Eu acredito em hiato criativo. E é aqui
Eu passo muito tempo recebendo informações, e pouco tempo processando essas informações.
Acho que não sou só eu, e acho que é por isso que estamos vivendo uma das épocas mais exciting (é uma época de anglicismos também) que já ouvi falar, ao mesmo tempo que nada de novo, realmente novo, é criado nas mídias velhas ou nas novas.
As novas linguagens, direcionadas para novas mídias, não param de surgir. A tecnologia faz as idéias aparecerem e a vida mudar nos mínimos detalhes, ao ponto de não reconhecermos a vida antiga.
[Atenção para o disclaimer: estou falando da ultra minoria da qual eu faço parte, que está vendo o mundo virar de cabeça para baixo com cada novidade que aparece. Que não reconhece mais o dia a dia sem forno de microondas, telefone celular, internet, mensagem de texto que não paga interurbano, download de séries de televisão e de livros, etc.
Mas continuo sabendo - e espero nunca esquecer - que a maioria absoluta do planeta continua vivendo na pré-história desse mundo. Ou seja, naquele lugar que nós, ultra minoria, deixamos para trás e hoje achamos muito estranho.
Por um lado é muito óbvio, mas não sei se vocês já repararam que atualmente, as pessoas não são mais separadas pelas distâncias (digo, a consciência das pessoas - o corpo continua. Dã) e sim pelo tempo. Quando eu ando de ônibus, divido o mesmo espaço com pessoas que vivem em épocas bem diferentes da minha. Começando pelas roupas. Tem sempre alguém usando uma roupa que eu usei em 1990. Tem sempre alguém indo para o trabalho da mesma maneira que meu avô ia, em 1950. Com exatamente aquelas mesmas idéias que o meu avô tinha sobre a vida. Três épocas, no mínimo, no mesmo lugar.
Antigamente, o que caracterizava uma pessoa era como ela se vestia, o que fazia, o que pensava. Em uma generalizaçlão grosseira: o lugar onde ela estava. Hoje em dia, pessoas continuam a ser classificadas pelo que são, e como se comportam. Mas isso agora, na minha opinião, significa: “em que época você está?”. Você pode estar lá na frente, vivendo o dia de hoje e mais nada, ou um pouco defasado: isso vai definir todo o resto - quanto você ganha, quem são seus amigos, qual seu status.
Me estendi na explicação, mas é isso. Fim do disclaimer. O resto do texto - agora você já sabe - se refere apenas às pessoas que vivem na mesma época que eu, ou próximo]
O que eu queria dizer é que estamos criando novas formas, mas não novos conteúdos.
A indústria musical está virando de cabeça para baixo, soluções geniais estão surgindo, cada vez mais a gravação e a distribuição ficam mais acessíveis. Mas de novo mesmo na música, o que você tem ouvido? Bandas que imitam o som dos anos 60? Ou bandas que imitam o som dos 70 e 80? Pois é, para mim, praticamente tudo de novo que aparece é velho. Ou uma mistura de coisas velhas.
A internet é a coisa mais punk que já inventaram (”do it yourself”). A energia e a vontade de criar que circula pela rede é tanta que se torna quase palpável. Mas apesar disso, tanta criatividade e tanta vontade estão rendendo o quê?
Talvez esteja todo mundo recebendo informação demais e processando pouco isso tudo. Exatamente como eu. Talvez em breve a gente aprenda a lidar com tudo isso. Com certeza, a galera que está nascendo hoje nem vai entender essa nossa angústia. Será que eles já vão nascer dataholics? Ou, na primeira vez que virem um computador, vão criar anticorpos?
Ps: reportagem legal sobre excesso de informações
Agosto 22nd, 2004 at 8:08 pm
Acabei de baixar (e estou ouvindo agora) o disco de um tal Franz Ferdinand, atual banda queridinha dos cadernos de "cultura" dos jornalões e afins. Lí teu post e lembrei do REI LEÃO, aquele papo de ciclo da vida e talz.Acho que a música (+ especificamente o rock) tem esse negócio de ciclos…Todas as boas canções já foram compostas…agora só rola revisionismos…
Agosto 18th, 2004 at 4:15 pm
É por isso que não entrei no Orkut.
Estou tentando voltar a viver no mundo de verdade, com pessoas de verdade. Lidar com informações quando der vontade, quando for do meu interesse e não apenas pq estão por aí.
Agosto 17th, 2004 at 9:30 am
Meu medo é daqui uns anos a nossa geração ver que se deu mal por ser a cobaia de "o que fazer com essa porra de Internet".
Se eu chego em casa e sento na frente do computador já era… vou gastar a noite entre blogs, orkut, sites de filmes… E sinceramente acho que isso não está me acrescentando nada.
Sei lá…