Os velhos, os muito velhos, e os velhos caídos no chão

Numa daquelas sequências de coisas irrelevantes que se juntam para dizer algo que eu absolutamente não consigo entender o quê, ontem na volta de casa depois da ioga eu achei 5 pounds no chão, pensei com meus botões “vou entregar pruma charity”, depois uma velha caiu no chão e eu saí feito uma louca para procurar uma ambulância e depois sentei no metrô do lado de um casal de brasileiros com a mulher reclamando que o marido não a abraçava nem beijava mais como quando eles começaram a namorar e que ele devia estar envolvido com alguma outra mulher da igreja. Ela falava muito alto enquanto ele olhava pro chão, e eu não sabia se ele estava quieto porque tinha culpa no cartório ou porque estava puto com a falação non-stop da mulher (que eu percebi que é uma coisa meio típica de mulheres brasileiras - eu incluída, admito).

(e eu consegui colocar a palavra “chão“ em todas as três histórias)

O casal em crise foi muito útil para me distrair da história da velha, mas eu não consigo parar de pensar nos velhos desse país. E em como a ganância da “Big Pharma”, como eles chamam aqui, está criando um problemão para a sociedade.

Porque hoje em dia as pessoas nao morrem mais. Elas passam, sei lá, os 30 anos finais das suas vidas como inválidas, em vez de morrer. Porque a grande “conquista” da medicina foi transformar todas as doencas agudas em crônicas. Ou seja, você vai acumulando problemas de saude e nao morre de nenhum deles. Divertido, não?

Em uma simplificação grosseira, eu diria que no Brasil as pessoas se sentem responsáveis por seus velhos, enquanto aqui eles são deixados à própria sorte. Não que no Brasil as pessoas sejam boazinhas – tem muita gente quejoga os pais em “depósitos de velhos” e nem vai visitar. Tem gente que contrata gente para tomar conta e nao checa se essa pessoa está roubando ou batendo no velho (porque quem tem vó ou vô de idade sabe que eles podem ser profundamente irritantes às vezes). E tem gente que se desdobra para cuidar super bem ou visitar no asilo. O que eu quero dizer, tentando nao me alongar muito, eh que me parece que existe um senso de responsabilidade.

Aqui eu sinto que as pessoas nao se sentem responsáveis pelos pais e mães. Na verdade, a relação dos ingleses com a própria família eh muito diferente, e admito que não entendo muito bem como funciona. As pessoas me parecem distante dos pais, dos irmaos, enfim. E algumas pessoa são solitárias de uma maneira que eu nunca vi no Brasil. Mas sobre isso eu falo outro dia.

Então o resultado são vários velhos, bem velhos, vivendo absolutamente sozinhos. No apartamento em cima do nosso tem uma senhora que volta e meia bate na nossa porta para a gente abrir um pote ou trocar uma lâmpada. A casa dela eh uma imundície, as roupas dela estão sempre furadas e o cabelo então, nem comento. Na verdade, comendo. É imundo tambem.

No início, sempre que eu ouvia um barulho no apartamento de cima ficava atenta, achando que ela levado um tombo. Nunca vi ela com ninguém, nenhuma visita, nada. E para mim pelo menos está claro que ela nao tem condições de morar sozinha.

Pois be, voltando à história de ontem: tinha uma senhora entre uns 70 e 80 anos sentada no ponto de ônibus. De uma hora pra outra, escorreu pelo banco e caiu feito um saco de batata no chão. Um senhor ficou com ela, eu saí correndo para o hospital que ficava em frente, uma mulher que estava no ponto de ônibus estava voltando depois de ter comprado uma comida para a senhora e não encontrar ninguém. Enfim, consegui achar dois médicos simpáticos, que chamaram a ambulância. Voltei lá e a velha continuava no chão, só que dessa vez a cena era pior ainda, porque ela tinha vomitado.

