Vou continuar. Vou continuar falando das minhas questões esquizo-existenciais.
O ponto é que eu sempre disse que disciplina era a coisa mais importante da vida, que sem disciplina não se chega a nada, e esse bla bla bla todo. Mas para eu manter um dia a dia minimamente disciplinado é preciso dedicar uma boa parte das minhas atividades cerebrais a isso. É mais ou menos como se eu tivesse que ficar o tempo todo falando pro meu corpo “respira”, “coloca uma perna na frente da outra”, “agora passa a perna que estava atrás para a frente da outra”, “solta o ar”, “coloca a perna na frente”.
…já deu para entender, né?
Se a gente tivesse que viver assim, ia sobrar muito pouco cérebro para reparar nas casas da rua, para conversar com alguém durante a caminhada, para piscar ou para ouvir os passos de alguém se aproximando.
Então. Aí quando eu começo a agir com uma certa disciplina, me dá um certo incômodo. Eu queria ter um analista aqui para alugar com essas questões, mas como não tenho serve blog mesmo. E desculpe aí quem não estiver interessado, mas acho que não sou só eu que passo por isso. Por esse incômodo de ter que me disciplinar, de não ser a criança genial que eu, obviamente, achava que era algumas décadas atrás.
Eu acho que tenho tanta coisa para criar, que devia usar a minha criatividade para coisas transcendentais e arrebatadoras, ou que pelo menos ME arrebatassem – o que já seria bem bom. Pelo menos construir algo, escrever meu livro, meus contos, cantar, fazer performance pelas ruas vestida de rosa ou alguma intervenção urbana nessa terra cheia de intervenções urbanas. Pueril, eu sei. Idéias adolescentes. Mas esse lado meu adolescente não quero que cresça não.
Mas aí que está. Não dá para ser Arturo Bandini sentado na máquina de escrever, indo até a esquina, voltando para o quartinho, passando fome e escrevendo. O mundo não comporta mais isso, pelo menos eu no mundo não comporto isso. As coisas mudaram, é preciso saber o que está acontecendo, ler, usar internet, saber das coisas, fazer networking, se vestir decentemente (ou seja, ter que sair para comprar roupas, o que sempre me dá preguiça, além de pensar na produção todo dia de manhã). Sou uma mulher razoavelmente burguesa para querer minha casa limpa, comer uma comida decente, estar magra, sem raízes escuras no cabelo, e todas essas coisas que consomem um montão do meu dia.
Eu sei, eu sei que a nossa vida é tão interessante quanto a gente a torna interessante para os outros. Aprendi isso com um amigo da Puc depois que ele descreveu um episódio deprimente e solitário na sua vida como o momento mais cool e introspectivo (e absolutamente voluntário) de todos. Nessa hora eu percebi que você é o que você conta. E eu posso contar um emprego de faxineira no Starbucks como uma experiência antropológica que me rende material para vários romances, com episódios rocambolescos e pitadas de realismo fantástico. Se eu editar bem, você vai querer um emprego igual ao meu. Garanto.
Então o ponto é que às vezes eu vejo a vida dos outros, já devidamente editada, e comparo com a minha, não editada (para mim pelo menos). E acho que estou ficando para trás, que estou deixando essa minha Barbara adolescente adormecida, em estado criogênico. É claro que isso não faz sentido.
Eu poderia estar aqui, em vez de escrevendo esse post gigante que ninguém vai ler, fazendo uma edição espertíssima das minhas dúvidas e perguntas que ia deixar todos os meus dois leitores roxos de inveja das minhas aventuras muito loucas nessa terra de meu deus. Mas não vou não. Hoje os pensamentos vão sem cortes. Na íntegra, mas não tão caudalosos, porque já foram devidamente digeridos nas 3 horas que eu levei indo de casa para a academia, malhando, andando até o supermercado, comprando víveres e voltando para casa carregando um monte de sacolas. Três horas. Como alguém pode ser genial, fantástica, arrebatadora e artística tendo que gastar três horas mundaníssimas nesse trajeto? E depois ainda tendo que gastar mais algumas horas cozinhando a comida comprada? E fazendo isso tudo todo dia, ou quase?
PS: Zander, de acordo com o seu comentário, só posso concluir que se eu não sou natural e involuntariamente genial, eu não posso sê-lo nunca. É isso? E que nesse caso eu tenho que me esforçar para ser medíocre? Sempre achei que ser medíocre era algo que acontecia assim, sem esforço. Me esforçar para ser uma boa medíocre me parece tão cruel… Se é para me esforçar, eu quero ser f…