A generosidade de autor, e sua entidade equivalente no universo bizarro - um ensaio aleatorio

Eu tenho um monte de coisas para escrever a respeito, mas estou mega ocupada, e por isso vou só linkar esse texto aqui que achei bacana. Nao tenho opinião formada sobre o termo “generosidade do autor.” Nem sabia o que significava até 5 minutos atrás, e por preguiça de pesquisar, estou levando fé na definição do Polzonoff. Gostei do que ele disse sobre autores deixarem certas coisas em aberto em suas histórias para que a gente (o leitor) possa formar uma opinião. Existe uma certa generosidade em não julgar o personagem, mas deixar que o leitor faça isso, se quiser. E que chegue à conclusão que bem entender.

Mas tem gente que não gosta disso. Que na verdade odeia, e fica revoltado quando o autor não lhe dá todas as respostas. São aquelas pessoas que ficam perguntando tudo pro autor e fica chateado quando recebe alguma resposta do tipo “você entende o que quiser, e o que você entender está certo.” (Tipo o final de 2001, sabe?) Como assim um fato pode ter mais de uma interpretação? Mais de uma verdade? Não aceito, eu quero uma verdade só.

Ai, preguiça de gente assim. Que acha que Capitu traiu Bentinho. Ou que não traiu. Caraca, a Capitu é o Gato de Schroedinger, tá bom? (subindo no caixote na praça e apontando o dedo para um leitor imaginário) Ela traiu E não traiu, ao mesmo tempo! Talvez seja aí que o mundo macroscópico encontre com as partículas subatômicas. Como os físicos teóricos nunca perceberam isso?

(Hm, tá bom, eu sei, viajei demais. Estou descendo do caixote da praça e voltando ao texto.)

O que eu queria dizer é que autores que não sabem largar suas obras me irritam mais ainda. Aquela história da JK Rowling dizer que o Dumbledore era gay me tirou so sério, sabe? Porque a partir do momento em que ela publicou os livros, fechou a série, a história e aquele universo inteiro deixou de pertencer a ela.

A partrir dali, Dumbledore seria o que cada um entendesse dele. Aí ela vai e dá uma declaração fazendo xixi sobre o personagem, só para marcar teritório. “Não, querida, o personagem não é mais seu. Você não manda mais nele, oquei? Agora vai gastar seus milhões e jantar na casa do Sir Paul McCatney.”

George Lucas é outro, dizendo que Han não atirou primeiro. Atirou sim. Que midichlorians criam Jedis. E por aí vai. Se o que eu falei lá no primeiro parágrafo é a generosidade do autor, o que seria isso? Qual seria o nome para o oposto absoluto da generosidade do autor?

4 Responses to “A generosidade de autor, e sua entidade equivalente no universo bizarro - um ensaio aleatorio”

  1. João Paulo Cursino Says:

    BAxt, eu concordo **totalmente** com você.

    Agora, só pra você gostar um pouquinho mais dos juristas, olha só o que você disse:

    “a partir do momento em que ela publicou os livros, fechou a série, a história e aquele universo inteiro deixou de pertencer a ela”

    Isso é o que os juristas fazem com a lei. Na hora em que o Estado promulga a lei, deixa de ser tão importante a “mens legislatoris” (aquilo que o legislador estava pensando) e passa a ser mais impotante a “mens legis” (aquilo que a própria lei significa). Os interpretadores passam a ver nela os significados que ela pode ter à luz da vida social que existe no mundo de verdade. A lei deixa de pertencer a quem a criou e passa a pertencer a quem vai fazer uso dela.

    Oquei, viajei mais ainda que você! :)

    A analogia com o gato de Schrödinger (aqui ainda tem trema) é perfeita. Em cada pessoa a obra se completa de forma diferente, e todos os estados quânticos podem coexistir. A opinião do Autor conta mais do que outras, mas ainda é apenas uma opinião, não é decisão. Quem decide é o leitor. Então, é como se houvesse tantas obras quanto há leitores.

    Em Star Trek, diz-se que aquilo que não está na tela é “não canônico”: não vale com a mesma força daquilo que está. Mesmo que seja declarado pelo Autor! Por exemplo, Gene Roddenberry dizia que a Frota Estelar não era militar, mas os episódios nunca disseram isso. Em resultado, as opiniões divergem sobre ela ser militar ou não (eu, p.ex., entendo que seja).

    Os exemplos são ótimos: não há final mais aberto, maluco e incompreensível do que o de 2001, que aliás não significa nada mesmo: Isabel leu Mundos Perdidos de 2001 (making of o filme) e diz que Clarke e Kubrick fizeram qualquer coisa porque orçamento e prazo estavam estourados. Idem Greedo e midichlorians: retcon só vale para acrescentar, não para desfazer!

    O nome oposto poderia ser… “possessividade do Autor”?

    … E de novo me estendi demais. Desculpe, isso é resultado da generosidade da Autora.

  2. Marcio Says:

    Totalmente fora do assunto… vc ainda escreve para revistas no Brasil? Não quer sugerir para alguma fazer uma reportagem sobre vasectomias? É impossível achar alguma informação decente sobre isso aqui. Tipo, tudo que se lê é: vc não fica broxa e consegue ejacular depois. dã. Tente achar um médico que faça uma vasectomia aberta (nem sei se esse é o termo em português, porque não achei nenhuma referência sobre isso em português) e a cara de paisagem é geral. Ah, até um terço dos homens ficam com dor escrotal permanente depois? E daí, vamos recomendar isso e pronto. Socorro. Tudo bem por aí?

  3. Isabel Says:

    Será que, com a profusão de meios de informação disponíveis hoje, fica mais fácil entender uma atitude como a da Rowling? Antes, o autor publicava o livro, o dito ia pra livraria, era vendido, pronto, acabou ali. Hoje, o autor continua em contato com o leitor. Talvez as novas mídias levem a uma construção diferente da obra literária, algo mais interativo, talvez, mais fluido, mesmo depois que o livro é vendido, e ocorre algo como o que ela fez. Nem melhor nem pior do que antes, apenas diferente. Bem, claro que isso tb ajuda no lado mercadológico, ajuda a manter a chama acesa em um mundo cheio de concorrência com o livro.

    Entendo o que vc disse, cresci lendo livros nesse conceito, mas será que ele está mudando? Como vários conceitos relativos à dinâmica do processo de comunicação? Não fechei opinião, acabo de pensar nisto.

  4. Baru Says:

    Bárbara, desculpa não comentar sobre o post. Mas fiquei tão feliz de ter encontrado seu blog! Nem sei como aconteceu; de clique em clique cheguei aqui. E, alas! Somos charás e tudo.
    No meu mestrado tive muito problema com essa história de “verdade única”, porque no mundo das artes plásticas, assim como na literatura, muita gente acredita que o mundo é melhor quando tem alguém nos dizendo como pensar. Mas acho mesmo que a arte deve ser algo que nos conecte aos nossos pares, seres humanos, e não que nos diga como ser (tiro isso daquela velha “penso, logo existo”? Que tudo bem, não é uma tradução boa e aliás segundo já li por aí é uma daquelas questões de “citação fora de contexto”, e por tanto mal interpretada, mas, divago!)
    Bem, isso tudo foi felicidade. É difícil encontrar um lugar que se possam discutir idéias entre outros brasileiros.
    Obrigada!