Diálogo Esquizofrênico

Tudo bem, talvez eu tenha alguma culpa pela situação da senhora surda-muda que nasceu num país que não dá condições de vida nem mesmo a quem nasceu sem nenhuma deficiência. Mas me senti estuprada quando ela jogou isso na minha cara e em cima da minha pizza de tomate seco e rúcula ontem à noite, numa mesinha de restaurante ao ar livre. Esse freak show urbano - em que pessoas impõem uma elefantíase, pereba ou criança com fome para cobrar de você uma parcela da infelicidade delas - é de uma agressividade que me enoja em dias sensíveis.

São pessoas que têm toda a razão e a perdem ao avançar em você com um tumor na cabeça em um metrô de São Paulo, encurralando você no canto do vagão. Não costumo ceder ao susto: já me adestrei pavlovianamente para nesses casos manter a cara impassível e abanar a cabeça. Se for necessário, olhar para o infinito.

Não admito ser cobrada assim pelas minhas oportunidades, meu dinheiro, minha família e minha saúde. Apesar de ser injusto eu ter tudo isso e milhares de pessoas não. O grande filósofo (e judoca fofo) Flávio Canto diz para seus alunos de judô da Rocinha: “A vida é difícil para todo mundo. Para vocês é um pouco mais”. E é isso. A vida não é 100% fácil para ninguém. Nem mesmo para a Paris Hilton, apesar de que para ela deve ser simples - mais por ela ser muito burra do que muito rica.

Acho que é isso que me agride: imaginar que aquela pessoa que se acha no direito de me constranger (ou tentar) em frente aos meus amigos, fazendo a sobremesa descer quadrada de culpa, acha que a minha vida é perfeita só porque tive mais sorte que ela. Concordo que é difícil não ficar com raiva vivendo uma vida de merda e vendo os outros no conforto. Mas não é por isso que vou passar a mão na cabeça de todo mundo que vive uma vida de merda. Ajudar sim - ser paternalista, de jeito nenhum.

Vejo gente por aí que passou altos perrengues e está agradecendo a deus, aos amigos, a todo mundo, e continua lutando. Gente que tinha menos que eu e hoje em dia tem muito mais. Isso não é conformismo. Mas também não é ódio. Parece que eu estou afogada em antidepressivos, ou tomei um pré-anestésico desses que deixam as pessoas falando merda antes de uma operação - nada disso. Mesmo careta, tenho o culhão de ser cafona e dizer que “só o amor constrói”. Afinal, você acha que ficar com raiva vai resolver os problemas de alguém? Não, ficar com raiva não ajuda em nada quando a casa desaba na enchente, nem quando você passa a infância inteira sendo a única criança da escola que nunca foi à Disney. Na verdade, só te dá mais uma coisa para se preocupar.

PS: Relendo o último parágrafo, até parece que sou uma pessoa muito legal. Porra nenhuma. Eu sinto raiva sim, tenho vontade de matar algumas pessoas que conheço, torço para que certos burgueses passem uma semana em um cativeiro na Vila do João e acho - politicamente corretos e pessoas que começam o escândalo antes de lerem a frase direito - que nem todo pobre é coitadinho: alguns se esforçam para continuar pobres, e merecem a vida que têm.

Mas esse é o meu lado mau falando. Ele continua vivo e vendendo saúde, apesar de o meu anjinho tentar interrompê-lo, lembrando que não existem pessoas más, e sim pessoas fracas. Às vezes funciona, e o lado mau ouve a observação. Às vezes… foda-se.

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