Olha, o post anterior descambou pruma discussão sobre nomes, sobrenomes, mudança de nomes pós casamento, e como essas coisas todas funcionam nos outros países (aliás, só tem mulher vindo nesse blog, é? Tirando o JP, homem nenhum fala nada? Ninguém para contestar? Daqui a pouco esse blog aqui vai ficar igual uns blogs que eu conheço por aí, em que só se aceita comentário para concordar e jogar confete. Socorro!).
Bom, acabei achando que o assunto merecia um post exclusivo. Aqui na Inglaterra, não sei se já comentei, o machismo não chega aos pés do Brasil. As coisas são mais igualitárias, você não é só um pedaço de carne andando na rua, ou sentada no escritório. Tem homem que vê as mulheres até como gente, veja só! (tirando um ou outro italiano nojento no metrô, é lógico).
Mas existe uma coisa inacreditável que são os rituais de casamento, e o esquema de nomes daqui:
1 – É o homem que tem que pedir a mulher em casamento. E ponto. À mulher cabe esperar pacientemente (ou menos pacientemente) que ele “pop the question”. E não eu não estou meio confusa depois de ler tanto livro da Jane Austen – estou falando de hoje, 2009. Sabe no Brasil, em que muitas vezes a mulher e o cara decidem juntos que tá na hora de casar e pronto? Esqueça. Aqui, todos os seus amigos ainda por cima vão perguntar como foi a maldita proposal, então se você não tiver uma você é um alien. (lógico, essas regras se aplicam se você é inglesa. No meu caso, por exemplo, todo mundo entende que eu casei em outro lugar).
2 – Com a proposal vem o anel, com um brilhante gigante, igualzinho ao de todas as outras mulheres na rua. E aí vai a moçoila desfilar um anel que mostra que ela agora é parte do rebanho, e que seu noivo (fiancé, em francês mesmo) gastou uma baba para comprar um anel caríssimo só porque é assim que todo mundo faz.
3 – Vem o grande dia, e a mulher tira o seu próprio nome, para ficar com o do marido. Quem se importa se ela tem 30 anos, uma bela carreira acadêmica, 20 papers publicados na Nature com o nome de solteira, ou é uma jornalista com milhares de ocorrências no Google. Não importa que seus pais, os donos daquele nome, criaram ela por trinta anos e fizeram um monte de sacrifícios. Ela conhece um mancebo casadoiro, e em uns dois ou três anos manda o nome dos pais (que é o seu próprio nome) pro lixo. Os amigos nunca mais vão encontra-la no Facebook ou em lugar nenhum, porque o sobrenome antigo sumiu sem deixar rastro.
4 – A mulher manda emails para todo mundo, e comunicados para o círculo social para avisar que casou. Em alguns casos, ela vai assinar Mariazinha Silva (née Oliveira). Assim, em francês mesmo, e com parêntese mesmo. Assim todo mundo sabe que de quem se trata (já que Mariazinha Oliveira nunca publicou nada no mundo). De quebra, o planeta fica sabendo que ela desencalhou.
5 – O filho, adivinha, vai ser chamado Severino Benedito Silva. Sem nenhum sinal do nome da família da mãe. (filho de pai solteiro, como disse a Camila). Esse segundo nome não serve para nada mesmo, mas todo mundo tem um middle name por aqui. Nesse caso é uma questão de hábito (eu já soube que antigamente a pessoa botava mais um terceiro nome quando crismava, ou algo assim). Pesoalmente, acho meio inútil, mas tudo bem, cada cultura com seus hábitos. Por que eles não usam o espaço do middle name para colocar o nome da mãe, como normalmente se faz no Brasil, Espanha, etc? Não faço idéia.
6 – O homem, obviamente, continua com tudo igual, e não tem aporrinhação nenhuma. Não sei se a lei permite aqui que ele mude de nome, como no Brasil (o Brasil tem leis muito melhores que as daqui, nesse sentido).
7 – Se você não mudou de nome, as pessoas acham que você é muito esquisita, ou que você é uma reles namorada. Ou que você não leva o casamento a sério (como se eu não conhecesse toneladas de garotas no Brasil que casaram só para desencalhar, com o primeiro que aceitou, só para fazer o circo todo, fazer uma festa caríssima, e se separar dois anos depois. Eu já ouvi uma me explicar que é bem mais digno pruma mulher de trinta e tantos anos ser divorciada do que solteira). Não importa também que você use uma aliança desse tamanho no dedo (aqui, a mulher usa a aliança E o anel de brilhante. O homem usa aliança tambem, mas não nunca reparei se em todos os casos, como no Brasil).
8 – Na hora de registrar os filhos, eu não faço idéia de como são as regras. Tenho medo só de pensar, mas tenho fé que nessa mixórida de indianos e de montes de imigrantes, as leis deles sejam um pouco menos radicais que as alemãs, por exemplo (que, pelo que eu fiquei sabendo, permite um sobrenome só).
OBS: Já ouvi alguns (poucos) brasileiros criticando a minha opção de manter o nome de solteira. Na boa, eu não preciso mudar de nome para mostrar para todo mundo que desencalhei, né?
Já tenho dois sobrenomes, não havia nenhuma possibilidade de tirar um, nem de empilhar um monte de sobrenomes. Além disso, não faria sentido só eu trocar de nome – e mudar os documentos dos dois, na véspera da viagem e da mudança para Londres seria uma mão de obra inacreditável. Já imaginou ter metade dos documentos com um nome, metade com outro, passagem sei lá como, etc etc? Na verdade, acho que nenhum dos dois sequer pensou na possibilidade a sério. E eu não gosto nem respeito ele menos por isso.
Meus filhos vão ter o nome dele, e é isso que importa.
PS: Tudo isso que eu falei se aplica a mim. Se você achou que tinha que fazer tudo diferente e tá feliz com isso, eu fico feliz por você de verdade.