O mundo sem escolhas

Continuando a conversa dos comentários, e também das mensagens que alguns amigos me mandaram em privado (um deles disse que isso era conversa de baranga, e como eu supostamente não sou baranga, não poderia ter discurso de baranga! Não concordo, mas achei o ponto de vista dele tão interessante que resolvi citar aqui anonimamente - até porque ele não foi o único a manifestar essa opinião - só foi o mais direto).

Sim, em primeiro lugar, a publicidade não bagunça somente a cabeça das mulheres. Bagunça a cabeça de todo mundo. Não só a publicidade, mas os valores, a sociedade em geral. (um dia vou escrever um post sobre peer pressure, que é um assunto fascinante, para usar um adjetivo que os ingleses adoram).

Um exemplo? No Brasil os homens muitas vezes acabam ficando com mulheres que não estão a fim porque homem que é homem não nega fogo. Isso é violento, na minha opinião. Não tanto quanto um estupro, é lógico, mas não é nada bacana.

Outro exemplo: já li reportagens a respeito, com números e tal, mas como não estão à mão, vai só a observação. É muito mais fácil ver uma mulher largar uma carreira chata e bem paga para correr atrás do que ela gosta do que um homem: Porque oras, uma mulher que ganha mal está seguindo seus sonhos. Um homem que ganha mal é um ferrado, um inútil. Por isso muitos ficam nos empregos horríveis, com problemas de saúde, queda de cabelo, sem ter tempo para mais nada na vida, e infelizes.

É lóóógico que nada impede o cara de dar um fora na mulher que ele não quer comer, e nada impede ele de correr atrás dos seus sonhos. Mas é um fato que os amigos olham com cara de cu se você não tiver um carro bacana, uma TV bacana, um apartamento próprio (oh, a obssessao pela casa própria! Aqui no UK acho que ainda é pior que no Brasil. Santa classe média, Batman!).

Enfim.

E não, eu não apóio (ainda tem acento?) a censura. No mundo ideal, todo mundo ia ter aula de semiótica na escola, como sugeriu o Maron nos comentários. Todo mundo ia ser vacinado e ia entender as mensagens que recebe e supostamente decidir ser influenciado ou não. As pessoas iam ter um pouquinho mais de base para fazer suas próprias escolhas (e não simplesmente agir do jeito que é esperado, sem questionar nada. E se depois de questionar eles quisessem seguir agindo da mesma forma, lindo! Cada um com seu cada um).

Por exemplo, nesse post aqui a Lola está reclamando de uma propaganda em que a personagem que aparece falando merda e é enxotada da rodinha de samba é uma mulher de óculos, padrão baranga. É over interpretação? Médio. Porque é bem verdade que esse tipo de mulher só aparece em propaganda para ser escorraçada.

Mas a propaganda é ofensiva? Não. (Na verdade nem acho o anúncio ruim. Só achei a escolha da modelo uma escolha boba)

Mas vale a pena perceber que esse tipo de mensagem inofensiva só fortalece o status quo.

E aí, o que você faz? Nada. Chama atenção pro fato, desconstrói a mensagem. Mostra pro publicitário que ele é um mané. Que ele podia ter usado um homem no anúncio. Uma mulher que não fosse baranga. Ou um maluco carregando um poster The End is Night. (Ou até mesmo uma baranga - o problema não é a moiça com cara de professora de História - o problema é que as moças com essa cara só são representadas de forma negativa, e não de forma negativa E positiva também)

Assim como os publicitários dessa mesma agência (trabalhar lá deve ser uma beleza, hein? Só piadinhas de altíssimo nível na máquina de café) podiam ter usado a Macarena para o anúncio do Doritos, em vez de YMCA, né não? Se eles queriam falar de “dancinhas bobas” (voce acreditou nessa desculpa que eles deram? Eu também não), macarena servia muito melhor.

Eu e Marido ficamos pensando várias maneiras mais inteligentes de usar o slogan “quer dividir alguma coisa? Divide um Doritos!”

- Poxa, hoje saí com uma cueca pequena demais, que fica entrando no meu cu o tempo todo…
- Quer dividir uma coisa? Divide um Doritos!

- (voltando do banheiro) Que dor de barriga! Sabe quando você faz cocô e ele sai com uns puns no meio, fazendo brlbrlblr e sujando a louça toda da privada?
- Quer dividir uma coisa? Divide um Doritos!

