Minha mama africa tem que fazer mamadeira e trabalhar como empacotadeira nas casas bahia

Hoje eh dia de fechamento no escritorio. Sou a prisioneira da torre. Mas no meio do cansaco animal, chegam as faxineiras, duas negonas monumentais, que acho que sao jamaicanas. A mulher vem recolher o lixo das mesas toda sorridente e agora esta la na cozinha cantando enquanto faz a limpeza.

Faxineira cantando eh o tipo da pequena coisa que faz a gente sentir saudade de casa sem nem perceber por que.

PS: As vezes eu me pego cantando andando na rua – alem de mim, so vi negros fazendo isso. Alias, isso merece um outro post. Sobre como ao sair do Brasil nos percebemos que somos mesmo filhos de mama Africa. As referencias estao misturadas com a nossa cultura e a gente nem repara. Um dia desses eu e Hiro ouvimos no onibus uma mulher falando no celular alguma lingua africana e ficamos aquele som familiar, meio “baianes”. Na verdade, a gente batizou naquele momento a lingua que ela estava falando de “mizifio.” Eh uma mistura de fala de preto velho com outras referencias brasileiras.

Post (ou não-post) motivacional

Eu tou escrevendo um post novo mas o sabático continua. Tipo assim, “ceci n’est ne pas une post”. Combinado isso, continuemos.

Vim aqui só porque achei que tinha que comentar essa história de vir para Londres. Tenho falado com algumas pessoas que vieram para cá, que estão sofrendo com esses dias curtos e cinzas, com (preencha um milhão de coisas aqui), etc.

E acho que essa coisa de se despencar do seu país pro país dos outros mexe com a cabeça das pessoas de maneiras diferentes. É óbvio isso, eu sei. Mas às vezes falar o óbvio é importante. Desde antes de sair do Rio eu sabia que não sabia como ia reagir a isso aqui. Não sabia se o frio ia me deixar deprimida (não me deixou – a falta de sol é infinitamente pior), se eu ia morrer de saudade do Rio (não. Morro de saudade da minha família e dos meus amigos, mas da cidade? nhé). Portanto, se você está pensando em sair de Fortaleza para a Suécia, prepare-se para passar por alguma coisa que você não sabe o que é. Talvez você não sinta falta do calor, mas sinta falta das vizinhos conversando com você na rua. Você só vai saber quando chegar.

Ontem estávamos conversando com um cara que veio para cá com a mulher e o filho de quatro anos, sem emprego certo, com alguns contatos, ficou três meses na casa do cunhado, arrumou trabalho, e hoje mora num apartamento lindinho com a família.

E ele explicou que por ter vindo com filho, não podia ficar curtindo fossa. Tinha que andar para frente, por mais difícil que tudo estivesse.

Fiquei pensando nisso, e acho que mesmo sem ter filho, essa foi um pouco a minha política nesse período jobless, scholarshipless e penniless que veio antes do emprego, que é um contrato só de seis meses. Segura na mão de deus e vai, e eu tava indo, torcendo para estar indo pra frente.

Uma outra coisa que eu acho bem importante, que um dia vou colocar no guia para brasileiros nessa terra, é que tem gente que chega aqui achando que vai ser fácil. E esses, meu amigo, são os que se embolam. Como alguém pode achar que é fácil chegar numa cidade nova e não muito amigável como Londres, sem família, sem dinheiro, morando num lugar chumbrega, sem falar perfeitamente a língua, tendo que cozinhar a própria comida e limpar a própria casa, sem conhecer as leis, e principalmente, sendo imigrante?

Onde está escrito que isso é fácil?

Não quero bancar a fodona aqui não. Eu sei que tá parecendo isso, mas não era isso que eu queria. (é que esse post já está meio desgovernado, e eu nem lembro mais o que eu queria dizer, mas vou continuar porque agora esse blog é uma experiência de fluxo de consciência. E sabático, ao mesmo tempo).

É só que, caramba, onde estava escrito que não ia ser difícil para burro? É difícil mas pode ser legal. Para algumas pessoas vale a pena e para outras não. Como eu já disse ali no post anterior, às vezes eu acho Londres o máximo, às vezes eu tenho vontade de fugir, de ir para um lugar menor, menos competitivo, mais calmo, etc etc etc.

Mas para quem estiver se sentindo meio bodeado com esses dias curtos e esse tempo horroroso, com a dificuldade para ser aceito, para arranjar emprego, ou qualquer coisa assim, não entre em pânico. É assim com todo mundo.

Inclusive com aquelas pessoas que contam histórias fantásticas, que colocam fotos invejáveis no orkut, que parecem que estão super bem. Logo depois de chegar aqui a coisa é complicada, a vida é difícil, o bode nos persegue. Normal. Já ouvi histórias de gente que morou em um quarto na faculdade com uma parede inteirinha preta de mofo, de gente que teve que baixar e muito a bola no trabalho depois de chegar do Brasil com o rei na barriga, de gente que passou um ano entregando pizza e trabalhando no Pizza Hut sem nunca ter trabalhado nem pago conta antes na vida, de gente que descobriu que segurar uma bandeja e trabalhar de garçom não tira pedaço (na verdade, esse foi em Barcelona, mas também serve como exemplo).

