Post (ou não-post) motivacional
Eu tou escrevendo um post novo mas o sabático continua. Tipo assim, “ceci n’est ne pas une post”. Combinado isso, continuemos.
Vim aqui só porque achei que tinha que comentar essa história de vir para Londres. Tenho falado com algumas pessoas que vieram para cá, que estão sofrendo com esses dias curtos e cinzas, com (preencha um milhão de coisas aqui), etc.
E acho que essa coisa de se despencar do seu país pro país dos outros mexe com a cabeça das pessoas de maneiras diferentes. É óbvio isso, eu sei. Mas às vezes falar o óbvio é importante. Desde antes de sair do Rio eu sabia que não sabia como ia reagir a isso aqui. Não sabia se o frio ia me deixar deprimida (não me deixou - a falta de sol é infinitamente pior), se eu ia morrer de saudade do Rio (não. Morro de saudade da minha família e dos meus amigos, mas da cidade? nhé). Portanto, se você está pensando em sair de Fortaleza para a Suécia, prepare-se para passar por alguma coisa que você não sabe o que é. Talvez você não sinta falta do calor, mas sinta falta das vizinhos conversando com você na rua. Você só vai saber quando chegar.
Ontem estávamos conversando com um cara que veio para cá com a mulher e o filho de quatro anos, sem emprego certo, com alguns contatos, ficou três meses na casa do cunhado, arrumou trabalho, e hoje mora num apartamento lindinho com a família.
E ele explicou que por ter vindo com filho, não podia ficar curtindo fossa. Tinha que andar para frente, por mais difícil que tudo estivesse.
Fiquei pensando nisso, e acho que mesmo sem ter filho, essa foi um pouco a minha política nesse período jobless, scholarshipless e penniless que veio antes do emprego, que é um contrato só de seis meses. Segura na mão de deus e vai, e eu tava indo, torcendo para estar indo pra frente.
Uma outra coisa que eu acho bem importante, que um dia vou colocar no guia para brasileiros nessa terra, é que tem gente que chega aqui achando que vai ser fácil. E esses, meu amigo, são os que se embolam. Como alguém pode achar que é fácil chegar numa cidade nova e não muito amigável como Londres, sem família, sem dinheiro, morando num lugar chumbrega, sem falar perfeitamente a língua, tendo que cozinhar a própria comida e limpar a própria casa, sem conhecer as leis, e principalmente, sendo imigrante?
Onde está escrito que isso é fácil?
Não quero bancar a fodona aqui não. Eu sei que tá parecendo isso, mas não era isso que eu queria. (é que esse post já está meio desgovernado, e eu nem lembro mais o que eu queria dizer, mas vou continuar porque agora esse blog é uma experiência de fluxo de consciência. E sabático, ao mesmo tempo).
É só que, caramba, onde estava escrito que não ia ser difícil para burro? É difícil mas pode ser legal. Para algumas pessoas vale a pena e para outras não. Como eu já disse ali no post anterior, às vezes eu acho Londres o máximo, às vezes eu tenho vontade de fugir, de ir para um lugar menor, menos competitivo, mais calmo, etc etc etc.
Mas para quem estiver se sentindo meio bodeado com esses dias curtos e esse tempo horroroso, com a dificuldade para ser aceito, para arranjar emprego, ou qualquer coisa assim, não entre em pânico. É assim com todo mundo.
Inclusive com aquelas pessoas que contam histórias fantásticas, que colocam fotos invejáveis no orkut, que parecem que estão super bem. Logo depois de chegar aqui a coisa é complicada, a vida é difícil, o bode nos persegue. Normal. Já ouvi histórias de gente que morou em um quarto na faculdade com uma parede inteirinha preta de mofo, de gente que teve que baixar e muito a bola no trabalho depois de chegar do Brasil com o rei na barriga, de gente que passou um ano entregando pizza e trabalhando no Pizza Hut sem nunca ter trabalhado nem pago conta antes na vida, de gente que descobriu que segurar uma bandeja e trabalhar de garçom não tira pedaço (na verdade, esse foi em Barcelona, mas também serve como exemplo).
(Ah sim, a maioria é de gente que veio com emprego certo, ou que tinha mestrado, ou dinheiro guardado. Não tou falando do povo que vem sem falar a língua e sem dinheiro para voltar, tentando arrumar trabalho de cleaner. O perrengue dessas pessoas é de outro nível, tipo viver numa casa com 20 outras pessoas, dividindo o quarto com mais três e tendo as coisas roubadas quando sai para trabalhar - e mesmo assim, muitas delas seguram a onda e se dão bem.)
Portanto, se em algum momento você achou que não ia ser assim, que tudo ia ser fácil e lindo, reorganiza agora as suas idéias, se apruma, segura na mão de deus e vai.
(Depois melhora, eu garanto. Esse pessoal todo que eu citei aqui está vivendo bem direitinho hoje)

novembro 26th, 2007 at 6:38 am
O meu perrengue particular e’ a frustracao de nao conseguir ser tao articulada com o ingles quanto eu sou com o portugues. E’ uma coisa obvia, tem que acontecer, mas com os meses isso foi pesando, pesando… me sinto uma tapada, nao vejo a hora dessa fase passar!
novembro 26th, 2007 at 8:04 am
Pois é… essa ficha tá teimando, mas vai cair! Aliás, já está caindo. Você esqueceu de dizer a diferença entre vir pra cá sozinho ou com seu parceiro (a) ou pelo menos um amigo (a). Quer dizer, eu pelo menos acho que essa barra seja bem mais pesada quando se está sozinho pra carregá-la.
