Uma daquelas coisas que as pessoas vão achar que é mentira

Hoje pela manhã eu estava na van, quando ouvi o seguinte boletim de trânsito da Rádio 98:

- O trânsito está lento na estrada tal, direção Benfica. Houve um acidente há cerca de 15 minutos e os carros estão sendo retirados da pista.
- Na estrada tal-tal, o trânsito flui normalmente, com retenções na altura da Praça da Bandeira.
- Os motoristas devem evitar passar nas proximidades do Morro do Alemão, pois houve agora há pouco uma troca de tiros entre policiais e traficantes, e o clima ainda está tenso no local.

Um boletim de trânsito como outro qualquer, com informações relevantes para o motorista carioca.

Para acabar com a malandragem, tem que mandar prender todos os otários

Engarrafamento na volta da Região dos Lagos, domingo à noite. Enquanto quase todo mundo segue em passo de tartaruga, vários babacas seguem pelo acostamento, por duas razões: 1. acham que têm mais direito a chegar rápido em casa do que todos os outros, 2. não sabem (ou se sabem estão cagando) que o trânsito vai embolar tanto quando eles chegarem lá na frente, que às vezes nem vale à pena a esperteza.

Em qualquer lugar, por mais que hajam pessoas corretas fazendo o que é certo (e é a maioria, quase sempre), eu acredito que sempre haverá um babaca tentando levar vantagem em tudo. Pegar o maior pedaço de comida, ficar com o melhor lugar para dormir ou trepar com a melhor fêmea do grupo é coisa que qualquer bicho faz (é claro que tem os bichos que pensam primeiro no grupo, mas vamos deixar a disgressão para lá). E infelizmente grande parte das pessoas que a gente encontra por aí não passam disso: bichos.

Mas o que me tira do sério mesmo, me deixa alucinada e prestes a matar alguém na rua são os manés que deixam os espertos se darem bem. Passa um Zé Ruela ao meu lado pelo acostamento, e quando acaba a pista ele precisa de passagem para entrar, certo? Quando eu, ou meus pais, ou o marido estamos no volante, a gente simplesmente não dá passagem. Colamos no carro da frente e o Zé Ruela que fique o resto da vida tentando entrar. Acontece que sempre tem um cara mais Zé Ruela ainda, antes ou depois do nosso carro, que deixa o malandrão entrar. E é isso que perpetua os malandrões!! Será que é tão difícil assim de entender?

Quantas vezes já reclamei de gente furando alguma fila e tive que escutar um imbecil da turma do “deixadisso”, querendo deixar para lá porque “afinal de contas é só uma pessoinha” na frente? Sim, é só uma pessoa! Se fosse um deficiente físico, uma grávida ou uma velhinha, tudo bem. Mas experimenta tentar explicar “não é por ser uma pessoa. É a atitude que está errada”. Eu garanto que se você falar essa frase em português ou grego vai receber os mesmos olhares de interrogação. Às vezes eu chego a pensar que essas pessoas MERECEM ser passadas para trás. O que não é verdade, é lógico, mas deve ser isso que o malandro pensa.

E é nessas horas que a frase genial do genial Jorge Benjor (no título) fica martelando na minha cabeça. Morte aos otários que só atrapalham tudo. Morte aos que sabotam a auto-regulamentação da sociedade. Se todo mundo fechasse o cara que vai pelo acostamento, ele ia deixar de fazer isso (não que isso fosse ensiná-lo a ter consideração pelos outros, mas essa atitude iria pelo menos tornar sua esperteza menos vantajosa). Se a gente fizesse um escândalo quando alguém fuma no shopping, joga lixo no chão e coisas assim, as pessoas iam pensar duas vezes antes de achar que as regras não se aplicam a elas.

Mas não. Na República das Bananas, ser boa-praça é o valor supremo. E vamos que vamos, rumo ao Hexa.

A voz do povo

Acho que a coisa mais divertida da Copa, definitivamente, é ouvir pela rua as discussões inflamadas sobre Ronaldo. A moça que vende sorvete comentava com a colega, injuriada, que “as pessoas são mal agradecidas! Depois de tantas atuações boas, tratar ele assim!”. Já a caixa do Mundo Verde acha que ele fez um bom passe no jogo contra a Austrália. “Se você estivesse marcada por três jogadores, você ia conseguir jogar a bola para o Adriano fazer gol?”, me perguntou. Respondi que não. Do outro lado das manifestações, a menina hoje no restaurante natural ao meu lado achava que se o Ronaldo passa o dia inteiro jogando futebol, o mínimo que ele pode fazer é jogar muito bem.

Me divirto horrores vendo essas defesas apaixonadíssimas. Nessas horas dou mais uma mordida no meu salgado integral (ou como mais um pedaço do sorvete de cocada com queijo coalho do Mil Frutas), olho para o nada e continuo acompanhando o papo, interessadíssima.