Ou uma pessoa contando nos mínimos detalhes irrelevantes a briga que ele teve com a caixa do banco, enchendo o saco do amigo…
- Quer dividir uma coisa? Divide um Doritos!

Tá vendo? Não é tão difícil assim. Para que ser babaca? Só pode ser preguiça mental.

O que eu quero não é a censura (que também é uma solução preguiçosa, em muitos casos), mas o diálogo.

Porque o cara que cria a propaganda imbecil é um bobo. Os caras que riem são outros bobos. E eu tou tentando levantar a cabeça desse mar de bobeira e trocar idéias, questionar aquelas coisas tão óbvias que às vezes a gente nem repara.

Eu preciso pensar mais no assunto, mas tenho a impressão que como aqui na Inglaterra não se pode usar mulheres gostosas a torto e a direito na publicidade, acabam saindo coisas muito mais inteligentes e menos preguiçosas, como os anúncios da Cadbury, o anúncio de evolução da Guiness, e vários outros.

Já na Itália, quando você quer vender um colchão você coloca várias moças de camisola alisando o colchão e tá feito. (eu vi isso!) Criatividade pra que?

Ai ai, ainda falta responder aos amigos que acham que o livre mercado é a solução para todos os problemas do mundo, e por isso a publicidade e a comunicação tem que ser deixados soltos, porque o mercado quer assim.

Isso fica para outro dia. Mas só para deixar registrado, eu não acredito em laissez faire, só isso. Acredito em equilíbrio. Acredito em forças opostas e interesses opostos um tomando conta do outro, evitando extremos. Na minha opinião, essa é a única alternativa, todas as outras estão fadadas a dar merda.

PS: Para os meninos que lêem esse blog não acharem que eu tou falando só de representação da mulher. O anúncio abaixo mostra de uma vez só que ter cabelos grisalhos é errado, que você não vai comer ninguém se não pintar os cabelos, e que quando você finalmente comer alguém, tem que mostrar para suas filhas, porque elas só vão respeitar o pai se ele for um comedor!

(não, homem, você não pode escolher ter o cabelo da cor que quer, e você não pode escolher ficar sem comer ninguém - se quiser. Você não tem escolhas, ora bolas! E ainda tome um Viagra antes de sair de casa, porque segundo os emails de spam, ela só vai gostar de você se depois do jantar caro - que logicamente, você pagou - você der umas 5 durante a noite. Mesmo que ela esteja cansada e queira dormir abraçada - afinal, ela também não tem escolha!)

10 Responses to “O mundo sem escolhas”

  1. Ana Cris Says:

    Adorei o post sobre o feminismo. Mas vc já reparou que nos países em que faltam homens e as mulheres matam cachorro a grito a histeria sobre a estética é maior? Veja o que acontece no Brasil e países do leste europeu, principalmente a Rússia. Aqui ser gordo, usar óculos e não frequentar academia é praticamente um crime. Não basta ser bonitinha, tem que ser maravilhosa, ter corpo perfeito, não ter pelos, enfim, uma cobrança muito pesada. Lembro quando dividia o quarto com uma romena que era uma versão mais magra e bonita da Scheila Carvalho. A menina se maquiava antes de ir à praia!! Socorro!!

  2. Vivien Says:

    Baxt, texto muito lúcido, as representações ferem a individualidade de ambos os gêneros, com certeza.
    Mas ainda são mais obsessivos em relação às mulheres, creio.
    A propaganda das Havaianas me lembrou caricaturas de “mulheres que trabalhavam”, nas revistas Fon Fon e outras do estilo, ainda na Belle Epoque.
    As caricaturas traziam uma mulher muito gorda ou muito magra, cara fechada e claro, livro à tiracolo. Mulher e livro sempre foram combinações perigosas dentro dessas mentes ocas.

  3. Cristiano Dias Says:

    Como conversamos degustando um delicioso mocha do Nero, a campanha de Doritos não ficou só no YMCA. Aqui, por exemplo:
    http://www.youtube.com/watch?v=3-uCNPGw9U4

    Sobre os esteriótipos, seu Marido que é publicitário, ele que se defenda, mas o filme só tem 30 segundos para dar o recado, usar de esteriótipos é só um truque para o espectador entender a mensagem. A propaganda só reforça algo que já existia antes dela. Daí o comercial ser bom é outra história, problema deles.

