- Ai, eu sou chocólatra!
- Ai, eu sou ob-ce-ca-da por sapatos!
Essas são duas das frases que muita mulher sai por aí repetindo sem nem checar se são verdade. Só para se sentir parte de um clubinho.
Me dá vontade de sacudir essas moças e dizer: Helo-o, você já parou para pensar que gosta de sapatos porque muitos saptos no mundo são bonitos, e não tem na-da demais nisso? Ou que chocolate é uma coisa gostosa e cheia de gordura e açúcar, e você não é diferente de ninguém por gostar de chocolate?
Porque na boa, né? Nada mais natural do que gostar de sapatos e de chocolate. O que me incomoda é essa mania de transformar isso em uma suposta obsessão, só porque alguém nos disse que mulher é ob-ce-ca-da por essas coisas.
Outro dia eu ouvi uma discussão sobre o que dar de presente para uma menina de 3 anos. Alguém falou: “Compra alguma coisa rosa.” O outro respondeu: “Boa idéia, minha sobrinha gosta muito de rosa.”
E eu fiquei com vontade de responder: “Claro que ela gosta. Ela não tem outra opcão!”
Eu quando era criança e adolescente achava que ti-nha que gostar muito de brincar de Barbie. Que tinha que ficar histérica com o coração pela boca quando passava um menino bonitinho. E, como se diz em inglês, “I played the part” Fiz o papel. Sorte (ainda bem para a minha dignidade), que esses auto-teatrinhos nunca duravam muito.
Mas aí eu vejo a mulherada repetindo essas frases idiotas, só para se sentir parte do grupo, e tenho vontade de sentar elas e desenhar um diagrama explicando que, querida, parte das opiniões que você professa não são suas, sabia? Você está apenas repetindo, como um papagaio com luzes no cabelo e bronzeamento artificial.
Não existe outra explicação pra tanta gente achar cintura alta horrenda num ano e no ano seguinte achar lindo.
E aí outro dia eu entrei no blog da Lola, feminista ferrenha e talz, e ela estava falando de um livro sobre chocolate, e uma das piadas do livro era que chocolate não é ruim para a forma física. Afinal, esconder todos os 50 quilos de chocolate da sua casa toda vez que vem uma visita é um exercício e tanto!
Na boa, uma piada que me chama de descompensada (50 quilos?) e egoísta (esconder comida de visita? Socorro!) é engraçada? O que achei mais intrigante é que a Lola é daquelas que destrincha toda e qualquer piada, procura ofensas em comerciais (e acha, infelizmente, montões de ofensas), e está sempre atenta a leituras alternativas em tudo. Mas achou essa piada engraçadíssima.
É claro que eu que estou sendo radical aqui. Mas é que realmente essas obsessões contruídas me incomodam. Tanta feminista por aí brigando contra esses estereótipos (de maluca, de emocional, de tepeêmica… Todos estereótipos que servem para desacreditar uma pessoa). E aí a gente sai repetindo essas coisas? Que desserviço a nós mesmas! [esse eh um post bacana sobre o assunto]
Pois bem, eu gosto bastante de sapatos, acho muitos deles lindos (afinal, exércitos de designers existem só para inventá-los). Paro na vitrine para ficar olhando para eles. E compro alguns, mas não muitos. E gosto de chocolate, mas nem sempre acho que cai bem. E gosto muito de tomate e de azeite e queijo, e como essas três coisas muito mais do que chocolate, sem dúvida. Seria capaz de comer pizza todos os dias por muito tempo (sou exagerada nesse ponto). Mas não sou ob-ce-ca-da por nada disso.
Desculpa, mas não faço parte do clubinho das mulheres auto-proclamadas descompensadas.
Tenho meus descompensamentos, sim. Vários, como sabe qualquer um que leia esse blog. Mas tento garantir que eles sejam causados por mim mesma, e não pela Carrie Bradshaw (eu já mencionei hoje que odeio ela?), pelas editoras das revistas femininas, nem pelos fabricantes de produtos de beleza.
PS: quando eu era adolescente, as meninas gostavam de dizer: “ai, eu sou maluca, sabe? Eu fui ali naquele menino e falei oi para ele. Assim, do nada!” E sempre tinha alguém para responder “Ai, que maluca, mesmo!” E repita o mesmo diálogo para, sei lá, usar um sapato vermelho ou qualquer outra “transgressão” que não tinha nada de transgressora.
Será que isso é uma maneira de manter as pessoas sob controle? Fazendo elas acharem que são super transgressoras, e assim impedindo que elas sequer pensem em tentar uma transgressão de verdade?
Sei lá. Eu lembro que na época eu já tinha vontade de dizer “desculpa aí, mas você não é maluca. O que você fez é absolutamente tranquilo e saudável. Não tem nada demais, ninguém nem reparou, e muito menos ficou achando você descoladíssima.”
A questão é que na época não existia blog para eu escrever isso, então eu ficava calada mesmo, e tentava fazer amizades com as que não achavam que comer chocolate, comprar sapatos ou usar uma roupa diferente eram o ápice de uma experiência humana “muito louca.”