Toda essa empolgação da opinião pública me leva a outro assunto, que é a sem cerimônia dos jornais, tvs e etc de levantar a bola de uma pessoa e depois jogá-la no chão, sem dó nem piedade. Todo todo ator de Hollywood comenta que um dia você é o rei da cocada preta, o deus, a esperança do futebol/rock/cinema mundial, e no dia seguinte você não ser mais nada. É o que andaram fazendo com o Ronaldo (antes dos dois gols de ontem, é claro) e estão fazendo com Britney Spears, por exemplo. E o contrário do que fizeram com o Ronaldinho Gaúcho (antes do começo da Copa, quando ele era o melhor jogador do mundo).

Britney chora, diz que é gente também, apela para a pena dos outros. Ronaldo se emputece chama o presidente de pinguço. Mas o meu ponto é o seguinte: desculpe aí Britney, Ronaldo, mas vocês não são gente, não! Vocês não têm planejamento estratégico de gente, não ganham como gente, não vendem a imagem como gente. Vocês são empresas! Melhor dizendo, impérios, dando emprego para centenas de pessoas e movimentando milhões de dólares.

E me desculpe, mas não dá para construir um império em torno da imagem e depois querer ser tratada como gente. Britney, querida, entenda que quem está gorda, com a pele toda marcada e com as raízes do cabelo sem retocar é uma empresa, é o Império-Britney. E impérios não têm sentimentos, baby.

Concordo que aguentar o tranco não deve ser fácil, mas tudo no mundo tem seu preço. Se você quer viver sua vida em paz, troque de lugar comigo. Seja tratada como gente, ganhe o que eu ganho, faça contas no final do mês e desfrute de toda a minha privacidade. Você vai ter que pegar filas, não vai ganhar presentes milionários nem vai fazer cirurgia plástica de graça. Mas pelo menos de uma coisa eu sei que vocês vão morrer de inveja: eu engordei depois que casei, e não saiu em jornal nenhum!

Comprando amigos

Estava aqui, escrevendo um post sobre outros assuntos, quando a tal copeira do escritório (mencionada em posts anteriores), que nunca fala bom dia para mim, veio com um papel na minha mesa dando bom dia. “Hmmm, o que está acontecendo?”, pensei. “Você quer ajudar no chá de bebê da Jô?”, me perguntou sorrindo, coisa que nunca fez até hoje. Respirei fundo, fiquei muito sem graça (e vermelha) e murmurei “Não…”.

O cara aqui do meu lado perguntou “Quem é Jô?” “A copeira lá do outro andar. Ela às vezes traz sanduíche aqui…” Imaginei ele respondendo “Ah, então tá! Se de vez em quando ela traz sanduíche aqui, então ela é minha amiga e eu tenho que ajudar!” E tirando 50 reais do bolso.

É claro que isso não aconteceu. Mas eu não consigo deixar de achar engraçados esses maneirismos sociais malucos. Me lembra aquele episódio de Friends em que o Ross acaba de se mudar para um novo prédio e é “obrigado” a dar 100 dólares para a festa de despedida/aposentadoria um “janitor” que ele nem conhecia. E a Phoebe, só para ser do contra, doa uns mil dólares só para ficar conhecida como “aquela estranha moça simpática”.

Comprar o afeto dos outros pode ser válido em muitas circunstâncias, mas às vezes não muda em nada a sua reputação. É por isso que até hoje fico feliz de lembrar que não contribuí para o presente de casamento de uma figura que trabalhava comigo em outra empresa. Todos se juntaram para comprar uma TV para o cara, que não fazia a menor questão de disfarçar que não ia com a minha cara (e com cuja cara eu também não ia, obviamente). Ainda por cima, era daquelas pessoas que num barzinho ou almoço, sempre arredondava a conta para baixo (excluindo os 10%, é claro), pagava e sumia. Depois, na hora dos cálculos finais sempre ficava um buraco que alguém tinha que cobrir (normalmente quem colocava dinheiro a mais era aquele amigo que gosta de ser conhecido como simpático e gente boa).

Eu, que sou muito enxaqueca, quando percebia, avisava “Ei Fulano! Você não botou os 10%, né? Coloca mais uns x reais aí!”. Depois de mandar um pão duro pagar a conta direito, me digam, fazia sentido dar presente de casamento para o indivíduo? Além disso, eu não conseguia imaginar o cara dando um presente de casamento para mim.

PS: Outro dia fui numa pizzaria, comemorar um aniversário, e um cara que estava na mesa fez exatamente a mesma coisa que o amigo citado no parágrafo anterior. Tomou 17 chopes, calculou centavo a centavo o valor num guardanapo, fez o cheque uns tantos reais abaixo do valor calculado e se pirulitou (é “pirulitou” ou “empirulitou”?). O guardanapo ficou do meu lado a noite inteira e eu (que não sou tão joselita assim) não pude comentar com ninguém!

