Vamos lá, todo mundo fazendo pombinha com as mãos! Tira o pé do chãããão!
Normalmente quando uma coisa acontece, os blogues comentam o assunto na mesma hora. Onze de setembro, eleições, tudo que eu possa imaginar. Aconteceu, virou post (por acaso você, caro leitor, é velho o suficiente para lembrar do slogan da revista Manchete?)
É assustador ver como no caso do menino arrastado pelo carro até os blogues silenciaram. Parece que todo mundo esperou um pouco, respirou, e só alguns dias as pessoas começaram a concatenar as idéias e tomar coragem para tocar no assunto. No meu caso, eu sequer li a notÃcia. Hiro leu para mim e eu fiz questão de não procurar mais nada. Só fico sabendo das manchetes, e olhe lá. Não clico nas notÃcias. É impossÃvel não se colocar no lugar de algum parente do garoto e sim, dá vontade de morrer só de pensar.
Aà na sequência vêm notÃcias sobre diminuição da maioridade penal e, pasmem, uma manifestação para todo mundo usar preto amanhã. Fala sério! Esse tipo de coisa, tipo passeata vestido de branco e fazer pombinhas com as mãos só serve para acalmar a consciência da classe média apavorada! (entenda melhor este conceito aqui)
Pois bem, a consciência da CMA (vamos abreviar para ficar menos repetitivo) não precisa ser acalmada. A consciência é a única coisa que resta à CMA, e precisa sobreviver, agitada, como o resto de dignidade desse povo. Não saiam de preto amanhã! Encarem a realidade, por favor. Eu também, daqui de longe, me considero uma legÃtima representante desse não muito glorioso grupo, e encaro minha consciência, pelo menos. Não faço nada a respeito. Cumpro minhas obrigações, não jogo lixo na rua, não furo fila, etc. Não faço isso aqui e não fazia no Rio. Mas de resto, não faço mais nada. Não atrapalho nem ajudo. Sou a tÃpica burguesa carioca, triste e descrente. Indignadamente inerte.
Não é possÃvel tomar alguma atitude sem colocar o seu na reta. Linchar os assassinos do garoto, alguém fez? Não, afinal quem ia correr o risco de tomar um tiro, assim de bobeira? Quebra quebra nas ruas, panelaço, invadir o palácio Guanabara, alguém, alguém?
Eu entendo. Quando você já está numa situação de merda, você não quer arrumar sarna para se coçar. Ninguém quer deixar a vida mais complicada do que já está. Ninguém quer dar a cara a tapa, arrumar problema com uma milÃcia qualquer e ser executado de bobeira voltando do trabalho. Normal, eu também não quero. Então o carioca fica quietinho, diz que essa situação é um absurdo, meu deus, onde esse mundo vai parar?, chega em casa, paga os 350 reais para a empregada e vai para o computador, postar foto de gato e capivara no blogue.
Li um comentário no Globo de um cara que propunha uma manifestação legal. Que durante um dia inteiro todos os cariocas ficassem em casa. Ninguém trabalha, ninguém dá dinheiro para os donos das companhias de ônibus, ninguém compra nada. O Rio pára. Achei genial, afeta as pessoas onde elas sentem: no bolso (se você quer chamar a atenção de alguém eu acho que a única maneira, além de torturar um parente próximo na frente dela, o que é antiético, é fazendo ela perder dinheiro). Desde que eu sou criança ouço uma história de depositar o IPTU em juÃzo, em sinal de protesto ao péssimo serviço prestado em troca do milionário IPTU que as pessoas pagam. Para mim é história da carochinha, nunca ouvi falar de alguém que de fato tenha feito isso.
Aproveito para sugerir uma manifestação, para variar, efetiva. Maconheiros, cheiradores e picadores deste brasil varonil, escolham um dia e façam greve. Não visitem seu traficante amigo. Passem longe da boca de fumo. Não liguem para o Disque Pó. Vamos de uma vez por todas deixar claro para quem manda que a gente está puto.
Mas sabe? Eu acho que ninguém vai propor isso. Quem vai ser besta de organizar esse tipo de manifestação e colocar a famÃlia em perigo?
E desse jeito, caro colega de classe média apavorada, estamos todos fadados a presenciar a continuação da diáspora brasileira pelo mundo. E quem está no Rio fica quietinho, rezando para passar despercebido nas blitzei (gostou do plural?) falsas e em qualquer outra situação.
