O papa
O papa tá no Brasil e eu me sinto compelida (”compelida” é daquelas palavras que só velho Ratzi me compele a falar…) a dar meu pitaco sobre essa palahaç… digo, visita. É claro que eu fico passada por ele falar os despautérios que fala, pregando barbaridades como por exemplo a virgindade até o casamento. Num tempo em que as pessoas casam com quase 30 anos, isso significa que o pobre do fiel vai passar toda a juventude tomando banho frio, sofrendo horrores e deixando de se divertir de uma maneira que não faz mal a ninguém ou, pior ainda, as pessoas vão casar com qualquer namoradinho/a que tenha aos 18 anos, numa escolha totalmente imatura, só para aplacar a coceira nos países baixos.
Mas tudo bem, esse é o job description do cara. Ele tá lá para isso mesmo, para ser retrógrado e divulgar as idéias de uma Igreja que não quer se atualizar. Foi eleito para isso, eu entendo.
O que me deixa passada, mas passada mesmo, são as pessoas que apóiam ele. O povo todo que encara chuva para ver um velho feio com uma roupa esquisita, falando coisas absurdas.
São as pessoas que se dizem católicas e que, na santa paz de suas casas, tomam pílula anticoncepcional, transam antes de casar, moram junto com o namorado, etc etc etc. Conheço várias pessoas assim, católicas com bom senso suficiente para não abrir mão da camisinha.
O problema, amiguinhos, é que quando o papa fala para o povo da Suazilândia, que tem 40% de sua população HIV positiva (o dado é real, eu não inventei), e que está com a expectativa de vida na casa dos 30 e poucos anos, que não se deve usar camisinha, ele está falando em nome de vocês. Ele diz que tem o apoio de sei lá quantos milhões de almas, que são as almas de vocês, que vão lá assistir o Ratzi falar bobagem mas não são loucos de fazer sexo sem proteção.
Quamndo o papa ameaça excomungar quem seja contra o aborto, vocês estão lá dando apoio e deixando milhares de meninas de favela à mercê de aborteiras que enfiam um galho de mamona pela perereca delas e futucam o feto até despedaçar ou matar aquele serzinho da maneira mais cruel possível.
Muitos católicos por aí não concordam com as posições defendidas pelo papa. Mas a partir do momento que essas pessoas continuam se dizendo católicas, elas estão sim, backing up e dando poder para o cara seguir com essa cruzada obscurantista, que só prejudica quem é pobre e ferrado. Porque na Suazilândia, meu amigo, se ninguém distribuir camisinha, não tem de onde tirar. O cara não pode escolher se quer usar ou não, porque não tem.
Já na juventude da Barra e da Zona Sul do Rio pode até ter gente fazendo um esforço e casando virgem. Mas garanto que a menina de 16 anos da paróquia não sei que lá, se ficar grávida por acidente, os pais levam lá na fábrica de anjinho e tira o bebê. Porque os pais têm dinheiro para pagar, porque conhecem o médico que faz isso, porque são privilegiados, com informação e dinheiro para fazer o que quiserem.
Devia ser assim com todo mundo. Livre arbítrio, aquela coisa que as pessoas vivem falando. Livre arbítrio para cada um escolher se quer ou não casar sem transar antes, se vai ou não abortar, se vai usar camisinha ou pílula ou confiar naquele incertíssimo método billings. Cada um escolhe como vai fazer e deixa os outros em paz para escolher o seu caminho.
Maio 15th, 2007 at 8:27 pm
Ah, Barbarella. Eu sou um desses ateus chatos mesmo. Dos que acham que a igreja deve ser combatida mesmo. Mas tenho que dizer que gosto muuuuuuuuuuuuito mais desse papa que do outro.
Justamente porque ele quer excomungar quem é pró-aborto. Está certo ele. A religião dele é contra isso, então quem é a favor tem que ser expulso da religião dele. Muito justo.
Aliás, acho que isso inclusive facilita o combate contra a hipocrisia dos católicos que você colocou, de gente que tem uma prática contra a igreja, mas é “católico”.
Fora isso, eu tenho que dizer que os católicos tem algumas defesas muito boas contra essa história da camisinha. Eles dizem que a Igreja tb defende a abstinência e a fidelidade no casamento e que com isso ninguém pega Aids. Ou seja, quem cumprisse os ensinamentos estaria mais seguro que alguém que use camisinha. É verdade.
É claro que eu não defendo a abstinência de ninguém, muito pelo contrário :o) Mas o Papa tem um ponto. Quem não tem são esses caras que escolhem o que aceitam da religião: divórcio, pode; casamento gay, não; sexo livre, pode; camisinha, não. Isso é hipocrisia.
Eu acho que devemos combater os católicos. Mas antes devemos combater os falsos católicos, os que usam o catolicismo para avançar com sua agenda, que não é a agenda dos católicos. E nisso estou com esse Papa. Fora católicos de meia tigela, excomunhão para vcs.