Update: acabei de descobrir que a mini-namorada do Joey (aquela que gosta de bater nele) que aparece no episódio de Friends que eu acabei de mencionar é a Soleil Moon Frye, ou seja, a Punky Brewster! Diga aí, essa é ou não é uma informação indispensável para a sua vida?

De “Por que eu adoro minha faxineira”

B – Lúcia, hoje tem jogo, né? (perguntei para saber que horas ela queria sair lá de casa)
L – É…
B – Você vai querer ver?
L – Eu não… Não entendo nada.
B – Então tá (ou seja, deixei para ela sair a hora que quisesse)
L – Além disso, se eles ganharem a Copa, eu não vou ganhar nada né? Quem ganha são eles.
B – …
L – Mas eu vou passar na loja e comprar um monte de miçanga verde e amarela para vender bijuterias da Copa!

O medo do goleiro diante do pênalti*

Hoje estou preocupada com tudo. Preocupada que as coisas não dêem certo, nervosa achando que não vou dar conta do que preciso fazer. Bobagem, eu sei. No final as coisas dão certo. Ou quando não dão – não dão e pronto (“O que não tem remédio, remediado está”, dizem os velhos, com toda razão).

Pois é, eu sei. Mas até lá (principalmente em dias de TPM), haja coração.

*esse título era um clássico dos jogos de “mímica de filme” da infância. E tem tudo a ver comigo hoje.

Voa, torcida canarinho!

Essa minha nova vida de escritório, acordar cedo, andar de van e tal inclui experiências novas para mim, como fazer as unhas no horário de almoço do escritório (quem me conhece entende a bizarrice da cena). Na TV do salão, observo torcedores pulando e comemorando alguma coisa, naquela festejação arbitrária de torcidas, cornetando barulhos irritantes e sendo entrevistadas por um repórter injustificadamente feliz, e pergunto:

- Tem algum jogo hoje? A Copa não começa no sábado?
A manicure: – Não sei, só vai ter jogo do Brasil na semana que vem, não é?

Feliz por alguém compartilhar do meu alheamento copístico, comentei sobre a polêmica no escritório a respeito dos horários de liberação pré jogo, quando ela dispara: “Eu hein, não estou nem aí. Ninguém naquele time me conhece! Não tenho nada a ver com a seleção nem os jogadores”. E continuou “Eu só sou brasileira porque nasci aqui, ué”.

Ufa! É bom ouvir isso de vez em quando, nesse mar de euforia exagerada e de pessoas vestidas de verde e amarelo. Nada contra comemorar as coisas, fazer festa e tudo mais, mas é sempre bom lembrar que os caras tão lá, trabalhando, ganhando milhões, e nem sequer moram no Brasil. Afinal, jogar na Seleção é um emprego (quase) como outro qualquer.

The twilight zone van

Parecia que eu nunca ia chegar aqui, no escritório da grande empresa de mineração.

Tudo engarrafado, motorista fazendo zigue zague, rádio na 98 FM. Por umas três vezes, tive certeza que íamos bater em alguém e ficar parados na rua, no sol, esperando um ônibus ou outra van. Aí a coisa começava a andar, e parava de novo. E tocava aquela música “deus quando te criou estava namorando…”, e depois a Moniquinha (a locutora) começava a falar com os ouvintes da 98 FM, e a tal ouvinte começava a descrever uma transa com o namorado depois de tomar 14 taças de alguma coisa que eu não entendi. Nove da manhã, e eu escutando isso. Do meu lado, um cara sem orelha cheio de sacolas.

Minha vida passou na minha frente: presa para sempre naquela van, ao som de Babado Novo, vendo pela janela os cachorros velhinhos com donas idem passeando pelo calçadão de Copacabana.

Um ano de casamento

Pois é, hoje faz um ano inteiro que eu entrei pela porta do apartamento com a mesa do computador, monitor, CPU, algumas poucas roupas e um medo danado. Abrimos uma champanhe, brindamos em algum copo que, tenho certeza, não era um flute nem uma taça adequada, e chorei com medo de dar tudo errado, de ter que ir embora levando meu computador (e a mesa, cadeira, livros, etc) de volta para o outro lado da Avenida das Américas.

Aos poucos as coisas foram se acertando e a casa virou minha casa também, e o marido virou marido. Eu virei “minha mulher” ou “minha esposa” (denominação menos usada, porque “esposa” é uma palavra muito cafona – mas tem situações em que “minha mulé” soa informal demais).

E cada dia mais eu acho que não gosto de namorar. Gosto muito mais das coisas como são agora do que daquela coisa de ligar de noite para saber como foi o dia, de ter que marcar de se encontrar, de cada um voltar para a sua casa depois de se ver. Dizem os mais velhos que morar separado é melhor – talvez um dia eu ache também, mas por enquanto, para mim, morar junto está ótimo.