Vou repetir para quem não entendeu. Não é possÃvel provocar uma mudança na sociedade sem se comprometer. Gandhi, aquele cara que desaprovaria todas as minhas idéias de linchamento e quebra quebra, quando o bicho pegava fazia uma greve de fome. Colocava no adversário o ônus de ser o culpado pela morte dele. Funcionava, porque as pessoas acreditavam que ele podia morrer mesmo. Coisa que, aliás, chegou perto de acontecer.
Pois bem, agora que desabafei vou lá fazer meu jantar, me indignar mais um pouquinho, ver um filme e dormir.
Barbara, a Revoltadinha da Estrela
Fevereiro 27th, 2007 at 3:32 pm
Eu, totalmente identificado como CMA, mas sem ganas de sair na praia de ipanema com uma camisa escrito ‘Basta!’. No entanto, estou tão descrente de tudo que não acho que haja solução. As vezes torço para os EUA (ou outro paÃs capitalista neoliberal assassino filhodaputa) resolver se interessar pelo nosso paÃs e colonizar tudo na marra, sei lá. Pior que odeio americano também, então acho que não temos mesmo jeito…
Fevereiro 21st, 2007 at 11:39 am
[…] Vale a pena ler o post da Baxt (a.k.a. esposa do Hiro) intitulado “Vamos lá, todo mundo fazendo pombinha com as mãos! Tira o pé do chãããão!” “Não é possível provocar uma mudança na sociedade sem se comprometer.” […]
Fevereiro 16th, 2007 at 9:52 pm
pois é barbara… foi meio chocante. até pra gente, que lida com informação, ‘que meio que’ cria uma carapaça contra certas coisas…
eu nem quis saber, pedi pra namorada, que é carioca e leu as coisas, me contar.
:/
Fevereiro 16th, 2007 at 3:51 pm
Na mesma semana da morte do pobre menino, saiu na imprensa a notÃcia de que nos últimos 4 anos TODOS os indicadores da qualidade de ensino pioraram. Além disso no final do ano passado já tinham saÃdo dois relatórios, um mostrando a diminuição do número de crinaças na escola e outro o aumento do trabalho infantil (após anos de melhora nesses dois indicadores).
Agora vem a pergunta. Como estaria a violência no nosso paÃs se o povão tivesse escola, hospital, trabalho e transporte? Vocês acham que o João ainda estaria vivo?
Temos que protestar contra a violência sim (cada um faça do seu jeito), mas acho que o quue todos estamos esquecendo é que cada centavo que um Sanguesuga rouba, cada propina que se paga a um policial, cada imposto sonegado por um empresário (conseguir uma nota fiscal em restaurantes ou lojas aqui no Rio é um parto), cada Mensaleiro livre, cada Lulinha ganhando milhões da Telemar, cada Maluf comendo pastel com chope, cada playbloy e dondoca cheirados, ajudam a criar os tipos que arrastam criancinhas pelas ruas.
Fevereiro 16th, 2007 at 12:23 pm
Você expressou uma série de opiniões das quais me sinto afinada. É bem por aà mesmo…
Passeata de branco é quase uma variante do carnaval, “vamos todos nos fantasiar de pacifistas que se importam relamente com a situação”.
Um coisa é reclamar de um mosquito que te pica e tentar darum tapa nele, outra bem diferente é entender o porquê do mosquito estar ali, como um criadouro por exemplo, e efetivamente fazer alguma coisar para acabar com a situação.
Claro que a analogia não cabe muito, violência incomoda muito mais que um mosquito. Mas a posição é bem aprecida…
Muito bom seu blog!
Fevereiro 16th, 2007 at 7:47 am
Mas, ai vem o Carnaval da Cidade Maravilhosa, cuja boa parte da festa e bancada por um dinheiro que ninguem sabe de onde vem, (Ou sabem ?), todos pulam, se divetem, se esquecem, e aguardam o próximo trágico carro alegórico….
Fevereiro 14th, 2007 at 3:33 pm
Sensacional.
Você escreveu tudo aquilo que eu não consegui expressar, de tanta raiva dessa CMA.
beijocas
Fevereiro 13th, 2007 at 7:23 pm
Depois de dois anos vivendo no Rio de Janeiro, cheguei a uma conclusão: o carioca acha que essa violência é normal. Nos outros estados, as pessoas sentem medo. O carioca acha que é normal, que “não deve parar a vida dele por causa da violência”.
Enfim…