Lerê, lerê…

Estava pensando em escrver hoje sobre o verdadeiro aniversário de 40 anos da Redentora. Assunto batido, principalmente pq todo mundo resolve “comemorar” (aspas, muitas aspas) no dia 31, ontem, para tentar manter uma certa dignidade à data. O que torna o assunto mais batido ainda. Falar do que todo mundo falou ontem.

Mas quando descobri que hoje é aniversáro da minha empregada, desisti de escrever sobre os mlitares. Não morei em muitos países, mas acho nossa mania de ter empregados domésticos representa o Brasil muito melhor do que a nossa goiabada, a Gisele Bundchen, o Ronaldinho ou as sandálias havaianas.

A aniversariante de hoje é uma pessoa que a gente conhece há séculos, vem aqui em casa 3 vezes por semana e fica nos contando histórias da família dela. De como a avó era uma índia que foi roubada pelo avô. Como ela fazia para plantar arroz no Maranhão (com água até a cintura. A gente, burro que nem um americano burro, acha que tudo lá é seco), de como se faz uma viagem de três dias de ônibus com um filho de um ano, fazendo mamadeira na cozinha dos restaurantes da estrada, de como funciona o boteco dela em Santa Cruz, aqui no Rio, e como os vizinhos dela ainda dão ovadas uns nas outros nos aniversários. Preocupação legítima, já que hoje é ela que vai tomar ovo e farinha na cabeça. Às vezes ela se atrapalha para usar o telefone, e cabe a nós ligar para a operadora de telefone celular e receber as ligações das Casas Bahia.

Resumindo: é uma pessoa de outro universo que vem na minha casa, às vezes trazendo a filha, Mariana, de 4 anos e que é apaixonada pelo Wellington, de uns 5. Vivem as duas em outro período histórico. Alguém se lembra do que escrevi, essa semana mesmo, sobre épocas diferentes no mesmo espaço? Pois é, conversar com a Lúcia (ela tem nome, ora bolas!) e a filha me dá a mesma sensação que eu tenho quando vejo alguém no ônibus seguindo uma moda que eu usei em 93.

Mas sempre achei tudo isso muito normal. Na casa dos outros, então, eram às vezes 3 empregados morando com a família - caseiro, piscineiro, empregada, faixineira, cozinheira, babá, e por aí vai. Quando cheguei na Europa, vi que as pessoas limpam a própria casa (meus deus!), fazem o próprio café no escritório (ooohhh!!!!!) e lavam a xícara depois (como assim? não tem a mocinha do café? onde esse mundo vai parar?). Estranhíssimo. Tive uma professora de espanhol que absolutamente não entendia pq precisávavmos de porteiros nos prédios daqui.

E aí, com vinte e tantos anos, me dei conta, acho que pela primeira vez de verdade, de que nossa história escravocrata é importante até hoje. Nos países da europa (os países que conheci, claro), o gari tem um celular melhor do que o seu, e não te olha daquela maneira submissa que a gente conhece. Um vendedor de loja jamais se põe abaixo de você. Se o cliente falar uma coisa que ele não goste, ele vai responder à altura. E você, cliente (que acabou de descvobrir que lá não tem sempre razão), que arrume um jeito de se fazer respeitar. Afinal, vocês são pessoas iguais.

É estranho. Mas não é assim que está certo?

5 Responses to “Lerê, lerê…”

  1. piscui Says:

    seu blog esta tão melhor.

  2. MiR Says:

    have you seen the movie ‘Domésticas - O Filme’ (by Fernando Meirelles and Nando Olival) ? a great film about admirable people who never give up hope, but there’s this boy who picks up a gun in the end because that is the only way he could ever gain respect from the people who did not even bother to remember his name…

  3. Mônica Japiassú Says:

    O Marco Campelo falou muito bem sobre o seu blog e vim conferir. Gostei mesmo! Já está nos meus favoritos pra eu ler sempre! :)

  4. Nohay Says:

    Essa questão de de colocar acima do vendedor da loja é controversa. Dependendo da loja, é o vendedor que se coloca acima de você. Louco, né?
    []’s

  5. Marco Campelo Says:

    Uma das coisas que achei mais legal no Canadá é que os vendedores tratam todo e qualquer cliente da mesma maneira. Não interessa se quem está comprando um cartão de ligações internacionais é um executivo engravatado ou um mendigo mal vestido. O tratamento é EXATAMENTE igual.