Calibrando Clarice

Imagine a cena: euzinha, cozinhando um belo caldo verde (ficou bom, acredite) e vendo no youtube um especial sobre Clarice Lispector. Cozinhando! Clarice! Hein? Eu? Saia desse corpo que não te pertence!

Pois é, eu nunca gostei de Clarice Lispector. E nunca cozinhei nada que prestasse também. (Hiro disse que foi essa conjunção de fatos estranhos que causou o tornado aqui perto ontem). Ainda acho que “A Paixão Segundo GH” é o pior livro sobre o nada que já foi escrito. Mas a entrevista dela gravada em 1977 tem seus momentos, umas sacadas legais, mostrando uma escritora com uma certa clareza sobre sua produção e nenhuma clareza sobre mais nada no mundo. Me acabei de rir quando ela disse que nem ela entende o livro tal que ela escreveu. Claro, né? Ela escrevia vômitos, espasmos. Como ela mesma disse, os textos ou batem ou não batem. E fim de papo. E comigo eles não batem, só isso. De qualquer maneira, gostei mais dela agora do que antes, apesar da língua presa de dar nervoso. Mesmo sabendo que não vou gostar, fiquei com vontade de ler “A Hora da Estrela” um dia.

De resto, a moça já estava mais para lá do que para cá. Disse na entrevista que estava cansada, e por isso triste. E depois disse que estava cansada de si mesma. Ela estava era comida inteira por um câncer que ela não sabia - sabendo, é facil entender o estado de espírito da dita cuja.

Mas o que a entrevista mais me fez pensar foi na relação entre arte, literatura e remédios. Pela entrevista vê-se que a moça ia se beneficiar maravilhosamente de um tanto de fluoxetina ou bupropiona por dia. Ia equilibrar o que estava claramente descalibrado na cabeça de Dona Clarice. Mas será que ela ia deixar de ser a escritora foda e atormentada que tanta gente gosta?

Dia desses entrei no blog de uma velha promessa de escritora que descobriu que é bipolar. Ela descobriu agora, mas qualquer pessoa de bom senso já tinha sacado ha séculos que a moça é tri, quatripolar. E agora que ela resolveu tomar alguma coisa, será que ela vai perder o jeito? Ou vai finalmente deixar de ser uma promessa para virar escritora de verdade?

E o jovem Werther, e Renato Russo, etc? Eu sei, essa é a velha discussão sobre se você precisa sofrer para fazer arte, levada um passo adiante. É preciso estar descalibrado para fazer arte? Respostas nos comentários, por favor.

8 Responses to “Calibrando Clarice”

  1. Inagaki Says:

    Hmm. Recordo a frase lapidar de Douglas Adams: “Escrever é fácil. Tudo o que você tem a fazer é ficar olhando fixamente para uma folha em branco até a sua testa começar a sangrar”. Quando lembro que Hemingway arrebentou a cabeça com uma espingarda por achar que seu talento havia esgotado, Pessoa renunciou ao amor de uma mulher em nome de sua compulsão literária, Gogol finalizou a segunda parte de “Almas Mortas” para em seguida ateá-la ao fogo e Poe afogou suas angústias até estourar o fígado, penso ainda em autores como Virginia Woolf, Yukio Mishima, Pedro Nava, Anne Sexton, Horacio Quiroga e tantos outros que abreviaram suas passagens por esta vida. E aí, sou tentado a concluir que sábio mesmo foi Rimbaud, que escreveu o que tinha de escrever e depois foi viver sua vida fora dos livros. Porém, é preciso fazer a devida ressalva: como bem comentou José Roberto Torero em uma entrevista que fiz com ele, também há pedreiros que cortam os pulsos, dentistas que tomam veneno, contadores que pulam das janelas.

  2. Fabiola Says:

    Ola! Caih no seu antigo blog de casamento e li que foi seu esposo quem fez a arte do convite. Queria pedir uma sugestao de grafica, pois meu noivo tb vai produzir o convite mas precisamos de uma grafica de confianca. Deixei uma msg parecida no blog do seu esposo, mas como observei que faz tempo que ele nao atualiza, decidi vir aqui tb.

    Agradeco qualquer dica.

    Boa sorte por aih!

  3. Mayra Says:

    Adorei seu comment… :)
    Fiquei curiosa pra saber quem é a “Promessa de escritora” bipolar.
    Me conta? Eu arrisco um palpite hehehe.
    Bom texto, eu também nunca li Clarice e Caio Fernando Abreu (meu muso) escreveu em algum dos seus livros, que ela era a pessoa mais triste que ele conheceu em toda a sua vida. Acho que se eu ler essa mulher vou ter um troço.
    Sobre arte e descalibragem eu tenho certeza que é preciso sofrer, pelo menos
    um pouquinho… na boa, não existe gênio feliz. Não existe. Principalmente os escritores… sei lá, não sou grande conhecedora de literatura mas… esse é o meu palpite. Ah, felicidade não faz filme também. Estranho isso… Beijos!

  4. Dione Says:

    Alguns precisam, outros não. Tempestades nos obrigam a nos recolher, então, trancados em nós mesmos nos vemos melhor, assim que os olhos se habituam. Mas há aqueles cujos olhos estão sempre cegos da imagem residual do sol, nunca se habituando à propria escuridão. Então produzem na luz. Para alguns a dor leva mais à reflexão que o prazer, que convida mais ao próprio desfrute. Para outros, esse desfrute é inspirador.
    ;)

    P.S.: um lapso no link que postei anteriormente. Desconsidere, s.v.p.

  5. Dione Says:

    Alguns precisam, outros não. Tempestades nos obrigam a nos recolher, então, trancados em nós mesmos nos vemos melhor, assim que os olhos se habituam. Mas há aqueles cujos olhos estão sempre cegos da imagem residual do sol, nunca se habituando à propria escuridão. Então produzem na luz. Para alguns a dor leva mais à reflexão que o prazer, que convida mais ao próprio desfrute. Para outros, esse desfrute é inspirador.
    ;)

  6. Catarina Says:

    Eu, quando sofro, não escrevo nada que preste.

  7. Fabio Yabu Says:

    Eu não preciso para desenhar, mas só consigo escrever algo que preste quando estou de bode ou apaixonado! Aliás, obrigado pela ilustre visita, mande um abraço pro Hiro também! :D

  8. Tyler_suicide Says:

    Oi!
    Adorei seu blog…realemnte muito bom!
    Vc mora em londres?

    Beijos!

    XxX