Bom, nessa eu perdi meu ônibus e fui pegar o metrô, já que nao podia fazer mais nada. Os médicos e a ambulância ficaram lá, sendo muito mais úteis do que eu poderia ser. Descobri que ela estava sozinha. Ninguém sabia o nome da senhora, onde morava, nada. E pelo visto ela ainda machucou o ombro na queda.

Voltei cabisbaixa, pensando nisso tudo. Onde estava a família daquela mulher? Fiquei imaginando minha vó no chão de um ponto de ônibus, caída em cima do próprio vômito, sem que eu sequer soubesse disso. E lembrei da professora de inglês do Hiro, desesperada porque os pais, que moram em Brighton, estao cada dia pior mas ela não pode fazer nada. Ela ja é uma senhora, entao os pais devem ser bem velhinhos mesmo.

E na velha do nosso prédio, que um dia vai tomar um tombão na rua também. Ou dentro de casa, o que seria pior ainda.

Quem ganha com isso? Na boa, sera que a gente devia mesmo investir tanto em remédios e tratamentos anti envelhecimento? Será que nao era melhor gastar em pesquisas para curar a malária? Cólera? Aids? Coisas que matam gente jovem? (não adianta dizer que curar a malária não dá lucro, eu sei disso, mas estou falando do que seria mais certo, e não do que seria lucrativo).

Sei lá. Eu vejo a minha vó. Eu não quero que ela morra, é lógico. Mas ela ja nao é mais a minha vó. Ela não sabe mais o que está acontecendo, até as lembrancas elá já está embolando. A “centelha de vida” (hohoho, que expressão horrível) ainda está lá, mas o corpo não funciona mais direito e a consciência nao corresponde mais à pessoa que ela era. É uma situação meio complicada de entender, pelo menos para a burrinha aqui.

Enfim, eu tenho 30 anos. Daqui a 50 anos vocês me perguntem de novo o que eu acho dessa história toda. Talvez eu tenha uma opinião totalmente diferente, mas que essa situação me deixa angustiada, isso é fato.

12 Responses to “Os velhos, os muito velhos, e os velhos caídos no chão”

  1. Bárbara Heringer Says:

    Acho que vai além do velhos estarem cada vez mais … velhos.
    O governo devia dar mais atenção as necessidades deles.
    É difícil comentar sobre algo assim.
    Algo como eutanásia, sempre fico discutindo comigo mesma, e nunca chego em uma conclusão concreta.
    :/

  2. Isabel Says:

    São os paradoxos da mudernidádi, não? Grandes conquistas, e o que fazer com os resultados? Como tornar digno esse espichamento temporal da nossa vida? Talvez esse aparente desleixo com os idosos seja uma questão cultural (será que os povos saxônicos são mais reservados e não criam laços com os familiares?), se bem que não vejo nenhum panorama muito melhor em Pindorama. Talvez na Inglaterra as famílias sejam menores ou, simplesmente, as pessoas tenham menos filhos, e não fica ninguém para cuidar delas. Não conheço o assunto o bastante. Só sei que governo nenhum vai cuidar de ninguém se não houver pressão, o que decorre de uma percepção cultural do povo em questão; se isso não rolar, babou, porque idoso não tem lá um grande lobby…

  3. Pedro Araujo Says:

    Barbara,

    sei bem como é esse sentimento contraditório que sentimos. Passo pelo exato mesmo problema com meus avós paternos. Há anos que eles parecem apenas estar esperando a morte. Passam o dia todo dormindo, e quando estão acordados ficam o dia todo sentados numa poltrona sem fazer nada ou então comendo escondido tudo que os médicos proibiram.

    É complicado. Por um lado vemos neles o sacrifício que é eles se manterem vivos. Chega a parecer que não querem mais viver, que querem ficar em paz logo, ou sei lá, vai ver querem mesmo, mas os “remédios e cirurgias” sempre estão lá para prolongar a vida deles.
    O que me deixa mais incomodado é ver meu pai e meus tios, tirando dinheiro de tudo que é buraco para esses tratamentos, e parece que meus avós não dão a mínima pra isso.