Maio 14th, 2007 at 2:22 pm
Olha, eu apóio o papa porque escolhi.
Na verdade colocar a culpa de todos esses problemas na Igreja parece rebeldia sem causa. Você realmente acredita que o Vaticano causou o boom da Aids? Que a legalização do aborto vai resolver os problemas de todas as meninas pobres que engravidam sem querer?
Se a menininha pobre não teve tantas opções de escolha quanto a sua amiga que queria casar virgem, essa responsabilidade é da Igreja? Jura?
Sabe, ninguém é obrigado a ser católico, muito menos a seguir o que a Igreja diz. Liberdade religiosa tá aí pra isso. Antigamente pegava mal ter outra religião, agora pega mal é ser católico. Não entendo tanta revolta.
Queria escrever com calma e tal, mas o tempo está escasso por aqui. Depois explico as coisas que penso melhor, mas queria deixar como contraponto o texto “O papa chegou”, que está neste blog: http://www.achadaouperdida.blogger.com.br/.
Maio 14th, 2007 at 1:03 pm
apoiada!
Maio 13th, 2007 at 11:19 am
Peralá, o Papa não está fazendo política. Ele está salvando almas, a minha e a sua. Fazer aborto é, acima de tudo, um pecado. Não é uma questão de sentir-se bem, saúde pública, etc. É a diferença entre o céu e o inferno. Deus falou que fazer aborto é pecado, caminho certo para o inferno. E o Papa tem uma procuração dO Cara, é o representante legal aqui em baixo. Mesmo que você não acredite nisso, quem é você? Ele está nos fazendo um favor, está nos salvando da danação certa.
É claro que o simples fato de eu não ser católico praticante me faz um pecador, então já era. Me dá um pacote de camisinha aí.
Esse sarcasmo todo foi só para tentar mostrar para nós aliens-sem-religião como funciona a mentezinha do rebanho (católico ou protestante ou islãmico). Salvar as almas dos outros é um dever, é bônus no boletim lá de cima. Ser chato com todo mundo que não segue seus dogmas é a diferença entre fogo eterno e 1000 virgens.
Maio 12th, 2007 at 12:36 am
Viviem
E o Boff parece quem? O Papai Noel da Coca-Cola?
Hehhehehhe
Zander
Mas já sendo do contra… as únicas pessoas que vi recusando tratamento médico na minha vida, por causa de religião, foram os crentes.
Maio 11th, 2007 at 10:33 pm
Compreendo a posição do Papa em se colocar contra o aborto. Discordo, mas compreendo.
Quanto as outras colocações: castidade até o casamento, casamento indissolúvel e outras patacoadas ( humpf…essa palavra me lembra o Collorido..) não consigo sequer compreendê-las.
Entendo que o Zander coloque a importância disso como um gesto político, acho importante ressaltar que isso é um gesto político, obviamente, portanto, passível de críticas e - até - ridicularizações. Porque os posicionamentos arcaicos da Igreja estimulam a ridicularização. E o Alemão-anti-teologia -da-li8bertação parece mesmo o Lord Sith, não é?
Maio 11th, 2007 at 7:58 pm
Bom meninos, temos alguns pontos aqui.
O primeiro é o de crença. Lefebvre está certo quando o Papa está aqui para falar para os católicos e pronto. E, teoricamente, ele está falando para quem acredita que um cara morreu e ressucitou no terceiro dia e que acha que nasceu com uma culpa atávica desde os tempos de Adão e Eva.
Na prática, a coisa é outra. A igreja católica - e por derivação, o mundo cristão - é massa de manobra de muitos interesses regionais e globais. Não tô falando de conspiração esdrúxulas, mas de uma instituição que representa um elemento formador de boa parte da sociedade ocidental e que defende, por vezes, um obscurantismo que assusta ao mesmo tempo que tem posições bem sensatas como ao defender o Darwinismo, por exemplo.
O segundo ponto é com relação à influência. É inocente achar que a igreja católica é apenas uma religião. Ela é muito mais que isso: é um estado - o Vaticano - é uma instituição transnacional, é a dona de centenas de “empresas” de assistência social que, muitas vezes, são a única coisa que populações carentes têm para se sustentar pois não têm um estado a lhes dar o mínimo necessário para uma vida digna.
Nessa condição, me assusto ao ver que centenas de milhares de pessoas - católicas ou não - que precisariam de um tratamento com bases científicas, têm de ser submetidas a determinados dogmas.
Não que seja errado isso, entendam. É uma assistência da Igreja Católica, então é mais que correto que siga as linhas Apostólicas Romanas. O que assusta é que é essa a única fonte de amparo que essas populações recebem. E isso só aumenta a importância e o peso político da ICAR.
O terceiro ponto é o da pertinência. O fato do Papa vir ao Brasil é de suma importância para ele. E receber bem o Papa é importantíssimo politicamente. Não tem nada de bobo, inocente ou singelo nisso. Muito pelo contrário. A maior parte da população brasileira se declara católica - e isso a torna realment católica na prática -, o Papa - a entidade - tem capacidade de mobilização e empatia default para levar 100.000 pra a as ruas.
