Raízes
Ontem foi a pré-estréia de “Gaijin - ama-me como sou“. Não vou fazer uma resenha do filme aqui, mas não posso deixar de fazer meus super pitacos. Li em algum lugar uma crítica que dizia que o filme era “irregular”. É uma boa palavra. O início é muito bom, o meio piora e no final ele meio que se acha, e diz a que veio.
Minha ex-vizinha Lissa faz o papel de Yoko, da quarta geração da família. Para mim ela continua sendo a menina encapetada que tinha aula particular de matemática com a minha mãe e de inglês comigo. E está bem no papel de “quase ela mesma”.
Sobre o casal principal, fiquei um pouco com a impressão de ir a uma daquelas peças de teatro que encaixa um ator global no meio do elenco para atrair público. Parecia que os atores gringos estavam lá para garantir a audiência itnernacional.
De qualquer maneira, os produtores gastaram 10 milhões e cinco anos no filme - e por isso, se eles precisam dos gringos para fazer o dinheiro retornar e não terem todos da equipe que vender os rins (já pensou quantos rins seriam necessários para somar 10 milhões?), estão perdoados. Duas cenas bonitas: o nascimento de Maria e casal de “japs” dançando ao som de Pixinguinha.
O filme é a saga de uma família, centrada na matriarca, a batyan (creio que “batyan” significa “vó”, mas vou checar com Namorado). Fico imaginando que não existiriam tantas histórias de matriarcas fantásticas, que mantêm a família unida ao longo de gerações (alguém aí lembrou da Úrsula, de “Cem Anos de Solidão”?), se elas não existissem às grosas no mundo real. E aí eu me pergunto: e os patriarcas, esses bundões? O que fizeram nos últimos séculos? Engravidaram escravas?
É uma pena existirem tão poucos filmes sobre a história dos nossos bisavós que vieram para o Brasil no início do século XX. Tenho certeza que isso diz respeito a praticamente todos os brasileiros. Eu, por exemplo, tive um bisavô italiano, pedreiro, especialista em chaminés. Entre outras, construiu a chaminé da fábrica de tecidos de Vila Isabel que Noel Rosa menciona em “Três Apitos”.
Já meu bisavô alemão veio para Viçosa, em Minas, construir a estrada de ferro que passava na frente da casa do meu irmão quando ele fez faculdade lá. Mas nós só descobrimos isso quando ele já estava morando na cidade, cansado de olhar para o raio do trilho do trem pela janela.
Os avôs de Namorado vieram para o Brasil e, igualzinho aos personagens do filme, viraram agricultores em Londrina.
Eu vejo muito poucas obras tentando explicar o que passava pela cabeça desse povo de 20 anos que encarava um navio cheio de ratos para tentar a vida em outro lugar do mundo, e o que eles pensavam quando chegavam aqui. Se largavam no meio do mato, criavam cidades do nada, onde cada um falava uma língua e todo mundo tinha que se entender. Como se isso não fosse perrengue bastante, ainda se pelavam de medo da guerra - observe que a minha família é italiana e alemã (tem franceses, portugueses e espanhóis também, mas que vieram para cá antes do século XX, creio), e a de Namorado é japonesa. A perseguição a esse pessoal não era mole, não.
O tema é ducacete, acho que vou começar a pesquisar. Ou vocês pensam que é só Spielberg que fica recolhendo relatos de velhinhos judeus?
Ah, sim, por falar em velhinho: a Batyan do filme, Aya Ono, tem 102 anos e mora em Londrina. Quando a produção chegou à cidade, ela se candidatou para ser figurante - mas gostaram tanto da figurinha que chamaram ela para protagonizar a história. Ela estava na pré-estréia: pequenininha, fofa, firme, andando sozinha e falando português muito mal. Pena que nenhum repórter soubesse japonês, para poder entrevistar ela direito…
setembro 1st, 2005 at 10:36 pm
teste
setembro 2nd, 2005 at 3:43 pm
Os verdadeiros heróis do Brasil são os imigrantes, principalmente os vindos de países longínquos como o Japão. Aí quando eu vejo brasileiros que moram em Portugal se queixando de dificuldades de adaptação dá vontade de bater!