Aborto em Portugal
Não sei se tem gente em Portugal lendo esse blogue, mas se tiver, esse post é só para falar do plebiscito sobre o aborto.
Só para lembrar: ser a favor da legalização do aborto não significa ser a favor do aborto em si. De jeito nenhum. Eu acho que fazer um aborto é uma coisa horrível, violenta e tudo mais. Mas acho sinceramente que não se pode proibir todo mundo de fazer isso só por uma questão religiosa, ou sei lá por que.
Imagina que coisa absurda, se eu sou católica e vivo num país cheio de judeus e por isso sou proibida de comer porco. Patético, né? No caso do aborto a situação é um pouco mais complicada, porque o destino de um futuro bebê está em jogo. Mas é um futuro bebê, e não um bebê, dá para entender a diferença?
Bom, mas estou fugindo do assunto. O que eu queria dizer era: se uma mulher é atéia (ou budista, ou sei lá o quê) e precisa fazer um aborto, ela é proibida porque isso é um pecado para os cristãos. Helloooo, cadê a coerência? Ela não é cristã!
Outro ponto importante: a liberação da interrupção da gravidez muitas vezes significa apenas a diferença entre ir para uma clínica ou cair na mão de uma açougueira que vai enfiar uma agulha de crochê perereca e útero adentro (ui!), causando todos os tipos de problemas e infecções que se possa imaginar. Em outras palavras: a proibição não impede que milhares de mulheres abortem do mesmo jeito. Mas a proibição faz sim com que elas tenham complicações seríssimas depois do aborto.
Ah, você acha que o dinheiro do governo não deveria ser gasto com clínicas de aborto para devassas que saem engravidando porque não têm vergonha na cara? Mas você já parou para pensar que uma grande parte das mulheres que fazem abortos clandestinos depois têm que ir para o hospital público tratar das complicações, hemorragias, infecções, e às vezes até mesmo passar por uma cirurgia para tirar o útero? Ou seja, gasta-se ainda mais dinheiro para consertar o estrago, o que não me parece uma alocação de recursos muito eficiente.
Portanto, acho que esses são os pontos mais importantes: liberdade de escolha, utilização mais eficiente do dinheiro, e claro, não forçar a mulher a ter um filho que ela não quer. Crianças indesejadas têm muito mais chances de sofrer maus tratos e crescer com problemas sérios, educacionais, psiquiátricos e etc (dia desses eu conto as histórias das crianças do bairro onde mora a minha ex-empregada, e você vai querer chorar).
Um filho na hora errada pode ser o fator decisivo para que a sua mãe (muitas vezes uma adolescente) pare de vez de estudar, não consiga arrumar um emprego, e aí são duas pessoas em más condições de vida: a mãe e a criança. Falando sério, para aqueles que são a favor da proibição, alguém acha que essa situação beneficia alguém? Isso é uma crueldade, isso sim.
Ai ai, eu quero terminar esse texto porque ele está ficando longo demais, mas tem mais um argumento que às pessoas às vezes usam: que as pessoas têm que ter vergonha na cara e usar métodos anticoncepcionais, em vez de sair por aí engravidando e depois abortando.
É CLARO que eu concordo com isso. Mas se você parar para pensar, uma pessoa de 18 anos, cheia de fogo no rabo tem direito a cometer um erro, né não? Não muitos, mas uma vezinha só que não se tenha uma camisinha à mão, ou uma pílula esquecida - isso é perdoável… E eu acho que essas pessoas sensatas que cometem um erro sincero, uma vez na vida, não podem pagar pelas cabeças de vento que acham que aborto é método anticoncepcional. Eu sempre tive pânico de engravidar fora de hora, era completamente paranóica com camisinha, pílula (a normal e a do dia seguinte), mas se tivesse acontecido algum azar comigo, talvez eu tivesse abortado. Na verdade a paranóia vinha do fato de que eu não queria pagar para ver se eu ia ter coragem de interromper a gravidez.
Mas esse argumento me leva ao ponto mais importante de toda essa discussão, para mim. Sim, descriminalizar é o primeiro passo, mas ele tem que ser feito junto com uma puta campanha de conscientização. Que fale sobre anticoncepcional, e que fale que aborto não é legal. Que deve ser evitado, que existem milhões de maneiras de você nunca precisar fazer um aborto. Fazer com que as meninas não tenham vergonha de exigir a camisinha (outro longo assunto, dia desses falo nisso), que pílula do dia seguinte é uma coisa genial (que não deve ser usada sempre porque é uma porrada hormonal, mas que de vez em quando quebra o galho), e que existem também injeções, adesivos, anéis anticoncepcionais e milhares de métodos ultra engenhosos que servem para adolescentes avoadas que esquecem de tomar a pílula.
