Nós gatos, já nascemos pobres. Porém, já nascemos livres…

Hoje eu queria falar sobre aquele caos hormonal que mulheres têm, e ficam malucas e descontroladas, mas que algumas pessoas fofas e sutis gostam de chamar pelo bonito nome de “instinto materno”. Começando pela história da mulher que fez uma cesariana em si mesma com a faca da cozinha, e chegando até o ponto em que a minha mãe atrapalhou meu café da manhã, na minha cozinha sem sangue nem vísceras.

Mas vamos primeiro à parte sangrenta. Sangrenta e com final feliz, o que é sempre bom. A mulher, que mora numa área rural do México, cujo nome não sabemos (considerando que ela é mexicana, pode ter um nome bem apropriado, como Dolores, Socorro, Remedios, etc. Usemos Dolores, portanto).

Dolores tem 40 anos, mora a oito horas do hospital mais próximo, já perdeu um filho por complicações no parto normal, e se viu prestes a perder o segundo, que não queria de jeito nenhum nascer pelas vias tradicionais. O que ela fez? Bebeu alguma coisa equivalente a pinga, que estava lá na casa dela, pegou uma faca de cozinha, abriu a barriga e tirou o neném. A vizinha enfermeira, que chegou depois, pegou a caixa de costura e fechou a amiga. E todos viveram felizes para sempre.

Na boa: tenham medo. Tenham muito medo do que uma mulher cheia de hormônios é capaz de fazer.

Vinte e cinco anos depois dessa explosão louca de hormônios, uma mãe só consegue pensar que seus filhos têm que ter a vida mais confortável possível. Mesmo que essa vida seja chata, escrota, preto e branco e em baixo contraste (que nem aquelas fotos onde o branco é cinza e o preto é cinza, que a gente tira na faculdade quando está começando a aprender a fotografar).

Depois de muitos e muitos anos, minha mãe desistiu de achar que eu tinha que fazer um concurso público, ou ter obrigatoriamente um emprego estável. Mas bastou eu reclamar de grana para ela me contar a história da menina da rua ao lado, que está super bem casada, de unhas feitas e com um filhinho.

No café da manhã? Meu deus!! Será que eu não posso nem chegar até a hora do almoço sem lembrar que não sou uma perua, que ninguém paga as minhas contas, que eu não vou ganhar uma picape de presente, que eu vou ter que trabalhar pacaralho porque meus pais não são donos de um império de comunicação nem de uma editora nem nada parecido, e que sou eu mesma que, quando tenho saco, pago a manicure? (e que não faz muito sentido ir tanto à manicure, porque eu detesto lavar louça com aquelas luvinhas de borracha amarelas que parecem figurino de filme B dos anos 60, e por isso minhas unhas grená não costumam durar nada).

Oh céus! É claro que eu queria ter a opção “dondoca mode on/off”. Mas nem todo mundo pode, e nem todo mundo tá a fim de pagar o preço. Principalmente.

Morte, vísceras, sangue

Revista Superinteressante, edição de abril – capa: “Quem matou Jesus?”.
Página 26, nota “Baleia Explode na Rua”.

Sim, fui eu que escrevi aquela nota, encabeçada por uma foto de meia página nojentééérrima, tão nojenta que dá para sentir o cheiro das vísceras esparramadas na rua. Já rendeu até reclamação de leitor.

Compre. Leia. Fique com nojo. Mande um mail para a redação dizendo que achou o máximo.
Estou me especializando neste tipo de assunto. Espere e você vai entender ;o)

A fantástica galinha subserviente

Diga a verdade. Você sempre quis ter uma galinha de cinta liga, 1,70m, totalmente subserviente, só para você, não é? Hmmm… Não?

Bom, eu também nunca tinha pensado no assunto, mas agora que eu tenho uma, estou achando bem divertido. Recomendo. Vai lá.

Obviamente, a galinha é um bot que responde a certas palavras chave nos comandos. Mandei ela tocar o anel na pata, e ela veia até a câmera me mostrar a canela com o anel. Meio burrinha, pois é. Mas gente fina. Dá para ficar horas vendo como ela vai reagir a certos comandos: “dog”, ou “chicken sandwich” rendem resultados divertidos.

Para simplificar a brincadeira (afinal, mesmo ao dar ordens para uma camchicken-oferecida-robô, temos que ser objetivos), esta é uma lista de coisas que ela “faz”, “faz mais ou menos”, ou “não faz”, compilada, é óbvio, das mentes tortuosas dos programadores e dos usuários ensandecidos. É interessante ver que ela, mesmo se autodenominando subserviente, se recusa a fazer coisas muito nojentas, como: “lick the screen” ou “believe Bush”.

