Depois de tanto tempo trabalhando em casa, finalmente estou sentindo falta de gente. Não que eu queira voltar a trabalhar naquelas salas de andar inteiro, cheias de gente falando, interrompendo, fazendo barulho. Mas queria ter hora do café, almoçar com pessoas diferentes, sair do trabalho direto para um chope. Sem precisar marcar, combinar, escolher hora e lugar, ir até lá.
Eu passei a vida estudando em um colégio gigantesco (Sto Agostinho), onde dava para conhecer muita gente e mesmo assim depois de anos não ter a menor ideia de quem eram Fulano e Beltrano que se formaram comigo. Depois fui para a Puc, com aquele Pilotis e aulas de créditos – cada matéria uma turma diferente. Não era bom para fazer amigos, mas para fazer conhecidos era ótimo. Formada, fui parar na Globosat. Um prédio inteiro, mais de mil pessoas trabalhando lá, dava para encontrar gente e botar o papo em dia no restaurante ou na máquina de café. Eu conhecia pessoas que não me conheciam e tinha gente que acompanhava minha vida sem que eu soubesse quem era.
Tá dando para entender? Até quando cheguei na blah! estranhei, porque era uma empresa de menos de 100 pessoas, um banheiro, um andar, um ambiente só. Mas me adaptei. E depois me adaptei a ficar em casa sozinha. Não é horrível, angustiante, desesperador como eu achava que seria, quando estava na faculdade. Na boa, às vezes é muito bom.
Uma observação: amigos eu tenho, alguns, amigos de verdade, aqueles para guardar do lado esquerdo do peito. Não rejeito se alguém quiser entrar no grupo, mas não preciso de mais. O que está fazendo falta agora é gente para encontrar. Que nem esse pessoal que tem grupo de poesia, que está sempre no Cine Cachaça ou que vive na Maldita. É só chegar – não precisa marcar, vai ter gente lá.
Na Globosat, trabalhei com um cara que era onipresente nas nights do Rio. Acho eu que até mais do que o famoso Sady. Ele chegava em qualquer lugar e encontrava um monte de gente, arrumava carona de volta para casa, emendava numa festa no apartamento de alguém e era isso aí. Tudo bem, eu não sou assim, sou bicho do mato mesmo, gosto de ficar na minha, quieta. Vivendo nos lugares ultra populosos que eu sempre vivi, isso não dava problema. Mas agora eu ando falando com muito pouca gente. Danou-se, será que eu vou ter que virar uma pessoa social?
Tenho um problema muito sério, que deve ser herança de quando eu era uma criança freak (ou seja, até a oitava série): eu sempre acho que estou incomodando, que estou sendo entrona, metida (olha o vocabulário: “metida”. Só criança fala assim, ou seja, está provado que é trauma de criança). Antigamente eu achava de tinha que socializar, e era uma angústia horrível, eu chegava em algum lugar e ficava achando que era anti-social, uma monga, que eu já tinha que ter falado alguma coisa, me martirizando. Depois descobri que se não estivesse à vontade, podia ser anti-social mesmo, ficar quietona só olhando. A vida ficou muito mais fácil.
Mas será que a moleza acabou? Será que agora tenho que tentar ser social de novo? Quero não. Não tem como falar com as pessoas e ser quietona ao mesmo tempo?