Estranho, bizarro…

Quando a gente se muda de pais, as pessoas sempre dizem “nao importa o quanto vc goste de la, nao eh a sua casa”, ou “vc vai ser sempre uma imigrante”, ou “vc nunca vai ser igual a eles.”

Tudo bem, eh verdade. Mas o que acontece quando vc tampouco se sentia muito em casa em seu pais tropical? Eu sempre me senti meio esquisita lah no Rio, gostando de coisas diferentes do que os outros gostavam, me irritando com o lixo jogado no chao (o que contnua me irritando aqui!), com as pessoas furando fila, com gente mal educada e sempre tentando bancar a ishperrrta.

Uma das minhas lembrancas mais fortes de escola (alem de ser mandada apara a sala da direcao o tempo todo, discutir com os professores, e coisas assim), eram as pessoas com cara de pastel que me perguntavam: “por que voce esta lendo esse livro?” “porque eu quero”. E a cara de surpresa: “ai, eu nunca li nenhum livro!” (com orgulho!) ou “voce le livro sem ninguem mandar???” (cara de superioridade misturada com pena).

Isso me irritava tanto, mas tanto, que me fazia sentir um peixe fora dagua e me faz lembrar ate hoje com raiva da cultura da burrice que existe no Brasil. Estudar eh ser pateta, ler sem ser obrigado eh ser idiota, aprender eh coisa de nerd imbecil. Certamente isso tem um dedo dos EUA, a nossa matriz que glorifica a ignorancia.

Eh por essas e muitas outras que eu me sinto - de certo modo - confortavel aqui. Porque se eu me comporto diferente, se eu tenho algum habito estranho (tipo entrar no escritorio dando “oi” para todo mundo), fica subentendido que eh porque eu sou brasileira, diferente, imigrante.

Aqui eu tenho uma explicacao para ser diferente. E no Brasil? La eu era so diferente e estranha, sem explicacao.

7 Responses to “Estranho, bizarro…”

  1. Dudu Says:

    Acho que o problema talvez seja como cada um lida com o ‘diferente’. Ainda não estive por aí, e tudo o que vou falar é baseado em relatos de amigos meus que moraram por aí, mas ‘vamulá’: aqui no Rio, existe essa cultura de massificação, de existir o jeito certo de se vestir, portar, falar, sair, etc. Existem os diferentes, que são de alguma forma discriminados e, dependendo da diferença, perseguidos. Principalmente se considerarmos nossa inserção na burguesia carioca, o que diminui ainda mais o nosso universo (como bem apontou o zander via twitter dia desses).

    Em outros lugares, onde eu listaria sem medo São Paulo, mas via relatos também citaria Londres, existem tantos grupos diferentes que fica difícil você classificar algum como minoria, por mais que o sejam. E no final das contas, cada um cuida do seu e vida que segue (claro, lembrando que estou me arriscando bastante ao generalizar). Eu arriscaria dizer que a grande quantidade de imigrantes talvez seja a causa dessa diferença de tratamento. Mas como (ainda) não investi em estudar antropologia, paro minha análise de botequim por aqui.
    Bjs!

  2. Adriana Says:

    Por isso gosto de seu blog, cada vez que venho aqui e leio um post penso com meus botoes “Putz! Eu tambem!” Ou “Porque nunca pensei em escrever isso?”.
    Alem das coisas que voce citou, eu acrescentaria na minha “extrangeirice” carioca o fato de nao amar praia, detestar calor, nao ser marombeira popozuda, e sempre tratar bem as pessoas e querer ajudar o proximo.
    Londres pra mim eh “Home, sweet home”!

  3. Christina Says:

    Chega a ser difícil ser “diferente” em Londres com tanta mistureba de gente de tudo quanto é lugar do mundo. Diferente aqui é ser Londrino. haha

    Confesso que adoro voltar ao Rio como turista e pagar £4.00 na manicure (pé E mão), comer rodízio por £10 incluindo bebida e ouvir as gírias como se fossem coisas de outro mundo. Mas parou por aí.