Não, ao contrário do que possa parecer, sssa galinha não nasceu das noites solitárias de um programador na Finlândia. Na verdade, it’s all about money. Mas ela não vai vender a virgindade pela internet, como aquela inglesinha que eu nem lembro o nome. Veja a história (da galinha, não da inglesinha) aqui.

Ahn? O quê? Mas já?… Ah, não, ainda.

A pressa. A pressa que vem junto com o trabalho de madrugada, com um trabalho pelo qual já recebi há meses mas que não acaba nunca. A pressa de ficar olhando anúncios de aluguel de apartamento no jornal na internet sabendo que eu ainda não posso alugar um. Sabendo que nenhuma rua cheia de árvores e fofa e perto de um metrô vai me receber tão cedo. Nem sozinha e nem acompanhada. E a urgência de me livrar da pressa, de me livrar das coisas, de me livrar de tanta espera. Espera isso, espera aquilo, e nada acontece. Acontece, acontece sim. Já sei para onde vou, já sei como estou indo. Mas estou indo devagar. Devagar demais.

Às vezes parece que a vida não é muito mais do que esperar. As coisas acontecem sim, mas acontecem um pouco. De resto é esperar. Imagina uma modelo, que espera o casting, espera o ônibus, espera a produção, espera a maquiagem, entra no estúdio, cliquecliqueclique, espera ônibus, volta para casa, espera para saber se a foto vai sair, espera para tudo. Ela só espera e é uma máquina de esperar. Linda. Mais linda que eu, mais alta que eu, mais bem paga que eu (não agora, pq ela ainda anda de ônibus e divide o apartamento e desde que saiu daquela cidadezinha no interior do paraná não sabe o que vai acontecer). Ela é mais alta e mais bonita que eu (ou mais estilosa, mais exótica, sei lá), mas nós somos a mesma coisa. Máquinas de esperar, esperar trabalhando, esperar sem poder desistir, esperar sem poder ficar puta, com raiva, irritada, sem poder mandar tudo para a putaquipariu.

Esperar para que os outros decidam, para que as oportunidades apareçam, para que as oportunidades que eu inventei vinguem, para que o dinheiro das matérias que eu fiz entre na conta, para que me peçam mais matérias.

E o pior de tudo: já passei da idade de dar glamour ao perrengue. Não tomo mais porres homéricos, não tenho mais a idade de Fante quando morava num quarto de hotel. Tou ficando velha, velha e com pressa. A mesma pressa de quando eu não era velha e repetia para mim mesma “vai barbara, vai ser kerouac na vida”. Depois de uns anos, a pressa sufoca. E a espera agoniza.

Eu poderia estar feliz, feliz por saber o que vai ser, feliz por já ter me livrado de umas furadas que putaquipariu, feliz de ter trabalhado com gente legal e com gente escrota, feliz por ter aprendido a fazer molho de buffalo wings, feliz por ter desmontado o maldito quebra cabeças de mil peças que estava aqui no chão do meu quarto até hoje (tirei até uma foto para provar que eu sou realmente imbecil a ponto de montar um quebra cabeça de mil peças).

E não é que não esteja, não vamos mudar de assunto. Eu não estava falando de infelicidade, nunca estive. Estava falando de pressa, de impaciência, de esperar e esperar e esperar, e de de desespero e de timing. De que tudo tem timing, e de que quando eu era criança achava pão a receita mais sem graça do mundo porque tinha que descansar de um dia para o outro. Ó tortura! Uma comida que não se pode comer hoje! Para amanhã? Meus deus, tá muito longe!!!

E hoje em dia consigo até comer um salmão marinado que fica 3 dias marinando. Mas não consigo alugar um apê e me mudar.

Coquetédio

Imagine você estar numa banca de jornal, daquelas cheias de revistas legais e edições especiais do carl barks que eu não tou a fim de pagar e coisas assim.

Entra uma mulher de uns quarenta e tantos anos (menos de 50, com certeza), com umas 5 revistas “Coquetel” na mão (sim, aquelas de palavras cruzadas que velhos fazem enquanto enquanto dão comida para os pombos nas praças de Copacabana):

- Oi, Fulano (nome do jornaleiro), vim aqui para trocar as revistas que comprei hoje de manhã, porque descobri que já tenho todas elas em casa. Tem alguma aí que eu ainda não tenha feito?

Porcurando, eles acharam uma revista de uma cor que a mulher não tinha em mãos, e ela levou.

