A voz do povo
Acho que a coisa mais divertida da Copa, definitivamente, é ouvir pela rua as discussões inflamadas sobre Ronaldo. A moça que vende sorvete comentava com a colega, injuriada, que “as pessoas são mal agradecidas! Depois de tantas atuações boas, tratar ele assim!”. Já a caixa do Mundo Verde acha que ele fez um bom passe no jogo contra a Austrália. “Se você estivesse marcada por três jogadores, você ia conseguir jogar a bola para o Adriano fazer gol?”, me perguntou. Respondi que não. Do outro lado das manifestações, a menina hoje no restaurante natural ao meu lado achava que se o Ronaldo passa o dia inteiro jogando futebol, o mínimo que ele pode fazer é jogar muito bem.
Me divirto horrores vendo essas defesas apaixonadíssimas. Nessas horas dou mais uma mordida no meu salgado integral (ou como mais um pedaço do sorvete de cocada com queijo coalho do Mil Frutas), olho para o nada e continuo acompanhando o papo, interessadíssima.
Toda essa empolgação da opinião pública me leva a outro assunto, que é a sem cerimônia dos jornais, tvs e etc de levantar a bola de uma pessoa e depois jogá-la no chão, sem dó nem piedade. Todo todo ator de Hollywood comenta que um dia você é o rei da cocada preta, o deus, a esperança do futebol/rock/cinema mundial, e no dia seguinte você não ser mais nada. É o que andaram fazendo com o Ronaldo (antes dos dois gols de ontem, é claro) e estão fazendo com Britney Spears, por exemplo. E o contrário do que fizeram com o Ronaldinho Gaúcho (antes do começo da Copa, quando ele era o melhor jogador do mundo).
Britney chora, diz que é gente também, apela para a pena dos outros. Ronaldo se emputece chama o presidente de pinguço. Mas o meu ponto é o seguinte: desculpe aí Britney, Ronaldo, mas vocês não são gente, não! Vocês não têm planejamento estratégico de gente, não ganham como gente, não vendem a imagem como gente. Vocês são empresas! Melhor dizendo, impérios, dando emprego para centenas de pessoas e movimentando milhões de dólares.
E me desculpe, mas não dá para construir um império em torno da imagem e depois querer ser tratada como gente. Britney, querida, entenda que quem está gorda, com a pele toda marcada e com as raízes do cabelo sem retocar é uma empresa, é o Império-Britney. E impérios não têm sentimentos, baby.
Concordo que aguentar o tranco não deve ser fácil, mas tudo no mundo tem seu preço. Se você quer viver sua vida em paz, troque de lugar comigo. Seja tratada como gente, ganhe o que eu ganho, faça contas no final do mês e desfrute de toda a minha privacidade. Você vai ter que pegar filas, não vai ganhar presentes milionários nem vai fazer cirurgia plástica de graça. Mas pelo menos de uma coisa eu sei que vocês vão morrer de inveja: eu engordei depois que casei, e não saiu em jornal nenhum!
Junho 26th, 2006 at 9:09 am
Pessoas são promovidas (ou rebaixadas) a empresa com uma velocidade cada vez maior, e obviamente não investem o rico dinheirinho que ganham em manter a mente(sic) em linha com essas mudanças. Aí dá nisso… Só quem realmente tem uma personalidade relativamente forte consegue sobreviver a esses solavancos. Dois exemplos do passado de quem sobreviveu e de quem não sobreviveu: Pelé e Garrincha.
Junho 23rd, 2006 at 6:32 pm
Os jogadores, atores, atrizes, cantoras… todos se transformaram em empresas, porque a musica, o futebol, o cinema, o teatro, a literatura, o jornalismo… tudo virou negócio.
As bolas da copa são numeradas, e contem informações como Data do jogo, Nome das Seleções, Estadio da partida… tudo para depois da copa serem leiloadas! Até a bola do jogo virou produto de mercado.
É a maior irracionallidade ficar perdendo tempo com esse negocio, no qual nao ganhamos absolutamente NADA. O presidente deveria ter mandado o Ronaldo embora pra casa comer dinheiro, quando foi chamado de bebado.
Junho 23rd, 2006 at 3:49 pm
Eles se confundem a “empresa” que representam com sua própria pessoa. Outro dia vi num documentário de futebol que os ex-craques ainda acham um absurdo não ter ninguém para lhes jogarem a toalha nas peladas de fim-de-semana.
Ainda estou ora conhecer uma mulher que ache o SORRISO DO RONALDINHO BONITO se ele não fosse o “melhor-e-cheio-de-dinehiro” jogador do mundo.
Será que não tem uma firma especializada em manter a ilusão de estrelato depois que a fama desses caras acabam? Dinheiro fácil.