(Ah sim, a maioria é de gente que veio com emprego certo, ou que tinha mestrado, ou dinheiro guardado. Não tou falando do povo que vem sem falar a língua e sem dinheiro para voltar, tentando arrumar trabalho de cleaner. O perrengue dessas pessoas é de outro nível, tipo viver numa casa com 20 outras pessoas, dividindo o quarto com mais três e tendo as coisas roubadas quando sai para trabalhar – e mesmo assim, muitas delas seguram a onda e se dão bem.)

Portanto, se em algum momento você achou que não ia ser assim, que tudo ia ser fácil e lindo, reorganiza agora as suas idéias, se apruma, segura na mão de deus e vai.

(Depois melhora, eu garanto. Esse pessoal todo que eu citei aqui está vivendo bem direitinho hoje)

Vou ali e ja volto.

Tou com vontade de fazer uma sabatico desse blog.

Um sabatico totalmente sem previsao. Pode ser que daqui a uma semana eu volte, pode ser que leve uns meses. Eu tenho muitas, muitas coisas para dizer. O Hiro pode confirmar que eu continuo sendo uma torneirinha de opinioes e reflexoes, de todas as qualidades.

Mas eu tou trabalhando, eu to tentando fazer frilas, eu tou tentando, como sempre, dominar o mundo, tentando nao comer comidas processadas, cozinhar minhas refeicoes e trazer almoco de casa para o trabalho, tou tentando emagrecer tambem. Por agora desisti de tentar malhar mas depois eu volto a tentar.

Eu sinto saudade de fazer aguma coisa criativa, outro dia fui num show de musica e fiquei pensando em arte, em criacao, em realizacao. Bla bla bla. O de sempre. Que eu quero escrever, e cantar, e tocar um instrumento, e compor, e costurar minhas proprias roupas.

E preciso de mais dinheiro tambem, e preciso fazer frilas para ganhar dinheiro e para fazer contatos. Afinal, o que eu quero fazer quando crescer eh trabalhar para varias revistas bacanas, ser dona do meu nariz, trabalhar no roof terrace da minha casa o dia que eu tiver um roof terrace e nos meses em que for verao.

E ai talvez eu devesse concentrar minhas escrevencias em ficcao, talvez eu devesse escrever meu livro, ou meus livros, aqueles todos que estao entalados na garganta do meu cerebro ha tanto tempo que eu nem sei mais se ainda servem, se ainda tem vico ali na historia, se eu ainda quero contar o que eu queria tanto contar alguns anos atras. Ou eu devia escrever contos, mais curtinhos e mais faceis. Ou eu devia simplesmente fazer coisas, em vez de chegar em casa cansada demais e ficar revoltada da vida de pegar um metro lotado demais, que ainda bem nao eh quente demais porque pelo menos estamos no inverno.

E eu tenho pensado muitas coisas sobre Londres, sobre as pessoas que moram aqui, sobre todo mundo que trabalha demais para juntar dinheiro em pounds, mas que acaba pagando tanto para morar bem e para comprar alguns “treats” para ficar feliz depois de trabalhar demais, que acaba nao juntando dinheiro. Londres eh uma cidade mais amiga para quem vem estudar. Pelo menos eu acho.

Estava um dia desses vendo uma entrevista antiga do Salman Rushdie e ele falou que a India eh um lugar com os controles todos no maximo. Cores muito fortes, cheiros muito fortes, sons muito altos, luz muito exagerada. E que por isso as pessoas ou amam ou odeiam a experiencia.

Londres nao eh assim, logico. Londres eh um pouco suja, um pouco barulhenta (obras, muitas obras), um pouco cheia de bebados, muito cinza, muito cheia de informacao, com pouca luz. Mas essa cidade tem a capacidade de potencializar o que eu estou sentindo.

Se eu estiver triste, chateada, pensando o que raios estou fazendo nesse commuting eterno, morando num ape pequeno demais para mim, cheia de minhoquinhas na cabeca, Londres enfia a faca e torce. Sao os meninos que trabalham na City com muito gel no cabelo e todos vestidos de ternos iguais. As meninas que sao mais bonitas que eu, as lojas que tem roupas muito caras, os alugueis ridiculamente caros, os brasileiros trambiqueiros que queimam o filme da gente por tabela. Os chavs e nos poloneses bebados no onibus, as mulheres de burca. A agua cheia de calcario que me deixa inchada, a poluicao que deixa a meleca preta e eu nem quero pensar na cor do pulmao.

Mas em compensacao, quando eu estou feliz, Londres aumenta todos os controles. Exposicoes de tudo que eh jeito, gente com roupas legais, lojas de tudo que se possa imaginar, esquilinhos e parques (meu deus, desde que eu vim trabalhar perto da City eu nao vi um esquilo! Depois o Hiro nao sabe porque eu nao quero morar em Shoreditch), casais de homens se despedindo com beijinho no metro e ninguem dando a minima, cada um na sua e ninguem nem ai para vc, tinta de cabelo que brilha na luz negra de todas as cores a venda na boots, muito mais amigos que se pode imaginar para quem mora aqui ha um ano, e muito mais convites para sair e lugares para ir do que eu aguento.

Enfim, Londres eh uma cidade que tem os controles bem moderados, mas que consegue baguncar minha cabeca de brasileira, latina, com sindrome de Scarlett O’Hara.

E agora eu vou tentar produzir, viver a vida, ganhar dinheiro, criar alguma coisa. Ou nao. Volto a qualquer momento, nao sei quando. Se voces quiserem saber da minha vida, mandem emails. Eu vou adorar.

Ate daqui a pouco.