Caguei pras coelhinhas

Eduardo Santanna deixou um comentário no post anterior. Eu comecei a responder, mas aí desisti e resolvi colocar aqui um resumo do comentário e minha resposta:

“…quem deveria estar mesmo reclamando e achando humilhante - as duas moças da foto - não estão nem aí. Estão felizes da vida. (…) Meu New Year resolution: parar de tomar as dores dos outros quando nem sentindo dor os outros estão!!”

Não, Eduardo Santanna, eu não estou tomando as dores das coelhinhas.

Eu não estou nem aí para elas.

Estou reclamando da situação. As meninas não são vítimas coitadinhas, nem tampouco monstras que estão fomentando a “coisificação da mulher.” Na minha opinião elas podem ser uma coisa ou outra, mas provavelmente estão no meio do caminho. O que me incomoda, e muito, é o contexto geral.

O meu raciocínio é o seguinte, vamos ver se eu me explico: suponha que você more na Suécia. E você tem uma irmã, linda gostosa, com uns vinte e poucos anos. Elas tem a opção de arrumar um emprego num lugar legal, ganhar a mesma coisa que os colegas homens dela ganham. Ela pode vir a ser promovida baseada na qualidade do trabalho dela, independente de dar para o chefe ou não.

Nesse contexto, imagina que ela adora se sentir bonita e gostosa e gosta mais de trabalhar num evento vestida de coelhinha. Ótimo, não é? Ele tem a opção, e escolhe ser coelhinha.

Agora imagina que ela mora num país que vamos chamar de Brasil. Ela arruma um emprego bacana, mas começa a perceber que os homens que trabalham com ela são promovidos mais rápido e ganham mais do que ela. Ela percebe que a única maneira de ser promovida é dar pro chefe machista. Ela não quer dar pro chefe. A estagiária burra do escritório topa dar pra ele, e é promovida. Sua irmã fica a ver navios.

Ela resolve trabalhar em eventos já que fala, digamos, 4 línguas, mas ninguém chama ela para trabalhar num evento onde ela possa usar seu cérebro. Porque, ora bolas, quem está interessado no cérebro dela se ela é gostosa? E aí chamam ela para trabalhar de coelhinha. Aí ela vai.

Deu para entender mais ou menos? O problema não é a mulher trabalhar de gostosa. A questão é que muitas vezes isso não é uma OPÇÃO.

Talvez você nunca tenha pensado nissso, mas no Brasil às vezes a mulher não tem outra opção alem de ser gostosa profissional.

Eu também nunca tinha me incomodado muito com essas coisas, achava que feministas eram todas umas raivosas infelizes que posavam de vítimas e odiavam todos os homens do planeta.

Até trabalhar numa empresa italiana. E empresa italiana, meu amigo, é um lugar difícil (a Itália inteira é, mas graças a deus eu só passei uma semana lá na minha vida toda)

Foi a partir dali que eu comecei a perceber o sexismo que existe no dia a dia, dentro das empresas, fora delas, em tudo quanto é canto .

Muitas mulheres só conseguem alguma coisa dando para certos caras. E na hora que isso vira a regra, você pode ser a melhor profissional do mundo - se não topar dar para as pessoas certas, você nunca chega a lugar nenhum. (não estou falando da empresa italiana não - lá havia episódios de meritocracia, ao lado dos episódios de putarocracia)

E quando isso acontece é f…, Eduardo Santanna. É frustrante.

Existem vários tipos de falta de respeito, que acontecem o tempo todo (como um cara falar “te chupo todinha” para você no meio da rua no centro do Rio). Certas coisas a gente fica tão acostumada que nem percebe . Mas essas coisas vão se acumulando e levando a desigualdades bem sérias.

Eu poderia falar mais, explicar melhor, dar mais exemplos. Mas não quero ser chata. Já faz muito tempo que eu queria escrever sobre sexismo e como eu comecei a perceber certas coisas, e me incomodar com elas a partir do meu período nessa empresa.

Um dia eu continuo, agora eu vou jantar.