Resumindo, primeiro LIBERAR o aborto, e depois DESENCORAJAR.
PS: todo esse discurso era só para pedir para que você caro leitor que está em Portugal, se você concorda comigo, faça um esforcinho, levante seu traseiro gordo do sofá e vá no domingo votar. Você está num país legal o suficiente para perguntar à população o que ela acha do assunto, aproveite a chance. No Brasil não tem disso não.
Março 8th, 2007 at 5:57 am
A discução sobre o aborto nem devia existir no seculo XXI, em qualquer pais um pouco desenvolvido.
Mesmo não sendo a favor do aborto como metodo contraceptional, acho que qualquer mulher deve ter a liberdade de poder escolher ter um filho ou não, é preferivel um aborto a uma criança abandonada ou maltratada.
Sempre houve aborto, com as consequencias desastrosas da clandestinidade e falta de condições, portanto com a despenabilização esperemos que as condições melhorem…
Fevereiro 22nd, 2007 at 9:11 am
De acordo. abs, laura
Fevereiro 16th, 2007 at 12:00 pm
Fui tragada pelos comentários do meu blog. Socorro!!! Não consigo de3ixar de voltar aqui!
Mas é que eu queria concluir uma coisa. Legalizar o aborto não é uma BOA solução. É a MENOS PIOR. Dá para perceber a diferença?
Fevereiro 16th, 2007 at 11:44 am
Hhhmmm, agora a conversa começa a mudar e me agradar mais. Discutir as leis é o objetivo desde o início.
Como você mesmo disse, os princípios, leis morais e costumes é que devem definir as leis. E é justamente isso que a gente está discutindo. Para mim, um amontoadinho de células não é uma pessoa. Pode vir a ser, mas não é.
Funciona na minha cabeça mais ou menos como uma possibilidade de pessoa. Sabe, lá no início da história dos judeus, jogar “semente” (vulgo sêmen, ou esperma) fora era um pecado horrível, um crime. Homossexualismo, masturbação? Crimes hediondos! Afinal, o esperma era uma possibilidade de uma criança. E lá no deserto tudo que os judeus precisavam era se multiplicar, para que o povo deles tivesse alguma chance de sobrevivência.
Eu poderia ficar horas falando de pecados que são inventados por questões práticas, como as vacas sagradas dos indianos ou os porcos dos judeus. Mas não é o caso aqui.
O ponto é que antigamente jogar semente fora era um crime. Hoje em dia jogar uma mórula (aquele primeiro amontoadinho de células) fora é um crime. E pode deixar de ser. O mundo evolui, a gente passa a entender melhor o nosso próprio desenvolvimento e passa a ver as coisas de outra maneira.
Mas ATENÇÃO: jogar uma mórula fora pode não ser um crime em muitos países, mas não se torna mais ético ou mais legal, principalmente quando as pessoas sabem como evitar isso, ou seja, usando todos os métodos anticoncepcionais que existem por aí.
Quanto ao drama de consciência que você mencionou, no mundo perfeito essas pessoas vão usar anti concepcionais (ou ficar castas, caso elas aguentem e achem que o sacrifício vale a pena) e evitar se meter na situação de precisar abortar. Como eu fiz até hoje (mas lembre que até as pílulas podem falhar de vez em quando).
Mas isso a gente só vai conseguir com educação, campanhas de esclarecimento e sem a assumption absurda (de gente como Bush), de que a castidade é uma boa opção para todo mundo.
Aliás, a história da castidade merece um novo post, que vou escrever um dia desses.
Escrevi demais de novo! Ai ai…
Fevereiro 16th, 2007 at 10:57 am
Oi Baxt,
Isso foi rápido…e conciso também :)))
Além de me dar uma brechinha pra falar sobre leis…sem ser um especialista no assunto.
Vou só começar dizendo que não faço parte de nenhum talibã, católico ou não, nem tenho meu livre arbítrio podado ou limitado por qualquer tipo de crença ou opinião. Sei lá, as pessoas tem uma certa tendência a me “inflexibilizar” de vez em quando :))))
Salvo engano, a lei dá personalidade jurídica aos recém-nascidos e protege os direitos dos nascituros (bebês em gestação). Outro princípio interessante é o da isonomia jurídica, que “trata os iguais de forma igual e os desiguais de forma desigual”…
Pronto, agora eu esgotei totalmente meus conhecimentos de direito sem precisar tomar Dramin :))) As leis são feitas para estabelecer padrões mínimos de convívio em sociedade. Na verdade, era pros princípios e valores morais gerarem as leis (ultimamente, tá na moda pensar o contrário).
