As opiniões de quem está vendo de fora

Personagem novo nos diários da van. Na verdade, todos os personagens são novos, já que não existe elenco fixo.
Um menino francês veio me pedir informação no ponto. Turistas perto da minha casa. Isso é estranho, penso eu. Turistas não vêm até aqui. Só para a praia, jamais para andar na rua, desbravando quilômetros e quilômetros de entre-avenidas. Acredite: atravessar a avenida das américas não é simples. Demanda uns 500m, duas “abridas” (ui!) de sinal, e uns 4 minutos, ou 5.
Voltando ao que eu dizia. Um turista. Pegou a van junto comigo, e fomos conversando.

- Aqui no Rio a vida passa rápido demais. Moro no norte da França e as coisas não são assim, eu fico muito cansado por aqui.
- Os brasileiros não se preocupam muito com como estão dirigindo, não é? Eles ficam na pista da direita, depois na da esquerda, tanto faz (isso foi dito na Niemeyer. Mão dupla.)

Ele estava pensando em vir morar aqui trabalhando como professor de francês, mas acho que está desistindo depois de ver quanto um professor ganha. Falei que ando pensando em trabalhar lá pela terra dele. Ele entendeu.

Aliás, foi por isso que estava na Barra. Fazendo entrevista para trabalhar em alguma escola de francês.

- A Barra é bem diferente do Rio.
- Como assim?
- É moderna. Não é histórica.

Eu falei que a Barra fica no Rio, mas não adiantou e ele continuou se referindo ao bairro como não-Rio. Europeu não entende esse lance de cidades gigantescas. E disse que meu condomínio (a entrevista dele era aqui) era bonito, mas “asséptico”. É, amigo, em cinco minutos vc pegou o espírito da coisa.

Eu pessoalmente, sempre achei que meus aredores pareciam as imagens de um livro de inglês. Daqueles que a gente usa quando tem 11 anos, com mais figura do que texto. Essa impressão deve ter sido influenciada pelo fato de tudo por aqui ser escrito em inglês, e ter nome de lugares americanos.

Dá um certo medo de noite. Carros americanos, crianças gordas andando em coisas motorizadas, casas de filme de terror. Em dezembro, guirlandas com “merry christmas” piscando. Dá a impressão que um um homem-abóbora vai surgir a qualquer momento e me matar. Quem quiser, apareça aqui um dia e confirme.

A van estava vazia, o motorista estava achando graça na conversa em portinglês. Aliás, não comentei, ele falava português. Aprendeu de tanto ouvir música brasileira. Se interessou pelas letras, e foi aprendendo. Marisa Monte, Fernanda Abreu, em certos momentos vcs me cansam. Principalmente quando dão nomes ridículos para seus filhos (vc não, Fernanda. Sofia é um nome legal), ou usam turbantes ou forçam muito o sotaque carioca. Mas se vcs são ambaixadoras da nossa língua tão eficientes assim, fico feliz. Essa não foi a primeira vez que vi gente se interessar pelo Brasil através da música.

Quer dizer, também já conheci uma islandesa com cds da Bebel Gilberto no case mas que não tinha idéia de que língua era aquela. Élfico, minha filha, élfico…

Boa sorte para o francês meio assustado. Se sua amiga jornalista carioca é namorada, leve ela para lá, pq jornalista por aqui tá ganhando muito pouco.

3 Responses to “As opiniões de quem está vendo de fora”

  1. Arnaldo Martins Says:

    Quando eu conseguir fazer um curso de sommelier, na Universidade do Vinho, na França.Que é a coisa que eu desejo atualmente, ai sim, eu farei quantos comentários que voce quiser.

  2. sergio Says:

    Os turistas também sempre começam a conversar comigo do nada… Eu posso estar no ônibus, na praia, no shopping… Algum sempre me aparece para perguntar algo… Agora eu tenho pena quando um deles está pedindo alguma informação a um ser que não sabe nem se expressar em português… Sabe como é… Ajudar não dói…

  3. Lily Says:

    Conhecei seu blog pelo Megazine e vim conferir! gostei muito, acho que me tornei frequentadora daqui..rs
    vou colocar um link na minha pagina, ok?
    abraços