O homem que falava bebedês.

Como dizer, assim, que vc teve uma noite atemporal, hmm, sem parecer muito cafona? Afinal, chamar uma coisa de “atemporal” é quase sempre cafona.
Mas foi atemporal.

Querido diário, tive uma noite atemporal. Fui ao Rio Scenarium, aquele bar-restaurante-tumor, que cresce e se espalha de uma forma que eu nunca imaginei ser possível. O lugar, da última vez que fui lá, tinha dois andares e uma escadinha. Agora tem dois andares, uma escada extra, grande (com muita cara de exigência dos bombeiros para permitir a ampliação), um recém criado terceiro andar, e mais um novo ambiente para onde se vai para um corredor aberto por onde, acredito, você esteja na verdade passando para o sobrado ao lado.
Interessante perceber que a lapa é um bairro muito mais espaçoso que a Barra ou o recreio, que são folcloricamente conhecidos pela amplidão de pântano recém urbanizado, fazendo um contraponto ao climão Tóquio da Zona Sul, onde os shoppings são mais altos e “escadados” do que largos.

Nesse novo ambiente (como tudo no Rio Scenarium, lotado de coisas empoeiradas e divertidas e interessantes), estava rolando uma pré estréia do Cabaré Filosófico, de Domingos de Oliveira. Pré estréia de uma peça? Pois é, tá pensando o quê? Convite para estréia todo mundo arruma, não causa espécie. Quero ver para pré-estréia!
(sempre quis dizer um dia “causar espécie”. Agora eu disse.)

Uma cadeira quebrada ocupava parte valiosa do chão do nosso espaço vip, e por isso resolvemos colocá-la por trás da cortina atrás do meu sofá. Sim, a cadeira quebrou sob um senhor. Afinal, ela é uma antiguidade, uma coisa vintage e com história. Ou, se preferir, móveis velhos caindo aos pedaços. Ao abrir a cortina, descobri que ainda havia outra sala, do tamanho das que nós ocupávamos (por “nós”, entenda: uma peça de teatro e o público da peça), cheia de cadeiras, tevês antigas, gramophones e muitos etcéteras! Um espaço enorme.
Nessa hora decidi firmemente alugar um espaço na Rua do Lavradio e morar num loft ultra cool, daqueles onde o CEP te torna automaticamente uma escritora maldita e onde pobreza vira charme.

Agora talvez vc entenda por que, querido diário, disse alguns parágrafos acima que minha noite foi atemporal. Porque o lugar era lotado de antiguidades, e a peça que eu via era uma peça dos anos 60, 70. Não, não era uma remontagem. Aquelas pessoas ali realmente vivem nos anos 70 até hoje.

Tomando cerveja Original, com rótulo vintaginho, entrei numa séria crise esquizofrênica em relação ao espaço-tempo. Mas já aprendi duas coisas na vida: que não entendo nada do que Einstein disse, e que tempo e data não são coisas absolutas: é normal que pessoas vivendo em épocas diferentes dividam o mesmo espaço. O Rio Scenarium era um desses espaços, naquela noite.
Sobre a performance, achei que tinha cabaré de mais e filosofia de menos. A coisa mais filosófica em cena, juro, era o nome do Tony Platão. O nome.

Mas enfim. Admito que fiquei feliz de voltar à tranquilidade não-desafiadora (”desafiador”… uma palavra do dialeto corporate, só para eu não perder a fluência) de estar em uma só época, 2004, na cachaçaria logo em frente, tomando uma caipirinha maravilhosa até para mim que não gosto muito de caipirinha, com novos amiguinhos conhecidos no “espaço” atemporal. Surpreendentemente, todos logramos sair vivos da dimensão difusa da coexistência de períodos históricos, para a existência onde o tempo é unidimensional.

Na verdade, o Tony Platão ficou meio sonolento com a transição, mas logo superou a debâcle.

PS: Era uma peça bilíngue: parte dela era escrita, falada e dirigida em bebedês. Mas foi namorado que percebeu.

PS2: Fotos do evento. Descobri que a Marieta Severo é bonita pessoalmente.

4 Responses to “O homem que falava bebedês.”

  1. buying penny stocks Says:

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  2. sergio Says:

    frequentando festas cheias de celebridade… hum.. xiq essa moça…

  3. baxt Says:

    Uia! que fora, hein alexandre? Foi um errinho de digitação no código. Já está corrigido, beijos

  4. Alexandre Cruz Almeida Says:

    Oi Barbara! Valeu mesmo por incluir meu blog nos seus links… Mas… o link está apontando para o seu próprio site… :)

    Beijos!