    (consegui te achar restreando o site do Felipe-fofo que está no blog da Eriquinha-Mau-Baby Bo)

  4. leticia Says:

    Teu post me rendeu um counter-post :)

    bjos

  5. sandro barretto Says:

    Também sempre me irritei com algumas dessas “ixpertezash”cariocas, mas o engraçado é que isso não fazia com que eu me sentisse um peixe fora dágua. E olha que sou um revoltado de plantão com o lance da violência. Ainda assim me sentia em casa, não só porque cresci a base de praia e maracanã, mas por causa dos amigos e da família que tinha sempre à minha volta.

    Se sentir confortável pode ser apenas uma questão de se cercar das pessoas que pensam e agem como nós. Acho que é um pouco radical generalizar a coisa dessa forma. Não é tão difícil assim encontrar cariocas que não acham que estudar é ser pateta ou que é normal jogar lixo na rua, a ponto de nos considerarmos completamente ETs dentro da nossa própria cidade.

    Enfim… mas tb acho que o desabafo é sempre válido! ;-)
    bjs

  6. Estranho e Bizarro, meus pitacos | Camelo Manco Says:

    [...] Cada dia mais gente tem escrito em blogs. Já faz um tempo que eu leio alguns de brasileiros que moram fora do país, “qui nem qui eu”. A jornalista Bárbara Axt, mantém um blog em português e um outro em inglês. Ela escolheu Londres para completar seus estudos e estes dias escreveu sobre como se sentia no Rio de Janeiro antes de ir para as terras da rainha. Entedo a sua doideira. Eu sou carioca e também estou no exterior. Apesar da grande diferença de destino.A Tunísia é um agradável país no norte da África onde todos bancam os “ishperrtos”, só que com um árabe afrancesado. Os caras são muçulmanos, mas a maioria só pratica o bastante para o vizinho achar que ele é um bom muçulmano. Em seis meses aqui a única livraria que encontrei foi o Carrefour.Antes eu estava em Angola. Acho que tem um post do ano passado falando sobre minha dificuldades de achar livros em Luanda. Pois é.A cultura da burrice a que a Bárbara se refere não é exclusividade brasileira. O mundo cultua a burrice, ou melhor a ignorância. Eu sempre devorei livros, e quando morei na Itália meus amigos universitários achavam isso estranho e bizarro. Hoje tenhos colegas de trabalho, europeus, de menos de 30, que não sabem a diferença entre adjetivo e substantivo, e não conseguem conjugar verbos na própria língua. Saio em defesa do Rio, onde há muita sujeira nas ruas, patricinhas e mauricinhos mal-educados, povão ignorante de dar dó, mas onde se pode comprar um livro, ir ao cinema, curtir um teatro. Na maior parte do mundo, não é bem assim.É claro que não somos, nós brasileiros, exemplo de cultura e civilidade. Vivemos em um mundo de absurdo constante, em um universo paralelo de violência e mentiras. O presidente da República, eleito e reeleito, não é exemplo nem de cultura, nem de ética. Viver entre a realidade de “Tropa de Elite” e o mundo de fantasia do “nunca-antes-neste-país” é no mínimo um exercício para a sanidade mental das pessoas. Na Tunísia você pode deixar o carro aberto e ir comprar pão. Ninguém toca. Mas ái de você de se envolver em política ou acessar sites “proibidos”, com opiniões divergentes das do governo. Cada buraco com sua lama, diria o filósofo…De qualquer modo, Bárbara, parabéns pela cara e pela coragem. Acho que é saindo e vendo o mundo é que crescemos.Já eu continuo mancando por esse deserto doido, que me leva sempre para um buraco diferente… Quem sabe onde eu vou parar?Só sei que semana que vem desembarco no Rio para curtir o natal no calor! Saravá! [?] Gregarious FeedFlare This was written by Camelo. Posted on Friday, December 14, 2007, at 3:20 am. Filed under Bloglife, Brasil, Lento Mancar. Bookmark the permalink. Follow comments here with the RSS feed. Post a comment or leave a trackback. [...]

  7. Eduardo Sant'Anna Says:

    Cá estou eu reforçando o coro dos cariocas que se sentem peixe fora d’água no Rio de Janeiro. Estou muito feliz por ter encontrado o seu blog Barbara, pois aqui me identifico e vejo que não sou tão, “estranho, bizarro…”. :)

    Beijos.

    PS: Só não estou mais feliz porque só encontrei seu blog agora…. A lot to catch up !!!!! :-)