Depois de uns 8 minutos meio sem ar, me recuperei. A mulher não era velha. Nem gorda. Baranga. Pobre. Mal vestida. Ela não estava de chinelinho, saia estampada e camisa com uma estampa diferente. Não era inválida, estava num carro legal. Sem suorzinho seco ou pele oleosa, nem unha do pé suja. Eu podia ficar alguns muitos parágrafos descrevendo a moça, mas isso não ia levar a nada.

Só achei triste. Tem uma frase, não lembro de quem, que diz que “Quem mata o tempo não é assassino. É suicida.”

Meu deus, eu cheia de coisas para fazer e sem tempo, e ela desperdiçando a vida dela assim?????

Bom dia.

Hoje estou escrevendo direto no publicador do blogue, sem muito cuidado,e sem reler. Acho que meus textos aqui estão ficando meio grandes demais, maiores do que deveriam ser textos de blogue. Ou não?
Afinal, eu sou uma redatora (jornalista, escritora, whatever) e sei que texto para papel é texto para papel e – substitua a palavra papel por “tela de computador”, e depois subdivida as duas categorias em “revista”, “blogue”, “jornal diário”, “livro”, “folder” etc e todos os etcs possíveis.

Na Monet desse mês saiu um texto meu sobre um show do Dudu Nobre, no Canecão, que aconteceu em dezembro mas passa no Multishow só agora, em abril. Foi meu primeiro trabalho para a revista – ou seja, uma pauta na qual, se eu fizesse merda, eles poderiam consertar. Mas não fiz merda e outras pautas surgiram depois.

Lerê, lerê…

Estava pensando em escrver hoje sobre o verdadeiro aniversário de 40 anos da Redentora. Assunto batido, principalmente pq todo mundo resolve “comemorar” (aspas, muitas aspas) no dia 31, ontem, para tentar manter uma certa dignidade à data. O que torna o assunto mais batido ainda. Falar do que todo mundo falou ontem.

Mas quando descobri que hoje é aniversáro da minha empregada, desisti de escrever sobre os mlitares. Não morei em muitos países, mas acho nossa mania de ter empregados domésticos representa o Brasil muito melhor do que a nossa goiabada, a Gisele Bundchen, o Ronaldinho ou as sandálias havaianas.

A aniversariante de hoje é uma pessoa que a gente conhece há séculos, vem aqui em casa 3 vezes por semana e fica nos contando histórias da família dela. De como a avó era uma índia que foi roubada pelo avô. Como ela fazia para plantar arroz no Maranhão (com água até a cintura. A gente, burro que nem um americano burro, acha que tudo lá é seco), de como se faz uma viagem de três dias de ônibus com um filho de um ano, fazendo mamadeira na cozinha dos restaurantes da estrada, de como funciona o boteco dela em Santa Cruz, aqui no Rio, e como os vizinhos dela ainda dão ovadas uns nas outros nos aniversários. Preocupação legítima, já que hoje é ela que vai tomar ovo e farinha na cabeça. Às vezes ela se atrapalha para usar o telefone, e cabe a nós ligar para a operadora de telefone celular e receber as ligações das Casas Bahia.

Resumindo: é uma pessoa de outro universo que vem na minha casa, às vezes trazendo a filha, Mariana, de 4 anos e que é apaixonada pelo Wellington, de uns 5. Vivem as duas em outro período histórico. Alguém se lembra do que escrevi, essa semana mesmo, sobre épocas diferentes no mesmo espaço? Pois é, conversar com a Lúcia (ela tem nome, ora bolas!) e a filha me dá a mesma sensação que eu tenho quando vejo alguém no ônibus seguindo uma moda que eu usei em 93.

Mas sempre achei tudo isso muito normal. Na casa dos outros, então, eram às vezes 3 empregados morando com a família – caseiro, piscineiro, empregada, faixineira, cozinheira, babá, e por aí vai. Quando cheguei na Europa, vi que as pessoas limpam a própria casa (meus deus!), fazem o próprio café no escritório (ooohhh!!!!!) e lavam a xícara depois (como assim? não tem a mocinha do café? onde esse mundo vai parar?). Estranhíssimo. Tive uma professora de espanhol que absolutamente não entendia pq precisávavmos de porteiros nos prédios daqui.

E aí, com vinte e tantos anos, me dei conta, acho que pela primeira vez de verdade, de que nossa história escravocrata é importante até hoje. Nos países da europa (os países que conheci, claro), o gari tem um celular melhor do que o seu, e não te olha daquela maneira submissa que a gente conhece. Um vendedor de loja jamais se põe abaixo de você. Se o cliente falar uma coisa que ele não goste, ele vai responder à altura. E você, cliente (que acabou de descvobrir que lá não tem sempre razão), que arrume um jeito de se fazer respeitar. Afinal, vocês são pessoas iguais.

É estranho. Mas não é assim que está certo?