Certo, cada um vive a vida como quiser, desde que CUMPRA A LEI.
Quando nós cumprimos a lei, nós estamos adotando um padrão aceitável de comportamento e convívio em sociedade…E ISSO NOS TORNA IGUAIS, não acha?
A Lei Penal pune quem comete homicídio: Seja com bisturi, agulha de crochê ou escopeta. À luz da Lei, um aborto é um homicídio como outro qualquer.
Uma lei que legalize (ou descrimine) o aborto só trará efeitos benéficos à uma pequena parcela da sociedade que tem algum drama de consciência de viver no limite da lei. Talvez para estes poucos privilegiados, uma lei como essa tenha alguma serventia.
Sds,
Leonardo.
Fevereiro 16th, 2007 at 8:45 am
Olá Leonardo,
Vou tentar ser rápida e concisa. NÃO ACHO ABORTO UMA COISA BACANA. É uma coisa horrível, cruel, desagradável. Mas colocar as pessoas envolvidas na cadeia, para mim, é simplista e cruel.
Outro ponto. Se a Igreja Católica promove o relacionamento monogâmico, a virgnindade antes do casamento e o método anticoncepcional que você mede quão viscoso está o corrimento da perereca, sem poder usar pílula ou camisinha, tudo bem. Se tem gente vivendo assim e está feliz, ótimo. Gente feliz é sempre bom, desde que NÃO PREJUDIQUE OS OUTROS.
É aí, Leonardo, que a porca torce o rabo. Se essa pessoa está feliz, monogâmica e etc quer me obrigar, pela força da lei, a ser igual a ela, isso é uma VIOLÊNCIA. Um estupro ideológico, para dizer o mínimo.
Portanto, na minha opinião, cada um viva a sua vida como quiser, de acordo com a religião que achar melhor. E deixem os outros fazerem o mesmo, viverem sua vida como quiserem, de acordo com a religião que escolherem. É aquela velha história de tratar os outros como gostaria de ser tratado. Se eu te obrigar a comer carne na Semana Santa você não vai gostar, certo? Só porque eu como, isso não significa que seja bom para você.
Então, da mesma forma, não crie uma lei para me obrigar a agir da maneira que é certa PARA VOCÊ.
PS: Só lembrando mais uma vez. Sou contra o aborto. E a favor da legalização. Coisas diferentes.
PS2: Se eu soei agressiva, desculpaê. Escrevi esse comentário logo depois de ler o seu, ainda no calor da discussão.
Fevereiro 16th, 2007 at 8:31 am
Oi Baxt,
Eu já passei por este post umas duas vezes…pra dizer a verdade não tava com gás pra comentar, porque esse é um assunto que gera discussões acaloradas que unem o nada ao lugar nenhum.
Então hoje eu reli o texto, os comentários e resolvi dar minha modesta contribuição sobre o assunto. Seu post está bem escrito, conciso, com bons argumentos…pena que pro lado errado :))
Eu acho muito fácil e cômodo colocar a Igreja Católica (ou qualquer religião) no pau…afinal, abordando superficialmente, os muçulmanos matam por amor a Alá e podem ter mais de uma mulher, os judeus não comem carne de porco e a Igreja Católica condena o aborto. Ninguém toma tempo para entender o porquê dessas coisas.
Da Igreja Católica, posso falar que ela defende um tipo de relacionamento: homem-mulher, monogâmico, eterno, etc. que se materializa e se expressa no matrimônio. É careta? Arcaico? Anacrônico? Mas todo mundo preza pelo menos um destes valores.
A partir dessa visão, fica fácil entender que métodos contraceptivos ou aborto ou outras coisas não fazem parte do relacionamento que a Igreja Católica sustenta e defende. E tome pau na “incoerência” da Igreja Católica.
Engraçado que os judeus e muçulmanos têm preceitos muito mais anacrônicos que os da Igreja Católica, mas ninguém detona ou fala mal…bom mas agora sou eu que estou fugindo do assunto.
No Brasil, uma lei que descrimine o aborto só vai viabilizar que a CMA purgue “as cagadas da vida” de olhinhos fechados em ambientes refrigerados. Os pobres vão continuar utilizando a mesa de bilhar da birosca e a agulha de tricô. E freqüentando Hospitais públicos. Afinal, CMA e Hospitais Públicos são água e óleo…
Outra coisa…molinho dizer que filhos indesejados são os marginais do futuro. Dicionário Aurélio para “Marginais”:
“6. Bras. Diz-se de pessoa que vive à margem da sociedade ou da lei como vagabundo, mendigo ou delinqüente; fora-da-lei.”
