Tá ruim para todo mundo… (e o pior é que é verdade)
Sabe quando você consegue o que queria, e aí descobre que não é bem assim? Isso já aconteceu com você?
Pois é, consegui profissionalmente o que eu queria para 2005/2006, e mesmo assim ando meio desanimada com esse jornalismo-sacerdócio que vejo por aí.
Não é culpa de ninguém - acho. Meus editores são ótimos, e todo mês precisam fazer milagre com micro-orçamentos. E fazem, acredite. Revistas vendem pouco, e muitas vezes o público não sabe muito bem o que é bom e o que não é. O resultado? Contratam-se os novatos, os baratos, os fraquinhos que não reclamam, e bota-se a revista na rua sem revisão, de qualquer jeito. Naquele padrão de qualidade jornal-de-bairro-da-Barra (não o do Globo, mas os independentes).
Quem não prioriza qualidade gosta de contratar o “coitadinho”, ou seja, aquele que precisa do dinheiro do emprego, mesmo que esse dinheiro seja um terço do que deveria ser e a carga horária seja o dobro do que seria aceito como “salubre”. Esse tipo de chefe contrata a menina que teve um filho do ex-namorado vagabundo quando tinha 18 anos, ou o cara que tem que sustentar a mãe doente. Essas pessoas não podem reclamar, não podem se dar ao luxo de mandar o chefe à merda, não exigem condições decentes de trabalho.
Trabalhando com os mesmos chefes estão também os que não precisam, mas agem como coitadinhos porque… Bem, eu não sei por quê, mas agem. Morrem de medo de ser mandados embora mesmo morando com os pais. Porque precisam pagar a calça jeans parcelada em 10 vezes ou a prestação do carro que compraram sei lá por quê - já que vão para o trabalho de ônibus.
Esse tipo de gente atrapalha o mercado. Não atrapalharia se os consumidores exigissem qualidade. Mas se nas TVs por assinatura a legenda é cheia de erros de português e a chamada vai ao ar em espanhol e ninguém reclama, por que seria diferente com as revistas?
Não é o caso das revistas que eu escrevo. Lá, os editores continuam dando murro em ponta de faca, tentando fazer um bom trabalho. Só que não sei quando tempo mais esse esquema aguenta. Tenho a impressão de que quem é bom está desistindo. Está indo trabalhar em comunicação interna dentro das empresas, está fazendo assessoria de imprensa, está montando intranet mesmo sem gostar de nada disso. Porque é o único jeito de ganhar direito e de ser tratado como um profissional (e não como um caboclo que vai escrever uma matéria de 20 páginas por 500 reais, por puro amor à arte).
Passei muitas semanas cobrando de uma editora pé-de-chulé o pagamento por duas matérias. Foi difícil, gastei uma fortuna em interurbanos. A pessoa que contratou os serviços da tal editora pé-de-chulé estava desesperada “Todos os bons colaboradores não querem mais escrever para a minha revista!”. E aí, chama-se um coitadinho, chama-se o recém-formado, chama-se qualquer um. O texto fica qualquer nota, as fotos idem, a diagramação e a revisão então, nem se fala.
Porque jornalismo virou sacerdócio, algo que se faz por amor. Ou por paixão, mas daquela paixão burra, paixão mulher-de-malandro, em que você ama e não recebe nada em troca. Bom, eu não tenho vocação para personagem de música de Chico Buarque, tipo “Com Açúcar, Com Afeto”, sabe?
Vou continuar tentando, porque sou teimosa. Porque acho que deve ter uma possibilidade. Porque acho que um dia vou escrever um livro sobre um bruxinho de óculos e tudo vai dar certo. Por que não sou mulher de desistir por tão pouco. Mas o dia que o tão-pouco me parecer tão-muito, aí não sei como vai ser.
Março 5th, 2006 at 8:12 pm
Jornalismo, infelizmente, virou fábrica de biscoito, com raras exceções. Sinto-me exatamente como você. Só que, depois de tantos calotes, joguei o boné. Sou concursando e já perdi a vergonha de querer o meu líquido e certo no fim do mês. Atendido esse requisito, aí sim me dedicarei ao “jornalismo-por-amor-à-arte”, aos temas de meu interesse, para publicação, quem sabe, em outro nível…
PS: assessoria de imprensa, meus caros, não é alternativa garantida. Quanto a isso, podem tirar o cavalinho da chuva. Primeiro, porque você pode contar nos dedos da mão do Lula os clientes que realmente entenderam seu trabalho, por mais que você os explique. Eles continuarão desconfiando que qualquer um é capaz de fazer aquilo. Segundo, porque quando o faturamento do cliente encurta, o pagamento do assessor é o primeiro a rodar, quase sempre sem aviso prévio. Isso se ele estiver realmente pagando com até um mês de atraso, o que quase configura um milagre.
Fevereiro 28th, 2006 at 10:24 pm
eu sempre me identifico com o que vc escreve…
neste caso, que pena!
bjos
Fevereiro 25th, 2006 at 12:12 am
Pessoas que atrapalham o mercado, exatamente com as descrições que você deu, aliás, existem em QUALQUER área. Quer apostar?
Fevereiro 21st, 2006 at 5:04 pm
Baxt, é imperssionante a quantidade de coleguinhas de faculdade que estão cansando de usar a batina de jornalista. Até os “bem colocados”, aqueles que trabalham no Globo ou têm empregos que a gente semper quis enquanto era estudante, estão cansados do rama. Tem gente fazendo outra faculdade, tem gente fazendo pós/mestrado/doutorado.
Assessoria de imprensa, o que eu sempre repudiei enquanto era aluna de comunicação, agora me paerce uma alternativa bastante agradável…
Fevereiro 21st, 2006 at 4:49 pm
Pois é. Cheguei ao mesmo ponto em que você. Aliás, até ler seu texto tinha a impressão de que só eu (e minha mulher) notávamos todos os graves defeitos das revistas. Você tem razão: o público não está nem aí. E os editores também. Só para ilustrar, outro dia eu fiz uma entrevista com o Ruy Castro. Nas palavras do próprio entrevistado, eu fui o único jornalista, até aquele momento, a entrevistá-lo depois de ter lido o livro (Carmen). Os outros leram apenas os releases - e olhe lá. Fiz a entrevista e saí oferecendo por aí, aos poucos jornais e revistas que não tinham publicado releases. Não deu em nada. E ainda escutei de um editor que o assunto era velho - isso dez dias depois de o livro ter sido lançado. E isso é só uma história triste… Enfim, para mim este negócio de sacerdócio acabou. Isso não existe em nenhum país civilizado do mundo. Ok, o Brasil não é civilizado? Então ele não merece o meu empenho nem a minha paixão.
Bjs,
Paulo.
Fevereiro 21st, 2006 at 2:47 pm
É por essas e outras que eu vou ficando por aqui mesmo… Pelo menos aqui faço o que gosto e meu trabalho é valorizado, ainda que eu não vá ficar milionária. :)
Fevereiro 21st, 2006 at 8:09 am
Não é de hoje que jornalismo é qualquer coisa menos algo feito com dignidade. Apenas no primeiro ano da faculdade mantive a ilusão de que a minha futura profissão seria realmente bacana. Depois caiu a ficha e de tal jeito que me contento em escrever em um blog - Rs… E sim, já fiz assessoria, Internet, revista, jornal diário, jornal semanal, tevê, rádio… Agora sou blogueira e nas horas vagas, redatora de agência de publicidade…
Boa sorte pra você!