Ontem tive que ir à cidade, resolver umas coisas, (já reparou que toda vez que alguém está com preguiça de explicar alguma coisa, ou deliberadamente quer sonegar uma informação, usa a expressão “resolver umas coisas”? Que não significa nada, mas dá a impressão de que você é importante a ponto de ter “coisas para resolver”. No meu caso, tive uma reunião e comprei também alguns chocolates no camelô, mas estava com preguiça de explicar e achei que ninguém estaria interessado nos detalhes de que coisas eram essas).
Voltando, eu estava na parte de “resolver umas coisas”, que é a parte desimportante da história. Atenha-se à parte “fui ao centro da cidade”. Já faz tempo que estou trabalhando em casa, e nessas últimas semanas consegui resolver tudo remotamente. Por isso, só saí de casa para jantar, ir ao médico, ao cinema, essas coisas que ainda não dá para fazer remotamente. Além de tirar dinheiro, infelizmente. Essa é a que mais me faz falta. Quando vou poder imprimir meu dinheiro em vez de ter que andar até o caixa eletrônico?
Sabe, me senti como se tivesse chegado de uma província distante no interior da Rússia, ou do interior do Amapá. Todo mundo estressado, reclamando o tempo todo. Um clima pesado nos escritórios, o ar infestado de queixas e de tensão. Não tensão sexual. Tensão pura, do mal, que entope veia, daquelas que nem uma noite de sexo resolve porque você fica pensando nas horas de sono que está perdendo. E não adianta dizer que você não pensa nisso, porque eu tenho certeza que na época mais negra, estressante e escrota da sua vida você já pensou em horas de sono quando estava trepando.
Uma menina brigou com o motorista da van por nada, um carro foi assaltado na nossa frente no meio de Copacabana. E pior do que o assalto é ter que passar o resto do caminho ouvindo papo de assalto. Cada um contando suas histórias, tentando parecer mais desgraçado e tentando se convencer de que não dá mais para viver no Rio.
Não sei se dá ou não para viver no Rio, sei que odeio papo de assalto. E fico puta com esse pessoal que reclama tanto, mas é isso que estou fazendo aqui agora. Reclamando. É sério, já que comecei, vambora reclamar um pouquinho. Me desculpem os urbanóides de plantão. Entendam, eu adoro essa cidade, adoro camelô, gosto de ver dvds piratas de filmes que ainda estão nos cinemas sendo vendidos por caras que não sabem nem pronunciar os títulos. Mas às vezes canso de morar no Rio. Nunca achei que isso fosse acontecer comigo, mas às vezes canso de tanta gente esperta, de gente estressada.
Ultimamente me convenci de que o ônibus com ar condicionado não cobra pela temperatura aprazível. Longe disso. Os benefícios são, em primeiro lugar: se ninguém sua, ninguém fica oleoso nem cheirando mal, e os bancos permanecem limpinhos. Benefício dois (e mais importante): trocador e motorista são simpáticos e tratam você muito bem, e ninguém dirige como se estivesse apostando para ver em quantas curvas você vomita.
Eu queria dizer que ninguém pode ser fofo e gentil num calor da porra, pegando 4 horas de ônibus em pé, com um chefe escroto e trabalhando pacaralho. E voltei para casa me sentindo estranha, achando que devia ter alguma coisa muito errada comigo por estar assim tão zen.
Será que tinha alguma coisa crucial acontecendo ao meu lado e eu não percebi? Será que eu não me comportei como devia e a professora vai me tirar ponto?