Segmentação Forçada
Vou começar com um lugar comum: o mercado de trabalho está cada dia mais retraÃdo.
Outro lugar comum: jornalismo e redação não são áreas promissoras e bem remuneradas, assim como direito ou engenharia de produção.
Ainda não foi suficiente? Então lá vai mais um: o profissional do novo milênio (novo? o milênio já tá aÃ, bombando, há anos) tem conhecimentos em várias áreas, sabe de tudo um pouco e pode resolver vários tipos de problemas.
Por enquanto, vamos ficar com esses três. E vamos brincar de misturar lugares comuns para chegar ao ponto que eu tinha em mente quando comecei.
Se o mercado está cada dia mais retraÃdo, é preciso ser cada vez mais um profissional multitask, porque afinal não se ganha muito e é preciso trabalhar para muitos lugares diferentes, fazendo várias coisas e se virar e escrever, fazer produção, fotografar e assobiar e etc
Parêntese: existe coisa mais redação de vestibular do que usar “cada vez mais” em um texto? Pior do que isso, só mesmo começar com “Hoje em dia…”.
Imagine: “Hoje em dia, o mercado de trabalho está cada vez mais retraÃdo…’. Faltou o gerúndio, mas não vou estar dando esse gostinho a vocês não.
Fecha parêntese.
Como todo mundo, tenho um monte de amigos que trabalham em áreas inexplicáveis para as avós. Antigamente, se você não conseguia explicar o seu emprego para a avó, você era moderno. Hoje, trabalhar com internet é mais velho do que andar para a frente (parafraseando minha vó), e essa regra não vale mais. Mas como eue stava dizendo, muitos dos meus amigos trabalham com internet ou com “novas mÃdias”, denominação comum para “coisas que podem dar muito certo e virar a nova internet ou podem se tornar tão importantes no futuro quanto um relógio com joguinho como o Casio Game 20″.
E esses amigos trabalham em empresas que trabalham com textos. E com conteúdo. E com uma coisa muito importante chamada “atquitetura da informação”, que é importantÃssima e que você poderia explicar para a sua vó dizendo que é mais ou menos como biblioteconomia, mas menos tangÃvel, uma vez que você arquiteta coisas que jamais se transformarão em átomos. Mas nenhum arquiteto de informação vai permitir ser comparado a uma carreira tão sem glamour e empoeirada, então deixa pata lá. O termo designer de informação também vale.
Trabalhei com isso na blah!, porque é impossÃvel trabalhar com conteúdo separado de AI, apesar de o pessoal de AI achar que “como” se mostra é mais importante do que “o que” se mostra.
Mais isso é uma longa discussão que eu posso deixar para lá. A minha pergunta inicial era: porque raios essas pessoas que trabalham em internet e “novas mÃdias”(sic) têm mania de achar que designers, psicólogos, biólogos e fÃsicos nucleares são melhores do que jornalistas para trabalhar com webwriting ou com AI?
Para os textos, é mais ou menos assim:
“- Ih, mas é jornalista? Não, não, manda embora, e bota um bom ar na sala depois que ela sair”
“- Mas é uma excelente redatora”
“- Mas escreve reclame?”
“- Não, o portifólio dela não tem reclames”
“- Então não serve. Imagina, ela vai começar a vir de sandália para o trabalho, vai reclamar do salário, das condições de trabalho. Todo jornalista reclama o tempo todo. Ela vai sair para tomar chope em mesa de ferro da Brahma. Lamentável”
Outra coisa que eu não sei. Será que existe algum segundo grau que ensine Arquitetura de Informação? Ou um curso do Instituto Universal Brasileiro (aquele que vinha anúncio nas revistinhas em quadrinhos quando eu era pequena e nova demais para fazer os cursos) de AI?
Porque assim, sabe, eu acho (masca chiclete e mexe no cabelo) … Que uma pessoa não burra, que escreve bem (e com poucos erros!!! Escrevi menos erros do que reclames em toda a minha vida!), que aprende rápido e tem bom senso, é capaz de fazer isso bem. Não, eu nunca comprei livros da Amazon falando bem alto no escritório, mas trabalho bem. E não acho que posso (nem quero) trabalhar numa torre de marfim pelo resto da vida escrevendo só matérias sobre tecnologia, comportamento, ciência e bizarrices. Acho usabilidade uma área bem interessante, mas desanimo dela por causa desse tipo de recepção.
Oquei, oquei, entendi. É porque eu nunca comprei livros da Amazon e mandei entregar no escritório, não é?
É porque eu nunca fiz crÃticas desnecessárias ao trabalho dos outros só para mostrar que estava prestando atenção, não é?
É isso, é isso!!!! Injustiça!!!
(olhando ao redor) Vocês estão todos contra mim!!! Vocês acham que para escrever para internet é preciso escrever reclames!!!!
“Veja, ilustre passageiro, o belo tipo faceiro que o senhor tem ao seu lado. E no entretanto acredite: quase morreu de bronquite. Salvou-o o Rum Creosotado.”
Assim tá bom? (babando)
Assim tá bom????? (limpa a baba escorrendo com as costas da mão) Compre Biotônico Fontoura, eu sei escrever para internet, eu leio livros de usabilidade!!! Vocês querem ver?
(se ajoelha no chão, afasta o cabelo dos olhos, e começa a soluçar. Os soluços vão ficando mais altos)
Isso não é justo, eu podia estar roubando, podia estar estrupando!!!!
(bate a cabeça na parede, se enrosca em posição fetal e chora baixinho, por um longo tempo…)
Maio 28th, 2004 at 11:44 am
Hahahahahha Muito bom!!!!!!
Comparo essas pessoas com seus livros da amazon debaixo do braço com fanáticos religiosos e suas bÃblias….
Maio 25th, 2004 at 4:05 pm
Baxt, a galera daqui do escritório tá quebrando a cabeça para saber de quem vc está falando. Umas carapuças foram colocadas, mas nenhuma encaixou…
Ajudaà moça!!!
Maio 25th, 2004 at 3:57 pm
bárbara, por favor, me estupre!!!!
Maio 24th, 2004 at 11:11 pm
Pô, Barbara. O anúncio do Rum Creosotado era em versos de sete sÃlabas e você o transcreve em prosa? :-)
Maio 24th, 2004 at 7:59 pm
Dica sobre as "profissões" para as quais não existe segundo grau ou curso superior.
Faça um cursinho estilo CCE, leia uns três ou quatro livros sobre o assunto e aà pode sair colocando no seu currÃculo que vc é especialista no que quer que o assunto seja.
Já vi gente fazer menos esforço do que isso e se dizer especialistas em coisas das quais eu sabia MUITO mais, mas não tive a manha/coragem/cara de pau de me dizer especialista.