    Mas ao mesmo tempo em que acho errado eles não darem valor a todos os esforços da família para mantê-los próximos e acho errado que meus pais e meus tios continuem a “investir tanto na saúde deles”, também acho errado simplesmente entregar a Deus e largá-los de lado.

    Mas isso é coisa da nossa cultura mesmo. É assim que pensamos por aqui no Brasil. Já tive diversos amigos que moraram na Inglaterra e todos foram unânimes: relações de afeto são praticamente inexistentes nessa ilha, tanto entre famílias quanto entre amigos. Uma das coisas que notaram é que familiares não se beijam, não fazem carinho, não se abraçam. Amigos raramente se tocam. Os filhos são incentivados (pra não dizer praticamente expulsos) a sair de casa logo que atingem a maioridade; devem cuidar da própria vida. Isso deve explicar porque os velhinhos londrinos são tão sozinhos: a própria família ensina que é cada um por si.

  4. Cristine Says:

    “Porque hoje em dia as pessoas nao morrem mais. Elas passam, sei lá, os 30 anos finais das suas vidas como inválidas, em vez de morrer.”

    Tem razão, Barbara; a morte não é aceita como algo natural na nossa cultura (nossa, digo, na cultura ocidental), então ficamos tentando manter a aparência de juventude o máximo possível, não aceitamos que o ritmo diminui com a idade, não valorizamos a experiência e a sabedoria dos mais velhos, e quando os velhinhos estão com um pé na cova, ficamos prolongando a vida com tratamentos caríssimos e às vezes inúteis.

    Se a pessoa não deixar explícito que não deseja ser ressuscitada, acaba ficando como um conhecido nosso, que estava praticamente morto, mas como tinha um marcapasso, o coração continuava batendo. E os médicos não podiam fazer nada. Como ele estava num hospital do SUS, continuou por lá até o fim, numa espera inútil e dolorosa para a família.

    Minha avó viveu até os 98, e durante os últimos 18 anos ela foi definhando cada vez mais, até que estava praticamente vegetando. Foi triste vê-la ir devagarinho, e se agarrando à vida como poucas vezes vi alguém fazer. E novamente, ninguém podia fazer nada.

    Mas pelo menos aqui nos preocupamos e damos o carinho e os cuidados que pudermos. Muito mais triste é ver os velhinhos morrendo sozinhos, e pior, vivendo sozinhos. Isso ninguém merece.

    Abração!

  5. João Paulo Says:

    Compartilho da contradição e da dúvida de Baxt e dos comentaristas anteriores. Mas acho que estamos observando a questão por uma perspectiva errada.

    Já concordamos nisto: o problema não é vivermos muito; é vivermos mal nos últimos anos. É esticarmos a sobrevida que não é vida.

    Então, a pergunta deve ser: POR QUE não é vida? Deveria ser! Alguns cientistas têm estudado formas de manter o CÉREBRO bem, combatendo Alzheimer, que é o grande vilão sem nome no texto original de Baxt e nos comentários.

    Tràgicamente, os velhos vegetativos estão, muitas vezes, colhendo o amargo fruto de não terem estimulado suas próprias mentes durante décadas. Eram apáticos na juventude e maturidade, são apáticos na velhice. O cérebro desliga até por falta de uso. Outros continuam criando sinapses todo dia: são escritores e professores aos 90 anos.

    O que temos que fazer é dar motivo para se viverem bem as últimas décadas. Se não há motivo, não é de se esperar mesmo que os velhos vão querer viver e, se não querem viver, ficam assim, só esperando a morte.

    Òbviamente, a apatia não é a causa como regra geral. Eu disse “muitas vezes”, não disse “quase sempre”. Tenho um exemplo próximo que passou a vida inteira lendo, mas derrame e Alzheimer o pegaram da pior forma. Mas também para esses casos a pesquisa continua.

