Então que a gente está se mudando de casa (já mudamos, mas a casa ainda está um grande gerúndio – ou work in progress, dependendo da língua que você quiser usar). Resolver arrumar um apartamento sem móveis dessa vez, porque existe um limite de quanto um ser humano pode viver com móveis de queijo da queijolândia (longa história, dia desses explico), camas que fazem nheco nheco e sofás que precisam de panos em cima para evitar constrangimento.
Quer dizer, se você tem prioridades nobres na vida, como lutar pelos direitos humanos ou salvar animais abandonados ou __________ (insira uma causa nobre aqui), é capaz de você passar a vida inteira feliz e contente com esse tipo de coisa, já que sua cabeça está ocupada com assuntos superiores. Mas eu não sou tão nobre assim, e meu lado fútil não curte mobília da Argos e landlady pão dura.
Então agora a casa é mais bonitinha, é bem pequena, e a gente que está pintando! Na verdade Marido pinta, e eu lixo as coisas, passo massa e preparo tudo em geral. A divisão de papéis foi definida por ele quando na minha segunda rolada de tinta na parede eu quebrei o extensor de rolo (o rolo de tinta fica no final de um pau comprido – do qual eu não sei o nome em português, que aqui se chama pole, o que se traduz como poste, pau ou qualquer coisa assim – e eu quebrei o tal pole, porque sou um pouco estúpida e fiz muita força).
Está sendo uma experiência nova. Basicamente nós brasileiros, não estamos acostumados a fazer nossas próprias coisas, porque sempre tem alguém para fazer pra você. Então essas coisas DYI e relacionadas a cuidar de casa são sempre novidade para nós. E estamos aprendendo. O plano é, depois que aprendermos, fizarmos ricos e contratarmos alguém pra fazer, hehehehe. A diferença é que aqui você paga uma fortuna para a pessoa fazer as coisas que você tem preguiça de fazer. O que é muito justo. É assim que se garante que os encanadores, eletricistas e pintores tenham um vida decente.
E então. Nossa vida tem sido comprar coisas pra casa, desviar de caixas pela casa, visitar o site da Ikea, medir todos os cantos da casa várias vezes para ver o que cabe ali, se preocupar com dinheiro, essas coisas. Normal. Vida de classe média, sabe? As pessoas têm vergonha de classe média, e eu estou trabalhando isso, sabe? Porque a gente deveria ter orgulho de ser classe média. Porque ser classe média deveria ser o objetivo final da nossa civilização (não é, mas isso eh outra história). Imagina uma sociedade onde todo mundo é classe média? É tipo a Suécia, eu acho.
Onde, como disse um amigo meu, todo mundo pode ter uma vida chata, se preocupar com pequenas coisas, em vez de se preocupar se vai ter comida no final do dia, ou se vai sair de casa e levar um tiro. Porque a vida ideal é a vida sem emoção. Ou se tiver emoção, é a emoção voluntária do cara que é bombeiro ou que vai escalar uma montanha gelada e perde os dedinhos do pé (eu já comentei sobre meu pet hate sobre açlpinistas que vão passar perrengue sem nenhuma necessidade e depois gastam fortunas dos seus países em expedições de busca que procuram manés que foram até lá sem ninguém ter mandado?). Mas enfim, até esse tipo de coisa é nobre: se você tem uma nencessidade latente de passar perrengue e a única maneira de fazer isso é subindo uma montanha e congelando seus dedos, significa que o sistema está funcionando. Você não é obrigado a passar perrengue e foi porque quis.
Então, voltando, é isso. Mesmo que a gente preferisse ser rico ou pelo menos ter mais dinheiro, viva a classe média! Viva a ida à Ikea, voltando pra casa com caixas de coisas pra montar. Viva os papos classe média sobre preços de aluguel ou a viabilidade de se ter um carro. Viva a preocupação com coisas semi fúteis. Porque isso mostra que nossa vida é boa.
