Parati sem trocadilhos, parte 2
O chão da cidade se chama pé de moleque. Pegunte a qualquer um que esteve na Flip como ele é. No primeiro dia, é certo que você vai conhecer melhor o chão das ruas do que as casas. E mesmo assim vai acumular alguns estabacos no currículo. No dia seguinte, você consegue andar e olhar para a frente ao mesmo tempo. Conheci umas meninas que estavam lá desde terça feira, e que já tinham dominado a técnica tão bem que se vangloriavam de ter aprendido a andar bêbadas por parati, olhando para a frente e sem cair. No claro e no escuro, no seco e no molhado. Morri de inveja.
Quanto às mesas (tendas, palestras, chame como quiser), fiquei um pouco decepcionada com as que assisti (a de humor, Chico e Paul Auster, e o encerramento). A melhor, de longe, foi a de Humor. Em parte, é óbvio, porque os participantes eram ótimos, em parte porque não havia aquela tradução simultânea (com um áudio sofrível para a tenda dos humanos-não-vip) e porque os participantes já se conheciam.
Fiquei decepcionadíssima com a mesa do Chico Buarque com o Paul Auster. Dois caras foda, lendo preguiçosamente trechos de livros um do outro e sem interagir em nenhum momento. Para quê mediação, então? A tradução simultânea estava bizarra: uma das tradutoras era aquela moça do oscar, excelente, e o outro era um cara que não sabia falar português direito.
Pontos altos das palestras:
- Liz Calder, ao apresentar Chico Buarque, elogiou-o muito. Muito mesmo. E depois ainda disse que ele tinha feito um gol lindo na pelada daquela tarde. Depois disso, fiquei esperando algo como e dá três sem tirar de dentro.
- No final da mesa de humor, uma pessoa chamada Cecília mandou, no papelzinho para perguntas para os participantes, a seguinte pérola: quero parabenizar a excelente mediação da mesa. Excelente mediação? Um amigo mediando o papo de três conhecidos de longa data? É, deve ser difícil para caramba, considerando que o LFV não abre a boca e o Ziraldo fala pelos três. E o pior é que o mediador leu isso para a platéia. Foi aquele momento vergonhinha, em que você fica sem jeito por quem está lá na frente.
- As pessoas tiravam muitas fotos do telão quando o Chico Buarque aparecia. Será que também tiram fotos da tevê quando ele vai no Jô, ou algo assim?
- Foi ridícula a divisão das pessoas pelas tendas. Na tenda de verdade, onde estavam os palestrantes, e a tradução simultânea era opcional (o que me permitiria ouvir Paul Auster lendo Paul Auster na língua de Paul Auster), só havia vips, globais, e o príncipe Joãozinho (até a imprensa foi expulsa quando a coisa lotou de verdade). Na verdade, eu já esperava por isso, pois tentei comprar as entradas 4 horas depois de elas terem sido postas à venda e já haviam esgotado, o que seria impossível se elas tivessem sido de fato vendidas.
Resumindo: não foi um evento para o mercado, nem para discutir literatura. Talvez para tietagem (que eu não faço porque sou blasé demais para isso) ou para tomar cachaça (também dancei: tomei bastante vinho e um pouco de cerveja, mas nada de cachaça). Achei tudo muito disperso.
Sobre a festa do Chico: o mais perto que a Bruna chegou do astro super-hiper-foda-que-faz-um-doce-danado-para-aparecer-em-público foi marcar presença na festa do Chico Mattoso.
Sobre sexo com Paul Auster: eu groupiaria ele, se fosse mais velha e não tivesse namorado. Fiquei imaginando uma Luciana Gimenez literária, que fosse a Parati todos os anos em busca de um provável pai para um provável filho. Um dia escreverei sobre ela.
E uma última pergunta:
Por que tantos bares e restaurantes de Parati insistem em tocar João Gilberto? Ele tem casa lá? Os donos dos estabelecimentos acham que João Gilberto dá fome/sede? Ele está enterrado na cidade? (um enterro prétumo, que é o contrário de póstumo, em mais uma daquelas palavras criadas na pressa só para ocupar um parêntese aberto ao acaso).
Acho que não haverá um Parati sem trocadilhos, parte 3. Mas como eu sou meio sem noção e falo muito, quem sabe?