Como usar seus poderes para o mal (ou para o bem)

Sabe, um dia eu fui uma adolescente revoltada com o sistema, daquelas que achavam que “Beyond Citizen Kane” tinha todas as respostas do mundo, e que não gostava de televisão. Assim, no geral mesmo, não gostava “de televisão”, como se na verdade todo meu ódio fosse dirigido àquele eletrodoméstico na estante da sala.

O tempo passa, a gente cresce, fica mais boba, menos séria e… noveleira. Não que eu acompanhe efeitvamente as novelas, mas gostei de algumas, acompanhei algumas antes e depois dessa fase de intelectual dos anos 70. Que no meu caso, aconteceu durante os 90.

Peguei tanto gosto pela coisa que na faculdade escrevi uma monografia sobre a estrutura do melodrama, seus clichês e a ligação direta de tudo isso com as emoções e medos mais primários das pessoas. Foi uma coisa mais direcionada para o imaginário popular latino, mas voltemos a Gilberto Braga. Se alguém deixou para ver a novela amanhã: foi a Laura que matou o Lineu!

Bem mais razoável do que botar a Kássia Kiss (Leila) para matar a Odete Roitmann em Vale Tudo, né não?

O que eu queria falar é que, acredite, tenho um certo orgulho da nossa nação noveleira. Conheci, em Barcelona, uma italiana que queria conhecer São Paulo, “porque era a cidade de Terra Nostra!!”. É sério!

E agora a Globo entendeu, que depois de difundir moda, cultura e gírias, nada melhor que ganhar dinheiro com isso. Fico feliz, pois essa mania de licenciamento me fez rir à beça na C&A hoje, ao dar de cara com algumas calcinhas inacreditáveis da marca “celebridade” - na etiqueta, a explicação de cada uma das linhas: “Darlene”, “Maria Clara” e “Laura”. Algumas tinham lacinhos na lateral e as palavras Fama ou Glamour no bumbum. Outras eram de oncinha com bordas pink. Não comprei nenhuma porque estou esperando a Abril depositar o dinheiro devárias matérias na minha conta, o que vai acontecer a qualquer momento. E a minha disciplina ainda é maior do que meu senso de humor e meu espírito glam-bagaceiro.

A coisa chegou tão longe que meu pai, que não é homem de acompanhar novela, se apegou desde o início à saga de Maria Clara, antes mesmo de ela virar Maria Chata, e de formar um dos casais mais chatos da teledramaturgia brasileira com aquele moço que pega todas as gostosas mas tem uma pele horrível e orelhas imensas.
E todos os dias, em todos os intervalos da novela, ele reclamou dos sabonetinhos animados da Albany, que faziam coreografias e pulavam na banheira. Todos os dias.
Hoje, minha mãe comprou vários sabonetinhos Albany e colocou na borda da banheira. E devemos tudo isso a Gilberto Braga e aos executivos de Marketing da Albany.

Ou então devemos mudar a medicação da minha mãe. O que será que essa mulher anda tomando? :oPP

Mais uma coisa: o que foi aquela cena final, com seu Ministro cantando, e figurantes dançando constrangidos, sem cantar, por uns 4 minutos? Alguém reparou que os figurantes estavam cantando outra música? Provavelmente, foram gravadas horas e horas de cenas genéricas para serem usadas na montagem, e alguém resolveu utilizá-las da pior forma possível. Foi o efeito oposto do clipe “O Vencedor”, onde você se convence que aqueles caras no palco são o máximo, só de ver o estado de transe dos fãs.

No caso de celebridade, foi uma bela aula prática de “como fazer qualquer cantor bom cantando uma música boa parecer um prego a ponto de deixar o público constrangido em casa”. Leni Riefenstahl morreria de inveja de Dênis Carvalho depois dessa.

4 Responses to “Como usar seus poderes para o mal (ou para o bem)”

  1. ElCabong Says:

    Novela é dispensável mas nem tanto, as pessoas poderiam estar vendo ratinho ou coisas piores. Melhor que vejam novela.

  2. baxt Says:

    Nelson, meu pai ficou olhando para a gente com aquela cara de "jura que vocês se deram ao trabalho de fazer isso?". Mas no fundo, achou bonitinho, aqueles sabonetinhos coloridos li. Eu tirei até foto.

    Verônica, a Cláudia Abreu disse que a Laura tinha que morrer por causa do momento atual do país. Não sei muito bem o que ela quis dizer com isso, mas concordo que não dava para rolar um final tipo Vale Tudo, com o cara indo embora do país dando uma banana para os babacas que ficam por aqui.

  3. Nelson Says:

    Faltou dizer a reação do seu pai aos sabonetes na banheira. :)

  4. Verônica Heringer Says:

    Oi Baxt! Achei fraco o final da novela. Detesto interpretações maniqueístas do mundo!!! Na verdade, achava que a Laura é que devia se dar bem, afinal no Brasil só filho da p… se dá bem! A Maria Chata é o retrato do Brasil que não vai pra frente: ingênuo, bobo… enfim, um saco!
    Acho que a galera que aparece no final é da equipe da novela, o pessoal do Projac! Mas isso, só confirmando com a Carol!!!!
    bjos e continuo adorando os seus textos!