O bairro-sobressalto

Para mim, é tranquilo andar pelo centro da cidade de madrugada, ou esperar um ônibus na Rua Itapiru (Rio Comprido fronteira com Catumbi), mesmo com o carro da pm passando ao lado com os fuzis para fora apontados para mim. Agora, andar por Copacabana é sempre um susto: pessoas estranhas me seguem, malucos vêm falar comigo (em nenhum outro lugar os malucos falam comigo. Normalmente eles ficam compenetrados nas suas coisas e eu passo. Só em Copacabana que isso acontece). Cai um pingo ao meu lado no chão e não, não é cocô de pomba. É cuspe de alguém que mora ali.
A cada dois passos, um susto. Travestis quase inumanos, velhinhos brigando com pombos, pivetes discutindo aos berros. Velhas precoces que passaram a vida consumindo coisas estranhas cheias de tatuagens e que ficam olhando para mim, motoqueiros de bigode. Aquela fauna urbana que a gente acha que não existe mais, existe lá. Parece um trem fantasma. Não, obrigada, não curto.
Preciso me controlar muito para explicar a todos os turistas que estão por ali que alguém os fez de bobos, que Ipanema é logo ali e é muito mais legal. E se eles quiserem ser roots, a Feira de São Cristóvão continua sendo mais legal. Sem ter muitos anos de Rio, é impossível entender a graça de Copacabana. E olha que eu entendi e mesmo assim não gosto muito.
Existem também coisas divertidas, como um salão de barbeiro por onde passei hoje com fotos de ex-presidentes com dedicatórias escritas pelo próprio Seu Petrônio: “Do presidente (coloque aqui o nome que quiser: Getúlio, Castelo Branco, etc), amigo e cliente do Salão Petrônio”. Genial. Quase compensou o susto de ser abordada por um vendedor de tartarugas de pelúcia com um olhar realmente penetrante (o vendedor, não a tartaruga - se fosse a tartaruga, eu teria comprado).
Deixo a República do Lido para quem se orgulha dela. Para ver coisas estranhas, eu definitivamente prefiro ir ao Saara, ou ao Fashion Mall num sábado à tarde.

10 Responses to “O bairro-sobressalto”

  1. catia Says:

    Essa é a coisa boa de copacabana, diversidade… lá é tudo diferente, pobres convivem com ricos e sempre tem algo novo pra ver, pra fazer, só fica só quem quer. Jovens e idosos se misturam nesse espaço em comum.

  2. silvia Says:

    Copacabana é tudo de ruim: velhos abandonados , pivetes, prostitutas, gringos procurando por sexo com menores, vagabundos, enfim, não sei o que os turistas vão procurar lá. Eu desisto; pra mim, evito Copacabana ao máximo, e passar por lá é de extremo mau gosto. Faço qualquer coisa desde que não seja em Copacamerda!

  3. Rafael Lima Says:

    Decadência moral? Em Copacabana têm aposentados o suficiente para restaurar a moral do mundo. Diferença? Num shopping da Barra sábado de tarde tem mais material para pesquisa antropológica do que em toda Copacabana. A crítica à República do Lido é perfeita, Barbara, mas você se entrega quando diz que Ipanema é muito mais legal. Em Ipanema as pessoas já estão acostumadas com as câmeras, é como se estivessem subindo num palco quando saem na rua. Ninguém é inocente/ingênuo em Ipanema. Em Copacabana, não. Há um certo senso de urgência, de sobrevivência. Selva urbana por excelência (e excrescência).

  4. Jazzmo Says:

    hahaha! Habitante e notório saber.
    Cara, eu tenho problemas com dois bairros também: São Cristóvão e Catete. Em São Cristóvão só tem lojas de consertos de eletrodomésticos. E no Catete só tem lojas de móveis feios. Fora isso, são dois bairros de antiga burguesia carioca, hoje completamente decadentes. E é um tipo de decadência histórica, sabe? Não é uma decadência moral, como em Copacabana. Decadência moral é legal, é vida, é motor pra literatura. Copacabana ferve como nenhum outro lugar do Rio. É um dos poucos lugares da cidade onde a assepsia caída da Barra ainda não conseguiu meter a mão. Sei lá, Copacabana é o que ainda dá ao Rio o título de "cidade". Sou fã mesmo. Do Lido, da Princesa Isabel e da Prado Júnior, da Atlântica, da Nossa Senhora, das transversais cheias de surpresas, dos cafofos, dos bares… Copacabana é um mundo. Concordo com o paralelo que o Dudu fez com São Paulo. O que acontece é que eu gosto de São Paulo. No mínimo por ser completamente diferente do Rio. E o diferente é essencial, pô. O "estranho" é o que há. Copacaban resiste à bolha da Barra. Saia da Barra, Bárbara. Fuja da Barra! : )

  5. Manoela Says:

    Eu passo mal em dois bairros: Largo do Machado e Copacabana. Que merda!

    Em tempo: vc viu Edifício Master? O depoimento da Cristina (que, por sinal, estudou comigo) é sensacional…

  6. baxt Says:

    Mas carlos, a gente sabe q vc é um habitante honorário da republica do lido… :o))))

  7. Dudu Says:

    Também concordo… Por um acaso do destino, morei em Copa por 10 meses, e foi com toda a certeza a época mais estranha da minha vida.

    Se eu fosse indicado para responder ao antigo "Perfil do Consumidor" (que saía no Caderno B, do Jornal do Brasil), certamente seria eleito por mim como "o lugar mais estranho onde fiz amor", mais até do que a Sampa do Bussunda.

  8. Jazzmo Says:

    Bárbara, você precisa se mudar da Barra da Tijuca. Urgentemente.

  9. Paula Says:

    Que coincidência esse post… Acabo de ver um corpo estendido, coberto com plástico preto, na esquina de N.Sra. com Prado Júnior. Foi um suicídio. E pelo que fiquei sabendo, parece que isso é bem comum por aqui…

  10. Szundy Says:

    Concordo. Copa é trash (nada contra, mas que é trash, isso é). Se você somar o trânsito da Ns. Sra. de Copacabana nessa brincadeira aí pode esquecer. Alguns podem dizer que para quem mora na Atlântica a vida é bela, mas tenho um amigo que morava lá e acordava no meio da madrugada com tiroreito ou um gigolô sentando o cacete numa das suas "meninas".
    Copa é uma outra realidade sem dúvida.