Dormente
Hoje seria (ou é, não bem usar tempos verbais nesses casos) aniversário do Fervil. Admito, isso não muda minha vida em nada, apesar de eu ficar com vontade de mandar certos links para ele de vez em quando, pedir conselhos ou parar um pouquinho para ouvir um milhão de idéias por segundo.
É aí que admito que, depois de ficar indignada, me revoltar e tentar pensar em alguma coisa para diminuir a violência na cidade, no final das contas não fiz absolutamente nada. Escrevi o roteiro de um curta sobre violência no Rio que pode ficar legal. Mas que já não sei se vai sair (eu tou trabalhando demais).
O grande problema é que a vida continua, e o que era revolta há um mês hoje é uma sensação de impotência bem guardadinha ali no canto, quase sem incomodar ninguém. Como na letra de uma música jurássica do Skank, “a nossa indignação é uma mosca sem asas que não ultrapassa as janelas das nossas casas”.
Mas não pode ser.
Sabe aquele lugar comum, “a gente se adapta a qualquer coisa”? Experimente ler isso como “a gente se dessensibiliza em relação a qualquer coisa”. Criança pedindo dinheiro na rua, mendigo sendo assassinado, etc. Nesse “etc” cabe qualquer lugar comum triste que lhe ocorrer.
Não pode mesmo.
De tempos em tempos tento me lembrar de certas coisas básicas que ajudam um pouquinho a colocar a vida em perspectiva. Já que eu comecei aqui falando do Fervil, seguem duas coisas às quais não podemos ficar insensíveis:
A gente pode morrer a qualquer momento. Ou os outros. Repita isso para você de tempos em tempos. Principalmente quando um cliente mala tentar te convencer de que vai acontecer uma catástrofe chenobiliana se você não enviar uma apresentação em meia hora. Não mande o cliente tomar no cu (porque provavelmente você precisa do emprego), mas repita algumas vezes (tome cuidado para que ninguém escute) que isso não é tão importante: assim você não entra na panic-trip do cara.
Se você lembrar de vez em quando que pode morrer amanhã, nunca vai permitir que sua vida vire uma merda. Tenho certeza disso, mas você não precisa concordar.
O segundo ponto é o óbvio: sua vida voltou ao normal. Sempre que acontece alguma coisa muito perto (um amigo toma uma bala perdida, seu prédio é assaltado), você fica um pouco mais cuidadoso e acha que a cidade está uma merda. Depois, vai esquecendo.
Pára aê!
Ficar paranóico ou não é escolha sua. Mas você não pode ficar menos indignado do que estava quando soube que seu amigo foi assassinado voltando do trabalho e o nome dele saiu no jornal no meio de um monte de notinhas iguais. Isso não era razoável e não passou a ser.
Oquei, oquei.
Des-dessensibilização realizada. E agora, o que a gente faz com isso?
…sei lá, mermão! Se eu soubesse, não tava aqui falando. Estaria agindo.