Coisas soltas por Londres

Eu vou voltar e escrever direito, garanto.

Mas enquanto isso nao acontece, deixo um texto sobre uma dessas coisas que eu adoro em Londres:

Outro dia mesmo, eu achei um livro no banco vazio do meu lado no metrô. Não tinha jeito de bomba. Nem de esquecido. Ou enjeitado. Estava quase que tinindo de novo, se livro tina. (…)

Vai daí que, assim como quem não quer nada, peguei do volume, com vistosa capa vermelha e comecei a folheá-lo, pronto para tacá-lo, quando ninguém estivesse vendo, dentro de minha inseparável sacola preta, onde carrego meus “bilongues” (saravá, Emília! A bênção, Monteiro Lobato!) e papelada à toa, como um sem casa à toa.

Já estava na bica de dar o bote ilegal quando dei com um aviso pregado com fita adesiva transparente na capa, logo abaixo do título, dando a volta no volume. Seus dizeres eram simples e diretos como o estilo do autor: “Eu não estou perdido… Eu sou seu de graça”. Por falar em “curioso incidente”, hem?

No interior do volume, logo na página 3, um adesivo me saudava com um simpático “alô” em quatro línguas. E prosseguia me informando o seguinte: “Eu sou um livro muito especial. Eu estou viajando pelo mundo afora fazendo amigos. Espero ter feito de você um desses novos amigos”.

Seguia em frente me convidando a digitar o código do livro num site, ou sítio, com o endereço eletrônico de www.bookcrossing.com. Segui religiosamente as instruções quando cheguei em casa. No virtual local fui informado do nome de todas as pessoas que já tinham lido aquele exemplar do romance de Mark Haddon. Pediram-me ainda que eu informasse que o livro estava são e salvo em minhas mãos. E que, uma vez consumido, para eu fazer a fineza de o passar adiante.

Fui assim apresentado à instituição chamada BookCrossing.

Poderia citar milhoes de historias similares, como a caixa de papelao cheia de garrafas de bebidas (amarula, licor, essas coisas) pela metade ou quase inteiras no murinho de uma casa perto da minha, com o bilhete “por favor, leve para vc.” Ou um projeto de duas meninas que deixam muffins pela cidade e documentam a reacao das pessoas (e muitas comem). Ou o aviso “5th floor book exchange” perto da impressora do meu escritorio.

Londres eh uma cidade agressiva, que pega, mata e come, mas eh tambem um lugar cheio de gentilezas aleatorias e gratuitas. Eh uma cidade de tem “jardinagem de guerrilha“.

Eu poderia escrever muito mais sobre isso, mas tenho que voltar a trabalhar. Nao sei se meus seis leitores estao com saudade de mim, mas eu estou com saudades dos meus 6 leitores. Inte.

7 Responses to “Coisas soltas por Londres”

  1. Theo Says:

    Pô Bárbara, minha impressão de Londres - e doutras plagas européias - é que rolam, sim, essas iniciativas altruístas, mas meio que pra compensar a vidinha dura, fechada e fria que eles têm. É algo como uma válvula de escape, num paralelo pra lá de torto, como o hábito de entornar aquele volume de pints na happy hour…

  2. Sandro Barreto Says:

    Olá Bárbara!

    Se eu estou incluído entre os seus 6 leitores, não há motivo pra saudade. Eu continuo te visitando aqui neste espaço, muito embora não tenha comentado mais.

    Acabamos de voltar de Londres. Estamos no Rio há uma semana e tivemos a mesma impressão que vc com relação aos preços. A gente realmente era feliz e não sabia. Saudade de gastar £26 por semana pra pegar qq transporte até a Zona 2 quantas vezes eu quisesse. Aqui com R$26 eu não duro nem 3 dias andando de ônibus e metrô.

    Estão culpando a gente por ter trazido esse tempinho mequetrefe pra cá. Como acabei de saber que vcs tb estão por aqui, a gente podia dividir essa responsabilidade, hein? hahahahahahaha.

    Boa estadia aqui no Rio.

    Grande beijo

  3. elaine Says:

    ah, nem vem, eu acho o pessoal aqui de londres bem bacaninha…
    aonde mais você pede informação pro moço do guichê do metrô e ele termina a informação seguida de um “darling” seguida de um sorriso fofo? :)

  4. Lia Says:

    Sim, estamos com saudades.

    E, sim, tenho pensado MUITO, mas MUITO neste assunto ultimamente. Muito. Mesmo. Porque o Rio de Janeiro não é bem assim, mas tem lá seus casos isolados. E eu ando querendo fazer um pouco mais.

  5. Bárbara Heringer Says:

    Siim, os seus leitores tem saudade de você, falo por mim pelo menos.
    Fiquei feliz de ver um post novo, gosto das coisasa que você escreve.
    Já pensou se a moda pega aqui no Brasil?Deixar livros novinhos,soltos por ai?
    Uma garota pode sonhar naum é?

    ps:Agora tenho um blog também, se você tiver um tempinho …

  6. Camila Says:

    Tô aqui tb, tava com saudade de posts novos! Agora só faltam os outros 4 leitores aparecem…

  7. João Paulo Cursino Says:

    Este leitor está com saudade de você, não sei os outros cinco.

    Aí! Quando que vocês dois vêm ao Rio? Diz o belogue da Pacamanca que ela jataqui, só faltam vocês.