Diários da van

Lá vou eu de novo para o fascinante mundo dos coletivos não-espaçosos que me permitem andar de um lado para o outro da cidade sem suar e chegar nos compromissos fedendo a cecê, por mais desodorante que use.
Mas vc já parou para pensar que um dia pode entrar em um desses veículos com ar condicionado e ele estar com um cheiro péssimo e vc chegar no compromisso fedendo ainda mais do que federia seu inocente suor?
Pois é, eu nunca tinha pensado e folgo em saber que isso acontece em intervalos bem grandes. O intervalo acabou ontem, quando entrei numa van que cheirava a cigarro no ar condicionado, perfume ruim e comida. Já percebi, empiricamente, que não interessa o perfume do seu shampoo, condicionador, hidratação profunda. O cheiro mais eficiente e durável em cabelos é o cheiro de cigarro no ar condicionado.
Nada que a lembrança dos conselhos de meus amigos que vêem filmes e séries com legistas não pudesse resolver: um pouco de perfume logo abaixo no nariz. É que eu não ando com vick vaporub (nimim) dentro da bolsa, mas vou começar a considerar a idéia.
Uma figura entra ao meu lado com um saquinho de salgadinhos torcida sabor churrasco. Já reparou que esses salgadinhos têm sempre sabores absolutamente complexos? “churrasco de lombinho”, “sopa de cebola” “caldinho de feijão”, etc. No meu tempo era Bacon, Carne e Galinha. E olhe lá. Fico imaginando como o cara cria a fórmula estrutural de uma molécula de “aroma de goiabada com queijo”. E pior: algum professor de química safado ainda vai colocar essa fórmula numa prova de vestibular. Ainda bem que já entrei para a faculdade. E que já saí.
Ao ver o passageiro entrar, me animei toda com a esperança que o delicioso aroma-de-aroma-artificial (porque no fundo são todos um mesmo cheiro básico com algumas variações, mais ou menos como barbies e imagens de santos, que só mudam o kit - essa é uma teoria do meu irmão que fica para outro dia) tomasse o lugar do cheiro que estava me empesteando - mesmo com um Kenzo básico sob as narinas.
Nada.
O aroma de “espetinho de camarão” ficou amigo dos outros cheiros e tornou tudo mais confuso.
Lembra aqueles “paus de chuva” que as pessoas davam para crianças brincarem no jardim de infância? Aquela coisa que tinha arroz dentro e graça nenhuma, mas os adultos ofereciam na tentativa de fazer as crianças ficarem mais ou menos quietas? Lembra?
Agora imagina isso fazendo barulhinho ao seu lado numa van, da qual vc já sabe que vai sair com um cheiro estranho no cabelo e nas roupas. E se esse pau de chuva na verdade for o pacote de salgadinho, que o cara resolveu comer como quem bebe num cantil? Admito, eu faço isso no finalzinho do saco de Doritos. Coloco a boca na abertura do saco e viro. Porca, porca, eu sei. Mas faço isso uma vez só, quando está acabando. Mas naquele caso, o cara resolveu que não ia mais sujar a mão (por que ele só decidiu isso depois que a mão já estava provavelmente bastante engordurada?) e resolveu “beber” seu salgadinho torcida. Todo. Várias vezes. Por isso lembrei do “pau de chuva”, termo que não voltava ao meu consciente há anos. Porque crianças ficavam virando aquela bodega de um lado para o outro ad nauseam (será que era divertido mesmo e só eu que não achava?).
Eu tava usando uma frente única, não muito justa, que fazia com que o moço me olhasse com o rabo de olho todas as vezes que virava o saquinho para “beber” o biscoito.
- Amigo, se vc parar de comer esse salgadinho até a hora de eu descer da van, eu deixo vc olhar para o meu decote, tá? Durante todo o resto do caminho, mas jura para mim que eu não vou mais ouvir barulhinho de torcidinhas para lá e para cá.
Não falei, é claro, meu ponto chegou, desci com um amontoado de cheiros estranhos pelo corpo e vontade de comer Doritos. Com as mãos. E depois lamber os dedos porque eu também sou filha de deus e quem come doritos não está a fim de ser refinada.

6 Responses to “Diários da van”

  1. Oneirvs Says:

    Texto Delicioso. Sabor "Doritos-Bebido-na-Van-com-Espiadela-no-Decote".

  2. Manoela Says:

    Hahaha. Vai falar que tu nunca entrô num taxi com ar ligado e fedendo a motorista suado? Bjs, Manu sumida!

  3. Márcio Guilherme Says:

    O problema são os outros (o inferno não que odeio Sartre), a solução?, misantropia sem trégua.

    Abraço;
    Márcio Guilherme.

  4. Leitor Anônimo Says:

    Caríssima Baxt,

    sou seu leitor assíduo. Indentifico-me demais com suas reflexões sobre a vida.
    Desta vez refiro-me ao post sobre a van. Prosaica experiência.
    Eu mesmo costumo tomar conduções coletivas, e sei bem o quão desagradável pode ser tal investidura.
    Gostaria de pedir, como visitante rotineiro de seu sítio, que você dissertasse mais longamente sobre sua frente-única.

    Grato.

  5. sergio Says:

    Doritos é bom demais… Principalmente porque nenhum dos meus amigos gosta [!?!?!?], então sobra mais pra mim!

  6. Szundy Says:

    Putz, é óbvio que o lance de "beber" o salgadinho foi uma estratégia do cara para poder ficar esticando um rabo de olho pro seu decote. Ele com certeza não tava nem aí para sujar ou não as mãos. Te enganou direitinho! Você não falou nada, o cara continuou olhando e vc ainda teve que aturar o barulho da torcida.

    Hummmmm. Dedos laranjas depois de comer Doritos. Aquele pó laranja deve fazer muito mal, mas Doritos é o vício.