Brasileiros sentados num banco

Segundo andar do ônibus, na minha frente uma loira de cabelos bem compridos e um chapéu levemente cafona, não muito. Ao lado dela, o filho de uns 8 anos ou talvez um pouquinho mais. Os dois estavam falando português, fiquei quieta na minha para ouvir.

Estamos passando pela frente do Hyde Park, na altura do Albert Hall.

- Mãe, o que é aquele moço? (apontando para o parque)
- Ah, é um moço.
E completa:
- Um moço sentado num banco…

Era o Albert memorial, putaquepariu!

É isso que eu odeio em brasileiro: podia ter dito que era o Albert Memorial. Se não sabe (vai ver eles não passam sempre por ali, nem todo brasileiro tem obrigação de saber o que é), diz que é um monumento. Mas não, provavelmente a energúmena nem sabe o que significa a palavra “monumento”! É essa ignorância dos brasileiros que me tira do sério, porque não é ignorância. É DESINTERESSE. Um desinteresse olímpico por tudo que não seja marca de bolsa, tinta de cabelo, sapato.

E é isso que ela está passando para o filho, que vai crescer pensando igual, que não interessa o que é aquele homem sentado num banco. Que não interessa nada que está ao redor. É uma falta de curiosidade em relação ao mundo que me tira do sério.

E como diria a minha mãe, “mas na hora de comprar chapéu, de combinar a roupa, de saber onde compra a bota que está na moda, como amarra o lenço no pescoço ou como alisa e pinta o cabelo, isso sabe direitinho, né? Para isso se interessa, pesquisa e aprende.”



Update respondendo ao comentário do Sanndro:
Mas Sandro, esse é o problema! A mulher veio para cá, teve a oportunidade de ver o moço sentado num banco e cagou para tudo isso. Cagou para a oportunidade, não deixou o fato de estar em Londres mudar em nada a cabeça dela. O cérebro dessa pessoa continua funcionando igualzinho ao que funcionaria se ela continuasse em Cocoió Mirim, passando todo dia pelo coreto da praça.

E é justamente isso que me deixa revoltada, a pessoa jogar fora a experiência de estar aqui, ignorar as coisas boas e ruins dessa terra (e de qualquer terra), pessoas que não crescem, não pensam, não evoluem. E pior: ela tá destruindo a curiosidade pelo mundo que o filho dela ainda tem. Ele se interessou em saber o que era aquilo, perguntou, e tomou uma resposta idiota que significa mais ou menos “Não sei o que é aquele homem, não me interessa e estou dando uma resposta idiota que é para você não perguntar da próxima vez.”

Ela seria capaz de estar em Cocoió Mirim e não saber que o pai dela tocou no coreto da praça. De não saber que o avô dela conheceu a avó naquele coreto. Não saber nada. Passar pela vida feito uma morta viva. E é assim que muito brasileiros passam por Londres: sem sequer tentar aprender inglês, sem tentar entender a cidade, sem nada.

Desculpe a resposta exaltada, mas é que essa época de Natal (e mudança de apartamento, e compras e viagens) me deixam sensível (e sem papas na língua) como o diabo.

11 Responses to “Brasileiros sentados num banco”

  1. sandro barretto Says:

    Laura,

    acho que vc matou a charada. É assim que eu penso!

    Essa “desinteressidite aguda” é uma praga mundial, não é um pivilégio só dos brasileiros. E o meu ponto é exatamente esse: se americanos, italianos, ingleses, europeus que tem o poder da cultura, da informação, do dinheiro nas mãos não se interessam em nada que fique a poucos metros do seus próprios umbigos, porque apontar todos canhões pra colonizada América Latrina e seus “macaquitos”?

    E olha que estamos em tempos de banda larga, onde a informação é farta, rápida e gratuita. Ainda assim, Britney Spears sempre está no Top 10 dos nomes mais procurados no Google.

    Boas festas pra todos!
    aquele abraço

  2. zander catta preta Says:

    Ai ai.

    vocês ainda se aborrecem com isso?

    eu só perco meu tempo é imaginando como posso fazer dinheiro com a ignorância alheia.

    beijos saudosos e natalinos em ti e no patrão! :D

  3. Laura Says:

    Joao Paulo,

    Concordo com vc. Sabe que veio a minha cabeca milhoes de situacoes que eu ja passei com pessoas como vc descreveu. Os italianos sao mestres nisso.sabe que a familia do meu marido , quase nunca me pergunta coisas sobre o Brasil(FALTA DE CURIOSODADE)..nunca estiveram la, e nao interessa nada a eles… Nao comem nada que nao seja italiano (feito na Italia). Nao provam nenhuma comida nova!!E nao tem curiosidade com a maioria das culturas que nao sejam as “superiores”(norte da Europa)!!Pode ser que eu esteja generalizando, mas muitos sao assim!!(nao querendo tirar a”culpa ” dos brasileiros…Porem, como diz a Leticia, os italianos sao europeus, e tem mais chances na vida , que a maioria dos brasileiros.