Quando o sumo pontífice se declara anti-aborto, a capacide de convencimento dele não pode ser deixada de lado. Todo o lobby anti-aborto goza em uníssono com ele por conta. Quando ele se declara anti-divórcio, o povo que ainda se ressente da promulgação da lei em 1982 (se não me engano) goza em segunda voz. E é isso que o Papa carrega de fardo consigo. Melhor: esse Papa em especial.
O Karl Woytila era mais ambíguo, se guiava mais pela percepção de humanidade que o Ratzinger. Ele era tão retrógrado quanto, mas era claramente contra as guerras, era totalmente pró reunificação, contra as desigualdades sociais, quase um comunista se não fosse tão anti-comunista.
O Ratzinger é mais racional, mais cerebral, mais dogmático e, consequentemente, mais radical.
Para terminar, o quarto ponto é quanto a liberdade de se ter opinião. Mas não preciso falar sobre isso, né? :D
beijos e abraços
Maio 11th, 2007 at 6:07 pm
Mas Lefebvre, eu não tenho nada contra cada um acreditar no que quiser! Eu conheci uma menina que queria casar virgem, e me disse que passou a adolescência inteira segurando a onda para não transar com os namorados. Eu não faria isso (acho um desperdício de tesão), mas nunca me passou pela cabeça tentar convencer ela a transar.
Ela não estava fazendo mal a ninguém, qual o problema?
O problema para mim é quando a Igreja impede campanhas de conscientização nas favelas do Rio e de São Paulo, atrapalha a distribuição de camisinhas e coisas assim. E impede as pessoas de escolherem se querem ou não fazer um aborto. O certo é dar a informação, acesso a métodos anticoncepcionais seguros, etc etc etc, e depois deixar que cada um faça o que quiser.
Minha amiga estudou numa ótima escola, tinha informação, dinheiro para comprar a pílula e ESCOLHEU não transar. É bem diferente, né? Ela tomou uma decisão, tendo as informações necessárias para isso. Espero que tenha dado certo - até onde eu sei acho que ela está feliz.
Um abraço, e obrigada pelos comentários :)
Maio 11th, 2007 at 5:52 pm
Não é revoltado, Baxt. Mas é preciso diferenciar as coisas. Deixa os católicos acreditarem no que quiserem. Vai no Google ver as informação da Suazilândia. Isso nada tem com as crenças da igreja católica, ou qualquer ação desta nesses paises. É uma falácia das brabas.
O problema da Suazilândia só vai ser resolvido, sim, com educação e informação. Mas não com informação do tipo cartaz. É uma cultura que precisa ser mudada. É gente que acredita ter pego doenças por causa da vacina. Só falta a Igreja Católica ser culpada disso também.
Minha tia é assistente social. Conheço histórias piores que essas da Suazilândia que se passa em São Paulo e no Rio de Janeiro. Falta informação pra essa gente? Claro que não. É um problema cultural.
Você mesmo disse que o mal acontece quando o Papa fala pro povo da Suazilândia. Mas o povo da Suazilândia não dá patavinas para a fala do Papa. Então, qual é a razão de tamanha revolta?
Por conhecer bem o Brasil, pelo menos, sei que os problemas decorrentes de abortos mal feitos é uma realidade dos centros urbanos, quase sempre relacionados com o uso de medicamentos que causam hemorragia, ou o velho cabide de roupas. Mas esse assunto é grande demais para um comentário. E nem sei se valeria a pena.
E por último, acompanho o blog pelo RSS. Por isso comentei tão rápido.
Abraço
Maio 11th, 2007 at 5:29 pm
Nossa, postei há cinco minutos e já tem comentários revoltados aqui? Caramba, que eficiência!
Se o povo na Suazilândia acredita nessas coisas (é você que está dizendo, não me dei ao trabalho de checar), essa é mais uma prova de que eles precisam de informação e educação. E não de uma doutrinação sem bases científicas que não ajuda em nada.
Aliás, vc levantou outro ponto interessante. Crenças não científicas. Acreditar em coisas sem evidência sempre pode levar a atitudes perigosas. Acreditar que cocô de vaca cura a Aids é tão sem evidência do que acreditar que usar camisinha é pecado.
Maio 11th, 2007 at 5:18 pm
O Papa não está mandando nas pessoas, mas falando para os católicos. O problema é deles. Além do mais, o povo da Suazilândia não é católico. Na verdade, a Suazilândia tem 40% de portadores de HIV porque eles tem certas crenças bem divertidas, como por exemplo:
- acreditam que transar com meninas virgens de 12 anos acaba com qualquer doença.
- que a cunhada viúva deve ter relações com o irmão do morto para que a alma do marido vá para o paraíso.
- que passando bosta de vaca nos “países baixos” previne doenças venéreas.
Cada um escolhe como vai fazer e deixa os outros em paz para escolher o seu caminho. Por que, então, não deixa os católicos em paz?