  6. Alexandre Says:

    Vamos fazer um trato? Quero viver mais E com mais qualidade. Agora vamos dar um jeito de tornar isso realidade? Não quero abrir mão de nenhum dos dois

  7. baxt Says:

    Barbara, eh dificil colocar a responsabilidade dos velhos exclusivamente na mao do governo. EU acho que a sociedade como um todo tem que ser responsavel, mas nao sei muito bem como.

    Isabel, eh um paradoxo mesmo, e eu fico tao tensa de ver essas coisas. Eu acho que os lacos familiares por aqui sao muito diferentes dos do Bananao. Eu prefiro o nosso exagero latino, mas isso eh uma opiniao totalmente pessoal ;)

    Pedro, sua descricao dos seus avos eh igualzinha a da minha avo materna. Ela nao faz nada o dia inteiro, eh triste mesmo, e me dah um nervoso indescritivel. E vive brigando com todo mundo por causa das coisas que nao pode comer.

    Ja os lacos de familia aqui, como eu ja disse, nao me meto muito a falar porque sempre tem um xiita que tenta dizer que na verdade horrivel eh ter uma mae superprotetora como a minha (e nao ter uma mae que nao esta nem ai). Aih eu fico com raiva e esse eh o tipo de briga que nao dah em nada, hehehehehe. Mas o que eu sinto eh que as pessoas tem uma relacao distante mesmo com os pais. Falta de intimidade, me parece. E quando se precisa de alguem… Continua-se precisando, porque a familia nao sai do caminho para ajudar. Mas eh bom deixar claro que essa impressao pode estar errada. Eu nao sou daqui, nao sei bem como funciona.

  8. baxt Says:

    Cristine, nossa cultura lida muito mal com a morte, o que eh uma pena. Eu vivo tentando me policiar para nao entrar nessa maluquice de querer viver para sempre, querer ficar jovem pra sempre. Mas eh dificil. Triste essa historia do cara que tinha um marcapasso, hein?

    JP, voce levantou um ponto importantissimo - o Saramago ta ai, escrevendo, fazendo blog, dando entrevista. Eu quero muito ficar velha assim, e tento manter a cabeca funcionando sempre. Minha mae tem panico de ficar gaga e ja esta fazendo curso de linguas, palavra cruzada, um monte de coisas, hahahaha.

    Mas a gente nao pode fazer nada em relacao ao corpo. Tenho um medo danado de precisar de ajuda para tomar banho e de usar fralda geriatrica! Isso eh f… para o orgulho de uma pessoa.

    Maron, voce nao quer fritas com o seu pedido nao? :) E um ponei? < /calvin> Falando serio, eh isso que todo mundo quer, mas parece que as pesquisas e as industriam focam tanto na parte quantitativa que esquecem a qualitativa. Afinal de contas, quer coisa mais lucrativa que um velho que passa 30 anos da vida como um invalido, gastando fortunas em remedio e plano de saude? Quem quer deixar a galinha dos ovos de ouro morrer (com dignidade)?

  9. Eduardo Sant'Anna Says:

    Bárbara,

    Concordo com o que vc escreveu.

    Porém, ainda que existam os tais velhinhos largados pelos pais e pelo governo por aí, vale lembrar que também existem diversas coisas legais para eles que nunca vi no Brasil. Aqui na área onde vivo também há muitos idosos e algumas coisas que vejo são muito interessantes.

    Já vi aqui que há grupos organizados de velhinhos que caminham pelo parque todo dia (é engraçado, parece uma excursão, com guia e tal)… tem o ônibus do council específico para levar os idosos de um lado a outro (passeios, eventos, médico, etc…) que para DE PORTA EM PORTA e descem uns ajudantes que vão DENTRO da casa dos velhinhos e os ajudam a descer as escadas entrar no buzu… Isso tudo coisa gratuita oferecida pelo Council aqui de Reading (Será q aí em Londres isso não acontece?).