15 Responses to “Caguei pras coelhinhas”

  1. Eduardo Sant'Anna Says:

    Ooops… gerei discussão. Mas acho que valeu à pena já que vc queria escrever sobre isso… vai ver faltava o empurrão do chatonildo aqui. :-)

    ok… a mensagem me parece mais clara agora. E sim, já pensei nisso tudo. Compreendo completamente a sua visão e sei muito bem que as oportunidades para as mulheres podem ser absurdamente restritas dependendo do país, da cultura, da empresa…

    E o assunto é complexo. Concordo contigo mas ainda assim gero o desafio de pensarmos sob outra perspectiva. Acho que se existe solução para o problema ela começa com um trabalho de fazer com que essa “regra” que vc mencionou deixe de existir. E aí é o ovo e a galinha: a regra existe pq os homens são cretinos ou porque historicamente determinadas mulheres se deixaram submeter?

    As ideias que eu daria à essa minha irmã ficticia do Brasil seriam as seguintes:

    -Sai fora dessa empresa
    -isso é em todas as empresas? então cria a sua, do mesmo jeito que “os homens” têm as suas. E de preferencia competindo com a do(s) babaca(s) machista da empresa inicial.
    -Seja profissional independente, freelancer etc tb é opção…
    -isso é do país? pense em sair dele nem que seja por um tempo (como vc bem o fez!)

    E por aí vai. Até que tem opção, não?

    Uma coisa legal à fazer é realmente botar o assunto na mesa. Mas não só pra reclamar do mundo injusto atual (pq isso já tá aí infelizmente) mas TAMBÉM pra convencer as outras mulheres a não se submeter à essas babaquices do mundo machista.

    Sendo assim e pensando bem talvez vc deveria sim estar irritada com as coelhinhas por não darem o exemplo. E uma irritação em nível parecido com o “horda de imbecis”. Talvez um pouquinho menos, talvez um pouquinho mais… sei lá.

    Abraços,
    Edu

    PS: E sou seu fã. Não fica chateada comigo não, ok? Nothing personal. Só discutindo construtiva e pacificamente. :-)

  2. baxt Says:

    Que bom que vc entendeu. E sim, esse assunto dá muuuito pano pra manga. E eu não fiquei NADA chateada, só quis esclarecer :)

    Sobre a irmã fictícia, é claro que existem opções (ainda bem, senão seria uma tragédia). Mas a grande questão é perceber que pros homens a coisa talvez seja um pouco mais fácil. Não para se fazer de vítima (odeio gente coitadinha), é só perceber.

    Volte sempre e obrigada pelos comentários!

  3. Massashi Lima Hosono Says:

    Não tinha entendido a extensão da crítica as coelhinhas. Sim, eu concordo totalmente. O pior é que tem gente que acha que a vida é assim mesmo e que não tem outra opção a não ser “dar pro chefe”. E isso não é só com as mulheres não. Assédio só se torna uma questão se há poder. Quem usa o assédio como moeda de troca, está abusando do seu poder. E quem aceita esse assédio faz pior porque colabora com o contexto. No caso das coelhinhas acho que não ouve assédio direto, mas elas são parte ou produto deste sexismo.

  4. Camila Says:

    Eduardo, aproveitando um trechinho do seu comentário em que você fala pra irma fictícia abrir a própria empresa, trabalhar como freelancer, imagina os clientes nao querendo contratá-la “pq é apenas uma mocinha, que experiência será que ela tem ao lidar com situacoes de conflito” ou entao “jamais colocaria uma responsabilidade dessas na mao de uma mocinha/mulher”. Quando eu era advogada autônoma no Brasil, ouvi muito isso no início da minha carreira. Um juiz me chamou de “doutorinha” numa audiência. Já levei cantada de juiz durante um interrogatório, na frente do cliente, do promotor de justica, do policial que faz a escolta do preso. Já ouvi cantada de cliente. Já fui xingada durante uma audiência em que se discutia pensao alimentícia por estar representando um homem. Por essas (e muitas outras), te digo que vida de mulher nao é fácil.

