O grande tapete britânico

Dia desses alguém comentou com o Hiro que inglês é um povo que não gosta de admitir seus erros. Que varre tudo para baixo do tapete e que são adeptos ferrenhos do bom e velho abafa. Lendo as notícias sobre o Jean Charles e Madeleine tou começando a concordar.

Não vou discutir se eles deviam ter matado o cara no metrô. Acho que foi um erro numa situação de tensão, num momento delicado e blá blá blá. Mas o que me deixa passada mesmo é a relutância dos caras de abrirem o jogo, assumirem o erro, punirem os culpados e partir para a próxima. Mais imperdoável que o erro da polícia é o fato de a polícia ter inventado uma versãao falsa dos fatos e tentado esconder o que tinha acontecido.

O caso da Madeleine, idem. Agora estão pressionando a polícia portuguesa a procurar pedófilos. Richard Branson tá pagando os advogados daquele casal muito esquisito. Alguém acha mesmo que vão ser feitas investigações sérias? Tudo que as otoridades da terra da rainha querem é esquecer a história, ninguém viu, ninguém sabe. Disseram que ficou provado que a mãe dava calmantes por via intravenosa para a garota. Isso é relativamente fácil de provar, e se for verdade, já merece uma bela punição, né?

Mas ninguém quer aquele casal branquinho e britânico (e médicos, gente respeitável) retratado como monstros.

Toda sociedade tem seus esqueletos no armário. Pelo visto aqui é assim que funciona. Depois de um tempinho aqui a gente começa a entender (bem de leve, tou aqui há um ano só e nem me meto a entender bem os ingleses) as diferenças no estilo de cada povo. E eu bem gosto da fleuma britânica. Um dia saí numa ventania, o mundo acabando, as árvores envergando, e todo mundo com cara de normal. É engraçado. Mas em situações sérias como essas os caras podiam fazer um pouquinho menos de esforço para manter a pose.

Desbatize-se!

Pesquisando para uma matéria sobre ateísmo, entrei no site da Sociedade Secularista do UK. E fiquei rindo sozinha quando descobri que eles disponibilizam um certificado de desbatismo, para você “se libertar da liberação do pecado original que você nunca teve”!

Difícil é saber até que ponto as pessoas levam isso a sério e até que ponto é pura tiração de sarro.

Mais ou menos para caralho

Tem uns dias que nada sai do jeito que devia sair, ou que tudo fica mais ou menos. Hoje tem gente que arruma briga comigo só por arrumar, tem gente que não faz as coisas do jeito de devia fazer, trabalhos andando a passo de lesma… Nada de péssimo aconteceu, mas tudo de mais ou menos.

Eu queria muito sumir para uma pousada em Ilha Grande, Itaipava, algum lugar desses. Uma pousada ou uma casa de fim de semana, daquelas que você pode entrar molhada e sentar no sofá, onde tem um monte de revista velha na sala (esquecidas em visitas anteriores) e comidas não perecíveis na cozinha. Onde nada lembra dia a dia, trabalho ou coisas práticas. Onde vc some por uns dias e finge que nada está acontecendo, onde não tem computador ou televisão, e o celular não pega direito (ou quando pega você deixa ele no silencioso e só atende se estiver a fim). Onde de tarde você dá aquela cochilada preguicenta de quem foi à praia, de biquini.

Mas hoje não dá. Hoje eu tenho que me virar pensando nesse país, que apesar de eu estar adorando tem umas coisas muito irritantes que lembram o Brasil. Dia desses fiz um frila que pagava 92 libras. Recebi 72, porque 20 foram para os impostos. Achei surreal me taxarem essa estupidez por um valor tão baixo. No Brasil pelo menos só se começa a pagar imposto depois de uns 900 reais por mês.

