas é claro, há também casos reais de discriminação - que certamente acontecem mas não são regra.

  24. baxt Says:

    Eduardo,

    Que bom, finalmente alguem que nao eh branquelo dando opiniao! E que bom que voce e sua mulher se sentem bem no UK. Eu acho que a maneira com que a gente chega e se apresenta pros “nativos” faz muita diferenca no tratamento que a gente acaba recebendo, mas eh sempre bom ver a opiniao dos outros.

    E concordo com a parte de enfiar a sua cultura na goela dos outros. Existe uma minoria que acha os ingleses (alemaes, franceses, sei la o que) horriveis, pelo simples fato de que eles nao sao brasileiros e nao se comportam como tais! :) Nao faz muito sentido, ne?

    (e sim, discriminacao existe sim, sem duvida!)

  25. Eduardo Sant'Anna Says:

    Eh…

    E tem gente que chega ao ponto de dizer que “esse jeito frio dos xxxx-eses” (substitua pela nacionalidade que quiser) não é verdadeiro, não é humano.

    Pois bem… outro dia eu estava pensando: se a maior parte da população mundial está na Asia (e a maior parte dos asiáticos tb têm fama de “frios”) e se os europeus tb são “frios”, então quem é a exceção da regra? :-)

    Pra mim tudo se resume à capacidade da pessoa de aceitar que o mundo não está limitado àquilo que aceitamos como o padrão que nos ensinaram desde criança.

    A gente fala em preconceito no exterior mas acaba esquecendo do Brasil… e se fosse o inverso? E se tivesse um monte de mulher de burca e homem de turbante e barbão na orla do Rio? Tenho certeza que um monte de cariocas “over-simpáticos” iam ficar se cutucando e sacaneando: “ih, olha lá o Osama!!”. Outros chegariam pro cara e perguntariam “coé Bin… como q está o Afeganistão?”.

    Não precisa nem chegar a tanto. Tem Nordestino que sofre no Brasil com isso…

    É fácil criticar os outros. Dificil é encontrar os erros em nós mesmos.

    Abraços.