  5. Eduardo Sant'Anna Says:

    Camila,

    Sem duvida.

    Mas - e de novo eu encontrando 50 lados da moeda - isso acontece com toda minoria. E minoria varia de ambiente pra ambiente. Um homem em ambiente tipicamente feminino vai ser motivo de preconceito também. Acontece frequentemente com enfermeiros por exemplo, certamente acontece com alguns professores…

    Essa semana mesmo li reportagens sobre o tema “seria benéfico ter mais homens cuidando das crianças nas creches”, pela diversidade mesmo. Simplesmente para que as crianças tivessem exemplos tanto femininos quanto masculinos no ambiente. E um cara que criou uma creche e trabalha com isso a muitos anos falava de como tb sofria preconceitos (tanto de homens quanto mulheres), enquanto os pais que deixavam filhos naquela creche falavam muito bem dele.

    Eu mesmo… Sou Consultor (não autonomo, mas anyway…) e sou absurdamente mais jovem do que a média dos profissionais da área. Colegas de trabalho e clientes - que têm a mesma função que eu - poderiam ser meus pais. Oras, também não deixa de rolar uma de “será que vale deixar essa responsabilidade nas mãos desse mocinho” por parte de muitos dos clientes internos e externos. Mas não estou aqui reclamando disso… Escolhi ser “diferente”, tenho orgulho disso e meu desafio é justamente mudar a opinião de quem tinha duvidas preconceituosas sobre minha capacidade. E geralmente atinjo o objetivo.

    Eu poderia muito bem deixar pra lá, dizer que não tenho opção e que vida de jovem consultor (ou trabalhador, pq na verdade tanto faz!) é difícil. Pra quem vem de baixo nunca é fácil…

    Resumindo a minha mensagem: Ainda que o problema esteja aí e eu concorde sim que em MÉDIA vida de mulher é mais dificil que a do homem (e não sou louco de perder o meu tempo tentando provar o inverso, hein!), acho que é preferível abraçar o caso e buscar efetivamente a solução (que é o que imagino que vc e Barbara fazem todo dia).

    Melhor do que fazer o que chamo de “Life outsourcing” que a maioria de nós seres humanos fazemos. A culpa das nossas falhas é sempre da sociedade, dos pais, do professor, do Lula, do subprime, do Papa, da crise… nunca é MINHA.

    Abraços,

    Edu

    PS1: E putz… tenho que parar com essa mania de fazer o comentário no blog dos outros ficar com tamanho de post!! :-))

    PS2: Teria sido mais produtivo se a gente estivesse discutindo isso em um pub… olhando a neve lá fora! rsrs

  6. Lu Says:

    Que minoria? Mulheres = minoria??? Ridículo.

  7. baxt Says:

    Nao Lu, mulheres nao sao minorias. Assim como negros nao sao minorias (pelo menos nao no Brasil). Na verdade eu implico com o termo “minorias.” Mas enfim, acho que vc entendeu… :)

  8. Eduardo Sant'Anna Says:

    Lu,

    Vc não considerou o conceito do meu primeiro paragrafo. Depende do ambiente. 10 Mulheres em empresa com 50 homens é minoria, não? Enfermeiro homem é minoria na enfermagem, não? E por aí vai.

    Cheers.

  9. Lu Says:

    Sim, Baxt, eu entendi! Tava falando do Eduardo. Sou mulher, não dei pro chefe, ganhava sempre uns 30 ou 40% menos que meus colegas menos instruídos de na mesma função (multinacional hein, uma das maiores do mundo!), na hora que eu voltar pro mercado pode apostar que as probabilidades de isso acontecer de novo são grandes. Tem muito mais coisa, mas deixa.

    Caí no teu blog de link em link e de vez um quando dou uma pasada, nunca comentei e curto sempre, vou me identificando aqui e ali. Beijo. :)

  10. Eduardo Sant'Anna Says:

    Meninas,

    Pra fechar, trabalho em uma multinacional (francesa) que até onde vejo, me parece que dá oportunidades iguais às mulheres.

