Ahn? O quê? Mas já?… Ah, não, ainda.

A pressa. A pressa que vem junto com o trabalho de madrugada, com um trabalho pelo qual já recebi há meses mas que não acaba nunca. A pressa de ficar olhando anúncios de aluguel de apartamento no jornal na internet sabendo que eu ainda não posso alugar um. Sabendo que nenhuma rua cheia de árvores e fofa e perto de um metrô vai me receber tão cedo. Nem sozinha e nem acompanhada. E a urgência de me livrar da pressa, de me livrar das coisas, de me livrar de tanta espera. Espera isso, espera aquilo, e nada acontece. Acontece, acontece sim. Já sei para onde vou, já sei como estou indo. Mas estou indo devagar. Devagar demais.

Às vezes parece que a vida não é muito mais do que esperar. As coisas acontecem sim, mas acontecem um pouco. De resto é esperar. Imagina uma modelo, que espera o casting, espera o ônibus, espera a produção, espera a maquiagem, entra no estúdio, cliquecliqueclique, espera ônibus, volta para casa, espera para saber se a foto vai sair, espera para tudo. Ela só espera e é uma máquina de esperar. Linda. Mais linda que eu, mais alta que eu, mais bem paga que eu (não agora, pq ela ainda anda de ônibus e divide o apartamento e desde que saiu daquela cidadezinha no interior do paraná não sabe o que vai acontecer). Ela é mais alta e mais bonita que eu (ou mais estilosa, mais exótica, sei lá), mas nós somos a mesma coisa. Máquinas de esperar, esperar trabalhando, esperar sem poder desistir, esperar sem poder ficar puta, com raiva, irritada, sem poder mandar tudo para a putaquipariu.

Esperar para que os outros decidam, para que as oportunidades apareçam, para que as oportunidades que eu inventei vinguem, para que o dinheiro das matérias que eu fiz entre na conta, para que me peçam mais matérias.

E o pior de tudo: já passei da idade de dar glamour ao perrengue. Não tomo mais porres homéricos, não tenho mais a idade de Fante quando morava num quarto de hotel. Tou ficando velha, velha e com pressa. A mesma pressa de quando eu não era velha e repetia para mim mesma “vai barbara, vai ser kerouac na vida”. Depois de uns anos, a pressa sufoca. E a espera agoniza.

Eu poderia estar feliz, feliz por saber o que vai ser, feliz por já ter me livrado de umas furadas que putaquipariu, feliz de ter trabalhado com gente legal e com gente escrota, feliz por ter aprendido a fazer molho de buffalo wings, feliz por ter desmontado o maldito quebra cabeças de mil peças que estava aqui no chão do meu quarto até hoje (tirei até uma foto para provar que eu sou realmente imbecil a ponto de montar um quebra cabeça de mil peças).

E não é que não esteja, não vamos mudar de assunto. Eu não estava falando de infelicidade, nunca estive. Estava falando de pressa, de impaciência, de esperar e esperar e esperar, e de de desespero e de timing. De que tudo tem timing, e de que quando eu era criança achava pão a receita mais sem graça do mundo porque tinha que descansar de um dia para o outro. Ó tortura! Uma comida que não se pode comer hoje! Para amanhã? Meus deus, tá muito longe!!!

E hoje em dia consigo até comer um salmão marinado que fica 3 dias marinando. Mas não consigo alugar um apê e me mudar.

2 Responses to “Ahn? O quê? Mas já?… Ah, não, ainda.”

  1. Afra Says:

    Barbitcha, daqui a 20 anos vc vai tá mais cansada ainda de esperar e vai comprar numa banca de jornal 5 revistas "Coquetel". Viu, tudo acaba tendo sentido
    hahahahahahahahaha

  2. zander catta preta Says:

    E eis que há pouco vc criticava quem passava-tempo.

    Eu sei, não tem muito a ver mas olha a ironia da coisa, vc se impacienta com as pausas da vida, as esperas eternas, outra espera que as pausas cheguem com um pedaço de papel em mãos.

    A vida é assim mesmo, tem o seu próprio ritmo. Às vezes alucinante, às vezes apimentada. Às vezes claudicante, às vezes demorada.

    C’est la vie.

    Obs.: tb estou na procura por um apê mas sempre que algo entra nos eixos, outra coisa ocorre e tenho que adiar mais um pouco. o fato é que não agüento mais pagar motel. tá flórida!