Os marginais nascem da falta de estrutura e de opção. Fácil é atacar a conseqüência…a causa que se exploda. Fica engraçado ler um post logo acima em que você cobra que a sociedade “coloque o dela da reta”…se nas questões de responsabilidade individual é permitido “tirar da reta”…
Bom, está ficando mais longo do que eu esperava…uma última reflexão: Já que há quem ache o aborto uma coisa legal, porque ninguém espera nascer e mete uma bala de escopeta no guri(a)? O efeito não seria o mesmo?
Sds,
Leonardo.
Fevereiro 14th, 2007 at 1:42 pm
Esse é exatamente o argumento pro-choice dos democratas americanos. Exatamente o que fala a Hillary Clinton (espero que goste dela). Concordo com vocês.
Bjs.
Fevereiro 13th, 2007 at 9:52 am
Esse enfoque religioso é complicadíssimo. Eu concordo 100% com você. Se eu não acredito no Papai Noel não devo viver sob as regras das pessoas que acreditam. O problema é que para os Noelistas não importa se eu acredito ou não, ele *existe* e serei condenado a nunca mais ganhar presentes no Natal se eu sair da linha. Eles acham que estão me fazendo um favor, sacou?
Que dureza…
Fevereiro 13th, 2007 at 9:16 am
Muito bom teu texto sobre o direito ao abortamento Baxt: bastante completo e bem argumentado.
Fevereiro 11th, 2007 at 9:29 pm
Comecei a ler teu texto, louco pra fazer um monte de comentários, pra acrescentar alguma coisa e ao fim do texto, percebi que não tinha mais nada a acrescentar. Simplesmente perfeito.
Quando eu defendo o direito das pessoas decidirem se vão fazer ou não um aborto, muita gente acha que estou defendendo o aborto, que eu quero que façam abortos. E não é isso. Acho, como você, o aborto uma coisa abominável. Eu nunca sugeriria para alguém fazer e sempre vou tentar desencorajar alguém de fazê-lo. Mas isso é uma coisa. Proibir é outra.
Fevereiro 10th, 2007 at 2:52 pm
Olá Rodrigo, obrigada pelo comentário, apesar de eu discordar de você.
Em primeiro lugar, não é liberar para depois combater. É liberar E combater. Combater o aborto, porque ele não é uma coisa boa (independente de ser legal ou não). E legalizar, porque tornar o aborto crime não traz nenhum benefício à sociedade. São duas coisas independentes. Mesmo com o aborto sendo crime, é essencial ensinar as pessoas a evitar uma gravidez indesejada.
Espero que você tenha entendido que não existe nenhuma relação de causalidade entre liberar e combater.
Segundo ponto: o que é uma gravidez difícil?
Fevereiro 9th, 2007 at 5:45 pm
Baxt (!),
sou seu leitor e estou em Portugal. Mas sou contra a legalização do aborto.
E nao não é uma questão de religião. Na verdade, não tem nada a ver com religião. Está na declaração universal de direitos do homem, o direito à vida. E é isso que é defendido. Um feto não é uma “coisa”, é uma vida. E por isso eu sou contra a legalização do aborto, pq considero que legalizar o aborto é legalizar a morte de alguém que não tem a mínima chance de se defender.
Outro ponto que eu considero questionável, é que é preciso legalizar alguma coisa para combate-la. Isso nao faz sentido. Vc diz-se contra o aborto, mas acha que legalizando-o vamos poder combate-lo ?
Mais outro ponto: Já houve outro referendo em Portugal sobre o assunto, e a resposta vencedora foi o não. Quantos referendos serão necessários ?
E por ultimo, acho que os recursos deveriam ser canalizados para as instituições que aopiam as mães com gravidez difícil.
É um assunto polêmico, mas fica aqui meus 2 dedos de prosa sobre o assunto
Bjs,
Fevereiro 9th, 2007 at 1:35 pm
Pois é, a gente não tem essa chance de optar, e graças a vontade política de certas religiões mulheres morrem e/ou comem o pão que o diabo amassou em clínicas clandestinas…
Fevereiro 9th, 2007 at 12:59 pm
Ah e já coloquei o link lá no meu post!
Fevereiro 9th, 2007 at 12:59 pm
Muito bom, Baxt! aliás, eu adoro seu blog! :-) beijocas!