A experiência de andar de metrô de muletas

Acabo de chegar em casa da experiência meio esquisita de andar alguns quarteirões de muletas, pegar o metrô e andar mais um pouco até em casa. Estranha porque descobri que andar assim é uma ótima maneira de meditar, já que o esforço para andar e para não cair nas calçadas tronchas ou colocar o gesso em cima de um cuspe ocupa quase todo o cérebro e é impossível pensar em muitas outras coisas. É muito estranho também andar no seu passo de lesma enquanto o mundo vai passando. Nas horas em que eu não estava olhando pro chão, não sabia muito bem para onde olhar, já que levava umas cinco vezes mais tempo para passar pelos lugares do que levaria normalmente.

E o povo olhando para mim na rua? Todo mundo me parecia pensar que aquilo não era coisa pruma mulher adulta fazer, ficar quicando em passo de lesma pela rua. Eu devia era estar em casa ou dentro de um taxi (peguei taxi para ir pro trabalho, e nem foi caro, mas eu queria testar para ver se dava para pegar metrô. Dava porque hoje é meu décimo dia de muletas. Se fosse o primeiro eu tinha morrido aos peidos no primeiro quarteirão).

A moça do metrô disse que eu não devia ter ido trabalhar. O moço que me ajudou a levantar quando caí sentada (devagar e com classe, fazendo cara de “eu queria sentar mesmo”) na escada rolante não disse nada, mas deve ter pensado a mesma coisa. Não tinha passado pela minha cabeça que pegar escada rolante seria tão difícil!

Foi também a primeira vez que saí na rua sem o Marido desde que minha fístula rachou. Subir e descer escada sem o Marido para garantir que eu não vou rolar até lá em baixo é meio tenso. E estando com ele o povo não faz a mesma cara de “pegue um táxi, sua maluca.”

Enfim. O mais estranho mesmo é o ritmo da coisa e não ter pra onde olhar. E claro, o quanto andar dois quarteirões parece uma mega conquista. A saudade que dá de sair para correr pela rua e aquelas coisas todas.

E fiquei pensando que no meu caso essa é uma pentelhação temporária, mas e quando a gente ficar velho? Tipo o velhinho da estação de ônibus de Logroño que levou meia hora para chegar até a loja, comprar pão, colocá-lo numa bolsa MacGyver nas costas, pegar as duas bengalas (uma delas com um “pegador de coisas que caírem no chão”) e sair andando a passo de velhinho MacGyver de Logroño? Porque no caso dos velhinhos a idéia é só piorar. Essa saudade que eu tenho da minha quase mágica capacidade de andar por aí, eles também têm, mas em vez de carregar um gesso espanhol esfarrapado pela rua eles carregam 80 anos nas costas, às vezes 90. O que é melhor do que a alternativa, mas sei lá, soa meio assustador.

3 Responses to “A experiência de andar de metrô de muletas”

  1. João Paulo Says:

    É… E tem mais duas coisas. Para você, o gesso é temporário. Para o velhinho, só vai piorar mesmo.

    A segunda coisa é que eventos como esse ajudam a ter um vislumbre (limitado) de como é não poder andar. Uma vez tive uma tala na mão direita, fiquei sem escrever direito por duas semanas, e fiquei pensando nas pessoas que perderam a mão; como é que elas fazem? Ajuda a dar uma certa compreensão. Então, eu vejo alguém de muletas e só posso imaginar quanta dificuldade aquela pessoa enfrenta que eu nem sonho.

    Uma de minhas colegas de trabalho é anã. Fico admirado em vê-la subir degraus altíssimos e ter que se equilibrar para fechar uma janela que, para mim, basta estender o braço.

    Aí, eu me orgulho de ser trekker e fico pensando quanto sou avançado em saber respeitar as diferenças entre os humanos — exceto que me envergonho de não me lembrar delas às vezes e de quanta falta de consideração ainda temos/tenho com as pessoas que dependem de cadeira de rodas/muleta/aparelho auditivo/cão-guia.

    Não é pra “levantar as mãos pro céu de não ter nascido assim”. Fazê-lo é achar que eles são “menos gente”, é não reconhecer que, para o cego de nascença, o mundo sempre foi naturalmente diferente do seu. Mas é pra lembrar que tem que montar o mundo de modo diferente, para respeitar as necessidades de quem as tem. Se criança tem bebedouro baixinho, então elevador também tem que ter aviso sonoro, “enésimo andar”.

  2. Christina Says:

    Não sei se ajuda, mas andar de muleta faz um bem danado pros braços e pro músculo do tchauzinho (quero dizer trícepes, mas nem sei se esse mesmo). Quando quebrei a perna logo antes de vir pra Londres e tive que ficar de muleta 2 meses oscilei entre deprê e feliz-feito-pinto-no-lixo. Vai na fé, é mó experiência legal pra contar pros amigos/filhos uns anos depois, principalmente porque - como você disse - não foi grave. :-)

  3. Bia Says:

    Ai, menina, morri de rir com o seu relato… Espero que esteja melhor! E aproveita mesmo pra ver Londres com outros olhos. Saudade de vcs, viu?

    Beijão!