O sistema de saúde daqui é mequetrefe, o transporte público apesar de legal custa uma fortuna (mas se comparar relativamente, ainda é menos absurdo que no Rio, onde não tem passe mensal), o sistema escolar é assim assim, para andar de carro tem mais imposto e congestion charge. Ainda que não seja pior do que o Brasil, às vezes dá a impressão de ter trocado seis por meia dúzia. Se eu quiser um bom médico aqui tenho que pagar plano privado, se quiser uma boa escola pros meus filhos, pague do meu bolso também. Repito, não é o absurdo que é no Brasil e os sistemas públicos não são tão ruins. Só não são bons.

Sabe quele quadro da TV Pirata, a revista Faça Feio – a revista da mulher moderna, mas sem jeito? Que ensina a fazer um almofadão que fica mais ou menos? É assim aqui. O plano do governo era dar a toda população uma escola que é mais ou menos e um sistema de saúde que não é muito ruim. Eu não discordo, mas ainda acho estranho.

Faz mais ou menos sentido.

Insider

Tenho lido avidamente o blog do Fernando Meirelles, com os diários de filmagem de Blindness. Uma visão privilegiada da coisa, com detalhes aos quais a gente nunca teria acesso de outra maneira. Se fossem artigos para uma revista, por exemplo, não seriam tão descompromissados. O cara tá lá, vivendo o dia a dia com atores que a gente não conhece de perto, os “gringos”. E contando como as coisas são feitas, os detalhes. E a gente sabe que são os mini-detalhes que dão vida à coisa.

Mas o ponto que não sai da minha cabeça é o seguinte: no que esse blog vai mudar a minha experiência de ver o filme? Sabe quando você vê um programa de televisão depois de trabalhar na produção? Será que eu vou ficar procurando o vidro de esmalte o que o Gael usou para montar o personagem? Ou vou ficar obcecada em achar os erros de continuidade na cena do Mark Ruffalo com a Julianne Moore?

O que esse contato tão próximo com o processo de criação muda na hora de “consumir” o produto final? O objetivo da arte muda nesses tempos em que a vida de todo mundo é aberta, que todo mundo acompanha todo mundo, que o planeta é um gigantesco making of?

Quando eu fiz o vídeo do meu casamento, expliquei para o cara que estava filmando que eu era a “mulher making of”. Que para mim não tem muita diferença entre o produto final e o processo de criação, e que por isso eu queria vídeo do casamento mostrando o fotógrafo, foto mostrando o povo prendendo a cauda do vestido, essas coisas.

Essa praga de paparazzi e de culto às celebridades tem a ver com isso, na minha opinião. Não dá mais para manter os mitos. Não existe mais a diferença entre os bastidores e a boca de cena. Tudo se misturou e a gente que aprenda a conviver com isso.

Hiro uma vez me disse que a nossa geração é a última que se preocupa com o conceito de “privacidade”. Que o povo mais novo tá crescendo em público, o que traz coisas boas e ruins (a internet nunca esquece, e a gente sabe o quanto isso pode ser perigoso para quem tem 15 anos hoje).

Mas pesando os prós e contras, acho que gosto mais das coisas desse jeito, mesmo não tendo a menor idéia onde isso vai parar. E você?

Eu sou uma bagunça

Estou tentando manter um blog na Nature Networks, um orkut de cientistas que (espero) renda bons contatos por aqui. Acabei de publicar um post explicando meus sentimentos em relação à última work experience. E postei uma das melhores fotos do mundo que não posso deixar de publicar aqui também.

Bom, a história é que passei quase três semanas na Royal Society, um lugar onde as pessoas se vestem bem e chiques e transadérrimas. Eu já sou meio tosca, sem budget para melhorar meu guarda roupa então, foi uma tragédia. Eu sempre que me olhava no espelho achava que meu cabelo estava despenteado, minha saia torta, minha blusa amassada.

Resumindo, eu sempre me sentia como nessa imagem aqui:

school

Eiji e Hiro

PS: o blog da Nature tem só dois posts até agora, mas se você quiser dar uma olhada o link é esse aqui.