Quando se tem alguém do lado, um vai puxando o outro. Às vezes um “larga da mão de Deus e fica” e é bom demais ter alguém perto pra te levantar e seguir em frente. E assim, vamos nos revezando nesse papel, tornando a jornada menos dura.
De qq forma, os conselhos estão anotados. Irei sempre consultá-los quando o bode me alcançar! ;-)
bjs
novembro 26th, 2007 at 5:17 pm
Quando eu tive minha experiência New Yorker, todo mundo falava: imagina, em NY vc rapidinho vai arrumar trabalho, trabalho não falta lá, etc etc.
Não é nem um pouco assim. Eu ligava pra casa chorando toda vez que alguém me tratava como uma imigrante latina idiota enquanto buscava trabalho…
legal o post, Baxt. Gostei de saber que vc tá com um job!
beijosss
dezembro 6th, 2007 at 2:53 am
Baxt,
perfeito! Parece até o meu post de um ano no Canadá que o povo achou que eu não tava feliz… Tem várias discussões no orkut sobre isso, muitas dizem que o canadense/ americano/ europeu/ … não dá emprego pra latino porque quer proteger o mercado. Coisas que eu não entendo… Como é que nêgo pensa que o Canadá não quer imigrante se tem empresa fechando por falta de mão-de-obra? Fora que as vagas ficam abertas por meses…
A minha ilusão de que tudo ia ser perfeito caiu por terra já na chegada. Meu inglês estava muito longe de ser fluente como as empresas que eu trabalhei achavam (esse é um post à parte!). Mas tudo isso que acontece é muito bom, faz a gente crescer e ir pra frente. Bem no estilo “segura na mão de Deus e vai…”
Anyway, o frio é uma budega mesmo, mas a gente se acostuma. Saudades eu tenho é de um bom buteco, do chamego de mãe e dos meus amigos. Do Rio eu desisto de ter saudades quando leio o Globo on line!
bjo e vamú que vamú!
dezembro 11th, 2007 at 4:56 pm
nossa… realmente tem muita coisa do modo de vida de outros países que a gente, principalmente quem nunca viajou pra fora (como eu) nem imagina. credo! talvez eu não fosse conseguir viver num lugar onde as pessoas não podem, por exemplo, tocar-se ao falar umas com as outras, numa conversa amigável. penso no pessoal do grupo onde canto, somos em 30 mais ou menos, e cada um que chega cumprimenta todos os outros com abraço. acho que me encontrei e seria muito, muito difícil ficar sem isso.
gostei pra valer do blog! :)
dezembro 12th, 2007 at 10:59 pm
Ixi, são tantas emoções…
Saí do Rio amando o Rio (a ponto de ter lágrimas nos olhos toda vez que passava no aterro pelo Pão de Açúcar), com um emprego “estável” (se é que existe essa palavra no Brasil), um salário legal, mas toda em crise. Crise de carreira, no relacionamento, anti-social toda vida. A idéia era ir pra Austrália (sabe como é, né? Sol, praia, o maior índice de homens pra cada mulher do mundo…) mas foi a Dona Rainha que me comprou. Sou barata, basta uma bolsa de 800 merréis (leia-se libras) por mês e pagar meu curso que tô dentro. Primeiro dia eu chorei horrores por ter trocado minha vidinha bacaninha de apartamento de dois quartos próprio por um quarto na casa dos outros. E falar inglês o tempo inteiro (não ter muitos amigos brasileiros foi opção)? Como é que se fala “ih, rapá, vá te catá. Rumbora, sai pra lá, mermão!”. Daí o tal do frio e os gringos falando que era o pior inverno dos últimos 5 anos. Brigada, tudo que eu precisava. E veio a tal da tap water e a libertação de todas as frescuras de filhinha de mamãe. Uma semana de vômitos e diarréias por conta da água depois, tava eu experimentando comida indiana pela primeira vez e tomando iogurte de manga (mas manga com leite não mata?) nas refeições. Acho que se tiver que comer culhão de bode, eu quase que tô dentro, diz aquela que não comia nada verde (nem orégano na pizza) e nada além de boi, galinha ou certos tipo de peixe.
Certas frescuras continuam, mas prefiro chamá-las de bons princípios de higiene. All in all, acho que virei mutante e como adoro X-Men, não podia estar mais feliz.
dezembro 13th, 2007 at 10:02 pm
Oi Barbara,
Quanto tempo, heim? Tá mesmo um frio do cão… Ninguém merece! Ainda mais esta semana. Ainda bem que você escreveu este post (qui n’est pas une post… d’accord) há quase um mês e não nessa semana de -1C toda manhã!!
Mas pense no lado positivo. Dia 21 de dezembro já está chegando: o sol vai nascer por volta das 8h e se por bem antes das 16h, mas do dia 22 em diante é ladeira a cima. Quando a gente parar pra ver, é abril ou maio e tudo é lindo novamente.
E o copo continua meio cheio… Aliás, quase cheio! ;)
Bjs,
Luiz
dezembro 24th, 2007 at 12:47 pm
[...] Post {ou não-post} motivacional [...]