  4. João Paulo Says:

    Bárbara, pela imagem que adorna sua página, estou entendendo que você, tal como eu, só vai se satisfazer com a estupidez da besta humana no dia em que pigs fly. Acertei?

  5. João Paulo Says:

    Bárbara, isso é EXATAMENTE uma das coisas que mais me revoltam. Ignorância eu sempre perdôo, ninguém nasce sabendo (exceto as abelhas). Mas NEGLIGÊNCIA jamais terá meu aval. Causa-me ódio profundo esse desinteresse deliberado, calculado, que ainda fica indignado comigo (ou debocha) quando manifesto qualquer interesse por qualquer coisa. O desinteresse que traz, ínsita, a crítica moral a toda manifestação de curiosidade: ser curioso parece que é um vício terrível, que tem que ser combatido. Gente que para tudo olha com aquele olhar de peixe morto, nada é capaz de despertá-los. Gente que estava olhando na hora em que determinado fenômeno aconteceu, mas, se você pergunta o que viu, diz que não viu nada.

    Gente que vai à Escócia, vê-se diante de um prato de haggis e prefere ir comer no McDonald’s. Gente que tem absoluta aversão à novidade, a algo que nunca viu. Gente que, quando se depara com palavra nova, reage com cara de nojo, dizendo, “xyz? O que que é isso?” (tom de voz de quem se OFENDEU ao se deparar com o desconhecido).

    E mais: quando você é chamado a atuar e acaba demonstrando conhecer alguma coisa de alguma coisa, a reação de indignação vem redobrada; era proibido saber aquilo. Ofendem-se.

  6. Silvia Says:

    Laura: pelo menos eles te perguntaram… Aqui no Canada ninguem me pergunta nada, e’ muito raro. Nao sabem e nao tem a minima curiosidade de saber.

  7. Silvia Says:

    Eu acho que esse comportamento e’ bem internacional, aqui no Canada as pessoas me parecem ser tao ou mais passivas que os brasileiros. Ninguem pergunta nada, ninguem repara em nada, ipod no ouvido e pronto.

    Mas eu entendo a sua indignacao, ao ler essa historia me lembrei de uma cena no Rio de Janeiro… Eu chegando na Ilha do Governador, meio surpresa de ver muita gente nadando naquelas aguas cristalinas da Guanabara. Ai’ passam por mim uma senhora e uma crianca de uns 4, 5 anos no maximo. A crianca vira pra avo’ (acho que era avo’) e pergunta se a agua era limpa… a avo diz que sim!

    Achei que o mundo estava perdido.

  8. Laura Says:

    Pensando bem, os ingleses tb tem esse tipo de desinteresse. Me lembro que uma vez uma colega de mestrado me perguntou se o Brasil era vizinho do Mexico. E outra me perguntou , se o Brasil era aquele pais , que tinha carros antigos( estava pensando em Cuba). Entao eu acho que este desinteresse eh geral. Porque estas eram garotas inglesas de upper class!!!Saidas de boarding schools!!!!Imagina o resto!!!!Mas o brasileiro tb e dose!!!concordo!!Nao sei aonde vai parar o mundo…E os exemplos para os jovens???Paris Hilton!!

  9. Laura Says:

    Eu concordo e entendo tudo o que vc diz. Porem , da um desconto para ela. Eu ja fui a pessoa mais interessada do mundo. Morei em diversos paises e sempre quis conhecer e estudar tudo. Porem depois que vc tem filhos em um pais estrangeiro , vc nao tem tempo para ter nenhum outro interesse. De pessoa culta que passava os dias lendo eu nao tenho tempo para ler nem revista de fofoca.E incrivel mas , se reduz a isso…

  10. leticia Says:

    Nao preciso nem dizer que concordo com voce, e que aqui no Zaire a coisa nao é melhor (sempre com o fator piorativo que é o fato deles nao serem subdesenvolvidos).

    Mas o que eu quero é mais detalhes sobre essa mudança de casa! Conta, conta! :)

    bjos

  11. sandro barretto Says:

    Oi Barbara!

    Pois é… continuo entendendo e concordando com seu ponto de vista. O que ainda não divido contigo é o incômodo e a indignação com esse tal comportamento tupiniquim.

    Sei que nasci num país de terceiro mundo, do tamanho de umas 35 Grã-Bretanhas juntas, com pouco mais de 500 anos (descoberto “só” 400 anos depois da construção da Torre de Londres), colonizado desde sempre e com uma história de administração pública que… deixa pra lá.

    E, mesmo com tudo isso contra, a mulher e o filho conseguiram vir parar aqui e ter a oportunidade de ver o moço sentado no banco. Por isso eu me dou o direito de dar um desconto e dizer sorrindo, e não bufando, a célebre frase “tinha que ser brasileiro mesmo”. A essa altura, acho que ficaria mais incomodado e envergonhado com meu povo se eu fosse americano.

    Mas, enfim, a gente tá aqui é pra debater mesmo. ;-)

    1 Bjo e Feliz Natal!