    Trabalho com telecom/TI, onde a quantidade de mulheres já é absurdamente pequena mesmo - por desinteresse da maioria pela área acredito eu - mas em toda função que tive (mesmo em outras empresas) havia ao menos uma mulher. E sei, pq a gente sempre bateu papo sobre isso, que todas as que conheci recebiam salário igual a dos homens de mesma função. Ou até maior (no caso das que tinham mais experiência).

    Ah… e muitas gerentes e diretoras. A chefe do meu chefe é mulher. A chefe do meu ex-chefe também. Aliás, melhor ainda: a presidente é mulher… e aliás o primeiro nome dela é Barbara !!! (sempre no Top 50 da lista “most poweful women” da Fortune por sinal)

    Só pra dizer que ainda há esperança! :-D

  11. Elisa Says:

    ah, só pra deixar bem claro, quando disse que as coelhinhas estavam felizes com a roupinha sexy, foi para ironizar e pra sublinhar o absurdo… nesse mundo torcido, as meninas aceitam esse papel de bom grado e muitas vezes nem passa pela cabeça delas o que representa ser jovem, bonita, simpática, falar quatro línguas e passar o dia mostrando a bunda num stand de vendas… botar a culpa no publiciotário é fácil, mas onde está o senso crítico das meninas?

  12. aninha Says:

    nossa, esse texto é absurdamente machista!

    minha estória: onde trabalho, a maioria é de homens. o meu chefe, no começo, tentou criar situações pra me envolver com ele fora do trabalho. levou cortes diretos e nunca deixei nada acontecer. ele ficou insuportável comigo e nunca moveu uma palha que pudesse me beneficiar, mesmo tratando-se de questões normais, o que ele fearia se eu fosse homem, ou se eu tivesse caído na conversa dele. o primeiro ano de trabalho foi um sufoco, mas não deixei de me fazer respeitar. hoje, me direciono (quando necessário) a outros colegas e, mesmo, ao chefe dele, que não deixa de ser meu chefe também.

    só veste roupa ridícula de coelhinha quem quer. quem acha que pode ser mais fácil e quem acha que a vida é mamão com açúcar…

    abraços

  13. baxt Says:

    Ue, Aninha, vc mesma esta concordando que as coisas sao mais dificeis para as mulheres, afinal vc passou por uma dificuldade que vc nao passaria se fosse homem.

    Nao entendi o que meu texto tem de machista, mas enfim, acho que no final das contas nos duas estamos concordando, e nao discordando :)

  14. aninha Says:

    oi Baxt!

    eu me referi a essa passagem, da qual discordo:

    ” Muitas mulheres só conseguem alguma coisa dando para certos caras. E na hora que isso vira a regra, você pode ser a melhor profissional do mundo - se não topar dar para as pessoas certas, você nunca chega a lugar nenhum. ”

    e usei a minha estória como exemplo de que não precisamos nem dar pra certos caras (errados, a meu ver), que podemos sim chegar a algum lugar.

    estou chegando devagarinho… mas chego! e sem ir pra cama, nem pra mesa, nem onde for, com ninguém! :)

    é mais difícil, mas não é impossível.

    e não deixa de ser divertido. adoro ver o azedume do meu chefe, no início então, deusdocéu! :P

    abraço!

  15. baxt Says:

    Ahn, Aninha, agora entendi. Mas vc tem que admitir que o que aconteceu nao da certo em 100% dos casos. Tem vezes em que nao tem jeito de mudar a situacao.

    E eu nao sei em que voce trabalha, mas em certas carreiras, o teste do sofa eh uma coisa tao disseminada, que sem ele voce nao passa nem pela porta - logo, nao tem chance nem se mostrar que eh capaz… (a questao eh que eu estava pensando em certos ambientes especificos, mas como eu nao quis dar nome aos bois ficou parecendo que eu estava generalizando… :)

    Entao, me corrigindo, eu estava falando de certos casos apenas. E sobre o seu chefe, imagino… ;)