    Tem também as enfermeiras/auxiliares de enfermagem que passam o dia na casa dos velhinhos. Mas essa eu não sei se é do council ou se é particular (ou existem os 2!).

    Além disso, tem aquelas coisas “de primeiro mundo” que servem pra todos mas que para idosos fazem mais diferença ainda: os velhinhos podem pegar ônibus comum sem que o motorista “passe direto”, não tá cheio de carros (e buracos) na calçada, é raro acontecer de pivete jogar a vovó no chão pra roubar dinheiro, etc… Além do lance dos remédios serem gratuitos (ou subsidiados) e o hospital publico funcionar (já viu quanto custa um plano de saúde pra idoso no Brasil?!?!?!).

    Ou seja… tb não dá pra esculachar o país dos outros. :-)

    Resumindo, acho que os brasileiros tendem a cuidar muito mais dos pais velhinhos do que os europeus em geral (e não só os britânicos) SIM. Mas na minha opinião, enquanto o velhinho tem mobilidade e está com a cabeça boa (leia-se não chegou no ponto de sua vizinha), ele tem condições de viver uma boa vida na Inglaterra sim.

    Já a questão de solidão… acho que os extremos são inaceitáveis (tipo aquela coisa de o velho estar morto em casa a meses e ninguem perceber). Agora entre viver com um minimo de socialização ou daquele jeito todo-o-mundo-junto-sempre-e-pra-sempre que parece formiga e definir o que é melhor… bom, aí é relativo. Cada um cada um. Até pq tem velhinho que quer mais é viver da forma mais independente possível.

    Mas volto a concordar: a partir do momento em que eles não conseguem cuidar de si próprios, acho que é função dos filhos dar o máximo de apoio… o que realmente é falho por aqui (mas sem generalizar!).

    Cheers,
    Ed

  10. baxt Says:

    Siiiiim!

    Eduardo, voce esta certissimo. Na frente da minha casa tem um predio so para velhos (chamado Argenta House, “argenta”, prata, cabelos prateados, oh o trocadalho ai!). Todo dia vem um onibus do Council que os leva para sei la onde, com enfermeiros trazendo os velhinhos, espaco para cadeira de roda… Uma coisa fantastica mesmo.

    Mas eh como voce disse - enquanto eles estao velhos com a cabeca em ordem e sao capazes de se locomover numa boa, o esquema aqui me parece otimo. O problema eh quando eles se tornam dependentes de verdade. Imagino que o governo nao tenha como pagar enfermeiras em tempo integral para levar o velho para tomar banho, trocar fralda, etc. Eh ai que a porca torce o rabo.

    Eu nao tou esculhachando o pais dos outros, po! Eu pago uma grana de imposto aqui mas acho que pelo menos ele eh bem utilizado. Alem disso, se fosse tao ruim eu ja teria voltado pro Brasil. Eu gosto muito da vida aqui.

    Mas eu estranho muito mesmo as relacoes familiares. Como eu ja falei e vou repetir, EU NAO ENTENDO. E nao posso julgar uma coisa que nao entendo, apesar de ter la minhas opinioes.

    A solidao aqui nao afeta so os velhos nao. Depois que eu vim morar em Londres entendi a letra de “Eleanor Rigby.”

    PS: os onibus alem de pararem para os velhos, dao uma abaixadinha para a porta ficar mais perto da calcada, ja reparou? Um luxo! Nada de velha tendo que subir sozinha aqueles degraus altissimos, que nem no Rio!

  11. Eduardo Sant'Anna Says:

    Baxt,

    Ah sim… essa da suspensão do ônibus baixar pra ficar no nível da calçada é ótimo. Além disso, também não tem escada e costuma ter um espaço bem decente pra deficientes, idosos… e cadeiras de criança!

    Quanto à solidão, também não tenho como julgar. Tenho pouco conhecimento e ainda não conheço o país ou as pessoas pra entender perfeitamente.