    Tem gente que diz por aí que o comercial de 30 segundos está com os dias contados, então…

  4. João Paulo Cursino Says:

    Assim como a propaganda, seu texto está ficando menos sutil. Acho que é porque está ficando mais irada. Posso imaginar você falando rápido enquanto Marido degusta uma Guinness e não consegue pensar em nada que a contradiga.

    “Após o intervalo: brasileira revoltada com a publicidade incendeia salão de beleza em Hampstead.”

    Mulheres e livros SÃO combinações perigosas. Homens e livros também.

    Você não vai se livrar disso, mas pode se livrar de ser lembrada: faça como o Maron (e eu também) e pare de assistir à TV!

    “Após o intervalo: brasileira revoltada com seus compatriotas alienados dá uma sapatada transatlântica na cabeça de um deles.”

    Continue publicando, está ótimo ler os rants!

  5. baxt Says:

    Ana,

    Sera que esses países têm menos homens, ou simplesmente são mais machistas, o que faz com que as mulheres levem mais a sério seu papel de enfeites? E sei muito bem o que você está falando sobre a cobrança de ser perfeita… Eu me sentia altamente transgressora por andar de õculos e ter cabelo curto…

    Vivien,

    Adorei a referência às caricaturas. Vou procurar! E como eu disse, por que eles não usaram um cara no anúncio?

    Cris,

    Ai ai, você sempre faz comentários que demandam respostas complexas… Em primeiro lugar: eu fiz faculdade de publicidade, eu sei que o processo da publicidade é usar estereótipos e imagens que já estão na nossa cabeça como atalhos para passar a mensagem. Mas isso não justifica nada, é só uma técnica, que pode ser usada de forma mais ou menos preguiçosa (nesses casos, de forma muito preguiçosa)

    Em segundo lugar, você diz que “A propaganda só reforça algo que já existia antes dela”. E eu respondo: Seu Crisdias, você é capaz de argumentos melhores. Porque segundo esse ponto de vista, já que o racismo existe eu posso sair na rua e chamar um negro de “macaco,” ou dizer que “se ele não suja na entrada, vai sujar na saída” - afinal, o racismo tá aí, eu só tou reiterando a mensagem. (quando na verdade eu devia estar tentando enfraquecer a idéia que já existe, e não reforçar!)

    E o problema não é o comenrcial de 30 segundos… Eu fico querendo entrar na cabeça do cara que pensa nesse anúncio, e do jumento que aprova. Se bem que eu já trabalhei com gente assim, e acompanhei mais ou menos como funcionava o raciocínio deles…

    JP,

    O comentário da Vivien dizia que meu texto era lúcido, e agora você diz que eu sou irada e estou ranting. Vou juntar os dois e considerar que esse é um ranting lúcido :)

    E eu praticamente não assisto TV! Esses exemplos vêm da internet… E convenhamos, os anúncios daqui são uma bênção comparados com os brasileiros… E ainda assim, eu não posso fugir dos anúncios que estão no metrô. A diferença é que quando você passa por um anúncio muuuito sexista, alguém reclama ou pelo menos cola um adesivo nele, fazendo piada (e desconstruindo a mensagem, exatamente como eu mencionei no post)

  6. Cristiano Dias Says:

    Eu defender publicidade? Os publicitários acham que eu os odeio. E “você sempre faz comentários que demandam respostas complexas” foi o melhor elogio evar. :-)

  7. Ana Cris Says:

    Estatisticamente tem mais mulheres que homens no Brasil. Isto é fato. O grande número de homens machistas só agrava a situação. A lei que rege o comportamento é a mesma lei da economia: oferta e demanda. Enquanto homens tiverem muito mais ofertas de mulheres do que o contrário, vão continuar exigindo que elas sigam o padrão Barbie. Quem pode mais chora menos. Como disse um amigo meu franco-canadense e cientista social: Se as mulheres parassem de sair com babacas o nível dos homens iria melhorar sensivelmente. Tem toda a razão.

  8. DriEveryWhere » Homens tambem sofrem Says:

    [...] coincidencia ontem memso tinha lido um post super interessante da Barbara sobre essa questao da influencia negativa da Publicidade tanto em homens quanto em mulheres [...]

  9. Homens tambem sofrem « BeautyEveryWhere Says:

    [...] coincidencia ontem memso tinha lido um post super interessante da Barbara sobre essa questao da influencia negativa da Publicidade tanto em homens quanto em mulheres [...]

  10. Vanessa Says:

    Adorei o texto
    Ri muito também.

    Ah, eu sou professora de história, e supostamente… também não sou baranga.

    kisses