    Mas eu sempre faço um exercício de “advogado do diabo” e algumas coisas eu (acho que) entendo um pouco e vejo o lado positivo. O Pedro comentou aqui sobre a coisa dos filhos sairem de casa mais cedo. Mas eu acho interessante essa coisa de não haver limites para o local da faculdade por exemplo. No Brasil a maioria fica naquela de prestar vestibular para as faculdades que estão ali na cidade dele e ponto, ainda que não sejam as melhores do país ou mesmo os cursos que o interessam. Parece que a gente TEM que continuar vivendo no mesmo lugar (às vezes o mesmo bairro) pra sempre.

    Já na Europa ou mesmo nos EUA existe um certo “descolamento”. Vc tem 17 anos, sua família mora em Birmingham mas você acaba fazendo faculdade em Edinburgh. Sua família é de Miami mas vc vai fazer faculdade em NYC. No Brasil isso é raro…

    Agora pensa. Se vc foi fazer faculdade longe da familia, viveu com certa independência, até trabalhou durante todo o período, agora tem 20 anos, está formado e … vai voltar a viver com a família? Imagino que a maioria responda não à essa pergunta.

    Veja que em uma cultura como essa, é muito mais simples quando alguém resolve fazer o que estamos fazendo agora que é viver em outro país. Não é uma quebra de regras…

    E perae, a maioria dos ingleses (senão todos) que conheço são casados, têm filhos, se reunem nos aniversários, nos feriados, no Natal, têm foto da família (com abraços e beijos) na mesa de trabalho, vão ao pub, contam piada, sacaneiam uns aos outros, etc… Então o lance de “solidão total” é regra ou excessão?

    Por outro lado, imagino que tenha gente no Brasil que até queira se distanciar um pouco por opção, mas muitos brasileiros são tão intrusivos que a pessoa nem consegue fazer isso. :-)

    Por fim… quem somos nós pra dizer que viver pra sempre com beijos e abraços pra todo canto (muitas vezes até sem o real sentimento) e viver com a família pra sempre (mesmo que viver signifique “aturar”) é o certo?

    De vez em quanto recorro à “regra do maluco” pra verificar minha sanidade. Toda vez que começo a achar que todo o mundo a minha volta é maluco, lembro é provável que na prática o maluco seja eu! :-D

    Abraços.

  12. Isabel Says:

    Se aqui no Brasil houvesse esse cuidado social com os idosos, sua qualidade de vida (e a de suas famílias) seria muito maior e mais deles teriam prolongado seu tempo de independência, ou ao menos de não precisar de tantos cuidados. Com isto, vc atrasa a necessidade de cuidados ($$) em casa (enfermeira pra dar banho etc.) e uma situação em que o idoso esmorece e não quer mais viver. A inatividade e a falta de socialização são venenos e apressam MUITO a decadência do idoso, em termos físicos e emocionais. E, em termos econômicos, é muito mais barato para um país pagar programas de socialização como os que vcs citaram do que tentar auxiliar uma família a cuidar do idoso em casa (o que, de qq modo, não existe no Brasil) ou manter esse idoso em um depósito público (hospital). Ou, como foi citado, uma simples calçada sem buracos, em que o idoso possa andar um pouco e depois sentar uma meia hora por dia pra tomar sol e bater papo com alguém sem ser assaltado, basta pra ajudar MUITO. Mas vai pôr isso em prática aqui em Pindorama! Como nós brasileiros não somos de prevenir, apenas de “dar um jeito” quando o pior acontece, nem existem políticas públicas decentes de saúde preventiva para qualquer faixa etária, imagine acompanhar os idosos… Mete-se a faca em quem (mal) consegue pagar um plano de saúde, e exploda-se o resto.
    Quanto a famílias… Sem a ajuda do Estado, uma família pobre simplesmente não tem como tomar conta de um portador de Alzheimer, por exemplo. Isso é quase impossível mesmo para a classe média média ou baixa. Vcs não imaginam a quantidade de idosos dementes ou com derrame que são abandonados em hospitais públicos. Pela razão que for.